Ataulfo Alves, Suas Pastoras e Seus Sucessos

Ataulfo Alves, Suas Pastoras e Seus Sucessos

Em 1955 Ataulfo gravou na Sinter o seu primeiro long-play que recebeu o título de “Ataulfo Alves, Suas Pastoras e Seus Sucessos”. Esse elepê é o que trago neste post.


A seguir, transcrevo o texto assinado por Sergio Lobo publicado na contracapa do disco e mais abaixo, um texto sobre Ataulfo publicado no jornal O Globo e trechos do livro de Sergio Cabral “Ataulfo Alves: vida e obra”. Não deixe de ler e ouvir o disco.

O menino Ataulfo sempre gostou de fazer versos. Em sua cidade natal, a pequena Miraí, no interior de Minas, ficava de ouvido colado ao rádio de galena e às vitrolinhas. Quando não conseguia “pegar” todas as letras que gostava, fazia uma segunda parte por sua conta e às vezes suas quadrinhas ficavam muito melhores que as originais.

Ainda mocinho, veio para o Rio, já com uma bagagem musical. Conseguiu ‘ “colocar” seu primeiro samba em 1934. Chamava-se “Tempo Perdido” e foi gravado justamente pela nossa grande Carmen Miranda, recentemente falecida . Ataulfo conheceu a Pequena Notável muito antes de se consagrar e foi um dos primeiros a reconhecer seu grande talento de sambista. Seu segundo samba foi oferecido a Almirante, que o gravou imediatamente.

Ataulfo gosta de se trajar elegantemente, saborear pratos finos e de dormir pouco . Diz ele que quem dorme muito, só vive realmente um terço da vida. Fez-se cantor em 1942, “por necessidade”.

Depois de ver o seu grande samba “Ai que saudades da Amélia”, de parceria com Mario Lago recusado por vários cantores, resolveu gravá-lo êle mesmo, camuflando suas deficiências vocais com um côro feminino que mais tarde seria consagrado como suas famosas Pastoras.

Ataulfo tem suas composições gravadas pelos melhores sambistas brasileiros, dentre eles Silvio Caldas, Carmen Miranda, Dalva de Oliveira, Carlos Galhardo, Nora Ney. etc. Este ano, depois de realizar sensacionais temporadas em shows de boates cariocas, Ataulfo Alves voltou espetacularmente ao disco, gravando para a SINTER o maior sucesso da música brasileira de 55: “Pois É…”.

Além dêste grande samba, o presente LP abriga outras notáveis composições de Ataulfo, como “Vida de Minha Vida”, “Pai Joaquim de Angola”, um interessante batuque de terreiro, “Infidelidade” (com Américo Seixas), “Leva Meu Samba”, “Atire a Primeira Pedra” (com Mario Lago), “Vai na Paz de Deus” (com Antonio Domingues) e o imortal “Ai que Saudades da Amélia” (com Mário Lago).

Os oito números foram gravados no Rio de Janeiro, em junho de 1955, tendo atuado como engenheiro de som Armando Dulcetti e gravador, Roberto de Castro.

Sergio Lobo
contracapa


Ainda sobre esse LP de estréia de Ataulfo, cito um trecho do livro “Ataulfo Alves: vida e obra” de Sérgio Cabral, editora: Lazuli (2009)

[…] As boas notícias continuaram durante todo o ano de 1955. Ataulfo gravou na Sinter o seu primeiro long-play, que recebeu o título de “Ataulfo Alves, Suas Pastoras e Seus Sucessos” . Era o tempo em que os Lps eram discos de 10 polegadas e no máximo com oito faixas. […] Lúcio Rangel saudou o lançamento em sua coluna na Manchete, dizendo que se tratava de uma “boa notícia para os admiradores do sambista que sabe imprimir em suas composições um toque de melancolia e humanidade, fazendo de suas produções ponto alto de nossa música popular”. Lúcio elogiou também Ataulfo como intérprete, assinalando que “sua maneira de cantar, simples e encantadora”, era “sem pretensões e, por isso mesmo, digna de emparelhar com a dos nossos melhores cantores. As pastoras dão colorido e graça”.

O compositor Luís de França, funcionário do setor de divulgação da Sinter, informou aos colunistas que, “em dez dias, foram vendidas mais de duas mil cópias” do Lp. Para quem sabe que, com o advento do CD, dois mil exemplares de disco é a cota apenas de uma grande loja de departamentos, a informação de Luís de França parece ridícula, mas em 1955, quando a venda de aparelhos apropriados para long-plays era limitada aos consumidores de bom poder aquisitivo, dois mil discos deixavam qualquer gravadora feliz.

Ai que saudades de Ataulfo

Um sucesso que incomodou os autores da época

Gravado por Carmem Miranda, Orlando Silva e Silvio Caldas, ele colecionou amigos e desafetos com a mesma intensidade
.
É justo tudo o que se diz sobre as obras de Cartola, Nélson Cavaquinho e Ismael Silva. Mas não que a de Ataulfo Alves seja relegada a plano inferior por críticos e historiadores. Nos anos 60, quando seus últimos sucessos realmente não estavam à altura de seu talento (incluindo “Na Cadência do Samba” e “Passa e Eu Acho Graça”), usou-se isso como argumento, esquecendo-se o melhor Ataulfo Alves, das antigas obras-primas.

