Batuque na Cozinha

Martinho da Vila Batuque na Cozinha

Diferentemente do disco anterior, esse álbum, “Batuque na Cozinha”, é quase todo autoral. Martinho já havia dado baixa no Exército, e estava se dedicando totalmente ao samba, criando novas composições e fazendo muitos shows.

Inquieto, Martinho começa a inserir elementos seminais do samba em seus discos, principalmente com referências ao nordeste brasileiro, antes de descer fundo em suas origens. Nesse álbum, por exemplo, Martinho regrava João da Baiana na faixa título do disco, além de registrar uma seleção de samba de roda e partido-alto de domínio público . Entre os sucessos estão a própria faixa título, presente até hoje nos shows do artista, “Balança Povo” e o samba-enredo “Onde o Brasil Aprendeu a Liberdade”. O disco marca a elaboração da primeira capa feita pelo artista Elifas Andreato, que seria uma referência não só para as capas de discos do Martinho, como também do Samba, principalmente nos anos 1970.


DA VILA
Uma noite, numa dessas aventuras cariocas que formam parte de um cotidiano cheio de graça, fomos, Rubem Braga, Eli Alfoun, Prósperi e eu, julgar os samba-enrêdo da E. S. Unidos de Vila Isabel, Vila Isabel, prima do Meier, minha conhecida de infância, mas há tempos abandonada. Os sambas da Escola eram muitos. A disputa perto do feroz. Um dos participantes enquanto nos servia cerveja, ameaçava retirar sua ala do desfile caso o tal Martinho ganhasse de novo. O ano acho que era 69 e o tal de Martinho já ganhara os concursos de 67 e 68.

Começou a cantoria, o páreo, o concurso, o festival, ou lá que nome tenha. Nós, jurados, na situação difícil de sempre. Em meia dúzia de mesas á direita do terreiro de cimento (valha a contradição dos termos) uma ala ruidosa aplaudia ou vaiava os candidatos, e alguém nos disse que o grupo era comandado por um “maioral”, que logo imaginamos parcial e ferocíssimo. Mas o ambiente para nós, da banca de meritíssimos, era realmente quente.

Rubem Braga, que sabe mais por Rubem Braga do que por demônio, reparou, a um certo momento, que um dos sambas tinha nada mais nada menos do que sete compositores e me sugeriu, maneiro: “Vamos votar neste. Pelo menos na hora da briga tem mais gente do nosso lado.” Ao fim e ao cabo Rubem leu o veredito, no qual, depois de, diplomaticamente falar na “imensa dificuldade que tínhamos tido no julgamento, dada a extraordinária qualidade dos concorrentes” o nosso voto ia para a composição: IAIÁ DO CAIS DOURADO de Martinho da Vila. Pra nossa sorte a ala do “maioral” prorrompeu em aplausos frenéticos. Não houve briga e daí pra cá Martinho só fez progredir, melhorando dicção e nível de cantor, composição e busca de temas, apresentação e comunicação. Há os que falam, há os que dizem, há os que tentam colocar Martinho num samba já era, pouco rebuscado, os que argumentam com erudição erudita pra derrubar a popularidade do popular. Uma pretensão que chega, algumas vezes, ao supremo de querer ensinar folclore ao povo. Pra mim, não entro nessa: a música se chama popular e basta. Popular (defino) é o que o povo gosta. O povo gosta de Martinho da Vila.

Millôr Fernandes
contracapa

Ei gentes
Tô aí de novo batucando na cozinha. Comigo está todo o Nosso Samba e nesta cozinha tem até mocotó.
A comida levou três meses para ser cozida mas o resultado esta aí.
Alô! Donga
Se ligue na turma de cozinheiros:
Violões – Rosinha de Valença, Geraldo Vespar e Manoel da Conceição.
Som Rural – Prof. Menezes (viola), Maestro Chiquinho (acordeon) e Marçal no triângulo.
No fogão, mexendo as panelas, Wilson das Neves, Carlinhos do Pandeiro, Jorginho do Mano Décio, Geraldo Bongô, Hermes, Alberto, Zeca da Cuíca, Doutor, Jorginho Arena, Paulinho das Tumbas e até o Aridalto.
O tempero comprado pelo Gilberto ficou por conta do Copinha, Marinho do Baixo, Manoel Araújo, Don Salvador, Jorginho da Flauta, Zé Roberto, Clélio, Netinho, Marco Rupe, Jaime e Pinduca, além das cordas do Peter e dos corais do Jacob e do Severino.
Waltinho “isgueri-gueri” ficou no come-dorme pois quem lavou a louça foi o Rildo Hora, melhor produtor do momento; quem apimentou a bóia foi o Maestro Severino Filho.
O problema meus amigos, é botar a bolacha no prato, levar para a sala e comer com os ouvidos.

