Na minha opinião, a melhor gravação da Era Teatro de Lona e uma das melhores desde 1968, ano em que pela primeira vez foram gravados LP’s de sambas-enredo. Além da bateria estar envolvente e vibrante, temos a impressão de que os sambas foram gravados em plena avenida, pois o coral que acompanha os itérpretes é perfeito e parece que suas vozes são ecoadas das arquibancadas. Aliás, bateria e cavaquinho fazem uma ótima sintonia, melhorando ainda mais a harmonia dos sambas de 1994. A excelente gravação deixou todos os sambas ótimos, inclusive o da Mocidade, o mesmo que muitos consideram um dos piores da escola. Em contrapartida, é uma das melhores faixas do disco. As faixas foram divididas em 2 LP’s vendidos separadamente. E seria assim até 1997, ano em que pela última vez os sambas foram vendidos também em LP. Sobre os sambas de 1994, é uma safra que, na minha opinião, é muito boa. Não há nenhum samba-enredo péssimo. Pelo contrário, todos são bons ou excelentes.

Disco 1

REPERTÓRIO

SALGUEIRO – Feliz com o sucesso do ano anterior, a escola resolveu apostar numa legítima marcha-enredo, que também agradou, mas não com o mesmo êxtase do famigerado Ita. O andamento acelerado da bateria cai como uma luva para o samba salgueirense, cuja melodia é bem qualificada. A letra também é bem interessante. O refrão principal, bem oba-oba, seria a síntese dos sambas salgueirenses dos últimos dez anos (“Balança, oi balança/Chegou a hora do Salgueiro sacudir“). E o samba ficou bom na voz de Quinzinho, que costumava cantar sambas mais cadenciados. Evidentemente, o hino salgueirense tem a cara do Quinho, que em 1994 defendeu a União da Ilha. Aliás, 1994 foi o último ano em que Quinzinho atuou como intérprete oficial (ele também defenderia a Santa Cruz no mesmo ano). Ainda assim, continua atuante no mundo carnavalesco, seja como segundo intérprete da Império Serrano em 2002, ou como intérprete de sambas concorrentes ou até mesmo como intérprete de jingles de supermercados.

IMPÉRIO SERRANO – Mais um belo samba para o vasto currículo de grandes hinos da escola da Serrinha. Uma boa letra para um samba de melodia com variações tímidas, mas marcantes. Destaco o refrão central (Que zoeira…) e a segunda parte (iniciada com “A cultura“). Mesmo com o bom samba, a escola passava, na época, por muitas dificuldades e amargou um último lugar no desfile. Safou-se por não ter havido rebaixamento em 1994.

TRADIÇÃO – Edmilton di Bem estreou mandando bem neste bom samba de 1994 da Tradição, que regressava ao Grupo Especial após ter conquistado o título do Acesso-93. Possui uma letra interessante e uma melodia bem qualificada. É considerado um dos melhores sambas da escola, até porque 1994 foi o ano em que a Tradição realizou o melhor desfile de sua história, acabando na sexta colocação. Até hoje muitos se lembram do marcante refrão principal: “Vou voar de asa delta/O céu do meu Rio de Janeiro eu vou voar…“.

MANGUEIRA – Marcha-enredo das mais autênticas! Com um dos mais famosos sambas dos últimos anos, a verde-e-rosa não pensava em outra coisa senão no título do carnaval. Acabou conseguindo uma primeira colocação, mas não esperava que tivesse o vocábulo “décima” na frente. A 11ª colocação foi uma das piores colocações de todos os tempos da Mangueira, ainda mais com o samba de maior sucesso da fase pré-carnavalesca. Falando do samba, ele foi feito para ser executado com a mula-manca aceleradíssima. E foi o que aconteceu, inclusive no LP. Gosto muito do hino mangueirense de 1994, pois possui excelente letra e a marcante e vibrante melodia com o Padrão David Corrêa de Qualidade (o compositor também participa da faixa soltando cacos a partir da segunda passada). É um samba que vivo cantarolando. Quem não se lembra do refrão principal (Me leva que eu vou/Sonho meu/Atrás da verde-e-rosa só não vai quem já morreu“)? Só acho desnecessária a introdução da faixa com Gil, Caetano, Bethânia e Gal cantando o refrão.

