Para mim, a melhor safra de sambas dos anos 80 e uma das melhores de todos os tempos. Os doze sambas são, na minha opinião, esplendorosos, sem exceção! O som da bateria, no disco, é destacado pela atuação dos tamborins, das cuícas e, principalmente, dos agogôs, que dão um toque de beleza no arranjo. O som é limpo, delicioso e cadenciado, com uma gravação objetivando enfatizar o samba-enredo. Na primeira passada do samba, se sobressai a voz do intérprete, com o coro participando da segunda passada do refrão. O coral entra pra valer a partir da segunda passada do samba, que geralmente não é cantada inteira devido ao tempo estabelecido de três minutos e meio para cada faixa. O mesmo estilo de gravação foi utilizado no disco do Acesso-83 e também no ano seguinte. O disco do Especial-83 trata-se de um dos melhores do gênero samba da história. Podemos tocá-lo inteiramente por várias vezes ininterruptas que não nos cansaremos de ouvir doze primores de samba-enredo, onde se sobressaem melodias clássicas, líricas e, sobretudo, adoráveis.

IMPÉRIO SERRANO – A faixa de abertura simplesmente é a dona do Estandarte de melhor samba num ano em que tivemos doze dos melhores sambas de todos os tempos. Um Estandarte que de maneira nenhuma podemos contestar, pois o maravilhoso intérprete Quinzinho – em fase extraordinária na época – cantou com maestria uma das obras-primas da agremiação da Serrinha. De melodia fantástica, linda e envolvente e letra de fácil canto, a Império Serrano em nada ficou devendo em relação ao samba do ano anterior (Bumbum Paticumbum Prugurundum) com o esplendoroso “Mãe Baiana Mãe“.

UNIDOS DA TIJUCA – Para mim, o melhor samba da história da escola! O que não é pouco, se tratando da Unidos da Tijuca e seus primores de sambas-enredo. Com mais uma interpretação magistral de Sobrinho (o que não é novidade), o samba de 83 da escola possui uma melodia de tom um pouco mais baixo, mas ao mesmo tempo envolvente e de canto e audição adoráveis. Obra-prima!

SALGUEIRO – De melodia lírica e clássica, a voz rouca e grave de Rico Medeiros se encaixa perfeitamente na melodia de mais uma obra-prima salgueirense e do ano de 1983. Os dois refrões são extraordinários e o canto e a audição das demais partes traz satisfações e bom astral até para quem não é tão bamba assim. Se a faixa já é perfeita com um samba-enredo fantástico como “Traços e Troças“, imagina com o seu apoteótico final, quando a voz do coral baixa durante a execução do refrão “O carnaval é a maior caricatura…” e os instrumentos de corda são interrompidos para que a bateria, sozinha, a feche com chave de ouro, acompanhada da cuíca. É DE ARREPIAR!!!

UNIDOS DA PONTE – Outra obra-prima! O samba-enredo da Ponte de 1983 possui uma das melhores melodias da história. Lírica, fantástica e bela, juntamente com uma letra que é uma autêntica poesia. A escola, que debutava no Grupo Especial em 1983, de cara emocionou os bambas e os foliões. O intérprete Grillo estreou no carnaval em grande estilo, até porque o samba ajudou mesmo. E pensar que, no carnaval de 2005, a escola reeditará o enredo “E eles verão a Deus” e cantará este samba fantástico. Vale a pena conferir o desempenho das escolas do Grupo B na terça-feira de carnaval para conferirmos este samba novamente sendo entoado e abrilhantando o desfile da Ponte. Uma pena que as arquibancadas da Marquês de Sapucaí, evidentemente, estarão mais vazias.