MARTINHO DA VILA, julho de 1972
contracapa

PS – Ei, ia me esquecendo: O Manoel do Cavaquinho deu a maior força e a idéia do título foi do compadre Zeno.
Êste trabalho é dedicado ao Dr. Edmundo Pires de Vasconcelos.

Na trajetória do cantor, consideramos que o disco lançado no ano de 1972 foi a preparação para a sua carreira internacional, mais precisamente, no continente africano . O disco colocou Martinho da Vila em contato com o passado da história do samba, ao trazer a composição de João da Baiana (João Machado Guedes, 1887-1974), “Batuque na Cozinha”, como faixa e nome do disco, numa evidente homenagem aos sambistas das antigas. João da Baiana foi redescoberto por Martinho da Vila, assim como acontecia na época, com Pixinguinha e Donga, ainda vivos naquele ano. A gravação de “Batuque na Cozinha”, bem como as demais faixas do disco, estabeleceu um elo entre o samba carioca e as origens baianas do samba, com melodias próximas ao samba de roda baiano, como é o caso de “Xô, Chuva Miúda”, e “Balança Povo”. A inspiração em tom de homenagem à ancestralidade baiana do samba, também pode ser observada na composição “Jubiabá”, que traz referências à Bahia e ao romance de Jorge Amado. Se o primeiro passo, como constatamos, havia sido dado em direção à Bahia, o passo seguinte levou Martinho da Vila para o outro lado do Atlântico: a
África.

REINALDO PEREIRA DAMIÃO


Batuque na Cozinha

Martinho da Vila 1972, RCA Victor (103-0050)
Ouça no spotify, youtube, site de Martinho ou itunes
DISCO É CULTURA

REPERTÓRIO

Balança Povo
Martinho da Vila
[ ouça ♫ ]

balança povo que uma noite não é nada
esse sambinha é da madrugada

quem tem grana pega o carro
e vai a cem pela estrada
quem não tem vai caminhando
sempre a pé pela picada
que não tem o seu iate
sobe o rio de jangada

quem tem fome come muito
mas, há quem não come nada
esse sambinha é da madrugada
nordestino se diverte
com sanfona enfeitada
esse sambinha é da madrugada
eu afogo as minhas mágoas
na Avenida iluminada
esse sambinha é da madrugada

Xô, Chuva Miúda
Martinho da Vila
[ ouça ♫ ]

xô, chuva miúda, miudinha xô
xô, vento gelado, geladinho, xô
xô, dona saudade doidinha, xô
estou sozinho sem o meu amor

que me magoou, nada me explicou
me abandonou nunca mais voltou
chuvinha, xô, xô, xô
ventinho, xô, xô, xô

saudade xô
que eu quero cantar
que eu quero dançar
que eu quero beber
no sol me aquecer
me banhar no mar
eu quero viver
pois eu vou morrer
sem saber por quê
meu amor se foi
nunca mais voltou
nada me explicou, xô, xô, xô
nunca mais voltou, xô, xô, xô

Na Outra Encarnação
Martinho da Vila
[ ouça ♫ ]

tô cansado, trabalhei
o dia inteiro
pra ganhar algum dinheiro
sustentar, minha família
minha prole é muito grande
tenho filhos, tenho filhas
a lida da vida me irrita
de nervos eu sou uma pilha

mas, na outra encarnação
eu vou voltar mulher
dormir cedo, acordar tarde
história em quadrinhos na mão
uma casa bem cuidada
empregadas demais pra cuidar dela
e eu vou viver vendo novela
em cores na televisão

