Verde que Te Quero Rosa

Capa do Lp Verde que Te Quero Rosa - Cartola, 1977 RCA-Victor (103.0227)

Cartola em 1977, gravou pela RCA Victor o LP “Verde que Te Quero Rosa”, título de uma de suas músicas, em parceria com Dalmo Castelo. No LP, esse e outros clássicos do samba.

O repertório de Cartola é tão singelo quanto genial, o que faz com que cada um de seus álbuns sejam considerados patrimônios da música nacional. “Verde que Te Quero Rosa” é a terceira produção do sambista e poeta. Lançada em 1977, a obra transborda beleza e elegância desde a faixa-título, uma ode à Mangueira, escola de samba que ajudou a fundar e cuja história se mistura à dele. Aqui, o músico regrava outra referência à verde e rosa: “Pranto de Poeta”, de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito. A seguir transcrevo fielmente o texto publicado na contracapa do LP e assinado por Lúcio Rangel. Achei uma ENTREVISTA de Cartola com Otelo Caçador, Nélson Souto, Lúcio Rangel e Miguel Gustavo, publicada no jornal O Globo em 6 de janeiro de 1972, que transcrevo a seguir. Não deixe de ler, bem como de ouvir “O Divino” Cartola.


Foi nos primeiros anos da década de 30 que eu vi pela primeira vez o nome de CARTOLA. Já havia ele vencido um concurso de escolas do sambas, em 1929, organizado por José Spinelli. A palavra “desfile” veio muitos anos depois. Procurado por cantores como Mário Reis e Francisco Alves, logo viu as suas primeiras músicas gravadas em disco pelos dois grandes intérpretes do samba e, ainda, pela cantora que começara a despontar, já com sucesso absoluto – Carmem Miranda que aliás gravou em sua longa carreira apenas um samba de Cartola – “Tenho Um Novo Amor” – na RCA, no tempo a VICTOR TALKING MACHINE C.° BRAZIL. Já o Chico gravara várias outras, sendo a de maior sucesso, o até hoje lembrado samba “Divina Dama”. Silvio Caldas outro grande intérprete e compositor gravou “Na Floresta”, um samba bipartido. Chico Alves o havia comprado, gostara da música, mas não dos versos. Encomendou outros ao compositor Buci Moreira e nasceu o “Foi em Sonho”. A letra anterior, “Na Floresta”, recebeu música do próprio intérprete, Silvio, ainda na RCA. Anos depois, um cantor que surgia, Arnaldo Amaral, que ia nas águas do Chico, como muitos outros, passa para o disco o samba “Fita os Meus Olhos”, que encontramos na presente gravação, desta vez cantada pelo autor.

Angenor de Oliveira, o CARTOLA, nasceu na Rua Ferreira Viana, no Catete, no dia 11 de outubro de 1908, mas, menino traquinas, como então se dizia, passava o seu tempo livre nas Laranjeiras, bairro próximo ao Catete. A escola de nome “Estação Primeira de Manqueira” foi dado pelo grande sambista e não foi por acaso que as cores da escola são o verde-rosa. É que, brincando por perto da sede do Fluminense F C, tornou-se um ardente tricolor. Aliás, por iniciativas do caricaturista Otelo Caçador, CARTOLA visitou, já célebre, o clube do seu coração, onde foi homenageado pela diretoria, tendo à frente o seu Presidente de onde recebeu bandeiras, troféu e, também o livro do escritor Paulo Coelho Neto, filho do grande romancista, presente na ocasião.

Em 1940, recebemos a visita do maestro de fama internacional Leopold Stokowski. Por indicação de Villa-Lobos, os mais genuínos artistas populares, ou puros, sem influências vindas de outras plagas: CARTOLA estava entre eles e gravou, pela primeira vez, o samba “Quem Me Vê Sorrindo” (parceria com Carlos Cachaça), no navio s.s. Uruguay. Interessante que um cronista de grande jornal, em geral bem informado, desmentiu recentemente o fato, dizendo que CARTOLA jamais havia gravado com Stokowski, quando folheando o mesmo jornal em que escreve, encontraria uma detalhada notícia do acontecimento na coleção do ano.

CARTOLA passou então a ser esquecido. Que me lembra, somente Jamelão gravou um dos seus sambas – “Grande Deus” – em 1952, de rara beleza.

Em 1960/1, surge o Zicartola, na Rua da Carioca, sendo Zica, sua mulher uma grande cozinheira (ai que saudades do grão-de-bico com carne-seca e toucinho). Para ali levou vários companheiros de sua geração como Ismael Silva e Nelson Cavaquinho, outros que não tinham vez para se apresentar ao público, caso do Zé Kéti, além de jovens compositores que surgiam, aqueles que mantinham as tradições do samba, como Elton Medeiros e Paulinho da Viola e muitos outros. É de se notar que passaram a chamar o verdadeiro samba de “sambão”, quando deveria ser o contrário, certos produtos híbridos é que se chamariam, por muito favor, sambinha.

No presente disco em longa-duração, o primeiro que realiza para a RCA e o quinto que grava com técnica moderna e apurada, CARTOLA canta sambas de diversas épocas, sete inéditos , sendo o mais antigo o que se intitula “Que É Feito de Você?” (1958), e o mais recente foi composto em Julho de 1977 “Autonomia”. “Verde que Te Quero Rosa” é do ano anterior. Teria CARTOLA desfigurado o verso famoso de Garcia Lorca? Inútil acrescentar aqui que o nosso sambista nunca leu os versos do grande poeta espanhol. CARTOLA é homem de poucos parceiros aqui vamos encontrar Nuno Veloso (“A Canção que Chegou” de 1971), Dalmo Castelo, um jovem de Ipanema, frequentador do bar que Tom e Vinícius consagraram, parceiro no samba que dá nome ao disco e cuja música e letra foram feitas em 1976. Das mais antigas ou já gravadas anteriormente, encontramos Oswaldo Vasques, o Baiaco (“Fita Meus Olhos)”, seu velho amigo Carlos Cachaça (“Tempos Idos)”, CARTOLA presta homenagem a três compositores que muito admira – Geraldo Pereira com “Escurinha”, gravada anteriormente pelo próprio autor, e a dupla Nelson Cavaquinho — Guilherme de Brito, dois grandes do samba em, “Pranto de Poeta”, já gravado por Nelson que, homenageando CARTOLA e sendo homenageado, canta um dos versos da nova gravação. Devemos, ainda acrescentar, que o samba “Tempos Idos” foi gravado anteriormente com CARTOLA fazendo dupla com a cantora Odete Amaral.