MANGUEIRA – Mais um clássico! Dá gosto comentar os sambas de 1983! O samba da Mangueira possui uma melodia clássica e lírica que é a cara da verde-e-rosa. A homenagem à Cartola no samba é emocionante. A parte “Desperta Cartola/Vem pra avenida/Se a Mangueira é uma porta aberta/Você é a razão da sua vida/Você plantou, viu germinar/E a semente cresceu formosa/Deu Mangueira verde de manga-rosa” é um primor, deve ter levado os mangueirenses às lágrimas devido ao elevadíssimo teor de emoção que este trecho carrega. Só acho que a última parte do samba, que começa a partir de “Para reviver de novo…” (que relembra os últimos títulos da escola na ocasião), não combina tanto com as demais em termos de melodia, sendo que nesta ela até se perde. Mas não compromete de forma alguma este delicioso samba mangueirense, cantado no disco por Flavinho Machado e sua voz aguda.

UNIÃO DA ILHA – Um samba simples e gostoso de se ouvir, daqueles que você repete por inúmeras vezes consecutivas e de maneira nenhuma se cansa de escutá-lo! A melodia leve, o andamento perfeito e o fácil canto – com mais uma interpretação maravilhosa do estupendo Aroldo Melodia – fazem da faixa uma das melhores do disco. Não é um samba tão aclamado nem comentado como “É Hoje“, “Domingo“, “O Amanhã” e outros da escola, mas está, sem dúvida, isento de qualquer crítica!

PORTELA – Depois de quatro carnavais consecutivos de vitórias de David Corrêa na disputa interna de samba-enredo na Portela, finalmente o grande compositor era desbancado. E com um samba extraordinário! Ele não é aclamado como outras obras portelenses, mas a beleza da melodia deste samba, aliada a uma interpretação de Silvinho da Portela que dispensa elogios (o Estandarte para Silvinho foi uma das maiores justiças da história do carnaval), faz de “A Ressurreição das Coroas” uma das maiores obras-primas dos anos 80 e um dos melhores sambas da história da Portela (se bem que a lista dos melhores da Portela é extensa).

VILA ISABEL – Com melodia leve, lírica e emocionante, a Vila Isabel enriquece ainda mais, com “Os Imortais“, a safra de 1983. A bela voz do excelente Marcos Moran garante ao bamba mais satisfação, aumentando o seu amor pelo carnaval e suas obras-primas de sambas-enredo. O samba de 1983, sem dúvida, faz parte da galeria dos grandes sambas da Vila (outra lista extensa).

MOCIDADE – Outro clássico, o que não é novidade! Um dos melhores sambas da história da agremiação de Padre Miguel, muito bem interpretado pelo saudoso Ney Vianna, é embelezado por uma melodia clássica e bem variada. O canto deste samba por Paulinho Mocidade (um dos autores) no Esquenta de 2004 foi, sem dúvida, o melhor momento musical da escola no ano, porque o samba da Mocidade de 2004 e a desafinação do Paulinho…

BEIJA-FLOR – Com um samba alegre e “pra cima”, aliado (é claro) ao luxo que é marca registrada de Joãozinho Trinta, a agremiação de Nilópolis levou o caneco de forma incontestável. É um samba de canto fácil e de satisfatória audição. Não está no nível de muitos sambas de 1983, mas ainda assim é um dos clássicos da escola sempre lembrados pela comunidade nilopolitana.

CAPRICHOSOS – Belo samba, com boas variações melódicas e uma letra bem construída. Uma pena que a escola, que voltava ao desfile principal depois de 22 anos (a última vez havia sido em 1961), não conseguiu concluir sua apresentação devido a uma queda de energia elétrica na Sapucaí. Por causa deste acontecimento, não ocorreu descenso no ano de 1983, elevando assim o número de agremiações de 12 para 14 no ano seguinte, o que motivou a divisão dos desfiles em dois dias. Curiosidade: foi a estréia do excelente intérprete Carlinhos de Pilares no Grupo Especial.

