Assim é que é… Pixinguinha e sua Banda em polcas, maxixes e chôros

Assim é que é… Pixinguinha e sua banda em polcas, maxixes e chôros

Todo dia é dia de São Pixinguinha. Hoje o trago em disco: “Assim é que é…”, SINTER, de 1957, interpretando impagáveis polcas, maxixes e choros. Nada mais para ser dito. Muito para ser ouvido e lido.


Depois do êxito de Pixinguinha e sua Banda, nos discos “Carnaval de Nássara” (SLP-1088) e “Marchinhas carnavalescas de João de Barro e Alberto Ribeiro” (SLP-1097), a SINTER oferece ao público do grande mestre da nossa música popular, mais uma seleção em long-playing que inclui uma série de polcas, maxixes e choros.

Inicialmente, desejamos apresentar a todos, a constituição da “Banda” de PIXINGUINHA, que obedece à batuta dêste e que executa arranjos seus, escritos com o sabor marcante de sua personalidade: dois pistons, Francisco Sergi e Laerte Rezende; uma tuba, Solon; um bombardino, Paulo Silva: um clarinete, João Batista; um flautim, Pedro Vieira Gonçalves; um baterista, Manoel Dias de Figueiredo; prato, Angelo; e reco-reco, Sebastião Gomes.

O nome de PIXINGUINHA também aparece, neste disco, como compositor e são de sua autoria os maxixes “Dando topada” [ ouça ♫ ] e “Cascatinha” [ ouça ♫ ], além da polca, “Assim é que é” [ ouça ♫ ]. Graças à sua prodigiosa memória, êle mesmo reconstituiu o velho chôro intitulado “Alfredinho no chôro” [ ouça ♫ ] e cuja história é a que se segue, segundo depoimento do próprio PIXINGUINHA. Alfredinho foi um clarinetista famoso, chorão dos bons, da velha guarda. Frequentava assiduamente o “Recreio das Flores”, clube onde, após uma feijoada, nasceu êste chôro que se tornaria célebre e que fazia parte do repertório permanente de qualquer grupo de chorões cariocas. O passar dos tempos fêz com que “Alfredinho no chôro” caísse na penumbra do esquecimento. Também, nossa música mudou tanto, sofreu tantas transformações e passou a caminhar por uma estrada tão diferente, que só mesmo aquêles que viveram os saudosos dias de esplendor do chôro é que podem medir bem e pesar melhor a diferença entre ontem e hoje. Mas, de qualquer forma, atual ou antiga, a música brasileira é inegavelmente bela e possui riquezas surpreendentes, quer no tocante à parte melódica, quer no que diz respeito à parte de ritmo.

O LP “Assim é que é…” foi considerado como “um dos LPs mais importantes da história do choro”.

Os outros autores que figuram nesta seleção, são os seguintes.

PEDRO GALDINO, autor de “Flausina” [ ouça ♫ ]. Flautista emérito, foi mestre da banda da Fábrica Confiança e descendia de uma família de músicos.

JUVENAL PEIXOTO, autor do chôro “Buliçoso” [ ouça ♫ ], que se encontra na quarta faixa da face B.

JOSÉ NUNES, que escreveu o “Maxixe de ferro” [ ouça ♫ ]. Foi regente do Teatro Dulcina, na Rua do Lavradio, e obteve grande êxito na alvorada dêste século. Era pianista e clarinetista.

PAULINHO SACRAMENTO, que compoz “Bebé” [ ouça ♫ ], maxixe. Foi aluno de Francisco Braga e destacou-se como compositor. Seu nome é uma legenda de respeito.

IRINEU DE ALMEIDA, autor de “Morcêgo” [ ouça ♫ ], maxixe dedicado ao Amaral dos “Correios”, velho boêmio, considerado um dos maiores carnavalescos de todos os tempos. Irineu foi o primeiro mestre de PIXINGUINHA.

PEDRO ANTÔNIO DA SILVA, compositor de “Molengo” [ ouça ♫ ], violonista da velha guarda, pertencia ao quadro de funcionários da Polícia.

J. REZENDE, autor do célebre maxixe “Cigana de Catumbí” [ ouça ♫ ].

JOSÉ RAMOS, que compoz a polca “E me deixou saudade” [ ouça ♫ ].