“Nós Dois” é samba feito em 1964, pouco antes do seu casamento com Euzébia Silva do Nascimento, a Zica.

‘CARTOLA canta sambas de diversas épocas, sete inéditos’ neste fantástico elepê

Lúcio Rangel

O produtor deste disco é Sérgio Cabral, um dos maiores conhecedores da música popular brasileira, autor de um livro básico da bibliografia sobre o assunto “As Escolas de Samba, o que, quem, como, quando e por que”, que tive a honra do prefaciar. No momento prepara uma monografia sobre o maior dos nossos artistas populares, o grande Pixinguinha. Sua colaboração nos principais jornais e revistas brasileiras é sempre recebida com interesse pelos leitores, já tendo escrito centenas e centenas de estudos e críticas sobre o assunto a que se dedicou. Sendo assim escolheu o que de melhor convinha para acompanhar a voz de CARTOLA. O mestre Horondino Silva, o famoso Dino do violão de sete cordas fez o arranjo de onze das faixas aqui apresentadas. Chamou ele Altamiro Carrilho, flauta, Nelsinho, trombone de vara, e Abel Ferreira clarineta, músicos de alto gabarito, que todos conhecem. Também seus velhos companheiros Meira “Jaime Florence”, violão e Canhoto (Waldiro Frederico Tramontano), cavaquinho que faziam com ele parte do regional do flautista Benedito Lacerda. Os ritmistas são Wilson, Jorginho Luna, Eliseu, Marçal, além do contrabaixo de Dininho, filho de peixe. O coro que se ouve em diversos números é o do veterano Joab. O próprio Dino está presente nas onze faixas com seu insuperável instrumento.

Em uma das onze faixas do disco, Cartola canta pela primeira vez com grande orquestra e esta não podia ser melhor, dirigida que foi pelo grande maestro Radamés Gnattali, um músico de fama mundial que já se exibiu em inúmeras cidades da Europa. Radamés, pianista dos maiores, está no teclado no samba “Autonomia”. Autor de inúmeras sinfonias, concertos, rapsódias e peças para câmara, Radamés não repudia a música popular brasileira, sendo autor de algumas centenas de peças no gênero. Para ele a etiqueta “erudita” ou “popular” nada significa, e sim a qualidade da música.

Este é o primeiro disco que Angenor de Oliveira realiza para a RCA. Que venham outros, muitos outros, para mostras ás novas gerações o que é o samba em toda a sua autenticidade.

Lúcio Rangel
contracapa

Verde que Te Quero Rosa

1977, RCA-Victor (103.0227)
DISCO É CULTURA
Ouça no spotify, youtube ou itunes

Zica e Cartola
Zica e Cartola (contracapa LP – foto: Ivan Klingen)

REPERTÓRIO

Verde que Te Quero Rosa
Cartola – Dalmo Castelo
Canhoto (cavaquinho), Dino (violão 7 cordas, arranjo), Gordinho (surdo), Meira (violão), Nelsinho (trombone), Wilson das Neves (bateria), Elizeu, Gilberto, Jorginho, Luna, Marçal (ritmo), Coro do Joab (vozes)
[ ouça ♫ ]

verde como céu azul a esperança
branco como a cor da paz ao se encontrar
rubro como o rosto fica
junto a rosa mais querida
é negra toda tristeza
se há despedida na avenida
é negra toda tristeza desta vida

é branco o sorriso das crianças
são verdes, os campos, as matas
e o corpo das mulatas
quando vestem verde e rosa, é Mangueira
é verde o mar que me banha a vida inteira

A Canção que Chegou
Cartola – Nuno Veloso
Abel Ferreira (clarineta), Canhoto (cavaquinho), Dininho (baixo), Dino (violão 7 cordas, arranjo), Elizeu, Gilberto, Jorginho, Luna, Marçal (ritmo), Meira (violão)
[ ouça ♫ ]

na manhã que nascia, encontrei
o que na noite tardia, desejei
e vou feliz a cantar por aí
assim…

toda tristeza que havia
agora expulsei
com a canção que chegou
e vou cantando alegre
a felicidade que Jesus mandou
me lembro dos tempos de outrora
que quase me roubam
a esperança e a fé
e hoje me volto contente
cantando pra Deus
que tanto me ajudou

não vou culpar os amigos
fingidos que outrora, eu tive na vida
nem vou dizer que a razão do fracasso
se prende a batalhas perdidas
e confiante despeço-me
todo feliz a cantar
agradecido, ao bom Senhor
por me ajudar

Autonomia
Cartola
Aizik Geller (cordas), Hélio Capucci (violão), Radamés Gnattali (piano, arranjo), Vidal (contrabaixo)
[ ouça ♫ ]

impossível nesta primavera, eu sei
impossível, pois longe estarei
mas pensando em nosso amor, amor sincero
ai! se eu tivesse autonomia
se eu pudesse gritaria
não vou, não quero

escravizaram assim um pobre coração
é necessário a nova abolição
pra trazer de volta a minha liberdade
se eu pudesse gritaria, amor
se eu pudesse brigaria, amor
não vou, não quero

