Aracy de Almeida Apresenta Sambas de Noel Rosa

Aracy de Almeida Apresenta Sambas de Noel Rosa

Esse elepê de Aracy de Almeida cantando Noel Rosa é uma coletânea lançada pela Continental, em 1954, com sambas já anteriormente gravados em 78 rpm por Aracy.


Noel Rosa – Aracy de Almeida

O samba, o nosso tão querido samba, é a música que caracteriza o Brasil, atravessando fronteiras com seu ritmo ardente e vibrante, como a alma dos brasileiros.

Numa casa modesta e pobre, num dos arrabaldes do Rio de Janeiro, em Vila Izabel, nasceu um dos maiores e mais inspirados compositores que o Brasil conheceu — Noel Rosa. Teve uma vida curta, apenas vinte e seis anos de existência, mas o seu nome será repetido e querido pelo tempo afora.

Suas músicas nos contam com tanto realismo os problemas da vida, tão compreendidos por tôdas as camadas sociais , isso como consequência da árdua luta pela vida que teve o autor.

Entre seus principais colaboradores, lembramos Vadico. Com êle Noel compôs vários sambas, salientando-se “Feitiço da Vila”, “Conversa de Botequim” e “P’ra que Mentir”.

Não muito longe da casa de Noel Rosa, no mesmo bairro, nasceu uma cantora, que tão bem se adaptou a música do nossa “poeta do samba’ É Aracy de Almeida.

Com voz diferente, imortalizou a música de Noel Rosa. E assim dizia o compositor: “O povo, êste povo amigo, tem na voz de Aracy de Almeida a fidelidade do meu samba”.

O inicio da popularidade de Aracy começou com as primeiras gravações das músicas de Noel Rosa. Dai em diante, foi um desencadear de sucessos, até a consagração. Hoje, já veterana, conserva seus admiradores sem conta.

A memória de Noel Rosa continua indelével em nossos corações. Suas composições obtêm sempre mais sucesso, sendo ouvidas e aclamadas por milhões de pessôas, amantes de nossa música, perpetuada pela voz doce e sentida de Aracy de Almeida.

Depois que você ouvir êste LP, compreenderá o verdadeiro sentido da consagração dêsses dois grandes valores , unidos por um só ideal, e saberá o porquê dessa eterna admiração para com êles.

contracapa

O texto a seguir é uma homenagem de André Weller, co-curador do MIS / Museu da Imagem e do Som, para o centenário de Aracy de Almeida. Weller é diretor do documentário Araca e Eu, em finalização.

Há exatos 64 anos, no mês de setembro, chegava às lojas um álbum sem precedentes na história da música brasileira. Num formato de luxo, com capa assinada pelo mestre Di Cavalcanti e finamente orquestrado por Radamés Gnattali, o disco da Continental trazia Noel Rosa interpretado por sua maior intérprete, Aracy de Almeida. Eco do sucesso na sofisticada Boate Vogue, o 78 rpm trouxe à tona, entre os “samboleros” e baiões da época, a alma boêmia dos anos 30.

Transpondo os cabarés da Lapa para as boates de Copacabana, “Araca” seguia evocando Noel. Morto há 13 anos, o poeta da Vila ressuscitara embalado pela voz da Dama do Encantado. Este (re)encontro registrado no arrojado LP não só confirmou Aracy como a sua maior intérprete como a fez adentrar ainda mais nas noites boêmias dos inferninhos da Zona Sul carioca. Acompanhada por pequenos conjuntos instrumentais, uma redução das grandes orquestras imposta pela extinção dos antigos cassinos, Aracy brilhou mais uma vez. Neste tom intimista, ela se aproveitou como poucos da sua valorosa interpretação para conquistar de vez os pequenos palcos que se proliferavam pela cidade. Foi assim que viu Sérgio Porto apresentar sua parceria com Billy Blanco, os dois acompanhados pelos rapazes de Roberto Menescal, num show que virou disco, Ao vivo no Zum-Zum. Ou ainda desfilar nas boates do Barão Von Stuckart seu repertório que nascia em Noel e desaguava em Antônio Maria, passando por Fernando Lobo e Ary Barroso. Até brilhar nas casas noturnas paulistas com o ensolarado samba carioca via o “trem dos covardes”, o antigo trem de prata, dividindo cabine com Vinícius e Ciro Monteiro.

A disputa por um acento nos seus shows despertou o interesse do meio de comunicação que despontava nesta década de 50. Ainda muito incipiente, as emissoras de televisão procuravam trazer para a pequena tela os grandes astros da noite brasileira. “Araca” percebeu logo que este novo veículo poderia ser conquistado de duas maneiras: com sua inigualável forma de cantar (“essa timbração anasalada da voz brasileira”, segundo Mário de Andrade, “conheci completamente…”) e com o seu próprio jeito de ser. E a Dama da Central virou personagem transmitida em rede nacional e figurinha fácil nas emissoras de TV, ambiente onde trabalhou até um edema pulmonar e um aumento de pressão terem a tirado de campo em 1988.

