Axé!

Candeia Axé 1978 Atlantic

“Axé! – Gente Amiga do Samba” é o quinto e último álbum de estúdio de Candeia. Lançado em novembro de 1978, pouco dias após a sua morte, é considerado um dos discos mais importantes da história do samba.


Uma das mais elogiáveis características deste “Axé!” é o alto nível e o sentido profissional da produção. João de Aquino teve a sensibilidade de compreender as intenções de Candeia, deixando-o livre para realizá-las e, para tanto, oferecendo o máximo de apoio técnico. Sem, contudo, relaxar nos cuidados com a forma final, o que resultou em linguagem musical límpida e clara dicção rítmica. Um trabalho vigoroso, muito bonito e muito Candeia . Com “Axé!”, particularizado na sua discografia pela qualidade da elaboração, Candeia prossegue um trabalho que ainda não conheceu solução de continuidade: prestar testemunho do que viu, vive, sabe e recolheu no universo do samba, da música popular, seu mundo. Quer trazer à luz os anônimos compositores que estão na base da cultura carioca. E o faz com uma consciência social cada vez mais aguda, expressa numa poética a cada dia mais depurada. Dentro dessa linha de intenções, Candeia incorporou a elepês anteriores Ernani Alvarenga, Anésio, Joãozinho da Pecadora. Dentro dessa mesma perspectiva traz agora a Velha Guarda da Portela, nobre confraria fazendo coro na interpretação de sambas da antiga. Traz figura histórica que jamais gravou antes — Chico Santana, autor do hino da Portela, que com Candeia versa outro compositor histórico, Nelson Amorim, com “Ouço Uma Voz”, de 1931.

Traz Oswaldo dos Santos, o “Alvaiade”, há 20 anos afastado dos estúdios, com quem Candeia versa “Ouro Desça do Seu Trono”, de Paulo da Portela. Com Manacéa versa “Vivo Isolado do Mundo”, de Alcides Dias Lopes, o “Malandro Histórico”. Nos sambas dos anos 30’40, dotados apenas de primeiras partes (já que nos desfiles, as pastoras só a primeira cantavam, cabendo a versejadores de vozes possantes como João da Gente improvisar a partir dessa primeira, que era o mote, o ponto de partida para a criação espontânea). Candeia acrescentou os demais versos, mantendo-se, porém, fiel aos autores e ao espírito melódico e poético originais.

“Eu quero que esse pessoal da antiga tenha oportunidade já, agora. Depois que o cara morre não adianta nada dizer que ele foi genial. O negócio é reconhecer enquanto eles ainda estão aí e podem lembrar dos trabalhos realizados pelos outros, que já morreram”.

Enfático, batalhador, Candeia exigindo passagem para o seu pessoal. Um privilégio contar com a amizade de Candeia. Bem-aventurados são os que podem conhecê-lo, ouvir, aprender com ele, sentir de perto a generosidade, o peito aberto, a ansiedade de empunhar o violão e cantar a história das gentes do Rio, e não apenas os próprios (e extraordinários) sambas. Temperamento de soba, está sempre ajudando, atendendo a um e outros, o telefone de sua casa em Jacarepaguá não para de tocar. Não dá guarida, porém, a sentimentos de fraqueza. Quer seu povo altivo “olhando o sol de frente”, fortalecendo-se nas batalhas contra o medo: “Quem é bamba não bambeia”. O que pensa está dito em “Dia de Graça”. Descobre e revela músicos e ritmistas: “Axé!” traz à cena mais um violão sete cordas de qualidade, Walter, irmão do já conhecido Waldir. É assim que “Axé!” revela o cabeça-feita Carlinhos, Ogã confirmado, 25 anos de idade e quase isso de Candomblé, mestre nos atabaques e em tudo o mais que seja percussão e ritmo. O elepê “Axé!” é, em certa medida, o resultado das posições assumidas e defendidas por um Candeia histórico e historiador em “Escola de Samba, Árvore que Esqueceu a Raiz”, livro escrito em parceria com Isnard Araújo. Um disco fundamental para a história da música e do samba.