BEIJA-FLOR – Excelente samba! Mais um com a cara da Beija-Flor e de Neguinho. Três bons refrões e de melodia vibrante com boas variações, embora a aceleração da bateria no LP tenha dado ao samba algumas características de marcha. Mas isso não comprometeu em nada a beleza do hino de 1994 da agremiação de Nilópolis.

VIRADOURO – Não contando a reedição do samba da São Carlos de 1975 feita pela agremiação em 2004, considero o samba de 1994 da Viradouro o melhor da história da escola, melhor até do que o de 1992, considerado uma unanimidade entre os bambas. Creio que boa parte dos simpatizantes de samba-enredo tachem “Tereza de Benguela” de samba arrastado e de melodia quase reta (opinião em especial dos críticos de Rico Medeiros). Mas este samba me encanta totalmente, tanto que o considero “o samba-enredo mais antigo dos últimos quinze anos”. Por que, vocês devem estar se perguntando? Experimentem imaginar o samba cantado com uma bateria cadenciada como nos anos 60. A sua melodia por sinal mantém muitas características dos sambas de outrora. É um samba-enredo que emociona, com os dois maravilhosos refrões incrementando suas demais partes, também marcantes. Uma pena que o hino de 1994 da agremiação de Niterói não possua o reconhecimento a que tem direito, até porque contribuiu para o terceiro lugar da escola no desfile, até então sua melhor colocação no Grupo Especial.

UNIDOS DA PONTE – Serginho do Porto estreou no carnaval cantando um bom samba, animado do início ao fim, de excelente melodia e boa letra. Não entendo o porquê de quase ninguém gostar deste samba-enredo. A gravação no LP deu uma melhorada, é verdade! Mas o samba da Ponte de 1994 definitivamente não merece as tantas críticas recebidas. Talvez elas se devam também ao andamento rápido da bateria para um samba-enredo curto e – pasmem – sem refrão do meio. Isso mesmo! Há apenas um refrão no samba: “E brilha meu São Luiz…“. Uma bela homenagem a Alcione.

UNIÃO DA ILHA – A queridíssima escola fez em 1994 um dos melhores desfiles de sua história, um desfile que, na opinião de muitos bambas, merecia sair com o caneco após a Apuração. Acabou na quarta colocação e deixou como herança um belíssimo samba, de melodia envolvente e vibrante, cantado por Quinho. Aliás, no LP, quase não entendemos o que o senhor Melquisedeque Marins Marques canta, até porque o samba possui partes que são entoadas de forma rápida. E todos nós sabemos que a dicção de Quinho não é das melhores… Ah, até hoje não entendo o que significa o “Saber para crescer/Saber para orientar/Saber para amenizar“, os três últimos versos (que não fazem parte do samba-enredo) presentes na letra do samba da Ilha no encarte do LP.

Disco 2

REPERTÓRIO

IMPERATRIZ – Mais um grande samba-enredo desta gloriosa agremiação e que, sem dúvida, colaborou para o título do carnaval de 1994. O samba é sensacional, de letra e melodia esplendorosas. E ainda com Preto Jóia na sua melhor fase… Este samba vibrante e envolvente dispensa comentários. Ah, e no encarte do LP, colocaram o Edmilton da Tradição como intérprete do samba. Que furo…

ESTÁCIO – 1994 foi o ano em que a gloriosa Estácio de Sá começou a afundar. Apenas dois anos após o título conquistado, a escola amargaria uma 13ª colocação entre 16 escolas. E a sua marcha-enredo definitivamente não ajudou. Embora a Estácio tenha se consagrado a fazer sambas dessa estirpe nos anos 80, o de 1994 dessa vez não agradou. É um samba animado e que até possui uma boa melodia (também, com Dominguinhos como intérprete…). Mas o hino de 1994 da nem se compara com os anteriores feitos pela escola.