— Era o mais bem-sucedido sambista, de protegido passou a personalidade — defende Martinho da Vila. — Ele era tão importante para mim que a primeira vez que o vi, na Avenida Rio Branco, todo elegante, fiquei andando ao seu lado só para admirá-lo mais de perto .

[…]

— Ele (Ataulfo) esteve atuante durante quatro décadas e isso não é pouca coisa no Brasil — diz Cazes. — Fez com que o samba tivesse uma formatação profissional.

Muitos encontram outras razões para seu esquecimento. Falava-se muito de outros aspectos do homem. Por exemplo: de não ter tratado bem suas pastoras, patrão exigente e vezes intolerante, quando cantava acompanhado por elas.

— Havia também muito ciúme de outros autores que estavam começando na mesma época e tinham o mesmo desenvolvimento musical dele — conta Roberto Silva, o “Príncipe do samba”. — Quase tudo o que ele fazia era sucesso, por isso acabou sendo tão invejado.

Temperamento interiorano e melodias banhadas em tristeza

Ataulfo Alves começou sob a influência do Estácio, região que reunia os mais legítimos representantes de um samba que, a partir dos anos 20, opôs-se esteticamente ao que se fazia na Cidade Nova, primo-irmão do maxixe. Foi uma oposição natural esta que os bambas do Estácio fizeram às composições de Sinhô, Caninha, Pixinguinha, João da Baiana, Donga, freqüentadores dos clubes de dança do local e das festas de tias baianas como Ciata. Esse samba era, fundamentalmente, dançante, enquanto o do Estácio, que seria como “samba de morro”, tinha outro espírito, mais lento, mais melódico, mais triste, embora muitos fossem feitos para a única atividade que a polícia lhes permitia fora do morro: desfilar no Carnaval.

O que torna suas composições inconfundivelmente suas é o seu temperamento interiorano. Há nas melodias de Ataulfo uma tristeza que soa como mistura das dores de amor que todo bom sambista cantava com uma nostálgica da infância.

— Há dois momentos de suas composições — analisa Cazes […] — Ele tinha um estilo de estrutura em tom menor, como em canções como “Laranja Madura”, e outras em maior, como “Atire a Primeira Pedra”. Chamavam-no de repetitivo mas há muitas coisas dele que ninguém conhece.

O melhor Ataulfo está no que ele próprio interpretou com sua voz negra, triste, quase súplice, em “Leva Meu Samba” (sua estréia como cantor), “Ai que Saudades da Amélia”, “Sei que É Covardia”, “Atire a Primeira Pedra”, “Vida da Minha Vida”, “Meu Lamento”, “Vai na Paz de Deus”

— Ninguém tomou conhecimento de “Atire a Primeira Pedra” quando o disco foi lançado — lembra Mário Lago. — Certa vez passei pela Praça da Bandeira e vi um grupo de jovens cantando a música. Pensei: “Deve ser algum parente meu”. Quando cheguei em casa, minha mãe estava esfuziante com o sucesso. Encontrei o Ataulfo “empilecado” no Café Nice de tanta felicidade. Nunca o tinha visto assim.

Ataulfo brilha também em vozes de Carmem Miranda, Orlando Silva, Silvio Caldas, Aracy de Almeida. Para Herivelto Martins, que o criticara por maltratar a Amélia (Herivelto não se conformava por sua “Praça Onze” dividir com o clássico de Ataulfo e Mário Lago as glórias do Carnaval de 1942), fez o imerecidamente esquecido “Represália”.

NA CADÊNCIA DE UM BAMBA MINEIRO

• 1909: Nasce, a 2 de maio, na fazenda Cachoeiro, município de Miraí (MG)
• 1917: Participa das rodas de desafio em que o pai, o sanfoneiro e repentista Severino Sousa, o Capitào Severino, se destaca.
• 1919: Morre o pai. Muda-se com a mãe e seis irmãos para o centro de Miraí.
• 1920: Começa a trabalhar. Seria leiteiro, jornaleiro, carregador de malas, tocador de gado, engraxate.
• 1927: Muda-se para o Rio. Trabalha como lavador de vidros na Drogaria do Povo e, no ano seguinte, torna-se prático em farmácia.
• 1929: Tocando violão, cavaquinho e bandolim, começa a compor. Assume o cargo de diretor de harmonia no Fale Quem Quiser, bloco do Rio Comprido.
• 1933: Levado por Bide ao Mister Evans, da Victor, tem suas primeiras composições gravadas: “Sexta-feira” (Almirante) e ” Tempo Perdido” (Carmen Miranda).
• 1935: O primeiro sucesso, com “Saudade do Meu Barracão”, na voz de Floriano Belham. Um ano depois, outro sucesso: “Saudade Dela”, com Silvio Caldas.
• 1941: Acompanhado pelas pastoras, estréia como cantor gravando seu “Leva Meu Samba”.
• 1942: Diante da recusa de vários intérpretes, ele mesmo grava “Ai que Saudades da Amélia”, música sua para versos de Mário Lago.
• 1954: Depois de período em que todo o samba andou em segundo plano, lança “Pois É” no show “O Samba Nasce no Coração”, na boate Casablanca. Novo sucesso.
• 1955: Grava “Pois É” e sete outras composições suas em seu primeiro Lp, selo Sinter. Passa a ter programa semanal na Rádio Nacional.
• 1956: Pancetti pinta quadro inspirado em “Pois É”. Ataulfo lhe dedica “Lagoa Serena”.
• 1961: Viaja pela Europa em caravana liderada por Humberto Teixeira.
• 1966: Separa-se das pastoras. Viaja para o Festival de Arte Negra em Dacar.
• 1969: Morre, a 20 de abril, de hemorragia interna depois de cirurgia para eliminar uma úlcera estomacal.