Desfigurado
Cartola
Canhoto (cavaquinho), Dininho (baixo), Dino (violão 7 cordas, arranjo), Elizeu, Gilberto, Jorginho, Luna, Marçal (ritmo), Gordinho (surdo), Meira (violão), Nelsinho (trombone), Wilson das Neves (bateria), Coro do Joab (vozes)
[ ouça ♫ ]

dizem que estou desfigurado, com razão
estou cansado de pedir a Deus, aos céus enfim
um amor, onde encontrarei, senhor?
livrai-me desta nostalgia
confiante ainda espero o dia

meu coração
é pobre e magoado
é infeliz
como um menor abandonado
viveu sempre nesta ilusão
procurando outro coração

Escurinha
Geraldo Pereira – Arnaldo Passos
Altamiro Carrilho (flauta), Canhoto (cavaquinho), Dino (violão 7 cordas, arranjo), Elizeu, Gilberto, Jorginho, Luna, Marçal (ritmo), Gordinho (surdo), Meira (violão), Wilson das Neves (bateria)
[ ouça ♫ ]

escurinha tu tem de ser minha de qualquer maneira
te dou meu boteco, eu te dou meu barraco
que eu tenho no Morro de Mangueira
comigo não há embaraço
vem que eu te faço meu amor
a rainha da escola de samba
que o teu preto é diretor

quatro paredes de barro, telhado de zinco
assoalho de chão, só tu escurinha
é quem está faltando no meu barracão
sai disso bobinha, ai nessa cozinha levando a pior
lá no morro eu te ponho no samba
te ensino a ser bamba, te faço a maior

Tempos Idos
Cartola – Carlos Cachaça
Canhoto (cavaquinho), Dino (violão 7 cordas, arranjo), Elizeu, Gilberto, Jorginho, Luna, Marçal (ritmo), Gordinho (surdo), Meira (violão), Nelsinho (trombone), Wilson das Neves (bateria), Coro do Joab (vozes).
[ ouça ♫ ]

os tempos idos
nunca esquecidos
trazem saudades ao recordar
é com tristezas que relembro
coisas remotas que não vêm mais
uma escola na Praça Onze
testemunha ocular
e perto dela uma balança
onde os malandros iam sambar
depois aos poucos, o nosso samba
sem sentirmos se aprimorou
pelos salões da sociedade
sem cerimônia ele entrou
já não pertence mais à praça
já não é samba de terreiro
vitorioso ele partiu para o estrangeiro
e muito bem representado
por inspiração de geniais artistas
o nosso samba humilde samba
foi de conquistas em conquistas
conseguiu penetrar o Municipal
depois de percorrer todo o universo
com a mesma roupagem que saiu daqui
exibiu-se para a Duquesa de Kent no Itamaraty

Pranto de Poeta
Guilherme de Brito – Nelson Cavaquinho
part.esp.: NELSON CAVAQUINHO
Abel Ferreira (clarineta), Canhoto (cavaquinho), Elizeu, Gilberto, Jorginho, Luna, Marçal (ritmo), Gordinho (surdo), Meira (violão), Nelsinho (trombone), Dino (violão 7 cordas, arranjo), Wilson das Neves (bateria), Coro do Joab (vozes).
[ ouça ♫ ]

em Mangueira
quando morre
um poeta
todos choram
vivo tranquilo em Mangueira porque
sei que alguém há de chorar quando eu morrer

mas o pranto em Mangueira
é tão diferente
é um pranto sem lenço
que alegra a gente
hei de ter um alguém pra chorar por mim
através de um pandeiro ou de um tamborim

Grande Deus
Cartola
Canhoto (cavaquinho), Dino (violão 7 cordas, arranjo), Elizeu, Gilberto, Jorginho, Luna, Marçal (ritmo), Gordinho (surdo), Meira (violão), Nelsinho (trombone), Wilson das Neves (bateria)
Arranjador(es): Dino 7 Cordas (Horondino José da Silva)
[ ouça ♫ ]

Deus, grande Deus
meu destino bem sei
foi traçado pelos dedos teus
grande Deus
de joelhos aqui eu voltei para te implorar
perdoai-me, sei que errei um dia
oh! perdoai-me pelo nome de Maria
que nunca mais direi o que não devia

eu errei, grande Deus
mas quem é que não erra
quando vê seu castelo cair sobre a terra
julguei senhor, daquele sonho
eu jamais despertaria
se errei
perdoai-me
pelo amor de Maria

Fita Meus Olhos
Cartola – Osvaldo Vasques
Canhoto (cavaquinho), Elizeu, Gilberto, Jorginho, Luna, Marçal (ritmo), Gordinho (surdo), Meira (violão), Nelsinho (trombone), Dino (violão 7 cordas, arranjo), Wilson das Neves (bateria), Coro do Joab (vozes)
[ ouça ♫ ]

fita os meus olhos
vê como eles falam
vê como reparam, o seu proceder
não é preciso dizer, deve compreender
e até mesmo notar, só no meu olhar

não abuses por eu te confessar
que nascestes só para eu te amar
gosto tanto, tanto de você
que os meus olhos falam o que não vê

ainda há de chegar o dia
que eu hei de ter grande alegria
quando você souber compreender
num olhar o que eu quero dizer

Que É Feito de Você
Cartola
Altamiro Carrilho (flauta), Canhoto (cavaquinho), Dino (violão 7 cordas, arranjo), Elizeu, Gilberto, Jorginho, Luna, Marçal (ritmo), Gordinho (surdo), Meira (violão), Wilson das Neves (bateria)
[ ouça ♫ ]

o que é feito de você ó minha mocidade
ó minha força, a minha vivacidade
o que é feito dos meus versos e do meu violão
troquei-os sem sentir por um simples bastão
e hoje quando passo, a gurizada pasma
horrorizada como quem vê um fantasma
e um esqueleto humano, assim vai
cambaleando, quase cai, não cai

pés inchados, passos em falso, olhar embaçado
nenhum amigo a meu lado
não há por mim compaixão
a tudo vou assistindo
a ingratidão resistindo
só sinto falta dos meus versos
da mocidade e do meu violão