REPERTÓRIO

Pintura sem Arte (Candeia, janeiro 1978) — este samba modula de menor para maior, ganhando conotação chorística. Niquinho, no bandolim, e Copinha, na flauta, dão o tom de baile de subúrbio, exatamente o que Candeia desejava mostrar. “Eram bailes na casa de Dona Esther, em Oswaldo Cruz, a tia Ciata do meu tempo. Luperce Miranda, Pixinguinha, Claudionor Cruz, Zé com Fome, todo mundo ia para lá”. Era a macumba, o samba, o choro, tudo presente nas bases da formação de Candeia, filho de sambista. “Herdei o axé de meu pai”. [ ouça ♫ ]

me sinto igual a uma folha caída
sou o adeus de quem parte
pra quem a vida
é pintura sem arte
a flor
esperança se acabou
o amor vento levou
outra flor
nasceu é a saudade
me invade
tirando a liberdade
meu peito
arde igual verão
mas se é pra chorar
choro cantando
pra ninguém me ver sofrendo
e dizer que estou pagando

não
não basta ter inspiração
não basta
fazer uma linda canção
pra cantar samba
se precisa muito mais
samba é lamento
é sofrimento
é fuga dos meus ais
por isso agradeço
a saudade em meu peito
que vem acalentando
o meu sonho desfeito
jardim do passado
flores mortas pelo chão
pétala, semente de paixão

Ouro Desça do Seu Trono (Paulo da Portela) — Walter e João de Aquino nos violões, Walmar no cavaco, armam uma introdução bonita e cheia para a versaria Candeia/Alvaiade com o apoio do coro da Velha Guarda. De quando a Portelinha funcionava no quarto de Paulo Benjamim de Oliveira, na Barra Preta, em Oswaldo Cruz de 1929/31. Mil Réis (Candeia e Noca, 1974) o surdo de Gordinho, fundamental em toda a linha de construção do disco, revela aqui a competência da marcação uniforme, encorpada e convicta. [ ouça ♫ ]

ouro desça do seu trono
venha ver o abandono
de milhões de almas aflitas
como gritam
sua majestade a prata
mãe ingrata indiferente e fria
sorri da nossa agonia

diamantes, safiras e rubis
são pedras valiosas
mas eu não troco por ti
por que és mais precisa
de tanto ver o poder
prevalecer na mão do mal
o homem deixa-se vender
a honra pelo vil-metal

nessa terra sem paz
com tanta guerra
a hipocrisia se venera
o dinheiro é quem impera
sinto minha alma tristonha
de tanto ver falsidade
e muitos já sentem vergonha
do amor e honestidade

hoje tu voltas aqui
com semblante a sorrir
esperando que eu
te receba e te dê
muitos beijos de amor
esquecendo afinal
o que entre nós se passou
foi você quem errou
se ajoelhas ao meus pés
mas não vales mil réis
te conheço afinal
não mereço perder
tantos anos da vida
tentarei te esquecer
perdida

perdida porque não honraste um homem
manchaste o meu nome
e tudo quanto te ofertei
jogaste fora
como moeda sem valor
um grande amor
quem me encontrou
me valorizou

Vivo Isolado do Mundo (Alcides “Histórico”, 1931) — gravação duas vezes histórica: samba de Alcides e presença do redescoberto Manacéa (“Quantas Lágrimas”). Amor não É Brinquedo (Candeia e Martinho da Vila, 1978) — a cuíca de Marçal e o repinique de Doutor saúdam o excelente resultado da nobre parceria dos velhos amigos, Iniciando dupla este ano e já com outros sambas prontos, além deste, e do “Eu, Você, Orgia”, gravado por Beth Carvalho. Os quatro primeiros versos são primorosos. [ ouça ♫ ]