Os nomes citados são relembrados sempre por Pixinguinha, quando. em conversa com amigos, êle conta coisas a respeito dêsses homens que foram seus companheiros em dias que vão longe…

Nós, que não privamos da mesma roda, nem conhecemos a boemia carioca daquela época, sentimos sempre, ao ouvir um long-playing como êste, como deveria ser deliciosa a convivência com essa gente de talento musical, que dedicava horas inteiras a fazer bôa música popular, compondo ou executando seus instrumentos. O oficleide, do qual dizem ter sido Irineu de Almeida um mestre, é hoje em dia completamente desconhecido…

Os recursos da gravação moderna vieram permitir à atual geração, conhecer êsse repertório que fêz época e que, por ser bom, há de se prolongar no tempo, chegando às gerações futuras, de vez que consideramos como lógica, a permanência na admiração de todos, de tão esplêndidas composições.

Assim sendo, amigos, temos a certeza de que o terceiro long-playing de série “PIXINGUINHA E SUA BANDA” há de merecer a mesma acolhida dos dois anteriores a que já nos referimos de início e há de permitir que venham mais alguns, no futuro, documentando um repertório que não pode nem deve desaparecer.

Para os que gostam de ouvir o disco, acompanhando os números pela contra-capa, vamos dar daqui a ordem em que êles se apresentam:

FACE A:

  1. DANDO TOPADA — maxixe
  2. FLAUSINA — chôro
  3. MOLENGO — maxixe
  4. ASSIM É QUE É — polca
  5. MORCÊGO — maxixe
  6. BEBÉ — maxixe

FACE B:

  1. CIGANA DE CATUMBÍ — maxixe
  2. ALFREDINHO NO CHÔRO — chôro
  3. MAXIXE DE FERRO — maxixe
  4. BULIÇOSO — chôro
  5. E ME DEIXOU SAUDADE — polca
  6. CASCATINHA — maxixe

Rio de Janeiro, Agôsto de 1957,
PAULO TAPAJÓS

Outro texto que transcrevo neste post sobre esse disco é de um trecho da tese “Pixinguinha entre o velho e novo: os arranjos para orquestra popular (1947-1957)” escrita por Ana Lúcia Ferreira Fontenele:

Nesse trabalho, de 1957, o primeiro com o grupo “Pixinguinha e sua banda”, o clima musical do primeiro disco da série, com a gravação de peças de compositores de gerações passadas do choro é retomado. Em comparação com o primeiro, “A Velha Guarda”, há mudanças na instrumentação, com a introdução de instrumentos de sopros e nos arranjos que parecem melhor estruturados.

Nesse disco Pixinguinha não atua como saxofonista, como no primeiro disco, e sim arranjador e regente do grupo. No intervalo entre o LP “A Velha Guarda” e este LP (“Assim é que é…”) foi lançado o segundo da série, também gravado em 1955, o LP “O Carnaval de Pixinguinha”. Em 1956, foram lançados os discos “Cinco Companheiros — Pixinguinha e os chorões daquele tempos” e “Festival da Velha Guarda”.

O LP “Assim é que é… Pixinguinha e sua Banda em polcas, maxixes e choros” foi considerado por Vasconcelos (1984, p. 39) como “um dos LPs mais importantes da história do choro”. Dentre os arranjos de músicas de compositores mais antigos destacam-se as seguintes composições e autores: “Flausina” de Pedro Galdino; “Maxixe de ferro”; de José Nunes; “Bebê” de Paulino Sacramento e “Morcego” de Irineu de Almeida. Outras quatro músicas de compositores antigos e contemporâneos de Pixinguinha foram gravadas neste LP: o “Molengo” de Pedro Antonio da Silva; “E me deixou saudade” de José Ramos, “Cigana de Catumbi” da J. Rezende, “Alfredinho no choro” de Alfredinho e “Buliçoso” de Juvenal Peixoto.

De autoria de Pixinguinha, integram ainda este disco, não mais com oito faixas, e sim com doze, os maxixes “Dando topada” e “Cascatinha” e a polca “Assim é que é”. Segundo o texto presente no encarte do LP, os compositores de geração mais antiga, entre eles o músico e amigo Alfredinho, um clarinetista da velha guarda, “são relembrados sempre por Pixinguinha… em conversas com amigos, ele conta a respeito desses homens que foram seus companheiros em dias que vão longe…” (TAPAJÓS, 2014b, p. 13).


Assim é que é… Pixinguinha e sua Banda em polcas, maxixes e choros

Pixinguinha (Sinter, SLP-1713, 1957) DISCO É CULTURA

Assim é que é… Pixinguinha e sua banda em polcas, maxixes e chôros

Ronald (capa), Armando Pittigliani (foto).

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