Desta Vez Eu Vou
Cartola
Altamiro Carrilho (flauta), Canhoto (cavaquinho), Dino (violão 7 cordas, arranjo), Elizeu, Gilberto, Jorginho, Luna, Marçal (ritmo), Gordinho (surdo), Meira (violão), Wilson das Neves (bateria)
[ ouça ♫ ]

perdoai amor, mas desta vez eu vou
vou te levar de volta, á casa dos teus pais
eu não posso mais sofrer, és um caso perdido
tu não pensas como eu penso, não desejas um bom marido

então perdoai amor
mas desta vez eu vou
vou te dizer que nunca mais
ei de chorar por ti
nada perdes, e nada perdi

tinhas pela frente, um grande futuro
e eu dizia crente, o nosso amor é puro
mas a realidade chegou afinal
e o nosso amor termina de um modo tão banal

Nós Dois
Cartola
Abel Ferreira (saxofone soprano), Canhoto (cavaquinho), Dino (violão 7 cordas, arranjo), Elizeu, Gilberto, Jorginho, Luna, Marçal (ritmo), Gordinho (surdo), Meira (violão), Wilson das Neves (bateria)
[ ouça ♫ ]

está chegando o momento
de irmos pro altar
nós dois
mas antes da cerimônia
devemos pensar e depois
terminam nossas aventuras
chega de tanta procura
nenhum de nós deve ter
mais alguma ilusão

devemos trocar idéias
e mudarmos de idéias
nós dois
e se assim procedermos
seremos felizes depois
nada mais nos interessa
sejamos indiferentes
só nós dois, apenas dois
eternamente


FICHA TÉCNICA — DIRETOR CRIATIVO: Durval Ferreira / DIREÇÃO DE ESTÚDIO E COORDENAÇÃO ARTÍSTICA: Sérgio Cabral / TÉCNICOS DE GRAVAÇÃO: Nestror Vitiritti e Luiz Carlos T. Reis / MIXAGEM: Luiz Carlos T. Reis / CORTE: José Oswaldo Martins / ESTÚDIOS: RCA Rio de Janeiro / FOTO: Ivan Klingen / LAY-OUT: Ney Távora.

BATE PAPO COM CARTOLA NA MADRUGADA DO LEBLON

Quando um valente chamava pra briga, era pra valer

Uma noite batiam um papo, em um bar no Leblon, Lúcio Rangel, Miguel Gustavo, Otelo Caçador, Nelson Souto — pianista amador, mas dos melhores — e Eduardo Souto Neto, filho de Nélson e jovem compositor que já começa a despontar para o sucesso. Era um bate-papo sem compromisso e agradável. Como são sempre os bate-papos dos botequins do Leblon.

De repente, violão na mão, porta a dentro surgiu o Sr. Agenor de Oliveira — nome correto de Cartola é Angenor de Oliveira — , com todo o seu ar simpático e ginga inconfundível do sambista típico dos morros do Rio. É claro que todo mundo já viu que o Sr. Agenor de Oliveira é o Cartola, da Mangueira. O divino Cartola, como o chama Lúcio Rangel e o chamava seu sobrinho (de Lúcio Rangel) Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta.

Cartola deu um alô geral e foi sentando. É claro que, a vista do violão, logo alguém pediu que Cartola cantasse um dos seus sambas.

— Engraçado ninguém me ofereceu um limãozinho, mas querer que eu cante todo mundo quer. Olha, o negócio é o seguinte: manda vir o limão de uma vez, mas vou avisar pra vocês que hoje eu não estou a fim de cantar; tô mais é a fim de papo. Aí o papo começou.

OTELO — Cartola, quem eram os valentes da Mangueira em seu tempo de rapaz?

CARTOLA — Naquele tempo haviam muitos valentes. Mas eram valentes mesmos, não faziam covardia como os meninos de agora. Quando um chamava prá briga era pra valer, no duro.

OTELO — Na Mangueira ninguém atirava pelas costas?

CARTOLA — Não. Ninguém atirava pelas costas. Eles chamavam pra briga e o pau comia.

OTELO — Na navalha ou no braço?

CARTOLA — Navalha, faca, braço, cacête, revólver. O que tivesse que acontecer, acontecia. O Maçu (Marcelino José Claudino, duas vezes Presidente da Mangueira, o primeiro mestre-sala de todas as escolas de samba, ainda vivo), só brigava na faca. Podia vir de cacête ou de revólver; ele ia de faca.

OTELO — Quando tempo você tem de morro?

CARTOLA — Vou fazer 50 anos de Mangueira; e não penso em sair de lá; só a força. Gosto muito de morar no morro.

OTELO — Por que?

CARTOLA — Já tenho ambiente. Fui criado lá, sou respeitado. Eu e minha família temos muito prestígio no morro.

OTELO — Você conhece a Zica a muito tempo: é apaixonado por ela?

CARTOLA — Isso aí é uma paixão mesmo. Conheci Zica a muito tempo, quando ela ainda era solteira. Depois casou-se ficou viúva; eu era casado fiquei viúvo. Aí calhou da gente se encontrar.

OTELO — Você fez algum samba pra Zica? Se fêz, canta só um pouquinho.

CARTOLA — Fiz uns dois ou três, mas já falei, que não tô a fim de cantar.

OTELO — Diz um deles

CARTOLA — “Tive Sim” aquele que tirou prêmio na Bienal de São Paulo, quando o Lúcio aí foi do júri.

OTELO — Canta só um pouquinho

CARTOLA — (começa a batucar na mesa, nem dá bola para o violão encostado na parede, não está mesmo á cantorias) Tive sim/ Um grande amor antes do seu/ Tive sim/ O que ela sonhava/ Eram os meus sonhos/ E assim fomos vivendo em paz

OTELO — Todos mundo sabe que a Zica é o fino na cozinha. Qual o prato dela que você prefere?

