Tem gente que jura de pé junto que Roque Ferreira é pai de santo. Ele ri e garante: “Nunca fui num candomblé. Eu sou agnóstico, não acredito em Deus, em nada“. Mas logo reconsidera e arremata: “Acredito na ciência e na beleza“.

A fé no belo, portanto, é a fonte na qual o compositor baiano bebe para criar suas músicas, que já passam de 400 em mais de 50 anos de carreira. Treze delas acabam de ser registradas no CD Terreiros.

O título é auto-explicativo. Neste disco, Roque Ferreira passeia pelas fronteiras do samba, do candomblé e da capoeira, temas caros à sua produção desde os tempos em que a música era apenas uma atividade complementar à profissão de publicitário.

Viço novo

Ao mesmo tempo em que reitera a relação do compositor com o universo da cultura negra, o trabalho traz viço novo. Todas as faixas são inéditas. E esta é apenas a segunda vez em que Roque Ferreira canta suas próprias composições – a primeira foi em 2004, quando a Biscoito Fino lançou Tem Samba no Mar.

Por ele, que já foi gravado por Clara Nunes, Beth Carvalho, João Nogueira, Zeca Pagodinho, Martinho da Vila, Maria Bethânia, Alcione, Roberta Sá e Dudu Nobre, isso não é problema. “Eu não sou cantor, nem tenho essa ambição“, minimiza.

Mas o músico Júlio Caldas pensava diferente quando quis submeter o projeto de Terreiros ao Fundo de Cultura da Bahia, há três anos. “Não era possível um compositor, que é gravado por todos os sambistas, só ter um disco“, avalia Caldas, que assina produção e arranjos.

Crônica do cotidiano

O projeto nasceu de um demo que seria enviado à Biscoito Fino, mas acabou voltando para a gaveta por conta de um impasse. “Eles queriam que fosse gravado no Rio e Roque queria que tivesse a cara da Bahia“, lembra Caldas.

Um dia atrás do outro, a proposta foi mudando até não parecer em nada com a que havia sido encomendada pela gravadora carioca. “Ficou completamente diferente. Mas eu não tinha apego ao repertório, e sim à figura de Roque“, diz Júlio Caldas.

O público vai continuar sem saber exatamente como seria aquele disco. Mas essa dúvida fica em segundo plano depois de ouvir sequências como Folha Miúda/Sabina do Amor Divino/Cabelo Cacheado/Mulher Oferecida, que inaugura os trabalhos.

Idem para Roda Baiana, Beabá da Vida, Imboladeira, Vou Correr Mar e Bia na Roda, outros belos exemplos da combinação de cultura popular com brejeirice e uma dose sutil de sensualidade, em tom de crônica do cotidiano.

Também não dá para passar batido por Doce, homenagem a Dorival Caymmi que surge em forma de acalanto, com a voz de Roque Ferreira embalada apenas por violão de sete cordas e bandolim.

Rato de sebo

No final do encarte, um glossário dá conta do vocabulário de origem africana que povoa as letras. Coisa típica de alguém que, para ser compositor, é antes um pesquisador contumaz.

Sou um rato de sebo. Meu disco está impregnado disso. Tudo isso é conhecimento teórico. Não tenho compromisso com religião nenhuma, meu compromisso é cultural“, defende Roque Ferreira.

Por contraditório que pareça, a falta de compromisso religioso desemboca num discurso de devoção estética. “Minha intenção quando componho com esses temas é difundir, valorizar e respeitar. Não me aproprio. Sou um defensor intransigente do candomblé“, reforça o compositor.

Defende de um lado, ataca de outro. Roque Ferreira aproveita também para dar suas alfinetadas no mercado da música baiana. Acha que o pagode “sujou” o samba ao se apropriar de uma expressão utilizada para falar de um encontro de bambas. E que profanaram a palavra “axé” quando associaram ao estrangeirismo “music”.

Compositor

É por essas e outras que o artista não coleciona apenas fãs. “Arrumei tanto inimigo! Porque sou autêntico, não sou de arrodear. Falo na cara. Eu não sou diplomata, sou compositor de samba“, dispara.

Mas experimente tocar no nome de Maria Bethânia. Os olhos de Roque Ferreira se iluminam ao lembrar que, no dia 10 de junho, ele fará participação especial em uma homenagem promovida pelo Prêmio da Música Brasileira, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, pelos 50 anos de carreira da cantora.

Digo que ela anda por cima das águas, é uma entidade. Para ela, eu tenho que cantar de joelhos“, diz ele, sobre sua única musa inspiradora.
Daniela Castro

CD ROQUE FERREIRA TERREIROS | 2015, Independente

01 FOLHA MIÚDA/SABINA DO AMOR DIVINO/CABELO CACHEADO/MULHER OFERECIDA + 02 IANSÃ + 03 RODA BAIANA + 04 TAIÊRA + 05 BEABÁ DA VIDA + 06 BOI GUZERÁ/MODÊ/SAIA GRANDE/SETE CANDEEIROS + 07 CAXIXI + 08 IMBOLADEIRA + 09 AGUÉ/OBATALÁ/ALAFIN DO OIÓ/LOGUN + 10 DOCE + 11 VOU CORRER MAR + 12 BIA NA RODA + 13 AMOR IMPERIAL >> TODAS AS CANÇÕES POR ROQUE FERREIRA

GLOSSÁRIO

Abá — (Yorubá) Espera, desejo de paz espiritual. (Ewe) Velho, idoso.
Abebé — (Yor.) Leque. Quando é de latão, em formato de círculo, trazendo no centro uma estrela, pertence a Oxum. Quando é de metal prateado, em formato de círculo trazendo uma sereia, ou quando tem o formato de peixe, pertence a Yemanjá.
Adarrum — (Yor.) Toque acelerado de atabaques e agogôs para apressar a possessão do orixá.
Abucó-Odá— (Yor.) Bode castrado, sacrificado a Logunedé.
Adê — (Yor.) Coroa ou diadema metálico (Fon) Barrete ou gorro feminino, usado por Nanã, Yemanjá, Iansã e Oxum nas cerimônias religiosas.
Adum — (Yor.) Milho moído, torrado, com azeite de dendê e mel. É comida de Oxum.
Aguerê — (Yor.) Toque lento de atabaques para chamar lansã.
Akará — (Yor.) Acarajé.
Akorô — (Yor.) Gorro, diademada usado por Ogun, em lugar da coroa.
Aquieó — (Yor.) Galo.
Alafin — (Yor.) Rei de Oyó, Nigéria, com referência a Xangô.
Amalá — (Yor.) Caruru com dendê, camarão seco, pirão de farinha de mandioca, inhame ou arroz. É comida de Iansã e Xangô.
Axoxó — (Yor.) Comida de milho amarelo cozido com coco. É do gosto de Oxóssi, Oxum, Logunedé e Ogun.

Barajás — (Yor.) Colares feitos de búzios, em fios duplos, unidos, enfeitados com miçangas. São de uso de Nanã, Euá e Xampanã (Omolu-Obaluaê).

Calofé/Ogã-Calofé — (Ewé) Ogã é o título nobre conferido a homens influentes nos candomblés. Ogã-calofé é o líder dos tocadores de atabaque, os alabês. Conhece os toques e os cânticos sagrados de todos os orixás. Na umbanda, Ogã-Calofé é o que conhece folhas, ervas, pontos, comidas, sendo ainda Axogun.
Calunga — (Kimb.) Boneca de pano ou madeira. Nos maracatus pernambucanos são duas bonecas. A palavra aparece nos candomblés jeje-nagô, e umbandas banto no sentido de mar (calunga-grande).

Edun-Ará — (Yor.) Pedras de raio. Na forma de machados de pedra são dispostos sobre o Odô, que é um pilão de madeira, riqueza mística de Xangô. Nos Edun-Ará está a força de Xangô, seu axé, seu otá.

Filá — (Yor.) Capuz ou gorro. Usado pelos malês, com formato de cone, em tecido, é gorro. Usado por Xampanã (Omolu/Obaluê) em palha da costa e franjado, é capuz.

Iabassê — (Yor.) Iaô chefe da cozinha ritual jeje-nagô.
Iabá — (Yor.) Designação dos orixás femininos das águas.
Iami — (Yor.) Mãe no sentido da genitora ancestral na mitologia jeje-nagô e inclui Odudua. Yemanjá, Nanã e Oxum.
Ibiri — (Yor.) Espécie de xaxará, símbolo de Nanã. Imita uma vassoura feita de palha-da-costa. Enfeitado com fitas e búzios, leva as cores azul-escuro e branco.
Inkice — (Kimb.) Designação dos orixás jeje-nagô, em terreiros Angola-Congo.
Iruexim — (Yor.) Símbolo de Iansã, chicote em rabo-de-cavalo, com cabo em osso ou madeira. Com esse instrumento é que ela domina os eguns (Iansã ou Ibale).
Iruquerê — (Yor.) Espécie de iruexim usado por Oxóssi, com diferença de que é feito de rabo de boi.

Labá —(Yor) Espécie de capanga onde Xangô leva os Edun-Ara.
Lagdibá — (Yor) Colar preto feito de coco ou chifre de boi usado por Xampanã (Omolu-Obaluaê)

Obá — (Yor.) São chamados Obás do Axé ou Ministros de Xangô, ou ainda Mangbás, os sacerdotes do culto de Xangô no Candomblé Ilê Axé Opô Afonjá, fundado por Iyá Obá Biyi, Eugênia Ana Santos, Mãe Aninha. Os Obás são em número de 12, sendo os seis da direita chamados de Otun-Obá. Os seis da direita têm direito a voz e voto, os da esquerda só têm direito a voz. À direita sentam os seguintes Obás: Abiodun, Aré, Arolu, Telá, Odófin, Kankanfô À esquerda sentam os seguintes Obás: Onãsokun, Aressá, Elerin, Onikoyi, Olugbon, Xôrun. Obá também se chama a orixá do rio Obá, esposa menos amada de Xangô. Odô — (Yor.) Pilão de madeira consagrado a Xangô sobre o qual se depositam os Edun-Ará.
Oguê — (Yor.) Instrumento percussivo feito de chifre de boi. É de uso de Iansã.
Ojá — (Yor.) Faixa de pano muito usada nos candomblés jeje-nagô, tanto pelos orixás como pelas mulheres, a título de turbantes ou laço em volta dos seios. Pode ser amarrado a tambores e árvores. Sua cor obedece à exigência dos orixás.
Oloyê — (Yor.) Aquele que traz um Oyê, marca secreta com que os orixás distinguem a pessoa herdeira de cargo importante no candomblé jeje-nagô.
OlubaJé — (Yor.) Comida servida em cerimônia a Xampanã (Omolu/Obaluaê) no mês de agosto. Seguem-se cânticos, toques e danças acompanhando a descida dos orixás.
Omolocum — (Yor.) Comida de Oxun feita de feijão e ovos.
Opanijê — (Yor.) Toque para Xampanã (Omolu/Obaluaê) dançar.
Omorixá — (Yor.) Filho de santo, filho de orixá.
Orô — (Yor.) Ritual que compreende toques e cânticos com a finalidade de acordar os santos.
Oxê — (Yor.) Bastão de madeira pequeno, símbolo de Xangó. Haste com machado duplo em metal, fetiche do santo junto com o otá.
Vodum — (Ewe/Fon.) Designação dos orixás nagô em ritual jeje.
Xaxará — (Yor.) Tipo de vassoura feita de palha que se enfeita com búzios e contas de cor. É símbolo de Xampanã (Omolu/Obaluaê).


FICHA TÉCNICA
Produzido e dirigido por Julio Caldas.
Arranjos por Julio Caldas, com a brilhante colaboração dos músicos e musicistas.
Gravado no Estúdio WR — As vozes de Roque no Estádio Visgo de Jaca.
Gravado e mixado por Richard Meyer.
Masterizado por Duda Silveira.
Projeto Gráfico por Mauro YBarros.
Fotos por Gustavo Pereira.
Produção Executiva por Fátima Gomes.

MÚSICOS
Cachoeira – Pandeiro, Surdo, Agogô
Dudu Reis – Cavaco, Banjo
Durval Caldas e Andrea Caldas – Vocal
Gilson Verde – Violão 7 Cordas
Iuri Passos – Agogô
Julio Caldas – Violão, Violão Tenor, Violão Caipira
Laila Rosa – Rabeca
Ricardo Hardmann – Pandeiro, Tambor, Ganzá

Silvinho do Acordeom – Acordeom

Publicado por Marcelo Oliveira

Sou carioca, mangueirense, botafoguense e apaixonado por samba. Meu objetivo com o blog sambaderaiz é divulgar o SAMBA, compartilhando meu acervo fonográfico. Que o blog seja um espaço de “Resistência Cultural” e em “Defesa da Tradição do Samba”. Forte abraço. marcelo@sambaderaiz.org

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