eu vivia
isolado no mundo
quando eu era um vagabundo
sem ter um amor
hoje em dia
eu me regenerei
sou um chefe de família
da mulher que amei

linda, linda, linda
linda como um querubim
é formosa, cheirosa e vaidosa
a rosa do meu jardim
se tu fores na Portela
gente humilde gente pobre
que traz um samba na veia
um samba de gente nobre

mas ela não sabe
não sabe o que perdeu
um amor sincero e puro
de um escuro igual ao meu
se ela soubesse que o peito padece numa solidão
não me negava seus beijos
e me dava o seu perdão
(ah, eu vivia…)

se quiser se distrair
ligue a televisão
amor, comigo não
se estás procurando distração
o romance terminou mais cedo
peço por favor
pra não brincar com meus segredos
verdadeiro amor não é brinquedo

tem que chorar o meu choro
sorrir o meu riso
sonhar no meu sonho
versar nos meus versos, cantar no meu coro
na minha tristeza tem que ser tristonho
avisa se estais brincando,
que eu vou ficar também de brincadeira
não choro teu choro não sonho o teu sonho
não verso seus versos nem marco bobeira
(se quiser se distrair…)

eu te abri o meu peito
deixei penetrar na minha intimidade
tu conheces meu passado
a minha mentira e a minha verdade
mais se estais deixando furo
não estais suportando com dignidade
eu fecho esta porta te deixo de fora
depois curto uma saudade
(se quiser se distrair…)

O Invocado (Casquinha, 1978) — novamente a cuíca (desta vez antiga) de Marçal determinando o clima do partido zangado e crítico, bem carioca e muito expressivo dos atuais sentimentos populares diante do arrocho e do encolhimento de salários. Beberrão (Molequinho e Aniceto) — os autores estão entre os fundadores da Império Serrano. Pagode solto, versos improvisados, Manuel Gonçalves (Manuel Bam Bam Bam, da Portela), lembrado e presente, como lembrado é o caldo de rã, infalível cura-porre. [ ouça ♫ ]

o crioulo no morro está invocado
o crioulo no morro está no miserê
desce o morro, não encontra trabalho
nem encontra o feijão pra comer

se subires lá no morro
e ver o crioulo zangado
podes crer que o irmãozinho
se acha desempregado

trate bem a nossa gente
tendo melhor condição
pois o negro é uma força
no progresso da nação

você já começa a beber
no domingo de manhã
você já começa a beber

parati com hortelã

vá se deitar no divã

com Manuel bam bam bam

pra contrariar sua irmã

não estás com a cuca sã

bebes e ficas bam bam bam

vou lhe dar caldo de rã

nem parece ser cristã

não vais ao Maracanã

vou lhe dar atroveran

aguardente de romã

Dia de Graça (Candeia, 1966) — no começo, os ritmistas encaminhando-se para a concentração, cada qual “esquentando” o instrumento, despreocupados em fazê-los concertantes, cada qual tirando o seu som, ainda não é a hora do desfile, mas de aquecimento. Um exercício de sons afro. Depois, então é o uníssono a orquestra de percussão em harmonia, desfile. Candeia desfila e, na pista da Avenida, larga a mensagem ao sambista: “Deixa de ser rei só na folia…” [ ouça ♫ ]

hoje é manhã de carnaval
(há o esplendor)
as escolas vão desfilar
(garbosamente)
e aquela gente de cor
com a imponência de um rei
vai pisar na passarela
(salve a Portela)
vamos esquecer os desenganos
(que passamos)
viver alegria que sonhamos
(durante o ano)
damos o nosso coração
alegria e amor
a todos sem distinção de cor

mas depois da ilusão, coitado
negro volta ao humilde barracão

negro acorda é hora de acordar
não negue a raça torne toda manhã dia de graça
negro não humilhe nem se humilhe a ninguém
todas as raças já foram escravas também
e deixa de ser rei só na folia
faça da sua Maria uma rainha todos os dias
e cante o samba na universidade
e verás que teu filho será príncipe de verdade
aí então, jamais tu voltarás ao barracão