CARTOLA — Sabe de uma coisa? Eu gosto muito de galinha com inhoque; fica um estouro quando ela prepara.

OTELO — Pra quem você fez “Sim”?

CARTOLA — “Sim” foi feito a muitos anos; quando morreu minha primeira mulher. Ela era muito boa pra mim.

OTELO — Dos músicos jovens, daqui do asfalto, de quem é que você gosta mais?

CARTOLA — Dessa rapaziada eu gosto mais do Carlinhos Lira, mas gosto muito também do Tom e do Chico Buarque.

OTELO — Porque você gosta mais do Carlinhos?

CARTOLA — Porque a melodia dele é uma coisa de doido.

OTELO — E o Chico?

CARTOLA — É bom de letra; é um poeta.

OTELO — Você sabe que o Tom gosta muito de você?

CARTOLA — Empatou. Ele também conjuga muito bem; junta bem a letra e a música.

OTELO — Qual a música que você gostaria de ter composto?

CARTOLA — As minhas mesmo; estou muito satisfeito com elas.

OTELO — Você conheceu a Carmem Miranda?

CARTOLA — Conheci muito bem. Ela era ótima.

OTELO — Como mulher ou como cantora?

CARTOLA — Como amiga. Ela era boa praça.

OTELO — E o Noel Rosa?

CARTOLA — Esse era muito meu chapa; vivia na minha casa e eu na dele. Cheguei a gravar com ele.

EDUARDO SOUTO — Qual foi a sua primeira profissão?

CARTOLA — Minha primeira profissão foi gráfico. Eu era impressor. Mas aos 22 anos abandonei a profissão.

EDUARDO SOUTO — Mudou de profissão?

CARTOLA — Não. Parei de trabalhar. Simplesmente.

NELSON SOUTO — E como é que você vivia?

CARTOLA — No morro a gente vive bem. Em Mangueira principalmente. A gente come, bebe e dorme; não tem problema.

NELSON SOUTO — E quem paga?

CARTOLA — Os amigos. No morro, se você tiver amigos não tem problemas. Eu tinha muitos. Era bem educado, bem mandado e assim fui vivendo minha vida.

OTELO — Quem eram as mulheres fatais da Mangueira naquela época?

CARTOLA — Chi rapaz, tinham tantas que eu nem me lembro.

OTELO — A Irís?

CARTOLA — Essa era do Salgueiro.

OTELO — Quem é a “boa” de hoje?

CARTOLA — Boa é a minha.

OTELO — Mas fora ela, dessas bacanas que aparecem nas revistas, de biquini, qual você prefere?

CARTOLA — Não gosto de ver mulher em revista. É bobagem.

OTELO — Você gosta da Gina Lollobrigida?

CARTOLA — Que que adianta?

OTELO — E se ela desse bola pra você?

CARTOLA — Aí eu convidada ela pra tomar uma cana e levar um papo comigo.

Os Caminhos da MPB

Essa gente toda ligada à música junta tinha que levar a conversa para os caminhos da música popular. No fim das contas ninguém sabe direito onde é que vamos chegar e o que está sendo feito para se chegar a algum lugar. Muita gente está fazendo uma porção de coisas mas, parece que ainda não existe ainda uma rota definida e definitiva.

Eduardo Souto Neto até este momento, era apenas um bom ouvinte, mas frente a Cartola, não conseguiu se dominar. Quis saber o que o “divino” achava da rapaziada de sua idade. Da moçada que parte para um som diferente, de laboratório, estudado. Cartola torceu o nariz para a música deles. Mas o melhor mesmo é saber direitinho o que foi falado.

EDUARDO SOUTO NETO — Eu estou começando e gostaria de saber o que você acha desse movimento atual, o que essa gente nova está fazendo como Egberto Gismonti, Antônio Adolfo, Tibério Gaspar; essa fase de transição que a música popular atravessa. O que você acha disso?

CARTOLA — Eu acho um pouco lentas as músicas de vocês. Uma coisa um pouco mole. Desculpe a franqueza, mas vocês precisam fazer música maism quente. Aí pode ser que vocês cheguem lá.

EDUARDO SOUTO NETO — Vou repetir a pergunta mais claramente. O que você acha desse movimento jovem da música popular brasileira? A transição atual por que está passando a nossa música que não definida. Há um grupo chamado “tropicalista” e as músicas do tipo de Antonio Adolfo e Tibério. O que você acha dessa variedade de ritmos? Isto é bom ou mal para a música brasileira?

CARTOLA — Sinceramente eu acho que isso não seja bom para a música popular brasileira. Devemos recuar um pouco mais, à procura da origem de nossa música. Desse jeito nós estamos fugindo do que é nosso.

EDUARDO SOUTO NETO — Você acha que nós devemos procurar novos caminhos em matéria de harmonia?

CARTOLA — Claro que é possível procurar novos caminhos em matéria de harmonia, mas é preciso não esquecer que o ritmo deve ser mantido. Fugir do ritmo, nunca. Principalmente se a fuga for em direção dessas músicas lentas demais, meio esquisitas.

EDUARDO SOUTO NETO — Mas a seresta não é lenta?

CARTOLA — Mas em outro ritmo. Completamente diferente. essas músicas que vocês estão fazendo também não servem para seresta. Experimente fazer seresta com essas músicas e vê o bicho que vai dar.

OTELO — O que você do Martinho da Vila? Ele é o morro?

CARTOLA — O Martinho da Vila não é o morro. A música dele é muito diferente da que se faz no morro. Sobretudo os partidos-altos. Não tem nada que ver com o morro. Martinho começou em escola de samba, mas, depois sofreu muita influência de fora. Hoje — presta atenção Otelo —, em termos de partido-alto o Martinho não tem nada que ver o com o partido-alto tradicional.

OTELO – Então Martinho não é um partideiro?

