Diplomacia

Batatinha Diplomacia

“Diplomacia”, álbum póstumo do baiano Oscar da Penha (1924-1997) – o Batatinha – chega ao mercado, mais de dois anos depois de ter sido iniciado pelo próprio artista.


Torna-se, segundo seus produtores, os também baianos J. Velloso, 37, e Paquito, 34, uma tentativa a mais de tornar nacional o nome do sambista, quase sempre restrito à própria Bahia. Não era para ser assim. Batatinha morreu de câncer pouco depois de ter terminado de gravar as 12 faixas que canta em “Diplomacia” – outras cinco faixas são interpretadas por Maria Bethânia, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e Jussara Silveira.

Em seu início, o projeto pretendia restabelecer justiça à importância de Batatinha e se contrapor à enxurrada de música comercial a que a Bahia assiste com a axé music. Batatinha não esperou para empreender a batalha.

É a estréia na produção dos compositores e parceiros Paquito e J. Velloso. “Fomos produzir porque não surgiu ninguém disposto a fazer isso. Começamos como fãs, sabendo da importância dele, procurando realçar suas melodias e suas letras”, diz Velloso, sobrinho de Caetano e Bethânia. Tem sido a cantora, nos últimos 30 anos, a maior divulgadora nacional do “samba em tom menor” produzido por Batatinha – em seu primeiro LP, “Maria Bethânia” (65), já o gravava.

Compondo predominantemente sambas carnavalescos, Batatinha costumava perder todos os concursos em que entrava – os juízes consideravam suas canções tristes demais para o Carnaval.

Se existe ‘samba da Bahia’, é esse, o do Batatinha. Baiano é assim. Sou mangueirense doente, mas não sei sambar. Baiano samba de costas. No Batatinha, sempre senti aquela tristeza. Ouvia Billie Holiday e Batatinha, achava tudo igual

Maria Bethânia

A cantora fala de sua convivência com o sambista: “Eu era muito amiga dele, a gente conversava, saía junto. Era muito engraçado, muito alegre, gozador, brincalhão. A tristeza estava na composição”. “Toda dor ele transferia para a música”, completa Velloso.

Bethânia credita ao próprio Batatinha o fato de não ter se feito célebre Brasil afora, mesmo se filiando à linhagem de compositores a que pertencem os cariocas e bem mais conhecidos Cartola e Nelson Cavaquinho.

“Era bem o estilo dele, não queria sair da Bahia. Ele era pouco ambicioso demais. Mas era uma estratégia que ele fez, ele gostava do mal-acabado. Essa é a diferença dele para as novas gerações da música baiana: esses novos querem conquistar o Brasil e o mundo. Ele estava lá, não queria sair, não estava preocupado.”

A cantora não se esquiva de, indiretamente, reconhecer quebra de tradição no transcurso entre o samba de Batatinha e o atual samba baiano – o axé. Assim responde à pergunta: “Sua música é intuitiva, inspirada, muito diferente da música baiana atual, que tem essa proposta de acontecer. A dele é muito, muito mais refinada”.

J. Velloso explica o processo de confecção do CD, no início sob o desígnio de Batatinha: “Ele não tinha qualquer controle sobre sua obra, não registrava nada, só na memória. Fomos pedindo para ele lembrar as canções com um gravadorzinho, em casa. Acabamos gravando mais de 70 músicas “.

O fato de apenas umas poucas de suas canções – “Hora da Razão”, “O Circo”, “Toalha da Saudade”, “Imitação”, “Diplomacia” – serem esporadicamente regravadas indica que a grande maioria dessas 70 músicas é totalmente inédita. Não há expectativa, entretanto, de que venham à tona na voz de Batatinha. “As fitas não têm condições de lançamento, algumas eram velhas, usadas”, afirma Paquito. “Mas um dos filhos dele tem um show gravado em São Paulo e quer aproveitá-lo”, emenda Velloso.

Com sua obra anterior fora de catálogo, por enquanto só “Diplomacia” recoloca no mercado um pouco da arte de Batatinha.

Pedro Alexandre Sanches
Folha-UOL

Abaixo, transcrevo o texto assinado por Cid Teixeira, publicado no encarte do CD.