Gamação (Candeia, 1977) — na estrofe final, a força poética de um letrista que não tem medo de palavras nem se detém diante de imagens que fariam, talvez, tremer um poeta erudito: “neste amor submerso…” A “cozinha” mantém um certo clima de desfile, a Velha Guarda é coro a repetir melodia e versos. Repetindo, mantém e preserva as belezas que Candeia quer fazer conhecidas. Peixeiro Granfino (Bretas e Candeia, 1977) — nasceu de um pregão popular que os dois compadres e parceiros escutavam na infância do Rio suburbano. Dona Ivone Lara verseja e cerca coro e canto com linda vocalização. Ouço Uma Voz (Nelson Amorim, 1931) — também neste samba antigo, de primeira apenas, Candeia acrescentou versos, mantendo-se sempre fiel ao espírito original da composição. Chico Santana estréia, com voz emocionada, no mundo do disco. Vem Amenizar (Candeia e Waldir 59, 1956) — apito chamando, bateria encorpada, subindo no jeito de desfile. Samba do terreiro apresentado, pela primeira vez, na Portelinha. [ ouça ♫ ]

você foi como veio
e como o vento passou
e me deixou

me deixou sofrimento
e o vento levou alegria
dentro de mim ficou solidão
e cruel nostalgia
eu tenho tanto amor
mas não tenho à quem dar
me roubaste a paz
ainda hei de te ver
sofrendo muito mais

neste amor submerso
és o tema e poema
rima rica dos versos
és o princípio e o fim
pois és todo o melhor
que existe em mim
o nosso romance
teve uma transformação
já não é amor é gamação

peixeiro granfino!
vai na cozinha chamar mamãe, menino
e diga à ela que tem sardinha
tem peixe-galo e cavalinha

tem xaréu xerelete sardinha e tainha
um bom siri pra moqueca
pescado por mano Zeca
salsa pimenta de cheiro
faz bom tempeiro azeite de dendê
vá depressa correndo menino
chamar mamãe…
chegou o pexeiro granfino

ouço uma voz que me chama
corre e vem ver
essa mulher que chora
louca para mim voltar ela está
deixa o carnaval passar

o pagode de antigamente
mexe com a gente traz recordação
falo a verdade não minto
tudo que sinto é inspiração
quando o carnaval passar meu cumpadre
eu vou dar um castigo nela
pra aprender a não zombar
respeitar um malandro da Portela
(eu ouço uma voz)

ela veio se arrepender
mais cedo do que esperava
foi medo de me perder
pra outra que já me olhava
essa rima dos meus versos
me traz submerso no mar da paixão
enfrenta a revolta dos mares
se não me aceitares em teu coração
(ouço uma voz)

vem… amenizar a minha dor amor
tu és entre elas a mais bela flor
vem… porque só eu te quero bem
és a vida da minha vida querida

vem dar lenitivo
ao meu pobre coração
que tanto sofre
a esperar por teu amor
vem suavizar esta paixão
e exterminar toda esta dor
ora vem por favor
ora vem

Zé Tambozeiro (Candeia e Vandinho, nov 1976) — exemplo do tipo de samba que antecedeu ao partido alto. Na Bahia chama-se samba de roda, ou de umbigada; na macumba carioca, samba de caboclo. Marcante nesta gravação é a forte presença de Clementina de Jesus e a competência de Carlinhos, no toque de Angola, típico dos Candomblés da área do Rio e Grande Rio. [ ouça ♫ ]

vou chamar Zé Tambozeiro
pra bater tambor de Angola
olê, lê, lê
vou chamar Zé Tambozeiro
é que o samba chegou agora
bate o tambor de Angola

quem é bamba vai pro samba
(é que o samba chegou agora)
entra na roda e não bambeia
(é que o samba chegou agora)
olha, olha a lua cheia
(é que o samba chegou agora)
i meu terreiro clareia
(é que o samba chegou agora)
eu vou a roça e levo a faca
(é que o samba chegou agora)
cortar jaca pra ela jantar
(é que o samba chegou agora)
e a barriga de meu bem
(é que o samba chegou agora)
é quem me faz trabalhar
(é que o samba chegou agora)

