Diplomacia – Antologia de um sambista

Disco Batatinha

“Diplomacia”, álbum póstumo do baiano Oscar da Penha (1924-1997) – o Batatinha – chega ao mercado, mais de dois anos depois de ter sido iniciado pelo próprio artista.


Torna-se, segundo seus produtores, os também baianos J. Velloso, 37, e Paquito, 34, uma tentativa a mais de tornar nacional o nome do sambista, quase sempre restrito à própria Bahia.

Não era para ser assim. Batatinha morreu de câncer pouco depois de ter terminado de gravar as 12 faixas que canta em “Diplomacia” – outras cinco faixas são interpretadas por Maria Bethânia, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e Jussara Silveira.

Em seu início, o projeto pretendia restabelecer justiça à importância de Batatinha e se contrapor à enxurrada de música comercial a que a Bahia assiste com a axé music. Batatinha não esperou para empreender a batalha.

É a estréia na produção dos compositores e parceiros Paquito e J. Velloso. “Fomos produzir porque não surgiu ninguém disposto a fazer isso. Começamos como fãs, sabendo da importância dele, procurando realçar suas melodias e suas letras”, diz Velloso, sobrinho de Caetano e Bethânia.

Tem sido a cantora, nos últimos 30 anos, a maior divulgadora nacional do “samba em tom menor” produzido por Batatinha – em seu primeiro LP, “Maria Bethânia” (65), já o gravava.

Compondo predominantemente sambas carnavalescos, Batatinha costumava perder todos os concursos em que entrava – os juízes consideravam suas canções tristes demais para o Carnaval.

Se existe ‘samba da Bahia’, é esse, o do Batatinha. Baiano é assim. Sou mangueirense doente, mas não sei sambar. Baiano samba de costas. No Batatinha, sempre senti aquela tristeza. Ouvia Billie Holiday e Batatinha, achava tudo igual

Maria Bethânia

A cantora fala de sua convivência com o sambista: “Eu era muito amiga dele, a gente conversava, saía junto. Era muito engraçado, muito alegre, gozador, brincalhão. A tristeza estava na composição”. “Toda dor ele transferia para a música”, completa Velloso.

Bethânia credita ao próprio Batatinha o fato de não ter se feito célebre Brasil afora, mesmo se filiando à linhagem de compositores a que pertencem os cariocas e bem mais conhecidos Cartola e Nelson Cavaquinho.

“Era bem o estilo dele, não queria sair da Bahia. Ele era pouco ambicioso demais. Mas era uma estratégia que ele fez, ele gostava do mal-acabado. Essa é a diferença dele para as novas gerações da música baiana: esses novos querem conquistar o Brasil e o mundo. Ele estava lá, não queria sair, não estava preocupado.”

A cantora não se esquiva de, indiretamente, reconhecer quebra de tradição no transcurso entre o samba de Batatinha e o atual samba baiano – o axé. Assim responde à pergunta: “Sua música é intuitiva, inspirada, muito diferente da música baiana atual, que tem essa proposta de acontecer. A dele é muito, muito mais refinada”.

J. Velloso explica o processo de confecção do CD, no início sob o desígnio de Batatinha: “Ele não tinha qualquer controle sobre sua obra, não registrava nada, só na memória. Fomos pedindo para ele lembrar as canções com um gravadorzinho, em casa. Acabamos gravando mais de 70 músicas”.

O fato de apenas umas poucas de suas canções – “Hora da razão”, “O circo”, “Toalha da saudade”, “Imitação”, “Diplomacia” – serem esporadicamente regravadas indica que a grande maioria dessas 70 músicas é totalmente inédita.

Não há expectativa, entretanto, de que venham à tona na voz de Batatinha. “As fitas não têm condições de lançamento, algumas eram velhas, usadas”, afirma Paquito. “Mas um dos filhos dele tem um show gravado em São Paulo e quer aproveitá-lo”, emenda Velloso.

Com sua obra anterior fora de catálogo, por enquanto só “Diplomacia” recoloca no mercado um pouco da arte de Batatinha.

Pedro Alexandre Sanches
Folha-UOL

Álbum póstumo com participações de Maria Bethânia, Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil tenta nacionalizar nome do sambista baiano morto no início de 97

Abaixo, transcrevo o texto assinado por Cid Teixeira, publicado no encarte do CD.