No meio da década de quarenta, Oscar da Penha, aquele “boy” muito magro e muito cheio de ginga, que trabalha na redação dos Diários Associados, um dia perdeu o acanhamento e se escreveu para cantar no programa de calouros que Antônio Maria apresentava para a Rádio Sociedade no palco do Cine-Teatro Guarani. Outro cantor – este carioca – também calouro, magro e bom de ginga e que fazia sucesso em discos era Vassourinha. O crioulo daqui imitava o crioulo de lá, inclusive interpretando o repertório. Até que Antônio Maria, que sabia tudo de rádio, descobriu que o “boy” Oscar da Penha era muito mais que um imitador. Ali nasceu Batatinha.

Amigo de já não sei quantos anos, tive que segurar a emoção (e não consegui) quando Batatinha, já muito doente, falou comigo para escrever a apresentação deste disco. Honra para qualquer, esta de falar de quem tem lugar seguro entre os autores antológicos da MPB.

A obra de Batatinha é um permanente exercício autobiográfico. Talvez tenha sido a vida de jornal, onde foi gráfico por muitos anos, que lhe imprimiu o gosto pela observação do dia-a-dia, pela reportagem. Casos vividos no cotidiano de sua vida boêmia, episódios que os menos atentos esqueceriam facilmente, transforma-se, nos seus sambas em depoimentos, flagrantes, análises da mais alta intensidade.

E, além disto, o melhor de Batatinha: sua poesia intimista e pungente. Sua inexcedível capacidade de traduzir em versos as angústias existenciais, sublimando-as como pouquíssimos foram ou são capazes.

Meu desespero ninguém vê. Sou diplomado em matéria de sofrer…

Batatinha

Quanto “Poeta oficial”, mais ou menos inédito e, certamente, inaudito, daria tudo para ter escrito versos assim…

Poeta e músico, Batatinha tem neste disco o reconhecimento maior por tudo quanto fez . A seleção do repertório e a escolha dos intérpretes feitas com extremo cuidado dão-lhe o reconhecimento de que tanto ele é credor.

Cid Teixeira


Outro texto que achei sobre “Diplomacia”, transcrevo a seguir:

Despedida e legado

Apesar de reconhecido e admirado no meio musical, Batatinha encontrava dificuldades para fazer circular seu trabalho na década de 1990. A indústria fonográfica da Bahia tinha se voltado quase que exclusivamente para a axé music, então no seu auge. É na contracorrente desse movimento que os jovens produtores J. Velloso e Paquito procuram Batatinha e lhe propõem a gravação de um novo disco, formatado como espécie de songbook, com a participação de grandes nomes da música brasileira. O novo projeto devolve o ânimo ao sambista nos seus últimos anos.

Entretanto, tão logo entram em estúdio para a gravação, a notícia de que um câncer acometia o artista mexe com todos os envolvidos. Mas do hospital ele manda seu recado: “Diga aos meninos que eu vou sair pra gravar esse disco”. E assim foi. Tão logo o poeta recobrou forças, voltou para o estúdio, agora com a vontade de concretizar o que, estava claro, seria seu último registro. Quando o derradeiro disco ficou finalmente pronto, Batatinha já não estava entre nós, partira no dia 04 de janeiro de 1997. Nos deixou “Diplomacia” como adeus em forma de música, último acorde num legado que conclama o nosso direito de sambar.

Diplomacia – Antologia de um sambista

A história do último disco de Batatinha é uma história de muitos contratempos, mas de uma vontade ainda maior de realização. Tudo começou quando os jovens produtores Paquito e J. Velloso resolveram produzir em Salvador um disco que fizesse o devido contraponto à axé music, então no seu apogeu. A ideia era oferecer ao público uma música baiana que, naquele momento, era relegada. A escolha dos dois foi imediata e certeira: quem melhor para representar esse esforço se não o mestre Batata?

Os produtores procuram o sambista que, de pronto, topa encarar o desafio. Era a chance de gravar um novo trabalho, dessa vez recebendo o tratamento merecido. A proposta desde o início era prestar uma reverência a Batatinha, convidando intérpretes de renome nacional para participarem desse trabalho, que pudesse ficar para posteridade como um songbook. Foram horas de entrevistas com o compositor para recuperar suas histórias e antigas canções, para escolher o repertório posteriormente. Definidos objetivos e perfil do projeto, os produtores resolvem inscrevê-lo no Prêmio Copene. Com muita ansiedade, aguardaram o resultado e, para a surpresa de todos, ele não foi classificado.

Todavia, os produtores tinham inscrito o projeto tão confiantes da sua qualidade e da sua importância que já haviam começado as gravações, mesmo sem qualquer garantia. Wesley Rangel, dono dos estúdios WR, cedeu o espaço e, timidamente, eles já faziam a passagem de som, testavam repertório, Batatinha colocava voz em algumas canções etc. Assim, a desclassificação foi um golpe sobre todos, seguido de um golpe ainda maior. Logo em seguida, Batatinha foi internado às pressas, confirmando a desconfiança de que ele estava bastante doente, acometido por um câncer.

Em meio a tanta desesperança, algo de bom finalmente aconteceria. Num show do amigo Roberto Mendes, J Velloso acaba por conhecer Rodolfo Tourinho, à época secretário da Fazenda do Estado da Bahia, um homem sensível às artes. Ele, ao saber de toda a situação, abraça imediatamente o projeto e o torna financeiramente viável. A partir daí, começa uma corrida contra o tempo, tudo era arranjado para que Batatinha pudesse retomar as gravações imediatamente, tão logo saísse do hospital. Em nenhum momento duvidaram da convicção do sambista, que lhes tinha mandado recado: “Diga aos meninos que eu vou sair pra gravar esse disco”.

Como prometido, aconteceu. Batatinha sai do hospital e, mesmo abatido, corre para o estúdio. Àquela altura, já estava claro para todos que aquele seria seu último trabalho e seu maior legado. O artista aparentava essa consciência. A dedicação de todos os envolvidos aumentava na mesma medida em que viam seu enorme esforço para vencer o tempo e a doença. A prioridade era registrar a voz do cantor acompanhado de sua caixa de fósforos e mais um violão, para só depois colocar os outros instrumentos. Em seguida, os convidados gravariam sua parte. Eis que perto do fim do projeto, Batatinha é novamente internado e, dessa vez, não resiste, despedindo-se no dia 04 de janeiro de 1997.

O sentimento de pesar se abate em todo o meio artístico da Bahia, mas os produtores e músicos não permitem que a tristeza os paralise e agora, mais do que nunca, se veem na obrigação de fazer jus à memória de Batatinha e terminar o disco. Faz-se um esforço enorme para atender a todas as últimas vontades do mestre, que anteriormente tinha deixado especificado tudo: os intérpretes a ser chamados, a capa que ele pediu a Carybé, o texto do disco a Cid Teixeira.

“Diplomacia” só ficaria pronto meses após a morte de Batatinha. E ainda um último desafio: não havia mais dinheiro para a fabricação das cópias. Nesse ponto, a maior intérprete do compositor irá intervir. Maria Bethânia viabiliza o lançamento nacional do disco por meio de sua gravadora, a EMI, em 1998. O clima em torno do disco é, a um só tempo, de felicidade e melancolia, a saudade imperando entre todos que tiveram a honra de conhecer o diplomata do samba. E como prova de que todos os percalços valeram a pena, “Diplomacia” se torna um disco de enorme êxito e faz justiça, recolocando o nome de Batatinha no rol dos grandes sambistas do Brasil.

Musicaria Brasil

Do jornal O Globo, outro texto, originalmente publicado em 13 de maior de 1998, assinado por Mario Marques.

Sambista Batatinha é lembrado em disco que reúne Bethânia, Caetano e Chico

Durante cerca de três meses, os compositores Paquito e J Velloso deixaram-se embevecer por uma iluminada batida numa caixa de fósforos. As mãos que mostravam uma habilidade incomum ajudaram os dois a tirar da memória do protagonista daquele pocket show canções que estavam perdidas na década de 70 e as levassem para o disco “Diplomacia” (EMI), que chega hoje às lojas. Morto no começo do ano passado de câncer, pobre, aos 72 anos, o baiano Oscar da Penha, o compositor Batatinha, não conseguiu mais que palmas esparsas em vida.

— Lembro-me que eu tinha paixão por samba em tom menor e isso e ele fazia muito bem — conta Maria Bethânia, que, em 1965, gravou em seu primeiro disco as músicas “Diplomacia” e “Só Eu Sei”. Bethânia gravaria mais tarde “Toalha da Saudade”, “Imitação” e “Hora da Razão”.

No CD-tributo, a voz de Batatinha está ao lado das de nomes como Bethânia, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Jussara Silveira. Com os sambistas baianos Riachão, Walmir Lima, Nelson Rufino e Edll Pacheco, Batatinha dividiu os vocais em “De Revólver, não!”.

— A intenção é dar a ele o lugar que sempre mereceu na MPB — diz Paquito, que selecionou 70 músicas para gravar 16. — Quando iniciamos o projeto, Batatinha foi internado e voltou muito debilitado. Depois de uma razoável melhora, conseguimos gravar.

Batatinha tinha uma popularidade restrita a Salvador. Suas letras combinavam tristeza e sobriedade, apesar de, pessoalmente, demonstrar o contrário.

— Certa vez, ele nos contou que perdia os concursos de MPB dos quais participava porque suas músicas eram tristes — lembra J Velloso.

Batatinha gravou apenas três LPs, todos fora de catálogo. Os dois primeiros, independentes: “Samba da Bahia” (73), “Toalha da Saudade” (76) e “50 Anos de Samba” (94).


Diplomacia – Antologia de um sambista

1998, EMI Music (494858 2)
DISCO É CULTURA

REPERTÓRIO

Depois Eu Volto
J Luna – Batatinha
Batatinha (voz e caixa de fósforos), Cezar Mendes (violão e arranjo)
[ ouça ♫ ]

é carnaval, é hora de sambar
peço licença ao sofrimento
depois eu volto pro meu lugar

dona tristeza, dê passagem à alegria
nem que seja por um dia
pois respeito sua posição
mas hoje eu reclamo com toda razão

Conselheiro
Batatinha – Paulo César Pinheiro
Batatinha (voz), Cláudio Du Val (celo), Cacau do Pandeiro (tamborim), Fernando Burgos (violão), Lanlan (surdo), Fernando Burgos (arranjo)
[ ouça ♫ ]

sou profissional do sofrimento
professor do sentimento
do amor fui artesão
mestre do viver já fui chamado
conselheiro do reinado
cujo rei é o coração

quebrei do peito a corrente
que me prendia à tristeza
dei nela um nó de serpente
ela ficou sem defesa
mas não fiquei mais contente
nem ela menos acesa
tristeza que prende a gente
dói tanto quanto a que é presa
abre meu peito por dentro
o amor entrou como um raio
saí correndo do centro
dentro do vento de maio

Direito de Sambar
Batatinha
Batatinha (voz e caixa de fósforos), Cézar Mendes (violão), Ivan Huol (tamborim, moringa e ovo), Tota Portela (flauta)
[ ouça ♫ ]

é proibido sonhar
então me deixe o direito de sambar

o destino não quer mais nada comigo
é meu nobre inimigo
e castiga de mansinho
para ele não dou bola
se não saio na escola,
sambo ao lado sozinho

é proibído sonhar
então me deixe o direito de sambar

já faz dois anos
que eu não saio na escola
a saudade me devora
quando vejo a turma passar
e eu mascarado, sambando na Avenida
imitando uma vida
que só eu posso enfrentar

tudo é carnaval
pra quem vive bem
pra quem vive mal

Pra todo Efeito
Batatinha – Lula Carvalho)
Caetano Veloso (voz e assobio), Cézar Mendes (violão e arranjo), Lanlan (moringa)
[ ouça ♫ ]

pra todo efeito
se sambar é meu defeito
queira me perdoar
é Carnaval
não me tire da jogada
eu hoje sambo até de madrugada

não existe razão
que um samba não vença
é toda minha ilusão
e também minha crença
mas é você o motivo
de todo esse calor
inspiração
de um velho sonhador

Bebê Diferente
Batatinha
Batatinha (voz), Fernando Burgos (violão), Cláudia Sales (fagote), Luiz Brasil (violão tenor), Cacau do Pandeiro (pandeiro, tamborim e surdo), Fernando Burgos (arranjo)
[ ouça ♫ ]

muito bebê chora, chora pra comer
muito bebê chora, cora pra valer
eu como sou um bebê diferente
e quando choro, quero aguardente

mamãe, mamãe eu quero aguardente
mamãe, mamãe estou tão contente
você bem sabe como é que a coisa vai
eu sou igualzinho a papai

De Revólver não
Batatinha
Batatinha, Nelson Rufino, Walmir Lima, Edil Pacheco e Riachão (voz), Roberto Mendes (violão), Ailton Reiner (cavaquinho), Edson Sete Cordas (violão 7 cordas), Cacau do Pandeiro (pandeiro), Helena Rodrigues (flauta), Roberto Mendes (arranjo)
[ ouça ♫ ]

quero saber como é que pode
a gente pescar de revólver

meu compadre Valdemar
numa certa pescaria
já estava tão encabulado
porque o peixe não aparecia
botou cachaça na isca
pra ver se o peixe bebia
mas o bicho é muito vivo
que nem bebe água fria
aí que o Valdemar
encontra a solução
apelou para o revólver
tome-lhe tiro e muito confusão
tome-lhe tiro e muita confusão
nada de peixe, ó meu irmão
tome-lhe tiro e muita confusão
nada de peixe, ó meu irmão

Hora da Razão
Batatinha – J. Luna
Batatinha (voz e caixa de fósforos), Cézar Mendes (violão e arranjo)
[ ouça ♫ ]

se eu deixar de sofrer
como é que vai ser
para me acostumar
se tudo é Carnaval
eu não devo chorar
pois eu preciso me encontrar

sofrer também é merecimento
cada um tem seu momento
quando a hora é da razão
alguém vai sambar comigo
e o nome eu não digo
guardo tudo no coração

Bolero
Batatinha – Roque Ferreira
Batatinha (voz), Cézar Mendes (violão e arranjo), Cândida Lobão (celo), Edson Sete Cordas (violão 7 cordas), Tuzé de Abreu (arranjo)
[ ouça ♫ ]

por muitos anos vivi
do palco ao camarim
pra você
me aplaudir
e se orgulhar de mim
fui bailarina na festa
dancei para lhe contentar
sorria
a rodar, a rodar

gastei a ilusão e a pintura
nessa ribalta de sonhos azuis
num papel que destrói
mas seduz
aí, um dia, sem eu perceber
veio um bolero e arrebatou
remocei
vivo em paz
terminou

Imitação
Batatinha
Gilberto Gil (voz e violão)
[ ouça ♫ ]

ninguém sabe quem sou eu
também já não sei quem sou
eu bem sei que o sofrimento
de mim até se cansou
na imitação da vida
ninguém vai me superar
pois sorrio da tristeza
se não acerto chorar
mesmo assim eu vou passando
vou sofrendo, vou sonhando
até quando despertar

dona solução
reveja o meu caso com atenção
a esperanaça que é forte
mora no meu coração

Jajá da Gamboa
Batatinha
Batatinha (voz), Fernando Burgos (violão e arranjo), Fred Dantas (trombone), Cacau do Pandeiro (pandeiro)
[ ouça ♫ ]

mas a cabrocha é boa
apesar de ser coroa
mas o Jajá da Gamboa
é o dono da situação
ela lhe dá boa vida
não é feito a Margarida
que foi a bomba caída
que só veio estourar na minha mão

mas o Jajá é um desses tipos alucinados
precisando sempre
de uma nota pra apostar no selecionado
não tendo mais o que arrancar da criatura
então lhe pediu a dentadura
dizendo que o prego ia lhe safar
foi dessa vez a cora não pôde
concordar com o Jajá

Fala de Batatinha / Ministro do Samba
Batatinha
Batatinha (voz), Fernando Burgos (violão, arranjo e coro), Edson Sete Cordas (violão 7 cordas), Cacau do Pandeiro (pandeiro), Lanlan (surdo e tamborim), Ailton Reiner (cavaquinho), Cézar Mendes, Edy Oliveira, J. Velloso, Marle Oliveira e Paquito
[ ouça ♫ ]

eu que não tenho um violão
faço samba na mão
juro por Deus que não minto
quero na minha mensagem
prestar homenagem
e dizer tudo que sinto
salve o Paulinho da Viola
salve a turma de sua escola
salve o samba em tempo de inspiração
o samba bem merecia
ter ministério algum dia
então seria ministro
Paulo César Batista Faria