è que o sol já está de fora
(é que o samba chegou agora)
e já vem rompendo aurora
(é que o samba chegou agora)
pra junta e cantar não demora
(é que o samba chegou agora)
eu vou buscar minha viola
“a bença Tia Clementina”
“abençoe meu filho”
“da licença sinhá”
é que o samba chegou agora
“bendito louvado seja”
“para sempre seja louvado meu filho”


AXÉ quer dizer: Candeia — Antônio Candeia Filho. Porque axé (áse), palavra de língua iorubana, significa força, energia, movimento, sem o que a vida não se realiza ou se resolve; e sem o que a cultura não se preserva nem se transmite. Asé significa: “eu quero, eu posso, eu faço”, na linguagem da natureza, na cosmogonia mágico-sagrada do Nagô, idioma e aval de Candeia, na profícua missão de plantar axé onde passe e no que faça. Axé: resistência (… “mas se é pra chorar/ choro cantando/ pra ninguém me ver sofrendo…”); luz da criação; energia transmissível no contato direto, e pelo canto, pela palavra, pelo som, quando têm eles a finalidade revigoradora de um “Dia de Graça” (“negro, acorda, é hora de acordar”.). Esse artista de singular consciência social defende, mantém, preserva, revigora e transmite os princípios, inabalável fidelidade à sua gente. Por amor ao samba, ao povo e aos sambistas fundou o Grêmio Recreativo de Arte Negra e Samba Quilombo, em dezembro de 1975, num manifesto de coragem, sem filigranas de retórica sobre “embranquecimento” das escolas, sobre quem merece ou não merece sambar, para ele, todos merecem sambar, o samba está na veia do brasileiro, já o disse muito bem no pagode: ”vem prá roda, menina, mexer com as cadeiras vem sambar, a idade não importa, a cor da tua pele não interessa…”. A discussão toda, Candeia sintetiza de forma objetiva e concreta, em trabalhos como este “Axé!” os amigos do samba, sexto elepê, disco de conotações ricas. Tem papo. Goró. Batida de limão. Atabaques. Agogô. E a melodia imprevista, de dissonâncias que a fazem tão bela; e as divisões perfeitas; e a poesia vigorosa, em certos momentos beirando a genialidade. É o axé dos ancestrais, dos heroicos fundadores do samba, Candeia cantando Paulo da Portela, Alcides Histórico. Samba em todos os climas; Canção. Choro. Roda. Candeia não se detêm diante de limites formais, todas as manifestações musicais populares são veículos de sua inspiração, axé da versatilidade. Artista nascido para cantar alto e abrir caminho, aproximar-se dele é empreitada de força, necessário ter coragem para encarar o axé que emana da sua figura de líder. O tranco é forte, necessário dispor também de asé para sadia troca de ideias e informações. Na WEA, ele está abrindo senda, inaugurando selo de samba, firmando seu partido. Que é o partido alto do povo, legitimando essa companhia nova no Brasil. Com etiqueta de autêntica música popular brasileira. Axê significa, ainda, coragem e persistência. Esse é o axé do violonista João de Aquino, há quatro para cinco anos dedicando a carreira de produtor às opções de música recolhidas nas fontes populares. E àse tem a própria WEA, que resolveu mostrar, a partir de Candeia, que também tem samba na veia.