O Globo, 28 de março de 1999

Ataulfo Alves, Suas Pastoras e Seus Sucessos

1955, Sinter (SLP 1042)
DISCO É CULTURA

REPERTÓRIO

Ai! que Saudade da Amelia
Ataulfo Alves – Mário Lago
[ ouça ♫ ]

nunca vi fazer tanta exigência
nem fazer o que você me faz
você não sabe o que é consciência
não vê que eu sou um pobre rapaz
você só pensa em luxo e riqueza
tudo o que você vê, você quer
ai, meu Deus, que saudade da Amélia
aquilo sim é que era mulher
às vezes passava fome ao meu lado
e achava bonito não ter o que comer
quando me via contrariado
dizia: “meu filho, o que se há de fazer!”
Amélia não tinha a menor vaidade
Amélia é que era mulher de verdade

Vida de Minha Vida
Ataulfo Alves
[ ouça ♫ ]

minha musa inspiradora
minha noite de luar
agradeço ao criador
que me fez tão sonhador
pra melhor te exaltar

rima rica do meu verso
minha canção preferida
melodia do meu samba
vida da minha própria vida

estrela que brilham mais
que uma constelação
nestas noites de verão
ilumina os dias meus
minha querida
vida da minha própria vida

Pai Joaquim D’Angola
Composed By – Ataulfo Alves
[ ouça ♫ ]

dim dim dim dim dim dim
vamos saravá Pai Joaquim

já decorei meu pandeiro
já afinei a viola
agora vou pro terreiro
chegou Pai Joaquim D’Angola

toma cuidado menina
pega de leve Iaiá
voce é de Canga Mina
mas eu também sou de lá

Pois É…
Ataulfo Alves
[ ouça ♫ ]

pois é
falaram tanto que desta vez
a morena foi embora
disseram que ela era a maioral
e eu é quem não soube aproveitar
endeusaram a morena tanto, tanto
que ela resolveu me abandonar

a maldade nessa gente é uma arte
tanto fizeram que houve a separação, ai, ai, ai
mulher a gente encontra em toda parte
mas não se encontra a mulher que a gente tem no coração

Infidelidade
Américo Seixas – Ataulfo Alves
[ ouça ♫ ]

aquele que considera
o amor uma quimera
vive longe do sofrer
tem sempre os olhos enxutos
crer no amor de dez minutos
que nelas não deve crer
são falsas na maioria
é quando o homem confia
em tudo que a mulher diz
eis a traição consumada
uma vida desgraçada
um lar a mais infeliz

gostei de uma criatura
sem moral, sem compostura
sem coração, sem pudor
era dono do negócio
sem saber que havia um sócio
na firma do nosso amor
felizmente ainda alegra
saber-se que toda regra
tem sempre a sua excessão
não julgo todas por uma
pode ser que haja alguma
com pudor e coração

Leva Meu Samba
Ataulfo Alves
[ ouça ♫ ]

leva meu samba
meu mensageiro
esse recado
para o meu amor primeiro
vá dizer que ela é
a razão dos meus “ais”
não, não posso mais!

eu que pensava
que podia lhe esquecer
mas qual o que
aumentou o meu sofrer
falou mais alto
no meu peito uma saudade
e para o caso não há força de vontade
aquele samba
foi pra ver se comovia o seu coração
onde eu dizia: vim buscar o meu perdão!

Atire a Primeira Pedra
Ataulfo Alves – Mário Lago
[ ouça ♫ ]

covarde sei que me podem chamar
porque não calo no peito dessa dor
atire a primeira pedra, ai, ai, ai
aquele que não sofreu por amor

eu sei que vão censurar
o meu proceder
eu sei, mulher,
que você mesma vai dizer
que eu voltei pra me humilhar
é, mas não faz mal
você pode até sorrir
perdão foi feito pra gente pedir

Vai na Paz de Deus
Antonio Domingues – Ataulfo Alves
[ ouça ♫ ]

vai na paz de Deus
não devo impedir
sei que os olhos meus
vão reclamar, vão te seguir

sei que a tua ausência
vai causar meu padecer
mas com paciência
poderei te esquecer


Considerações finais

Espero que você tenha gostado desse post com o álbum de Ataulfo Alves com as suas Pastoras, lançado em 1955 pela SINTER.

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