GRANDE RIO – Após o sucesso de “No Mundo da Lua” no ano anterior, a escola provaria que seria capaz de fazer sambas de excelente qualidade nos anos seguintes. O esplendoroso hino de 1994 é a prova concreta. Enredos que envolvam a África geralmente geram excelentes sambas-enredo. Com o tema “Os Santos que a África não viu” não foi diferente. Nêgo, competente como sempre, levou um samba de excelente letra e melodia envolvente, de total agrado para o bamba. Um dos grandes sambas de 1994, sem sombra de dúvida.

PORTELA – No último ano de Dedé da Portela como intérprete oficial, ele contou com um samba curto de excelente animação e melodia vibrante, que levou os bambas ao delírio. Belo samba-enredo, sem merecer qualquer tipo de contestação. O refrão principal “Capoeira/O samba vai levantar poeira/Tem zoeira/Em Oswaldo Cruz e Madureira” é de arrepiar.

MOCIDADE – O jovem Wander Pires fazia a sua estréia como intérprete oficial de escola de samba. E não comprometeu, tanto que, depois do carnaval, uma música na sua voz seria um grande sucesso (“Se você sentir saudade/Liga pro meu celular…“). Tornaria-se, anos depois, um dos melhores intérpretes do carnaval carioca. Sobre o samba, um enredo sobre a Avenida Brasil, uma das principais do Rio, dificulta um samba-enredo de alto cunho poético. Por isso, a letra é, sem dúvida, lamentável. Pérolas como “Ziguezagueando eu vou/Outra vez com a Mocidade” e “Uma confusão de coisas/Assim é a Avenida Brasil” não puderam ser evitadas. A boa melodia até salva o samba e a maravilhosa gravação do LP, com a bateria dando show, torna a faixa da Mocidade uma das melhores do disco. Mas, na avenida, o samba, como era de se esperar, se arrastou e a escola não passou de um oitavo lugar.

UNIDOS DA TIJUCA – Com um enredo parecido com o do Salgueiro, falando sobre o Rio de Janeiro no verão, a Tijuca trouxe para a Sapucaí um samba animadinho e bem cantado por Carlinhos de Pilares. Com a bateria arrebentando na segunda passada, a gravação do LP fez o samba crescer. Possui uma boa melodia, mas a letra apresenta muitos clichês.

CAPRICHOSOS – Autêntica marchinha, com o andamento no LP, se eu não partir para o exagero, mais acelerado que no próprio desfile. A bateria, no LP, dá um legítimo show, às vezes vale a pena ouvir este samba só para ouvi-la. Mas a marcha-enredo de 1994 da Caprichosos não é ruim. De letra curtíssima, e de melodia de marcha e animada, o samba realmente é de bom agrado.

VILA ISABEL – Não há palavras para descrever esta obra-prima do carnaval, sem dúvida um dos melhores sambas-enredo de todos os tempos. De letra fantástica e com melodia emocionante, este sambaço também marcou a estréia de Jorge Tropical como intérprete oficial ao lado de Gera.


FAIXAS DISCO 1

Capa do LP SAMBAS DE ENREDO GRUPO ESPECIAL CARNAVAL 94

G.R.E.S. Acadêmicos Do Salgueiro
RIO DE LÁ PRA CÁ
Celso Trindade – Demá Chagas – Bola – Arizão – Guaracy
Intérprete: Quinzinho

G.R.E.S. Império Serrano
UMA FESTA BRASILEIRA
Lula – Zito – Beto Pernada
Intérprete: Roger da Fazenda

G.R.E.S. Tradição
PASSARINHO, PASSARÓLA, QUERO VER VOAR
Jajá Maravilha – Aniceto – Tonho – Sandro Maneca – Jurandir da Tradição – Jorge Makumba – Lourenço
Intérprete: Edmilton da Tradição
Participação Especial: Jorge Makumba