Mas conquistar veículos de comunicação não era novidade para Aracy. Cansada dos hinos religiosos que entoava na igreja durante a sua infância, foi procurar ganhar algum “dinheirim” no circuito das rádios cariocas. Passou pela Cruzeiro do Sul, Philips, Cajuti, Marynk Veiga, Tupi e finalmente a Rádio Nacional. Distribuiu sucessos com sua voz pequena e poderosa até ganhar a merecida alcunha de César Ladeira: “O samba em pessoa“ . Descobriu que a sua forma malandra de cantar era infalível no êxito das músicas de carnaval. E assim foi desfilando um relicário até encontrar um porto seguro nas boates da cidade em fins dos anos 40. Mas foi no início da sua carreira na Rádio Educadora, em 1933, que conheceu Noel (“era uma pilantrinha muito magra…”). Dali teriam ido direto à Taberna da Glória onde uma legião de meliantes e malandros (“esses pilantras…”) teria ajudado a forjar o caráter e o extenso vocabulário carioca da intérprete, revivido naquele LP no início dos anos 50. Nesta “universidade”, “Araca” se formou com louvor até virar uma figura de referência abraçando os salões do samba nos anos sessenta e ajudando a impulsionar com seu aval iniciativas históricas como o Zicartola e uma série de apresentações comandadas pelo seu escudeiro e confidente Hermínio Bello de Carvalho. Mas os esforços em salvar as glórias nacionais se mostraram muitas vezes inúteis e fizeram a Arquiduquesa do Encantado ditar inconformada para Caetano Veloso a letra da canção “A Voz do Morto” em plena Bienal do Samba de 1968. Em meio a crise do samba na época, Aracy protagonizou a música de Caetano evocando mais uma vez Noel, desta vez num chamado contundente, cansada de arrastar pelo tempo seu antigo parceiro como um defunto indigente. Agora Aracy de Almeida faz 100 anos. E aí, alguém vai querer salvar as glórias nacionais?

André Weller – MIS


Aracy de Almeida Apresenta Sambas de Noel Rosa

1954, Continental (LPP-6)
DISCO É CULTURA

REPERTÓRIO / MÚSICOS

Feitiço da Vila (samba, 1950)
Noel Rosa – Vadico
Francisco Serji (arranjo) [ ouça ♫ ]

quem nasce lá na Vila
nem sequer vacila
em abraçar o samba
que faz dançar os galhos
do arvoredo e faz a lua
nascer mais cedo
lá em Vila Isabel
quem é bacharel
não tem medo de bamba
São Paulo dá café
Minas dá leite
e a Vila Isabel dá samba
a Vila tem
um feitiço sem farofa
sem vela e sem vintém
que nos faz bem
tendo nome de princesa
transformou o samba
num feitiço descente
que prende a gente
o sol da Vila é triste
samba não assiste
porque a gente implora
sol pelo amor de Deus
não venha agora que as morenas
vão logo embora
eu sei tudo que faço
sei por onde passo
paixão não me aniquila
mas tenho que dizer
modéstia a parte
meus senhores
eu sou da Vila

Pra que Mentir (samba, 1951)
Noel Rosa – Vadico
Radamés Gnattali e sua Orquestra (músicos), Radamés Gnattali (arranjo) [ ouça ♫ ]

pra que mentir
se tu ainda não tens
esse dom
de saber iludir
pra quê
pra que mentir
se não há necessidade de me trair

pra que mentir
se tu ainda não tens
a malícia de toda mulher
pra que mentir
se eu sei que gostas de outro
que te diz
que não te quer

pra que mentir
tanto assim
se tu sabes que eu sei
que tu não gostas de mim
tu sabes que eu te quero
apesar de ser traído
pelo teu ódio sincero
ou por teu amor fingido

Último Desejo (samba, 1950)
Noel Rosa
Francisco Serji (arranjo) [ ouça ♫ ]

nosso amor que eu não esqueço
e que teve seu começo
numa festa de São João
morre hoje sem foguete
sem retrato e sem bilhete
sem luar, sem violão
perto de você me calo
tudo penso e nada falo
tenho medo de chorar
nunca mais quero o seu beijo
pois meu último desejo
você não pode negar

se alguma pessoa amiga
pedir que você lhe diga
se você me quer ou não
diga que você me adora
que você lamenta e chora
a nossa separação
às pessoas que detesto
diga sempre que eu não presto
que meu lar é um botequim
que eu arruinei sua vida
que eu não mereço a comida
que você pagou pra mim

