Canto das três raças

Clara Nunes Canto das Três Raças

No LP “Canto das três raças”, Clara Nunes quebrou um recorde: mais de 500 mil cópias. O repertório trazia pérolas de Vinicius, Chico e Nelson Cavaquinho, entre outros. A seguir texto de Paulo César Pinheiro, publicado na contracapa do elepê.


Quando o Brasil ainda era um país desconhecido do resto do mundo, a nossa música era apenas sons dispersos na boca do índio habitante. Porque fazer som e ritmo é próprio do instinto humano. Mas nada havia de definido em termos musicais. Até que aqui chegou o português colonizador e a história da MPB começa. A Terra foi tomada em nome do rei. E o índio guerreiro foi vencido e escravizado ao trabalho da lavoura, em favor da civilização. E, do cativeiro, ecoaram os primeiros cantos tristes que começaram a definir o nosso canto brasileiro.

Dado ao gigantismo da nova nação descoberta, precisavam os conquistadores de muitos e muitos braços para o trabalho, que se prenunciava tão grande quanto o próprio território. E importaram de suas colônias africanas a raça nascida escrava: a Raça Negra.

E o canto do índio cativo juntou-se ao lamento do preto sofrido das senzalas e dos quilombos. E a música passou a tomar novas formas, proporções e grandeza às quais o mundo inteiro ainda viria se curvar.

Porque, quando Clara canta, se une ao povo num sentimento comum. E o povo sente, gosta e canta com ela.

Para a nova Terra partia toda espécie de gente: desde os homens de confiança da coroa portuguesa até aventureiros buscando riquezas. E aqui, saudosos de seus lugares de origem passaram também a criar seus cantos.

A colônia crescia e os próprios brancos já sentiam a necessidade da quebra das correntes que uniam Brasil e Portugal. Até que se deu a Independência. E o expressão “Música Popular Brasileira”, desde aí, passou a ter a sua definitiva validade.

Esta é a sua história. A história da música de um país feita pela união das três raças que o construíram. E, tendo sido feita pelo povo, só o próprio povo tem o direito de julgar e consagrar a música popular, porque somente ele sabe os que melhor interpretam seus sentimentos. Os grandes mestres saíram sempre do povo. O bom intérprete sente um estranho afeto pela composição que interpreta. E, nesse instante, letra e melodia são suas. O autor é ele.

Por isso Clara Nunes tem o quilate de uma grande intérprete. Porque, quando canta, se une ao povo num sentimento comum. E o povo sente e gosta e canta com ela. Porque também do povo é o compositor que ainda está por surgir, o mestre que ainda não apareceu.

O povo é simples nas suas origens. E entende melhor as coisas simples. Por isso Clara, porque também veio do povo e tem a mesma simplicidade, porque traz dentro de si a força do talento, porque dedicou-se completamente á música de sua Terra e ao canto de seu povo que ela tanto ama, pode ser chamada por nós de Cantora das Três Raças.

A brasileira Clara Nunes.
Mineira carinhosamente.
Ou somente CLARA.

Paulo César Pinheiro
contracapa

Clara lançou o LP “Canto das três raças” em 1976, esse também é o nome da principal música do disco. A letra da música e toda a ideia da obra destacava aspectos da luta dos africanos no Brasil e a sua importância histórica como protagonistas de movimentos de transformação social, cultural, dentre tantos outros, dando uma visibilidade positiva ao papel do negro na história brasileira.

A letra referenda a miscigenação, a mistura de raças na composição da identidade cultural brasileira. As três raças cantadas são as bases da nossa civilização, mas, que apesar disso, suas histórias são de dor, e não de alegria. Além disso, em 1982, em entrevista durante sua turnê, Clara define a música como sendo algo que “resume a formação da música popular brasileira que foi a junção das três raças, o índio, o negro e o branco que formou o brasileiro e a Música Popular Brasileira que fala do sentimento do amor e de alegria”.

Essa capacidade que Clara tinha de dialogar com o seu público com temas que fazem parte do cotidiano foram um dos elementos que favoreceram o sucesso da cantora, não apenas o comercial mas também seu crescimento na profissão, sua repercussão, sua interatividade com as que faziam parte do cantar música popular brasileira nesse período. Clara, dessa forma, pode ser considerada como a expressão musical mais consistente para evidenciar o panorama do período. É nesse período da década de 1960-70 em que o popular é revisto e valorizado. Ou seja, a ideia de povo, e que é apresentada no encarte escrito por Paulo César:

O povo é simples nas suas origens. E entende melhor as coisas simples. Por isso Clara, porque também veio do povo e tem a mesma simplicidade, porque traz dentro de si a força do talento, porque dedicou-se completamente á música de sua Terra e ao canto de seu povo que ela tanto ama, pode ser chamada por nós de Cantora das Três Raças. A brasileira Clara Nunes.

Talvez uma das razões de seu sucesso seja justamente essa identificação do povo com Clara, que vem de origens humildes, que era tecelã e que tenta a sorte com a música.

Repertório

O álbum é composto por dez faixas, no lado A temos: “Canto das três raças” de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro [ ouça ♫ ]; “Lama” de Mauro Duarte [ ouça ♫ ]; “Alvoroço no Sertão” de Aldair Soares e Raymundo Evangelista [ ouça ♫ ]; “Tenha paciência” de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito [ ouça ♫ ]; “Ai, quem me dera” de Vinicius de Moraes [ ouça ♫ ]. Já no lado B o repertório é: “Risos e lágrimas” de Nelson Cavaquinho, Rubens Brandão e José Ribeiro [ ouça ♫ ]; “Basta um dia” de Chico Buarque de Holanda [ ouça ♫ ]; “Fuzuê” de Romildo e Toninho [ ouça ♫ ]; “Meu sofrer” de Bide e Marçal [ ouça ♫ ]; e fechando o álbum, “Retrato falado” de Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro [ ouça ♫ ].

O disco alcançou a mais de 500 mil cópias vendidas. Sua capa mantém os tons claros, mostrando a nova fase da carreira de Clara a partir da estética, seu sorriso marcado e em destaque, Clara como a representante legitima da brasilidade, das três raças.

Tamara Claudia Coimbra
Clara Nunes em discos: construções e reconstruções


Canto das Três Raças

Clara Nunes (LP Odeon XSMOFB 3915, 1976) — Ouça no spotify, youtube ou itunes. DISCO É CULTURA

Clara Nunes Canto das Três Raças

FICHA TÉCNICA — Milton Miranda (direção artística), Maestro Gaya (diretor musical), Renato Corrêa (direção de produção), Paulo César Pinheiro (produção artística), Maestros: Gaya, Nelsinho e Francis Hime (orquestrações e regências), Dacy, Toninho e Roberto (técnicos de gravação), Guaracy (assistente de estúdio), Nivaldo Duarte (técnico de remixagem), Osmar Furtado (corte), Bosco (arte). Repertório informado acima.

MÚSICOS — Aldo Vale (contrabaixo), Alfredo Bessa (berimbau), Cabelinho (agogô), Carlinhos (cavaquinho), Celso Woltzenlogel (flauta em “Ai, quem me dera”), Copinha (flauta em “Meu sofrer”), Dino (violão em “Tenha paciência”), Eduardo Gudin (violão em “Retrato falado” / “Canto das três raças”), Francis Hime (piano em “Ai, quem me dera” / “Basta um dia”), Guinga (violão em “Ai, quem me dera”), João Donato (piano em “Retrato falado”), Joel Nascimento (bandolim), Luna (atabaque), Paulinho Braga (bateria em “Basta um dia”), Paulinho da Viola (violão em “Lama”), Severo (acordeon), Tião Marinho (contrabaixo em “Basta um dia”), Valdir Silva (violão em “Meu sofrer”), Valtinho (bateria em “Lama” / “Alvoroço no sertão” / “Tenha paciência” / “Risos e lágrimas”), Wilson das Neves (bateria em “Canto das três raças” / “Risos e lágrimas” / “Fuzuê” / “Meu sofrer” / “Retrato falado”), Zé Menezes (violão em “Risos e lágrimas”), Conjunto Nosso Samba, Elizeu, Marçal, Pedro Sorongo, Doutor e Luna (ritmo), As Gatas, Conjunto Nosso Samba, Evinha, Golden Boys, Marizinha e Regina Corrêa (côro).

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