No meio da década de quarenta, Oscar da Penha, aquele “boy” muito magro e muito cheio de ginga, que trabalha na redação dos Diários Associados, um dia perdeu o acanhamento e se escreveu para cantar no programa de calouros que Antônio Maria apresentava para a Rádio Sociedade no palco do Cine-Teatro Guarani. Outro cantor – este carioca – também calouro, magro e bom de ginga e que fazia sucesso em discos era Vassourinha. O crioulo daqui imitava o crioulo de lá, inclusive interpretando o repertório. Até que Antônio Maria, que sabia tudo de rádio, descobriu que o “boy” Oscar da Penha era muito mais que um imitador. Ali nasceu Batatinha.

Amigo de já não sei quantos anos, tive que segurar a emoção (e não consegui) quando Batatinha, já muito doente, falou comigo para escrever a apresentação deste disco. Honra para qualquer, esta de falar de quem tem lugar seguro entre os autores antológicos da MPB.

A obra de Batatinha é um permanente exercício autobiográfico. Talvez tenha sido a vida de jornal, onde foi gráfico por muitos anos, que lhe imprimiu o gosto pela obervação do dia-a-dia, pela reportagem. Casos vividos no cotidiano de sua vida boêmia, episódios que os menos atentos esqueceriam facilmente, transforma-se, nos seus sambas em depoimentos, flagrantes, análises da mais alta intensidade.

E, além disto, o melhor de Batatinha: sua poesia intimista e pungente. Sua inexcedível capacidade de traduzir em versos as angústias existenciais, sublimando-as como pouquíssimos foram ou são capazes.

Meu desespero ninguém vê/ Sou diplomado em matéria de sofrer…

Batatinha

Quanto “Poeta oficial”, mais ou menos inédito e, certamente, inaudito, daria tudo para ter escrito versos assim…

Poeta e músico, Batatinha tem neste disco o reconhecimento maior por tudo quanto fez. A seleção do repertório e a escolha dos intérpretes feitas com extremo cuidado dão-lhe o reconhecimento de que tantgo ele é credor.

Cid Teixeira


Outro texto que achei sobre “Diplomacia”, transcrevo a seguir:

Despedida e legado

Apesar de reconhecido e admirado no meio musical, Batatinha encontrava dificuldades para fazer circular seu trabalho na década de 1990. A indústria fonográfica da Bahia tinha se voltado quase que exclusivamente para a axé music, então no seu auge. É na contracorrente desse movimento que os jovens produtores J. Velloso e Paquito procuram Batatinha e lhe propõem a gravação de um novo disco, formatado como espécie de songbook, com a participação de grandes nomes da música brasileira. O novo projeto devolve o ânimo ao sambista nos seus últimos anos.

Entretanto, tão logo entram em estúdio para a gravação, a notícia de que um câncer acometia o artista mexe com todos os envolvidos. Mas do hospital ele manda seu recado: “Diga aos meninos que eu vou sair pra gravar esse disco”. E assim foi. Tão logo o poeta recobrou forças, voltou para o estúdio, agora com a vontade de concretizar o que, estava claro, seria seu último registro. Quando o derradeiro disco ficou finalmente pronto, Batatinha já não estava entre nós, partira no dia 04 de janeiro de 1997. Nos deixou “Diplomacia” como adeus em forma de música, último acorde num legado que conclama o nosso direito de sambar.

Diplomacia – Antologia de um sambista

A história do último disco de Batatinha é uma história de muitos contratempos, mas de uma vontade ainda maior de realização. Tudo começou quando os jovens produtores Paquito e J. Velloso resolveram produzir em Salvador um disco que fizesse o devido contraponto à axé music, então no seu apogeu. A ideia era oferecer ao público uma música baiana que, naquele momento, era relegada. A escolha dos dois foi imediata e certeira: quem melhor para representar esse esforço se não o mestre Batata?