G.R.E.S. Estação Primeira De Mangueira
ATRÁS DA VERDE E ROSA SÓ NÃO VAI QUEM JÁ MORREU
David Corrêa – Paulinho Carvalho – Carlos Senna – Bira do Ponto
Intérprete: Jamelão
Participação Especial: Maria Bethânia – Gilberto Gil – Caetano Veloso – Gal Costa – David Corrêa

G.R.E.S. Beija Flor De Nilópolis
MARGARET MEE, A DAMA DAS BROMÉLIAS
Arnaldo Matheus – J. Santos – Almir Moreira
Intérprete: Neguinho da Beija-Flor

G.R.E.S. Unidos Do Viradouro
TEREZA DE BENGUELA – UMA RAINHA NEGRA NO PANTANAL
Cláudio Fabrino – Paulo César Portugal – Jorge Baiano – Rico Medeiros
Intérprete: Rico Medeiros
Participação Especial: Gilberto Gomes – Juarez Maia – Celainho

G.R.E.S. Unidos Da Ponte
MARROM DA COR DO SAMBA
Nilson Chamego – Charles Carteiro – Chiquinho do Banjo
Intérprete: Serginho do Pôrto

G.R.E.S. União Da Ilha Do Governador
ABRAKADABRA O DESPERTAR DOS MÁGICOS
Almir da Ilha – Franco
Intérprete: Quinho

FAIXAS DISCO 2

Capa do LP SAMBAS DE ENREDO GRUPO ESPECIAL CARNAVAL 94

G.R.E.S. Imperatriz Leopoldinense
CATARINA DE MEDICIS NA CÔRTE DOS TUPINAMBÔS E TABAJERES
Márcio André – Alvinho – Aranha – Alexandre da Imperatriz
Intérprete: Preto Jóia

G.R.E.S. Estácio De Sá
S.A.A.R.A – A ESTÁCIO CHEGOU NO IÊ IÊ IÊ DE “ALALAÔ”
Fininho – Pereira – Edmilson – Marinho
Intérprete: Dominguinhos do Estácio

G.R.E.S. Acadêmicos Do Grande Rio
OS SANTOS QUE A ÁFRICA NÃO VIU
Mais Velho – Rocco Filho – Roxidiê – Helinho 107 – Marquinhos – Pipoca
Intérprete: Nêgo

G.R.E.S. Portela
QUANDO O SAMBA ERA SAMBA
Wilson Cruz – Cláudio Russo – Zé Luiz
Intérprete: Dedé da Portela

G.R.E.S. Mocidade Independente De Padre Miguel
AVENIDA BRASIL, TUDO PASSA QUEM NÃO VIU
Dico da Viola – Jorginho Ganem – Jelinho
Intérprete: Wander Pires

G.R.E.S. Unidos Da Tijuca
SÓ… RIO E VERÃO
Gilmar L. Silva – Vicente das Neves – Beto do Pandeiro – Grego
Intérprete: Carlinhos de Pilares

G.R.E.S. Caprichosos De Pilares
ESTOU AMANDO LOUCAMENTE UMA COROA DE QUASE 90 ANOS
Garibaldi – Tico do Gato – Carlos Ortiz – Marcos Lessa – Almir de Araújo
Intérprete: Luisito

G.R.E.S. Unidos De Vila Isabel
MUITO PRAZER, ISABEL DE BRAGANÇA E DRUMOND ROSA DA SILVA, MAS PODE ME CHAMAR DE VILA
Vilani Silva “Bombril” – Evandro Bocão – André Diniz
Intérprete: Gera
Participação Especial: Jorge Tropical


RCA 204.1001/204.1002 – LP, Vinyl

Texto: Marco Maciel – sambariocarnaval.com

Publicado por Marcelo Oliveira

Sou carioca, mangueirense, botafoguense e apaixonado por samba. Meu objetivo com o blog sambaderaiz é divulgar o SAMBA, compartilhando meu acervo fonográfico. Que o blog seja um espaço de “Resistência Cultural” e em “Defesa da Tradição do Samba”. Forte abraço. marcelo@sambaderaiz.org

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