Silêncio de um Minuto (samba, 1951)
Noel Rosa
Radamés Gnattali e sua Orquestra (músicos), Radamés Gnattali (arranjo) [ ouça ♫ ]

não te vejo e nem te escuto
o meu samba está de luto
eu peço o silêncio de um minuto
homenagem a história
de um amor cheio de glória
que me pesa na memória

nosso amor cheio de glória
de prazer e de ilusão
foi vencido e a vitória
cabe à tua ingratidão
tu cavaste a minha dor
com a pá do fingimento
e cobriste o nosso amor
com a cal do esquecimento

teu silêncio absoluto
me obrigou a confessar
que o meu samba está de luto
meu violão vai soluçar
luto preto é vaidade
neste funeral de amor
o meu luto é saudade
e saudade não tem cor

O”X” do Problema (samba, 1950)
Noel Rosa
Radamés Gnattali e sua Orquestra (músicos), Radamés Gnattali (arranjo) [ ouça ♫ ]

nasci no Estácio, eu fui educada na roda de bamba
e fui diplomada na escola de samba
sou independente, conforme se vê
nasci no Estácio, o samba é a corda eu sou a caçamba
e não acredito que haja muamba
que possa fazer eu gostar de você
eu sou diretora da escola do Estácio de Sá
e felicidade maior neste mundo não há

já fui convidada para ser estrela do nosso cinema
ser estrela é bem fácil, sair do Estácio é que é
o ‘x’ do problema

você tem vontade que eu abandone o Largo do Estácio
pra ser a rainha de um grande palácio
e dar um banquete uma vez por semana
nasci no Estácio
não posso mudar minha massa de sangue
você pode crer que palmeira do Mangue
não vive na areia de Copacabana

Conversa de Botequim (samba, 1950)
Noel Rosa – Vadico
Quarteto Continental (músicos), Radamés Gnattali (arranjo) [ ouça ♫ ]

seu garçom, faça o favor de me trazer depressa
uma boa média que não seja requentada
um pão bem quente com manteiga à beça
um guardanapo, um copo d’água bem gelada
feche a porta da direita com muito cuidado
que não estou disposto a ficar exposto ao sol
vá perguntar ao seu freguês do lado
qual foi o resultado do futebol

se você ficar limpando a mesa
não me levanto e nem pago a despesa
vá pedir ao seu patrão
uma caneta, um tinteiro
um envelope e um cartão
não se esqueça de me dar palitos
e um cigarro pra espantar mosquitos
vá dizer ao charuteiro
que me empreste uma revista
um cinzeiro e um isqueiro

telefone ao menos uma vez
para três quatro, quatro, três, três, três
e ordene ao seu Osório
que me mande um guarda-chuva
aqui pro nosso escritório
seu garçom me empresta algum dinheiro
que eu deixei o meu com o bicheiro
vá dizer ao seu gerente
que pendure esta despesa
no cabide ali em frente

Não Tem Tradução (samba, 1950)
Noel Rosa
Radamés Gnattali e sua Orquestra (músicos), Radamés Gnattali (arranjo) [ ouça ♫ ]

o cinema falado é o grande culpado
da transformação
dessa gente que pensa que um barracão
prende mais que o xadrez
lá no morro, seu eu fizer uma falseta
a risoleta desiste logo
do francês e do inglês
a gíria que o nosso morro criou
bem cedo a cidade aceitou e usou
mais tarde o malandro deixou
de sambar, dando pinote
na gafieira dançamos o fox-trote

essa gente hoje em dia
que tem a mania da exibição
não se lembra que o samba não tem tradução
no idioma francês
tudo aquilo que o malandro pronuncia
com voz macia é brasileiro
já passou de português
amor lá no morro é amor pra chuchu
as rimas do samba não são i love you
e esse negócio de alô, alô boy e alô johnny
só pode ser conversa de telefone

Palpite Infeliz (samba, 1950)
Noel Rosa
Quarteto Continental (músicos), Radamés Gnattali (arranjo) [ ouça ♫ ]

quem é você que não sabe o que diz
meu Deus do céu, que palpite infeliz
salve Estácio, Salgueiro, Mangueira
Oswaldo Cruz e matriz
que sempre souberam muito bem
que a Vila não quer abafar ninguém
só quer mostrar que faz samba também

fazer poemas lá na Vila é um brinquedo
ao som do samba dança até o arvoredo
eu já chamei você pra ver
você não viu porque não quis
quem é você, que não sabe o que diz

a Vila é uma cidade independente
que tira samba, mas não quer tirar patente
pra que ligar a quem não sabe
aonde tem o seu nariz
quem é você, que não sabe o que diz


FICHA TÉCNICA – Di Cavalcanti (capa)

Considerações finais

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