Os produtores procuram o sambista que, de pronto, topa encarar o desafio. Era a chance de gravar um novo trabalho, dessa vez recebendo o tratamento merecido. A proposta desde o início era prestar uma reverência a Batatinha, convidando intérpretes de renome nacional para participarem desse trabalho, que pudesse ficar para posteridade como um songbook. Foram horas de entrevistas com o compositor para recuperar suas histórias e antigas canções, para escolher o repertório posteriormente. Definidos objetivos e perfil do projeto, os produtores resolvem inscrevê-lo no Prêmio Copene. Com muita ansiedade, aguardaram o resultado e, para a surpresa de todos, ele não foi classificado.

Todavia, os produtores tinham inscrito o projeto tão confiantes da sua qualidade e da sua importância que já haviam começado as gravações, mesmo sem qualquer garantia. Wesley Rangel, dono dos estúdios WR, cedeu o espaço e, timidamente, eles já faziam a passagem de som, testavam repertório, Batatinha colocava voz em algumas canções etc. Assim, a desclassificação foi um golpe sobre todos, seguido de um golpe ainda maior. Logo em seguida, Batatinha foi internado às pressas, confirmando a desconfiança de que ele estava bastante doente, acometido por um câncer.

Em meio a tanta desesperança, algo de bom finalmente aconteceria. Num show do amigo Roberto Mendes, J. Velloso acaba por conhecer Rodolfo Tourinho, à época secretário da Fazenda do Estado da Bahia, um homem sensível às artes. Ele, ao saber de toda a situação, abraça imediatamente o projeto e o torna financeiramente viável. A partir daí, começa uma corrida contra o tempo, tudo era arranjado para que Batatinha pudesse retomar as gravações imediatamente, tão logo saísse do hospital. Em nenhum momento duvidaram da convicção do sambista, que lhes tinha mandado recado: “Diga aos meninos que eu vou sair pra gravar esse disco”.

Como prometido, aconteceu. Batatinha sai do hospital e, mesmo abatido, corre para o estúdio. Àquela altura, já estava claro para todos que aquele seria seu último trabalho e seu maior legado. O artista aparentava essa consciência. A dedicação de todos os envolvidos aumentava na mesma medida em que viam seu enorme esforço para vencer o tempo e a doença. A prioridade era registrar a voz do cantor acompanhado de sua caixa de fósforos e mais um violão, para só depois colocar os outros instrumentos. Em seguida, os convidados gravariam sua parte. Eis que perto do fim do projeto, Batatinha é novamente internado e, dessa vez, não resiste, despedindo-se no dia 04 de janeiro de 1997.

O sentimento de pesar se abate em todo o meio artístico da Bahia, mas os produtores e músicos não permitem que a tristeza os paralise e agora, mais do que nunca, se veem na obrigação de fazer jus à memória de Batatinha e terminar o disco. Faz-se um esforço enorme para atender a todas as últimas vontades do mestre, que anteriormente tinha deixado especificado tudo: os intérpretes a ser chamados, a capa que ele pediu a Carybé, o texto do disco a Cid Teixeira.

“Diplomacia” só ficaria pronto meses após a morte de Batatinha. E ainda um último desafio: não havia mais dinheiro para a fabricação das cópias. Nesse ponto, a maior intérprete do compositor irá intervir. Maria Bethânia viabiliza o lançamento nacional do disco por meio de sua gravadora, a EMI, em 1998. O clima em torno do disco é, a um só tempo, de felicidade e melancolia, a saudade imperando entre todos que tiveram a honra de conhecer o diplomata do samba. E como prova de que todos os percalços valeram a pena, “Diplomacia” se torna um disco de enorme êxito e faz justiça, recolocando o nome de Batatinha no rol dos grandes sambistas do Brasil.

Musicaria Brasil


Batatinha, Diplomacia – Antologia de um sambista (1998, EMI Music 494858 2) – DISCO É CULTURA

Disco Batatinha

/faixas e músicos

“Depois eu volto” (J. Luna – Batatinha) – Batatinha (voz e caixa de fósforos), Cezar Mendes (violão e arranjo) — ouça ♫ ;

“Conselheiro” (Batatinha – Paulo César Pinheiro) – Batatinha (voz), Cláudio Du Val (celo), Cacau do Pandeiro (tamborim), Fernando Burgos (violão), Lanlan (surdo), Fernando Burgos (arranjo) — ouça ♫ ;

“Direito de sambar” (Batatinha) – Batatinha (voz e caixa de fósforos), Cézar Mendes (violão), Ivan Huol (tamborim, moringa e ovo), Tota Portela (flauta) — ouça ♫ ;

“Pra todo efeito” (Batatinha – Lula Carvalho); Caetano Veloso (voz e assobio), Cézar Mendes (violão e arranjo), Lanlan (moringa) — ouça ♫ ;

“Bebê diferente” (Batatinha) – Batatinha (voz), Fernando Burgos (violão), Cláudia Sales (fagote), Luiz Brasil (violão tenor), Cacau do Pandeiro (pandeiro, tamborim e surdo), Fernando Burgos (arranjo) — ouça ♫ ;

“De revólver não” (Batatinha) – Batatinha, Nelson Rufino, Walmir Lima, Edil Pacheco e Riachão (voz), Roberto Mendes (violão), Ailton Reiner (cavaquinho), Edson Sete Cordas (violão 7 cordas), Cacau do Pandeiro (pandeiro), Helena Rodrigues (flauta), Roberto Mendes (arranjo) — ouça ♫ ;

“Hora da razão” (Batatinha – J. Luna) – Batatinha (voz e caixa de fósforos), Cézar Mendes (violão e arranjo) — ouça ♫ ;

“Bolero” (Batatinha – Roque Ferreira) – Batatinha (voz), Cézar Mendes (violão e arranjo), Cândida Lobão (celo), Edson Sete Cordas (violão 7 cordas), Tuzé de Abreu (arranjo) — ouça

“Imitação” (Batatinha) – Gilberto Gil (voz e violão) — ouça ♫ ;

“Jajá da Gamboa” (Batatinha) – Batatinha (voz), Fernando Burgos (violão e arranjo), Fred Dantas (trombone), Cacau do Pandeiro (pandeiro) — ouça ♫ ;

“Fala de Batatinha” / “Ministro do samba” (Batatinha) – Batatinha (voz), Fernando Burgos (violão, arranjo e coro), Edson Sete Cordas (violão 7 cordas), Cacau do Pandeiro (pandeiro), Lanlan (surdo e tamborim), Ailton Reiner (cavaquinho), Cézar Mendes, Edy Oliveira, J. Velloso, Marle Oliveira e Paquito — ouça ♫ ;

“Ironia” (Batatinha – Ederaldo Gentil) – Jussara Silveira (voz), Eduardo Luedy (violão), Paquito (violão), Tuzé de Abreu (flauta), Lanlan (pandeiro) — ouça ♫ ;

“Zé de Loca” (Batatinha) – Batatinha (voz), Edson Sete Cordas (violão 7 cordas), Ailton Reiner (cavaquinho), Cacau do Pandeiro (pandeiro), Fred Dantas (trombone), Edson Sete Cordas e Fernando Burgos (arranjo) — ouça ♫ ;

“Toalha da saudade” (J. Luna – Batatinha) – Chico Buarque (voz), Fernando Burgos (violão), Jailson Coelho (violão), Edson Sete Cordas (violão 7 cordas), Cacau do Pandeiro (pandeiro), Ailton Reiner (bandolim e cavaquinho), Lanlan (surdo, pandeiro e borda) Edson Sete Cordas (arranjo) — ouça ♫ ;

“Diplomacia” (Batatinha – J. Luna) / “Só eu sei” (Batatinha – J. Luna) / “Fala de Batatinha” – Batatinha (voz), Fernando Burgos (violão), Luciano Chaves (flauta), Antônio Sarquis (contrabaixo), Cacau do Pandeiro (pandeiro), Edy Oliveira, Fernando Burgos, J. Velloso, Marle Oliveira, Paquito (coro), Fernando Burgos (arranjo) — ouça ♫ ;

“Bolero” (Batatinha – Roque Ferreira) – Maria Bethânia (voz), Cesar Mendes (violão e arranjo) — ouça ♫ ;

“Foguete particular” (Batatinha) – Batatinha (voz), Fernando Burgos (violão), Fred Dantas (trombone), Antônio Sarquis (contrabaixo), Cacau do Pandeiro (pandeiro), Fernando Burgos (arranjo) — ouça ♫ .


J. Velloso e Paquito (produção), Gravado em Salvador, entre setembro de 1966 e março de 1997.

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