Cartola (1974)

Disco Cartola

Muito tempo levou para que Cartola lançasse seu primeiro disco, homônimo, que chegou às lojas em 1974, pela gravadora Marcus Pereira. Assim como é impossível falar de samba sem citar seu nome, é impensável falar da discografia nacional sem citar seus álbuns.


Finalmente um LP com o grande Cartola! Foi preciso que nascesse uma nova gravadora, a Marcus Pereira, para que fosse dada ao fundador da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, ao maior compositor de todos os tempos dos morros cariocas, a mesma honra já concedida a centenas de nomes surgidos com a mesma rapidez com que desapareceram do panorama de nossa música popular.

Aos 65 anos de idade, Cartola mostra neste disco a razão pela qual é uma legenda e uma lenda do samba. A legenda todo mundo entende. Quanto à lenda, explico melhor. Houve um tempo — bem depois de Cartola ter sido descoberto nos idos de 1930 pelos grandes cantores da época — que o sambista desapareceu do morro e do samba. Muita gente pensava até que ele tivesse morrido e vários sambas falavam dele: “Tenho saudades do terreiro da escola/ Lindos sambas do Cartola”, dizia um de Herivelto Martins; “Antigamente havia grande escola/ Lindos sambas do Cartola”, dizia outro de Pedro Caetano. E Cartola só foi redescoberto em fins dos anos 50 pelo inesquecível Sérgio Porto numa atividade nada condizente para a grandeza do seu nome, era lavador de carros de uma garagem de Ipanema.

Aos 65 anos de idade, Cartola mostra neste disco a razão pela qual é uma legenda e uma lenda do samba.

Mas hoje todas as pessoas ligadas de qualquer forma ao samba reconhecem a sua importância. Ele não só fundou a Estação Primeira como lhe deu nome e as cores verde-e-rosa: Foi o seu primeiro diretor de harmonia. Um dos seus sambas, “Quem me vê sorrindo”, foi gravado por Leopoldo Stokovsky para a Columbia norte-americana, por indicação de Villa-Lobos. Villa-Lobos, aliás, era um grande admirador de Cartola e o convidou várias vezes para participar de espetáculos que promovia. Foi parceiro de Noel Rosa e seus sambas foram gravados por intérpretes como Francisco Alves, Mário Reis, Sílvio Caldas, Carmen Miranda, Elizeth Cardoso e Paulinho da Viola. São muitos, portanto, os títulos de Cartola, o mestre de tantos compositores importantes (o próprio Paulinho da Viola o aponta como a sua grande influência). Mas talvez nenhum seja tão expressivo quanto ao que lhe foi atribuído pelo extraordinário Nelson Cavaquinho numa entrevista que me concedeu. Perguntei a Nelson qual, na sua opinião é o maior compositor da nossa música. Ele não hesitou:

— Cartola!

Sergio Cabral
contracapa


Cartola

Cartola 1974, Discos Marcus Pereira 403.5007) – DISCO É CULTURA – Ouça no spotify, youtube ou itunes.

Disco Cartola

Lado A: “Disfarça e chora” (Cartola – Dalmo Casteli); “Sim” (Cartola – Oswaldo Martins); “Corra e olhe o céu” (Cartola – Dalmo Casteli); “Acontece” (Cartola); “Tive sim” (Cartola); “O sol nascerá” (Cartola – Elton Medeiros).

Lado B: “Alvorada” (Cartola – Carlos Cachaça – Hermínio Bello de Carvalho); “Festa da vinda” (Cartola – Nuno Veloso); “Quem me vê sorrindo” (Cartola – Carlos Cachaça); “Amor proibido” (Cartola – Aluizio Dias); “Ordenes e farei” (Cartola); “Alegria” (Cartola).


J. C. Botezeli (producão e direção de estúdio), Maestro Horondino José da Silva “Dino” (arranjos, regência e violão de 7 cordas), Paulo Frazão (técnico de gravação), Alexandre Silva Bauer e Gaia Piovesan Faro (foto)

Jayme Thomas Florêncio “Meira” (violão), Waldomiro Frederico Tramontano “Canhôto” (cavaquinho), Raul Machado de Barros “Raul de Barros” (trombone), Nicolino Copia “Copinha” (flauta), Gilberto d´Avila “Gilberto” (surdo e pandeiro), Nílton Delfino Marçal “Marçal” (cuíca e caixa de fósforo), Roberto Bastos Pinheiro “Luna” (tamborim e agogô), Jorge José da Silva “Jorginho” (pandeiro e caxixi), Wilson Canegal (ganzá e reco-reco), Joab Lopes Teixeira “Joab” (coral)

3 comentários em “Cartola (1974)”

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