CARTOLA — É. Só que diferente, ele é uma cópia da Clementina, mas a Clementina é o morro mesmo quando canta partido-alto. Aliás, você sabe como é esse negócio de cópia; nunca fica igualzinho.

OTELO — João da Baiana era partideiro?

CARTOLA — Esse era. Partideiro e batuqueiro. Entrava sempre nas rodas de samba-duro.

OTELO — O Tom Jobim é um partideiro?

CARTOLA — Deus me livre. O Tom Jobim fica mais perto do Vila-Lobos.

OTELO — E o Edu Lobo?

CARTOLA — Não.

OTELO — Você falou aí em samba duro e batucada. Que que é isso?

CARTOLA — Samba duro e batucada é a mesma coisa. A gente fazia isso a qualquer hora, em qualquer dia. Juntavam uma vinte pessoas — homens e mulheres — e a gente começa a cantar. Apenas uma linha ou duas de coro e os versos improvisados. Isso é que é partido-alto. Os únicos instrumentos eram o pandeiro, o violão e o prato e faca (prato de comer e faca de cortar carne; a faca raspa o prato) e no coro as mulheres batiam palmas. Ai um — o que versava — ficava no meio da roda e tirava um outro qualquer. Ai dançando e gingando mandava perna. O outro que se virasse pra não cair.

OTELO — O Lúcio Rangel é um partideiro?

CARTOLA — Não. O Lúcio Rangel é o meu maior amigo e o meu maior admirador. Eu entendo ele e ele me entende. Mas não é partideiro.

OTELO — E o Sérgio Porto?

CARTOLA — É melhor nem falar nesse nome; dá vontade de chorar. Foi um grande amigo que tive.

LÚCIO RANGEL — Diz os nomes de alguns compositores que você considera bons.

CARTOLA — Orestes Barbosa, Noel Rosa, Ataulfo Alves, Ari Barroso, Custódio Mesquita e Armando Marçal.

LÚCIO RANGEL — Quem é o melhor cantor?

CARTOLA — Silvio Caldas.

OTELO — Você gosta do Roberto Carlos?

CARTOLA — Como compositor gosto. Ele é melhor compondo do que cantando.

OTELO — Segundo o Lúcio Rangel, você é o único compositor brasileiro popular que tem uma música gravada por uma orquestra sinfônica. Você lembra disso?

CARTOLA — Claro que lembro. A orquestra é a Sinfônica de Nova York e o regente foi o Leopold Stokowski

OTELO — Qual foi a música que eles gravaram?

CARTOLA — Eu nem me lembro, mas acho que o Lúcio Rangel tem o disco. Eu nunca ouvi este disco; os caras não se preocuparam em mandar ele para o otário aqui.

LÚCIO RANGEL — Eu tinha o disco sim. Mas dei para o Museu da Imagem e do Som. Além deste, só o Sérgio Porto tinha um, mas o do Sérgio sumiu.

CARTOLA — Eu me lembro direitinho do dia que o Stokowski gravou a minha música. Foi a bordo do navio Uruguai. O Lúcio também estava lá e ficou muito contente.

NELSON SOUTO — Papai (Eduardo Souto), Ari Barroso, você Cartola, Donga, Sinhô e muitos outros fizeram as raízes da nossa música. Agora, você acha que ela evoluiu com essa turma toda que esta compondo?

CARTOLA — Acho que a música não evoluiu num ponto: o ritmo é morto demais; não é quente. Cada dia fica mais lento, quase morrendo. Qualquer dia vira música de Igreja.

NÉLSON SOUTO — Você acha Tom Jobim importante na música brasileira?

CARTOLA — Acho. O Tom é bom demais, importantíssimo.

NÉLSON SOUTO — Então você acha a bossa-nova quente?

CARTOLA — Não. Eu não acho a bossa-nova quente. É muito devagar.

NÉLSON SOUTO — Mas você tem músicas que são quase bossa-nova.

CARTOLA — Eu não tenho culpa disso. Eu já fazia antes. Se eles fizeram músicas iguais às minhas, eu não tenho culpa. Mas garanto que a que eu faço é quente e bossa-nova não é quente.

Cartola está feliz: tem casa pra morar

Todo mundo se convenceu que não convencia Cartola. O homem tem suas convicções a respeito de música e ninguém vai mesmo afastá-lo delas. Então o jeito foi falar um pouco sobre o cidadão CARTOLA. De suas origens. De suas outras manias. Uma das quais, por incrível que pareça, é o Fluminense?

OTELO — Porque você é Fluminense?

CARTOLA — Porque eu nasci no Catete e depois fui morar em Laranjeiras. Eu vi o campo do Fluminense ser feito lá de cima do morro Mundo Nôvo.

OTELO — Um dia você foi recebido pelo Presidente Laport, do Flu, e visitou o clube inteiro. Neste dia você ficou muito emocionado?

CARTOLA — Fiquei.

OTELO — Você chorou?

CARTOLA — Não tenho lágrimas.

OTELO — Você nunca chorou?

CARTOLA — Só quando morreu minha mãe.

OTELO — E quando aquela mulher foi embora, você chorou?

CARTOLA — Quando mulher vai embora a gente dá risada. Mulher está mais barato que um quilo de feijão.

OTELO — Cartola, Fluminense dá samba?

CARTOLA — Acho que dá.

LÚCIO RANGEL — O Cartola está contando vantagem que nunca chorou. Você se lembra que nós já choramos juntos Cartola?

CARTOLA — Quem chorou foi você. Enquanto eu fui na cozinha buscar um uísque prá você, você se mandou chorando da minha casa.

LÚCIO RANGEL — Mas você estava com lágrimas nos olhos

CARTOLA — Lágrimas nos olhos é uma coisa, chorar é outra. Eu fiquei com lágrimas nos olhos porque o meu amigo foi embora chorando e eu fiquei triste.

LÚCIO RANBGEL — Mas a culpa de tudo foi sua. Ninguém faz um samba como “Acontece” impunemente.

OTELO — Como é esse samba Cartola?

CARTOLA (cantando) — Esquece nosso amor / Vê se esquece / Porque tudo no mundo acontece / E acontece porque já não sei mais amar / Vai chorar / Vai sofrer / E você não merece / Mas isso acontece

OTELO — Lúcio, tem algum sambista maior que o Cartola?

LÚCIO RANGEL — O Cartola nunca se dedicou. Nunca foi profissional. Ele só faz o que sente. Mas tudo que ele faz é de primeiríssima qualidade. Essa coisa de maior é para Flamengo e Botafogo. Para sambista não existe essa medida.

OTELO — Qual é a medida do samba?

LÚCIO RANGEL — A sinceridade, o talento.

OTELO — Como é que você descobriu que sabia fazer samba?

CARTOLA — Comecei cantando de brincadeira uma música que eu tinha feito e o pessoal do morro gostou.

OTELO — Que morro?

CARTOLA — Morro pra mim e Mangueira. O resto é barranco.

LÚCIO RANGEL — Você vendeu algum samba pro Mário Reis?

CARTOLA — Vendi a “Infeliz Sorte”, por 300 mil réis. Era uma nota muito alta na época e o Mário foi muito legal: meu nome saiu em todas as gravações.

LÚCIO RANGEL — Esse samba é o ideal para a voz do Mário Reis.
A divisão é toda feita para a voz dele.

NÉLSON SOUTO — Como é que a gente faz samba?

CARTOLA — Com sinceridade, não sei. É uma coisa que acontece.
A gente tem uma idéia; Aquilo passa na frente da gente e a gente vai lendo tudo que tem ali. Se não escrever naquela hora não escreve mais.

NELSON SOUTO — Quer dizer que você acreditava pura e simplesmente na inspiração?

CARTOLA — Eu acredito; comigo é assim.

Falcatruas

LÚCIO RANGEL — Hoje em dia é promoção. O Cartola é um homem modesto, que vive dentro da casa dele. Não vive “pela aí”, como diria o Sérgio (Stanislau Ponte Preta), pelas boates, pelas estações de rádio, pelas fábricas de disco. Essas fábricas podem pegar um desconhecido e botar nas nuvens: podem também esquecer qualquer um. É o que aconteceu com Cartola: esqueceram ele. Por que não gravam suas músicas? Ele tem mais de 100 sambas inéditos todos bons.

NÉLSON SOUTO — O negócio do direito autoral é uma queixa uníssona de todo mundo que faz música. Cartola, você que é um das glórias da música popular, recebe direitos autorais de acordo com o que você produziu, que todo mundo canta por aí, ou você não tem dinheiro para viver tranquilamente como deveria?

CARTOLA — Como disse o Lúcio, eu não ando em corredores de estação de rádio, nem atrás dos homens das fábricas. Também não peço a ninguém para gravar minhas músicas, os “caras” só gravam quando querem e se quiserem: por isso não tem dinheiro pra mim.

LÚCIO RANGEL — Uma vez me disseram que o Ismael Silva era um vagabundo porque ele vivia de fazer samba. Ora, o George Gershwin e o Cole Porter nunca fizeram outra coisa na vida e nunca foram chamados de vagabundo.

OTELO — Você acha Lúcio, que o Gershwin falcatruou a música do norte-americano?

LÚCIO RANGEL — Claro: falcatruou e deturpou. Nós temos aqui no Brasil 50 compositores melhores do que ele.

OTELO — Quer dizer que ele passou o crioulo pra trás?

LÚCIO RANGEL — Lógico: e ficou milionário. Ele procurava agradar a quem? Aos brancos, não é? E o que os brancos eram? Eram os que tinham dinheiro para comprar discos. Tudo, no fundo, é uma questão de dinheirinho.

NÉLSON SOUTO — Tem muito sujeito sem valor que vive a explorar a música brasileira.

LÚCIO RANGEL — Hoje, é muito raro se ouvir no rádio ou na televisão uma música de um sujeito chamado Ari Barroso. Eu mesmo vi, no fim de sua vida, o Ari procurar uns cantorezinhos principiantes e pedir pelo amor de Deus que gravassem suas músicas. E acho que ninguém pode ter dúvidas do valor de Ari Barroso. Vocês podem ver agora o exemplo de Cartola: para conseguir fazer uma casa no Morro da Mangueira ele depende da boa vontade de uma porção de gente que dá o material e do esforço dele mesmo que está com as suas próprias mãos construindo sua casa.

CARTOLA — Olha Lúcio, eu fiz a minha casa e estou muito satisfeito porque fiz ela a meu jeito. Mostrei que sabia fazer — o que muita gente duvidou — e isso foi bom pra mim. A casa é segura, não vai cair como muitas obras importantes por aí. A gente pode morar, brincar e até pular lá dentro.

NÉLSON SOUTO — Mas você acha justo que um compositor da sua categoria seja obrigado a construir com material doado e com as próprias mãos a sua casa?

CARTOLA — Acho justíssimo. Todo mundo tem que trabalhar. Então você acha que eu deveria esperar a casa cair do céu em cima de mim?

As Preferências

LÚCIO RANGEL — E como vai seu velho parceiro Carlos Cachaça?
Hoje ele é um esquecido e fez grandes sambas com você.

CARTOLA — Carlos ainda faz samba, mas se desligou e não liga mais pra nada. Para ele tanto faz quanto tanto fez, mas é um grande compositor e o maior porta que eu conheci.

OTELO — Maior que o Chico Buarque?

CARTOLA — Maior sim; mais depois do Carlos Cachaça o melhor é o Chico.

OTELO — Vou dizer dois nomes e você escolhe um: Nélson Cavaquinho e Edu Lobo

CARTOLA — Nélson Cavaquinho

OTELO — Carmem Miranda e Elis Regina

CARTOLA — Carmem Miranda

OTELO — Chico Buarque de Hollanda ou Élton Medeiros

CARTOLA — Chico Buarque de Hollanda

OTELO — Nelson Sargento ou Luiz Reis

CARTOLA — Luis Reis

OTELO — Clementina de Jesus ou Elza Soares

CARTOLA — Elza Soares

LÚCIO RANGEL — O fato de uma cantora ser antiga não quer dizer que o antigo é melhor que o moderno. A Elis Regina seria genial em qualquer época; ela poderia cantar as músicas de Patápio ou Cândido das Neves que ela seria sempre genial. Mas a cantora que deveria ser a número 1 do Brasil não o é por deficiências vocais: Nara Leão. Ela gravou desde bossa-nova até compositor de morro. Gravou Noel, Nélson Cavaquinho e Cartola, mas não tem vez

OTELO — E você Miguel Gustavo, o que você acha da Nara?

MIGUEL GUSTAVO — Eu acho Nara Leão sensacional. Ela compensa o problema da voz com vários outros recursos. É uma cantora intimista: é uma das cantoras que você tem que ir até ela.

OTELO — Você gostaria de ser o Cartola?

MIGUEL GUSTAVO — Claro que gostaria.

A Batucada

MIGUEL GUSTAVO — Cartola, você se lembra daquele Partido Alto (cantando): “A lei mandou / A lei mandou derrubar”. O pessoal fazia roda e o coro cantava “A lei mandou / A lei mandou derrubar”. Aí um cara chegava e cutucava o outro. Isso é samba duro?

CARTOLA — Isso é batucada

MIGUEL GUSTAVO — Inclusive nas beiradas do Morro da Mangueira para baixo tinha uma roda de samba que o coro cantava esse negócio de “A lei mandou”. Era uma roda grande de homens e mulheres, uns vinte, todos cantando “A lei mandou / A lei mandou derrubar / É ordem do rei pra pegar”. Entrava um cara no meio da roda e dizia um verso ai ele escolhia um para cair na pernada, na rasteira ou na umbigada. Isso é o que?

CARTOLA — Nos morros cariocas existia isso. É batucada. Tinha até aquela: “Piedade / Piedade da mãe de Deus / Piedade”. Aparecia sempre um batuqueiro bom de outro lugar. Aí o batuqueiro local, também bom, mandava cantar “A lei mandou”. Os versos eram improvisados e o escolhido para derrubar o batuqueiro entrava na roda e se derrubasse ele o coro canta “O bom caidor / O bom caidor já caiu” e continuavam os versos improvissados

MIGUEL GUSTAVO — As origens devem ser as mesmas origens negras das tribos da África que foram para a Bahia. É samba de rôda.

CARTOLA — É batucada. Eu aprendi a brincar batucada. Eu brincava com o Marcelino. Uma vez chegou lá no Morro da Mangueira um tal de Gago Ferreira da Favela, um batuqueiro muito bom. Ele duvidou de mim. Ai o Marcelino veio pra mim e disse: “Vai lá pegar o homem”. Eu fui e acabei derrubando ele.

MIGUEL GUSTAVO — A gente tem que pesquisar. Eu tenho a impressão que esse samba de batucada tem as mesmas origens do samba de roda. Ainda agora num concurso de samba que houve na Bahia, o primeiro ou segundo lugar, era um samba desses, chamava-se “O Samba do Chauffeur” (cantando) “Foi agora que eu cheguei / Foi agora que eu cheguei dona” e o resto era tudo samba de verso, samba de roda, feito na hora, improvissado

LÚCIO RANGEL — A Tia Ciata, Tia Amélia, Tia Prisciliana, aquela turma toda de onde nasceu o primeiro samba. Todas elas eram baianas. A mãe do João da Baiana, que é o João Machado Guedes.

MIGUEL GUSTAVO — Exato. Um dos que frequentavam a casa de Tia Ciata era nada mais nada menos do que o Presidente Venceslau Brás e inclusive ele teria tido um negócio numa perna que ninguém curava e foi a Tia Ciata quem curou a perna dele. Foi o Buci Moreira quem me contou isso. Buci Moreira é um batuqueiro famoso, uma grande figura do samba, que a gente tem que tirar o chapéu. Ele é uma figura muito séria.

LÚCIO RANGEL — Era da primeira geração do samba, junto com Sinhô, Caninha, Careca.

MIGUEL GUSTAVO — Todas aquelas tias, que também devem ser tias da gente, devem ter trazido da África para o Rio de Janeiro o partido alto.

OTELO — O que é que você acha Lúcio?

LÚCIO RANGEL — Não há dúvida. E elas, as tias, Já eram a terceira geração de sambistas da Bahia, porque isso existe desde o tempo da escravidão e foi daí que nasceram “Pelo Telefone”, na “Praça Onze”.

MIGUEL GUSTAVO — O babado baiano é de Angola. Fora de Angola não há salvação.

OTELO — E aquela música que você fez para o Moreira da Silva, aquilo é Angola?

MIGUEL GUSTAVO — Não, aquilo não tem nada a ver com Angola.

OTELO — Aquela música abalou a cidade. Você tem que pesquisar.

MIGUEL GUSTAVO — É. Eu vou perguntar ao Lúcio Rangel.

OTELO — Não, você tem que pesquisar dentro de você.

MIGUEL GUSTAVO — Talvez o carioca típico, malandro, saltador, vivo, talvez esse carioca tivesse criado a coisa.

CARTOLA — Bem, agora chega. Agora eu vou para casa porque eu estou cansado. Espero vocês para um vatapá lá em casa.

FINAL

Considerações finais

Espero que você tenha gostado desse post com o álbum de Mestre Cartola, Verde que Te Quero Rosa, lançado em 1977 pela RCA, bem como da entrevista transcrita do jornal O Globo.

1 comentário em “Verde que Te Quero Rosa”

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