Lena Frias
setembro de 1978
contracapa/encarte

O canto de luta e de sonho

Candeia não viveu bastante para ver o lançamento do seu Lp “Axé”. Resta o consolo de ouvir a sua voz caniando um sonho pelo qual lutou para ver realizado: “hoje é manhã de carnaval/ há o esplendor/ as escolas vão desfilar/ garbosamente/ aquele gente de cor/ com a imponência de um rei/ vai pisar na passarela/ salve a Portela”. E, “Dia da Graça”, o samba gravado pela primeira vez pelo Conjunto Nosso Samba em 1969 e pelo próprio Candeia em 1970 e que, agora, foi oportunamente relembrado. “Axé” é um Lp impecável. Candeia justifica a sua fama de grande compositor com “Pintura sem Arte”, “Mil Réis” (com Noca da Portela), “Amor não É Brinquedo” (com Martinho da Vila), “Zé Tambozeiro” (com Vandinho), “Gamação”, “Peixeiro Granfino” (com Bretas) e “Vem Amenizar” (com Waldir 59), além de “Dia de Graça”. Mas a qualidade da seleção de músicas continua nos sambas de outros autores. O seu ídolo Paulo da Portela está presente com “Ouro Desça do Seu Trono”, um samba em que demostra que o velho Paulo não era um sambista ingênuo, preocupado apenas em que sua escola se apresentasse. Ele tinha preocupações sociais, já reveladas em entrevistas que concedeu e em sambas como esse, no qual pede que o ouro desça do seu trono para “ver o abandono/ de milhões de almas aflitas”! O mesmo sentimento é do maravilhoso Casquinha no samba, “O Invocado”, no qual fala do crioulo desempregado, que volta ao baralho, “pois não encontra feijão pra comer”. No entanto, diz Casquinha, “o crioulo á uma força/ no progresso da nação”. Além desses, está no disco um velho samba da Portela, “Ouço uma Voz” (de Nelson Amorim) e um partido alto de dois craques do gênero, Aniceto do Império e Molequinho, “Beberrão” — O disco tem a cara das reuniões que Candeia promovia em sua casa, em Jacarepaguá. Não só pelo clima, como pela presença de nomes ilustres do samba brasileiro: Alvaiade, Manacéa, Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara, Chico Santana, Casquinha e a Velha Guarda da Portela fazendo coro. Excelente a produção de João de Aquino.

Sergio Cabral
O Globo – 4/12/78


Axé!

Candeia 1978, Atlantic (BR 20.032)
Ouça no spotify, youtube ou itunes | discogs
DISCO É CULTURA

Candeia
Candeia (foto: Reprodução/Canal Curta!)

FICHA TÉCNICA — PRODUÇÃO: Guti / CO-PRODUÇÃO: Jodeli Muniz / DIREÇÃO ARTÍSTICA: Mazola / MÚSICOS: Gordinho (surdo), Testa (pandeiro), Marçal e Luna (tamborim), Marçal (cuíca), Doutor (repique de mão), Carlinhos (repique de pau), Graldo Bongô (tumbadora), Canegal (agogô), Fernando e Wilson das Neves (bateria), Candeia (apito), Valter (violão de 7), João de Aquinho (violão de 6), Volmar (cavaco), Copinha (flauta), Niquinho (bandolim), Velha Guarda da Portela, Tufy, China, Inácio, Laís, Vera, Nadir e Marli (côro), Casquinha, Chico Santana, Alvaiade, Osmar, Doca, Eunice e Manacéa (Velha Guarda da Portela) / ENGENHEIRO DE SOM: Paulo Lavrador / GRAVAÇÃO: Vitor e Toninho / AUXILIAR GRAVAÇÃO: Rafael, Filé e Cláudio / ARREGIMENTAÇÃO: Zézinho / ESTÚDIO: Rio de Janeiro em pleno subúrbio carioca no Bairro de S. Francisco Xavier no Estúdio Transamérica / FOTO: Ivan Cardoso / LAY-OUT: Lobianco / BITITA E CAFÉ: Seu Manoel / COXIA: Lena Freitas, Clóvis Scarpino e Francisco Vieira / QUITUTES: Leonilda.

Considerações finais

Espero que você tenha gostado desse post com o álbum de Mestre Candeia, Axé!, lançado em 1978 pelo selo Atlantic.

2 comentários em “Axé!”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *