Canções praieiras por Dorival Caymmi

Canções praieiras por Dorival Caymmi

A maior parte das canções praieiras de Dorival Caymmi foi composta nos anos 1940. E apesar da distância temporal, a força estética do conjunto permanece intocada.


Dorival Caymmi nasceu a 30 de abril de 1914, na cidade do Salvador, na rua do Bângala, hoje Luís Gama. Só pode estudar até, o fim do primeiro ano ginasial; teve, então, de ganhar a vida. Foi pracista, vendendo bebidas nacionais, carregando um mostruário para mostrar aos negociantes.

A profissão rendia pouco, e um dia Dorival ficou aborrecido e bebeu o mostruário. Pintava taboletas para casas comerciais revelando um gosto que só muito mais tarde viria a cultivar: Dorival é hoje, um «pintor de domingos», exprimindo em quadros a óleo um lirismo intenso felizmente associado a um fino sentido plástico. Fazia pequenos serviços de escritório e trabalhou em funções humildes no jornal «O Imparcial». Com seu irmão Deraldo, hoje morto, e mais dois amigos, sumia muitas vezes para Itapuan, naquele tempo uma praia remota onde havia quase apenas pescadores; e passavam o dia no banho de mar, depois bebiam, faziam serenatas, amavam. Desde menino arranhou seu violão e ainda rapazinho compôs uma canção praieira, «Noite de temporal». Mas aquilo era boemia, e não dava pão: ganhando o primeiro prêmio em um concurso de marchas o que recebeu foi… um abajur de cetim.

Caymmi fez um concurso para escrivão de coletoria, foi aprovado mas em vão esperou ser nomeado. Um dia — foi em 1938, ele tinha 24 anos — botou o violão em baixo do braço e… pegou um «Ita». Veio para o Rio.

Seus começos foram difíceis; mas de repente todo mundo se convenceu de que era preciso prestar atenção á aquele mulato simpático, meio tímido e muito bem educado que cantava ao violão umas coisas que ele mesmo fazia — letra e música. Em 1939 ele aparece com «O que é que a baiana tem» e logo se instala no coração dos cariocas e, de todos os brasileiros como poeta, compositor, violeiro e cantor dono da graça e do lirismo sensual da Bahia. E como Bahia é um pedaço de mar, ele é, no Brasil, o grande cantor do mar. Algumas das melhores canções praieiras que, ele fez estão reunidas neste long playing em que atuam apenas a voz e o violão de Caymmi.

Dorival é hoje casado com a ex-cantora de rádio Stella Maris, tem três filhos e mora em Copacabana no apartamento que comprou em um edifício moderno que tem um nome evocativo de um canto das ilhas dos mares do Sul e seu pintor Gaughin: «Nôa-Nôa». Seu sucesso lhe deu vagares para ler, dinheiro para comprar bons discos de Mozart e Bach — suas grandes admirações — mas não lhe tirou o lirismo boêmio dos mares da Bahia nem a pureza do rapazinho «pracista» que bebeu o mostruário. Homem de muitos amigos, querido de seu povo, Caymmi é dos valores autênticos e originais de nossa música popular, e suas melodias correm mundo.

Em junho de 1953, numa lindíssima noite de lua escolhida pelos pescadores, Dorival Caymmi recebeu a mais comovente das homenagens que sua gente poderia lhe prestar: seu nome foi dado á praça da matriz de Itapuan, junto do mar. Rodeado de amigos do Rio que foram levá-lo e das autoridades de sua terra, ele cantou para a multidão algumas das canções que reunimos neste long playing.

contracapa

Um texto bem interessante sobre esse, que foi o primeiro disco lançado por Dorival Caymmi, transcrevo a seguir:

A maior parte das canções praieiras de Dorival Caymmi foi composta nos anos 1940. E apesar da distância temporal, a força estética do conjunto permanece intocada. Ou até ampliada: a entrada numa época cada vez mais permeada por sentidos de urgência e ansiedade só fez crescer seu poder sugestivo. Nessas canções, simplicidade e sofisticação interpenetram-se com uma naturalidade que talvez não conheça paralelos na história da música brasileira. Caymmi logrou alcançar o essencial de tal modo, transfigurando com tamanha felicidade todo um universo cultural em objetos estéticos, que chega a ser difícil falar ou escrever sobre isso, como difícil é explicar com palavras um lance de mágica. Só resta levantar, sem nenhuma pretensão, algumas ideias e percepções sobre elas.

“Pescaria (Canoeiro)”, por exemplo. A canção não é propriamente uma descrição da atividade da pesca (embora também o seja). É antes um canto de trabalho que remete à velha tradição das canções de remadores, em seu esforço conjunto. Como é habitual na obra do baiano, letra e música respondem uma à outra com perfeição. A sequência das ações adere a um tecido musical que reproduz o ritmo circular dessas mesmas ações. A pulsação, o esforço muscular repetido e a alegria da captura dos peixes não são apenas descritos — são também figurados em música, no movimento alternado e vigoroso dos bordões. Versos como “cerca o peixe / bate o remo / puxa a corda / colhe o remo”, com suas aliterações e assonâncias sobre consoantes oclusivas (“pê”, “bá”, “pú”, “có”), trazem ao canto um impacto ritmado. A canção ganha concretude muscular, espelhando, em imagem sonora e verbal, o estado físico dos canoeiros.

Ao mesmo tempo, Caymmi insere nesse movimento circular e ritmado a previsão dos resultados da pesca, dos gratificantes frutos do trabalho: “vai ter presente pra Chiquinha / ter presente pra Iaiá / ô canoeiro puxa a rede do mar!”, canta ele num registro ligeiramente mais alto que traz uma nota de expectativa futura para um relato antes estritamente centrado nas ações presentes. É como se saíssemos do plano exclusivamente físico, externo, da atividade, para ter um rápido vislumbre da atmosfera psicológica dos pescadores enquanto pescam, de suas motivações mais íntimas. A euforia do trabalho se confunde com a euforia da antecipação de felicidades vindouras. Em poucas pinceladas vemos surgir a figura inteira das forças que regem o microcosmo de uma comunidade pesqueira — os homens, o trabalho, as mulheres, os peixes, os presentes… a mítica Itapuã dos bailes pastoris, ternos e batuques, quase uma tribo. Parada no tempo.

Nessas canções, simplicidade e sofisticação interpenetram-se com uma naturalidade que talvez não conheça paralelos na história da música brasileira.

Em outra canção praieira, “O vento”, a circularidade rítmica e melódica não mais descreve a coordenação muscular da pesca, mas a cadeia de causalidades que transforma o vento em dinheiro, em sustento vital: “vento que dá na vela / vela que leva o barco / barco que leva a gente / gente que leva o peixe / peixe que dá dinheiro, Curimã”. Com isso, Caymmi expõe com força poética a fragilidade rústica do sistema econômico de uma aldeia de pescadores, sua dependência direta dos elementos da Natureza. É preciso chamar o vento, pois dele depende a vida da comunidade. E é isso o que a canção faz, num dos momentos de invenção mais livre da nossa música popular — Caymmi inserindo, entre os versos cantados, uma sessão de assobio solto, não-verbal, que parece ser a língua do próprio vento. O encadeamento contínuo das palavras “vela” e “leva” (anagramas uma da outra), junto com a própria repetição da palavra “vento”, introduz na canção uma textura fônica de fundo, que reproduz, pela articulação contínua dos sons com a letra “v”, a sonoridade própria ao vento. O vento venta dentro do canto. O canto é também vento, sopro vital que está na base de tudo o que existe.

O mesmo vento que leva o barco para os locais de pesca é também capaz de fazê-lo naufragar. Em “Temporal”, Caymmi colhe no ar os clichês exclamativos de ansiedade e de preocupação daqueles que, em terra, vislumbram a possibilidade de naufrágio dos que foram pro mar — “Pedro!, Chico!, Lino!, Zeca! / cadê vocês, ó mãe de Deus”. Em outra canção, a jangada que saiu com Chico Ferreira e Bento finalmente volta só. E nesse momento a melodia literalmente despenca, finalizando o verso no registro mais grave da canção — e a repetição obsessiva do bordão do violão transforma esse momento num verdadeiro cortejo fúnebre. “Com certeza foi um pé de vento”, especulam os vivos. Desoladas, as moças de Jaguaribe choram a perda do cantador de modas, Bento — aquele que deveria ter voltado junto com a jangada.