Quem lhe Disse que Eu Chorei?
Antônio Grande
[ ouça ♫ ]

quem lhe disse que eu chorei?
quando você partiu
nem uma lágrima correu
esse alguém mentiu
pra que chorar, eu não
motivo eu não vejo
até gostei, quando você partiu
pois era o meu desejo

amar você, eu não
pedir perdão, porque?
quem errou
foi você
escute o meu conselho
procure um outro alguém
não faça caso
seja feliz, meu bem

Marejou
Martinho da Vila
[ ouça ♫ ]

não desfrutei do seu amor
não calculou a minha dor
não penetrei no seu eu
não fiz chover no seu interior

falei, falei
não se comoveu
argumentei
não convenci
me conformei
você passou
alguém surgiu
o seu olhar se marejou

marejou, ô, marejou
marejou, ô, marejou

quando nos viu, o seu rostinho
se molhou

Sambas de Roda e Partido-Alto
adapt.: Martinho da Vila
[ ouça ♫ ]

se a dona da casa deixar, deixar, deixar
se a dona da casa deixar, deixar, deixar

eu cheguei para o café
e vou ficar para almoçar

já que filei o almoço
vou ficar para o jantar

e se tiver cama macia
por aqui eu vou ficar

mas menina bonitinha da cara engraçadinha
seu cabelo é bom
seu cabelo é bom demais
seu cabelo é bom

seu cabelo é bom de lado
seu cabelo é bom
seu cabelo é alisado
seu cabelo é bom

mas que cabelo arrepiado
seu cabelo é bom
seu cabelo é bom demais
seu cabelo é bom

se essa mulher fosse minha
eu tirava do samba já, já
dava uma surra nela
que ela gritava, chega!

chega!
oh, meu amor
eu vou-me embora da roda de samba
eu vou

Dona Maria das couves
o que houve, o que que há

tá faltando uma birita
pra todo mundo tomar

saiu cedo do colégio
pra poder me namorar

chuchu beleza
na casa da Anabela

me deram de sobremesa
batata com costela

ora, nega de Bento Ribeiro
cadê o dinheiro que me prometeu?
eu morreria de fome
se fosse esperar pelo dinheiro seu

Batuque na Cozinha
João da Baiana
[ ouça ♫ ]

batuque na cozinha
sinhá não quer
por causa do batuque
eu queimei meu pé

não moro em casa de cômodo
não é por ter medo não
na cozinha muita gente
sempre dá em alteração

então não bula na cumbuca
não me espante o rato
se o branco tem ciúme
que dirá o mulato

eu fui na cozinha
pra ver uma cebola
e o branco com ciúme
de uma tal crioula
deixei a cebola, peguei na batata
e o branco com ciúme de uma tal mulata
peguei no balaio pra medir a farinha
e o branco com ciúme de uma tal branquinha

eu fui na cozinha pra tomar um café
e o malandro tá com olho na minha mulher
mas comigo eu apelei pra desarmonia
e fomos direto pra delegacia
seu comissário foi dizendo com altivez
é da casa de cômodos da tal Inês
revistem os dois, botem no xadrez
malandro comigo não tem vez

mas seu comissário
eu estou com a razão
eu não moro na casa de arrumação
eu fui apanhar meu violão
que estava empenhado com Salomão
eu pago a fiança com satisfação
mas não me bota no xadrez
com esse malandrão
que faltou com respeito a um cidadão
que é Paraíba do Norte, Maranhão

Maria da Hora
Martinho da Vila
[ ouça ♫ ]

cheguei no samba agora
mas encontrei, sambando a Maria da hora
cheguei, cheguei tarde no samba
mas encontrei, Maria neguinha bamba

eu chamei a Maria
vêm cá! eu quero sambar
com o seu requebrado, em particular
a Maria mandou
descansar minha moringa
eu aí pensando nela
enchi a cara de pinga

Onde o Brasil Aprendeu a Liberdade
Martinho da Vila
[ ouça ♫ ]

aprendeu-se a liberdade
combatendo em Guararapes
entre flechas e tacápes
facas, fuzis e canhões
brasileiros irmanados
sem senhores, sem senzala
e a senhora dos prazeres
transformando pedra em bala
bom Nassau já foi embora
fez-se a evolução
e a festa da pitomba é a reconstituição

jangadas ao mar
pra buscar lagosta
pra levar pra festa
em Jaboatão
vamos preparar
lindos mamulengos
pra comemorar a libertação

e lá vem maracatu, bumba-meu-boi, vaquejada
cantorias e fandangos
maculelê, marujada
cirandeiro, cirandeiro
sua hora é chegada
vem cantar esta ciranda
pois a roda está formada

cirandeiro
cirandeiro, ó
a pedra do seu anel
brilha mais do que o sol

Jubiabá
Martinho da Vila
[ ouça ♫ ]

o homem tem dois olhares
um enxerga e o outro vê
um enxerga e o outro vê
um enxerga e o outro vê
tem o olho da maldade
e o olho da piedade
tem que ter
olho bem grande
pra poder sobreviver

Jubiabá, ô Jubiabá
faz o feitiço bem feito
pra minha nega voltar
Jubiabá, ô Jubiabá
no morro do capa negro
quero lhe cambonear

se secar o olho da maldade
o homem vai sofrer
sem entender, a ruindade do mundo
que o seu lado bom vai ver
e sem seu olho da piedade
vai fazer gente sofrer, magoar, ferir
sem refletir, e bem mais cedo
vai desencarnar, subir
é a lei de Jubiabá

quero meus olhos abertos
quero bem longe enxergar
vendo o errado e o certo
posso diferenciar
no morro do capa-negro
quero lhe cambonear

Saudade e Samba
Martinho da Vila – Last
[ ouça ♫ ]

que saudade do Carnaval
numa noite colorida
de alegria iluminada
vem a mente da passista
a lembrança do sambista
que partiu de madrugada
madrugada, madrugada
de um outro Carnaval
e uma lágrima sentida
de tristeza bem marcada
vai caindo de mansinho
inundando o rostinho
da cabrocha mergulhada
na lembrança de uma outra
madrugada tão igual
mas os surdos rufam alto pro desfile
despertando dos pesares
a passista magistral
é o samba enxotando a tristeza
é seus passos com destreza
empolgando o pessoal
e ela canta e ela encanta
sentindo toda a alegria
dum desfile principal
sem afastar da lembrança
um amor de Carnaval

Calango Longo
Martinho da Vila
[ ouça ♫ ]

calango longo
no calango tem branquinha
se meu pai foi calangueiro
também vou calanguear
seguro branco
na cintura da pretinha
deite a cabeça no ombro
e deixe o corpo balançar

minha mãezinha
que já está com sessentinha
vou cantar essa modinha
pra senhora se lembrar
daquele tempo
que vivia lá na roça
com uma filha na barriga
e com o Martinho pra criar

sou partideiro
calangueiro e cirandeiro
e só não fui sanfoneiro
por preguiça de tocar
sou amarrado
nesse som da minha terra
vou lá pro alto da serra
com você calanguear

menininha
bonitinha
vem comigo que você vai gostar
vê se mora no som desse calango
e vê logo que é bom de se dançar
meu neguinho, vamos embora
já e hora de se mandar
amanhã eu vou ter que acordar cedo
e bem cedo vou ter que trabalhar
minha gente sertaneja
dá licença pro sambista falar
eu botei contrabaixo no calango
mas juro que foi pra melhorar
meu neguinho vamos embora
já é hora de se mandar
ta faltando sanfona no calango
mas mestre Chiquinho já foi buscar


FICHA TÉCNICA — COORDENAÇÃO GERAL: Ramalho Neto / COORDENAÇÃO ARTÍSTICA: Rildo Hora ARRANJOS: Severino Filho / MÚSICOS: informados no texto acima / TÉCNICO DE GRAVAÇÃO: Walter de Oliveira / FOTO: Clóvis Scarpino / CAPA: Elifas Andreato.

Considerações finais

Espero que você tenha gostado desse post com o álbum “Batuque na Cozinha” de Martinho da Vila, lançado em 1972 pela RCA-Victor.

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