IMPERATRIZ – Um samba onde a atuação do lendário conjunto vocal As Gatas o enriquece mais. Um fato curioso é que Gera (que se encontrava em início de carreira), intérprete conhecido por se dedicar mais à interpretação do samba, participa da faixa do disco apenas soltando cacos (coisa a que, posteriormente, não seria muito habitual para o ex-intérprete da Vila Isabel e da Portela). Sobre o samba, ele não possui uma melodia muito original e, embora seja bonito, passa despercebido numa safra de sambas memoráveis que foi o ano de 1983.
Texto: Marco Maciel

LP Sambas de Enredo das Escolas de Samba do Grupo 1A CARNAVAL 83

LADO A

  1. G.R.E.S.IMPÉRIO SERRANO

    MÃE BAIANA MÃE
    (Aluízio Machado-Betro S/Braço)
    Puxador: Quinzinho

  2. G.R.E.S. UNIDOS DA TIJUCA
    BRASIL: DEVAGAR COM O ANDOR QUE O SANTO É DE BARRO
    (Djalma-Eli)
    Puxador: Sobrinho
  3. G.R.E.S. ACADÊMICOS DO SALGUEIRO
    TRAÇOS E TROÇAS
    (Celso Trindade-Bala)
    Puxador: Rico Medeiros
  4. G.R.E.S. UNIDOS DA PONTE
    E ELES VERÃO A DEUS
    (Mazinho-Ambrósio-Renatinho)
    Puxador: Grilo
  5. G.R.E.S. ESTAÇÃO PRIMEIRA DE MANGUEIRA
    VERDE QUE TE QUERO ROSA…SEMENTE VIVA DO SAMBA
    (Heraldo Faria-Geraldo das Neves-Flavinho Machado)
    Puxador: Flavinho Machado
  6. G.R.E.S. UNIÃO DA ILHA DO GOVERNADOR
    TOMA LÁ DÁ CÁ
    (Robertinho Devagar-Armandinho)
    Puxador: Aroldo Melodia

LADO B

  1. G.R.E.S. PORTELA
    A RESSUREIÇÃO DAS COROAS
    (Hilton Veneno-Mazinho da Piedade)
    Puxador: Silvinho do Pandeiro
  2. G.R.E.S. UNIDOS DE VILA ISABEL
    OS IMORTAIS
    (Rodolpho-David da Vila-Jonas-Jorge King)
    Puxador: Marcos Moran
  3. G.R.E.S. MOCIDADE INDEPENDENTE DE PADRE MIGUEL
    COMO ERA VERDE O MEU XINGU
    (Dico da Viola-Paulinho Mocidade-Tiãozinho da Mocidade-Adil)
    Puxador: Ney Vianna
  4. G.R.E.S. BEIJA-FLOR
    A GRANDE CONSTELAÇÃO DAS ESTRELAS NEGRAS
    (Neguinho da Beija-Flor-Nêgo)
    Puxador: Neguinho da Beija-Flor
  5. G.R.E.S. CAPRICHOSOS DE PILARES
    UM CARDÁPIO À BRASILEIRA
    (Ratinho-Jorge Barbudo)
    Puxador: Carlinhos de Pilares
  6. G.R.E.S. IMPERTARIZ LEOPOLDINENSE
    O REI DA COSTA DO MARFIM VISITA XICA DA SILVA EM DIAMANTINA
    (Mathias de Freitas-Carlinho Boêmia-Nelson Lima)
    Puxador: As Gatas-Gera

Top-Tape 503.6017, LP

Produtores: Laila/Genaro
Auxiliar de Produção: Rivaldo Santos
Arranjos e Regência: Ivan Paulo/Ed. Lincoln
Capa: Comissão de Frente do G.R.E.S. IMPÉRIO SERRANO
Contra-Capa: Comissão de Frente do G.R.E.S. PORTELA
Fotos: Cortesia da Revista RIO SAMBA
Coordenação de Arte: Arthur Fróes
Arte Final: Valério do Carmo

Publicado por Marcelo Oliveira

Sou carioca, mangueirense, botafoguense e apaixonado por samba. Meu objetivo com o blog sambaderaiz é divulgar o SAMBA, compartilhando meu acervo fonográfico. Que o blog seja um espaço de “Resistência Cultural” e em “Defesa da Tradição do Samba”. Forte abraço. marcelo@sambaderaiz.org

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