Há uma compatibilidade mútua, total, dos elementos da natureza nas canções praieiras; tudo sai e tudo retorna continuamente a ela; as coisas se transformam umas nas outras. “A noite está que é um dia / diz alguém olhando a lua”, canta a voz de Caymmi numa passagem mais branda da tensa “A lenda do Abaeté”, operando um fusão imagética. O mesmo mar que é bonito quando quebra na beira da praia, é também aquele que devolve o cadáver do pescador Pedro, todo roído de peixe. O pescador que se alimentava de peixes vira alimento deles. Rosinha endoidece. Caymmi descreve a cena com tintas shakespearianas: com o olhar vidrado no movimento das ondas, Rosinha balbucia, em looping, o destino trágico do pescador amado (“dizendo baixinho / morreu, morreu”). “Os negros e mulatos que têm suas vidas amarradas ao mar têm sido a minha mais permanente inspiração” — o compositor certa vez declarou. “Não sei de drama mais poderoso que o das mulheres que esperam a volta, sempre incerta, dos maridos que partem todas as manhãs para o mar no bojo dos leves saveiros ou das milagrosas jangadas. E não sei de lendas mais belas que as da Rainha do Mar, a Inaê dos negros baianos…”

Num ensaio clássico, o antropólogo Antonio Risério define a obra do compositor por sua qualidade apolínea. Caymmi é “a claridade do belo”, escreve ele; o “poeta do bumbum em movimento”; aquele que desvela “o magnífico espetáculo das ancas em vai-e-vem”. De fato, há uma nitidez de imagens e cores, uma perfeição plástica quase milagrosa na obra do baiano. Pairam sobre ela os olhos imensos, penetrantes, de Dorival, no eterno prazer de ver as coisas do mundo — sobretudo as mulheres, diga-se. Caymmi é o cantor das aparências, o poeta do sensível, do táctil. Não há dimensões ocultas sob as coisas; o mundo nada encobre: abre-se inteiramente aos sentidos, como puro fenômeno, pura ocasião de deleite. Risério chega a notar que não há uma única metáfora no conjunto das canções praieiras de Caymmi: as coisas são o que são, e estão felizes com isso.

Mas apesar dessa forte irradiação de luz — ou talvez ainda mais por conta disso — Caymmi criou alguns dos momentos mais sombrios e misteriosos da música popular brasileira. O “curimã lambaio”, peixe traiçoeiro, que cresce obsessiva e ameaçadoramente, em meio a modulações desestabilizadoras, no interior da canção “O vento” — como se reafirmasse sua aura sagrada, inatingível, em meio ao impulso que deseja reduzi-lo a um simples artigo de troca na cadeia produtiva; a lagoa amaldiçoada da “Lenda do Abaeté”, cantada em cavernoso tom de advertência, acompanhada por uma linha de baixo muito escura no violão; o anúncio do toque dos “clarins da banda militar”, trazendo uma aura algo aterradora à passagem da musa Dora; a já referida imagem do corpo do pescador morto, todo roído por peixes, arrastado para a praia por ondas indiferentes. São muitos os exemplos de criação de uma ambiência de mistério e horror na obra de Caymmi. Não raro suas canções abrem caminho para a visão aterradora, perplexa, hipnótica, daquilo que transcende o espetáculo aprazível da vida humana.

No mar que oscila entre belo e assustador está cifrado todo o destino da comunidade. O mar de Caymmi é uma entidade imprevisível, sedutora e indomável como o cenário pintado pelos acordes impressionistas que abrem a canção “O mar”. Mas é também nele, na superfície metálica de suas águas, que encontramos espelhado o próprio sentido de recorrência e repetição que anima o universo das canções praieiras. Lá estão os personagens de um mundo distante, pré-industrial, anterior ao sentido de progresso. Ao colocar a ênfase sobre o retorno, e não sobre a irreversibilidade dos eventos, Caymmi criou a imagem de uma vida regida pelo ritmo circular das marés, pelo retorno fundamental dos eventos, pela regularidade e a similaridade. E de tal modo que nem mesmo a morte inesperada e trágica dos pescadores é capaz de gerar uma ruptura violenta na circularidade da existência comunitária. As coisas se transfiguram umas nas outras; passam sem passar. Há uma identificação mística entre o princípio e o fim, como se nascimento e morte pudessem se fundir numa única coisa. “A onda do mar leva / a onda do mar traz”. Apenas isso.

Paulo da Costa e Silva
https://piaui.folha.uol.com.br/cancoes-praieiras/


Canções praieras

Dorival Caymmi 1954, Odeon (LDS-3.004)
Ouça no spotify, youtube ou itunes
DISCO É CULTURA

Canções praieiras por Dorival Caymmi

REPERTÓRIO

Lado A:
Quem vem prá beira do mar
O “bem” do mar
O mar
Pescaria (Canoeiro)

Lado B:
É doce morrer no mar
A jangada voltou só
A lenda do Abaeté
Saudades de Itapoan

*obs: todas as faixas: violão, voz e autoria: Dorival Caymmi


Considerações finais

Espero que você tenha gostado desse post com o 1° álbum lançado por Dorival Caymmi, no ano de 1954, pela Odeon.

1 comentário em “Canções praieiras por Dorival Caymmi”

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