Ironia
Batatinha – Ederaldo Gentil
Jussara Silveira (voz), Eduardo Luedy (violão), Paquito (violão), Tuzé de Abreu (flauta), Lanlan (pandeiro)
[ ouça ♫ ]

tá sorrindo de mim
porque me viu sorrindo
mas agora estou fugindo
de tudo que a ilusão me deu
pois da minha vida
quem sabe sou eu

o que é que eu posso fazer
se a esperança não quer
se afastar do meu peito
se a paciência me diz
que o meu direito é ser feliz
daí então vou sorrir da ironia
vou saber que todo dia
não é igual a outro dia

Zé de Loca
Batatinha
Batatinha (voz), Edson Sete Cordas (violão 7 cordas), Ailton Reiner (cavaquinho), Cacau do Pandeiro (pandeiro), Fred Dantas (trombone), Edson Sete Cordas e Fernando Burgos (arranjo)
[ ouça ♫ ]

aquela mulher
de vestido preto
com o colo todo aparecendo
você não vê logo
se ela fosse viúva
não estava no salão toda se remechendo
cartou com você
lhe fazendo de boboca
você não entendeu
e bancou o Zé de Loca

a tarde no baile é cheio de muita gentileza
tem passos baratos e fica pensando
que é uma beleza
só dança com a dama
e ela lhe engana no meio do salão
quando termina o baile
o que tem pro otário é aperto de mão
comigo não

Toalha da Saudade
J. Luna – Batatinha
Chico Buarque (voz), Fernando Burgos (violão), Jailson Coelho (violão), Edson Sete Cordas (violão 7 cordas), Cacau do Pandeiro (pandeiro), Ailton Reiner (bandolim e cavaquinho), Lanlan (surdo, pandeiro e borda) Edson Sete Cordas (arranjo)
[ ouça ♫ ]

tenho ainda guardada
como lembrança
do Carnaval que passou
uma toalha bordada
que na escola de samba
um lindo rosto enxugou

é a toalha da saudade
pra minha infelicidade
não me vai ornamentar
e pra não sofrer desilusão
nem passar decepção
eu vou sambar

Diplomacia (Só Eu Sei)
Batatinha – J. Luna
Batatinha (voz), Fernando Burgos (violão), Luciano Chaves (flauta), Antônio Sarquis (contrabaixo), Cacau do Pandeiro (pandeiro), Edy Oliveira, Fernando Burgos, J. Velloso, Marle Oliveira, Paquito (coro), Fernando Burgos (arranjo)
[ ouça ♫ ]

meu desespero ninguém vê
sou diplomado
em matéria de sofrer

falsa alegria
sorriso de fingimento
alguém tem culpa
desse meu padecimento

sofrimento e padecer
todos lamentam
mas só eu sei responder

luto por um pouco de conforto
tenho o corpo quase morto
não acerto nem pensar
mesmo com tanta agonia
ainda posso cantar

Bolero
Batatinha – Roque Ferreira
Maria Bethânia (voz), Cesar Mendes (violão e arranjo)
[ ouça ♫ ]

por muitos anos vivi
do palco ao camarim
pra você
me aplaudir
e se orgulhar de mim
fui bailarina na festa
dancei para lhe contentar
sorria
a rodar, a rodar

gastei a ilusão e a pintura
nessa ribalta de sonhos azuis
num papel que destrói
mas seduz
aí, um dia, sem eu perceber
veio um bolero e me arrebatou
remocei
vivo em paz
terminou

Foguete Particular
Batatinha
Batatinha (voz), Fernando Burgos (violão), Fred Dantas (trombone), Antônio Sarquis (contrabaixo), Cacau do Pandeiro (pandeiro), Fernando Burgos (arranjo)
[ ouça ♫ ]

parti de minha rua
num vôo até a lua
no meu foguete particular
agora sou patente
de um mundo diferente
e tenho coisas pra contar

nesse trajeto de aventuras
em desafio à emoção
eu vi o medo e vi a cor do frio
e a beleza da escuridão
e quando à terra eu voltar
sei que estão me esperando
numa prova de alegria
eu vou chegar sambando


FICHA TÉCNICA — PRODUÇÃO: J Velloso e Paquito/ GRAVAÇÃO: Salvador, entre setembro de 1966 e março de 1997

Considerações finais

Espero que você tenha gostado desse post com o álbum do sambista baiano Batatinha — DIPLOMACIA —, lançado em 1998 pela EMI. No CD participações de Maria Bethânia, Gilberto Gil, Chico Buarque etc.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *