Samba jazz, de raiz. Cláudio Jorge 70

Samba Jazz, de Raiz. Cláudio Jorge 70 2019 Mills Records

O registro fonográfico em questão chama-se “Samba jazz, de raiz. Cláudio Jorge 70.” O cantor, compositor, violonista e produtor Claudio Jorge faz parte daquele grupo de músicos que o anúncio de lançamento de um disco gera alta expectativa, pelo refinamento do trabalho, a competência e o conhecimento musical. Claudio Jorge levou três anos gravando o CD que trago neste post.

Preguiçosamente fazendo bico na apresentação daquele baile de sábado, num clube do subúrbio, um velho locutor diria que “Cláudio Jorge dispensa apresentações”. E não é que ao menos desta vez o malandro teria razão?

Basta ouvir “Samba jazz, de raiz”, a faixa que abre este quarto álbum exclusivamente autoral de Cláudio Jorge — dentre tantos em que ele abordou obras alheias ou fez em parceria — para entender tudo. A letra já seria em si uma apresentação do disco: “vou pedir passagem pra explicar meu samba/ é tipo samba jazz, mas ele tem raiz/ se liga nesse toque, o rótulo proclama/ é linguagem africana, assim a história diz”. A letra explica a forma: “vem com baixo de pau, mas swing de bamba/ é pura malandragem que me faz feliz// o samba é bom de se tocar/ bom de improvisar” E o contexto histórico, além dos personagens: “mas quando o samba encontra o jazz/ alguma coisa se refaz/ dá pra perceber no som// tá lá no que tocou o J.T. Meireles/ no baixo do Luizāo e no Don Salvador/ no Edson Machado e no Wilson das Neves/ o groove lá do jazz que o samba arredondou.”

Está lá, trata-se de um disco autoral, de canções, mas inspirado no universo dos conjuntos instrumentais dos anos 60, originários de bailes, estúdios e gafieiras , que misturavam samba e procedimentos do jazz, com possíveis arranjos e saxofones do Meirelles, o baixo do Luizão Maia, o piano e o conjunto do Dom Salvador, Edison Machado ou Wilson das Neves na bateria.

Mas, antes de tudo, “dá pra perceber no som”, na forma com que Cláudio Jorge apresenta sua composição metalinguística tanto na letra como no arranjo: um power trio de (samba) jazz formado por seu violão, o melhor violão do samba, seguro, “suingado”, elegante, “de baile” na mão direita mas cheio de invenções harmônicas na esquerda; o contrabaixo acústico (“de pau”) de Zé Luiz Maia, filho e herdeiro em estilo e suingue do citado Luizão Maia, e bateria do próprio Wilson das Neves, o lendário baterista do samba (e do samba jazz original), em uma das suas últimas gravações no instrumento que ajudou a abrasileirar. E, noblesse oblige, fiel a si mesmo e ao estilo que evoca e atualiza, Cláudio Jorge ainda apresenta logo na faixa de abertura um elegante e preciso solo de guitarra, comprovando mesmo que “o samba é bom de se tocar, bom de improvisar.”

Trata-se de um disco autoral, de canções, mas inspirado no universo dos conjuntos instrumentais dos anos 60, originários de bailes, estúdios e gafieiras.

Hugo Sukman

Pronto. Está feita a apresentação, em forma de música, de “Samba jazz, de raiz”, o novo disco de Cláudio Jorge, talvez seu trabalho mais rigorosamente conceitual, sem, contudo, perder jamais a delicadeza e a individualidade de cada canção, aliás, um lote de 13 canções inéditas e duas regravações.

Se no primeiro LP, lançado pelo Odeon em 1980, o jovem violonista flertava com o ecletismo da MPB então vigente que ia de uma nítida influência do Clube da Esquina (Dia da criação, por exemplo) a um samba de sucesso em parceria com João Nogueira (Pimenta no vatapá) e uma valsa (sim, uma valsa!) com Cartola (Fundo de Quintal), na obra-prima “Coisa de chefe” (Carioca Discos, 2001) o já consagrado compositor apresenta um tratado sobre o samba, inclusive o samba jazz (no tema instrumental “Samba pro Luizão Maia”.) E em “Amigo de fé” (Carioca Discos, 2010), disco sereno de sua maturidade artística, aborda a influência do candomblé, sua religião, no samba e na música brasileira em geral.

Neste “Samba jazz, de raiz”, e por favor com jogo de palavras, Cláudio Jorge radicaliza, vai mesmo à raiz do subgênero esquecido e muitas vezes mal compreendido — o próprio Vinicius de Moraes, sempre tão atento, dessa vez classificou-o como um “híbrido espúrio, nem samba nem jazz” — e à raiz da sua própria formação musical. Nascido no subúrbio carioca nos melhores dias, criado no Cachambi tão perto daquele Méier epicentro dos bailes de clubes nos anos 50, 60 e 70, Cláudio Jorge foi embalado pelos conjuntos dançantes daquela época, justamente na fase em que aprendeu sozinho o instrumento no qual hoje é um mestre. Não por acaso, debutou no conjunto de seu futuro parceiro João Nogueira, também do Méier, que no início da década de 70 inovou ao incluir baixo e bateria no acompanhamento do samba, herança direta dos bailes e do samba jazz na raiz. Sua relação com o samba jazz é assim tão íntima, que Cláudio Jorge escolheu esse tipo de som e esse conceito para o disco que também comemora os seus 70 anos de idade.

Hoje, consagrado como cantor, compositor e violonista (do conjunto de Martinho da Vila e das gravações de samba que se prezem), e em sua carreira com passagens pelos conjuntos de Sivuca, de Luizão Maia e do Batacotô é possível ver no estilo de Cláudio Jorge traços inconfundíveis de samba jazz. Neste “Samba jazz, de raiz” isso fica evidente em cada detalhe. Como no naipe de saxofones que introduz e o sax barítono que pontua e sola na alucinante levada de “Denise“, samba sincopado de gafieira da irresistível dupla Cláudio Jorge & Nei Lopes, tudo a cargo do saxofonista e maestro Humberto Araújo, ele próprio um cultor do samba jazz contemporâneo à frente de sua Orquestra Criola.

E, a perceber em todas as outras participações do disco, Cláudio Jorge parece fazer uma espécie de seleção de músicos da atualidade que dialogam com o velho gênero, gente como o guitarrista uruguaio Leonardo Amuedo (solo em “Vila Isabel”), que foi anos da banda de Ivan Lins e hoje não por acaso está radicado nos Estados Unidos dedicado ao jazz, ou os pianistas Fernando Merlino (em “Doce realidade”), Itamar Assiére (em “Vai ser bom ser sempre assim“), velho companheiro do Batacotô e do grupo de Luizão Maia, ou o parceiro Ivan Lins num raro solo de piano em “Você pra mim, eu sou pra você”. Mesmo a participação de Kiko Horta no acordeom em “Paixões imortais” vai na linha dos contrapontos de inspiração jazzística de um Sivuca ou mesmo Dominguinhos.

Essa discreta sofisticação musical nos detalhes, em certo sentido também irmanados com o jazz, pode ser observada na participação de um Mauro Diniz cantando em “Doce realidade“, uma parceria com Wilson Moreira. É como se Cláudio Jorge sublinhasse a qualidade extraordinária da melodia de Wilson Moreira e a elegância vocal de Mauro Diniz (dono de um cavaquinho virtuose, além de notável e moderno arranjador e produtor), dois sambistas de origem popular, do universo das escolas de samba e de um nível musical geralmente não associado a essa origem.

Como que ampliando o conceito samba jazz, Cláudio Jorge mostra que na verdade se trata do diálogo do samba com outros gêneros musicais que vão cruzando seu caminho. Assim é a participação do roqueiro Roberto Frejat, guitarra e voz, no baião pop “Central do Brasil”, segunda regravação do disco, do primeiro LP de 1980, canção feita com seu primeiro parceiro, Ivan Wrigg.

Neste mesmo sentido do intercâmbio de linguagens, a cantora e compositora por excelência da MPB Fátima Guedes faz participação vocal em “Você pra mim, eu sou pra você“, a faixa que encerra o disco como uma homenagem a um grande amigo de Cláudio Jorge, o falecido Paulinho Albuquerque, não somente produtor de “Coisa de chefe” e “Amigo de fé” e dos melhores discos do parceiro Ivan Lins e da própria Fátima Guedes, como uma das pessoas que mais o informou sobre jazz, cultor que era desse universo musical, um dos curadores do famoso Free Jazz Festival.

Ao revisitar sua carreira e o diálogo de sua música com linguagens variadas, Cláudio Jorge não poderia deixar de fora a sua experiência religiosa, na macumba-jazzCom a fé que Deus me deu“, com a participação de músicos profissionais excepcionais como Luís Filipe de Lima (violão de sete cordas), Dirceu Leite (clarinete), Victor Neto (flauta), Walter d’Ávila (guitarra) mas também, nos atabaques, um pai de santo, Cacau d’Ávila.

Os gêneros dançantes latinos, do bolero ao chá-chá-chá, que tanto influenciaram o jazz e a moderna música brasileira, estão presentes no beguine “O peso de um não“, que conta com outra participação importante, o percussionista Peninha no bongô, ele assim como Frejat da banda de rock Barão Vermelho, numa de suas últimas gravações antes da morte precoce.

Mas na verdade, um disco de samba jazz de raiz não seria nada sem a cozinha que faz a cama para o violão de Cláudio Jorge “suingar” como nunca: Camilo Mariano na bateria emulando o jeito de Das Neves e Edison Machado, aquela pegada leve porém firme, precisa, e revezando-se nos baixos acústico e elétrico, Zé Luiz Maia e Ivan Machado, seu colega no conjunto de Martinho da Vila, ex-Batacotô, igualmente uma lenda do suingue carioca em seu instrumento.

E menos ainda sem a qualidade das canções, parcerias antigas como “Vila Isabel“, com o falecido Manduka e lançada apenas num velho compacto; a primeira com Paulo César Pinheiro (a valsa “Paixões imortais”) até parcerias recentes como a com Wanderson Martins, mestre do cavaquinho da banda de Martinho da Vila, autor da melodia da sofisticada canção “Vai ser bom ser sempre assim” e, no mais improvável dos diálogos, o “roqueiro” pernambucano Lula Queiroga, autor da letra do samba clássico “Maneira de dizer“.

Quando autor de letra e música, caso por exemplo de “Coração lan-house“, Cláudio Jorge busca, como na estrutura musical, um novo vocabulário para o samba em eras virtuais.

Mas a canção que talvez melhor simbolize este “Samba jazz, de raiz” seja “Curiosidades“, uma parceria com o próprio Wilson das Neves, o imenso baterista do samba jazz que se transformou, ele próprio, num tremendo cantor e principalmente compositor. (Aqui cabe um parêntese, em grande parte da sua vida de compositor, foi a Cláudio Jorge que Das Neves recorria para harmonizar as melodias que criava, transformando-o num ouvinte privilegiado de suas composições, resultando daí várias parcerias dos dois.)

Como na música-título, “Curiosidades” tem Wilson das Neves na bateria, Zé Luiz Maia (e o espírito de Luizão) no baixo acústico, e Cláudio Jorge segurando o suingue no violão e o solo na guitarra. E um recado do Das Neves para a posteridade num áudio vazado lá no finalzinho: “Vamos ouvir, né?”. Puro samba jazz. De raiz.

Por Hugo Sukman

Texto publicado no jornal O Globo em 12.7.2019, assinado por Bernardo Araújo sobre o CD, é o que transcrevo abaixo.

De Martinho a Frejat, todos amam o samba-jazz de Cláudio Jorge

Músico com currículo quilométrico conta sua história nos discos e palcos em disco comemorativo de 70 anos

Cláudio Jorge confessa que não é bom com datas. Os anos em que frequentou o Colégio Pedro II do Engenho Novo, “onde aprendi tudo sobre a vida”, segundo ele, são um pouco nebulosos. “Saí em 1969!” — define, depois de pensar um pouco. Não é piada, então, quando ele conta que não tinha se tocado de que completaria 70 anos em 2019. Com isso, o disco que vinha gravando se tornou comemorativo e, de certa forma, um passeio por sua história musical.

— Acho que as pessoas me conhecem mais como violonista ligado ao samba — diz ele, que tem 30 anos ao lado de Martinho da Vila no currículo, além de nomes como João Nogueira, Sivuca e até Ismael Silva. — Mas o meu início na música, no subúrbio (mais precisamente o Cachambi), foi muito ligado aos bailes, influenciado pelo jazz suburbano do Bola Sete (lendário violonista e bandleader que seguiu carreira nos EUA a partir anos 1960) e de outros maestros. Além da discoteca do meu pai, que tinha Wes Montgomery, Glenn Miller e as big bands, e também muita música brasileira.

Daí o nome do disco, “Samba jazz, de raiz”, e a guitarra que ele pilota na faixa-título.

— Ela sempre fez parte da minha vida, toquei muito em conjuntos de iê-iê-iê, nos bailes — conta ele, rindo. — Uma vez, quando era criança, meu pai (o jornalista Everaldo de Barros, coautor da marchinha “Uma casa brasileira” com Wilson Batista) me levou à casa do Bola Sete, e lá tinha um violão elétrico, enorme, do ponto de vista de um garoto, claro. Fiquei fascinado com aquilo.

A profusão de nomes conhecidos (name-dropping, como se diz em bom português) vem naturalmente no papo e no disco.

— Eu já tinha tocado com gente como o Nelson Gonçalves, mas Martinho é o artista que acompanhei por mais tempo — conta Cláudio. — Costumo dizer que ele me mostrou o mundo, assim como o João Nogueira me apresentou o universo das escolas de samba, e o Sivuca, a música nordestina.

Em “Samba jazz, de raiz”, que tem o subtítulo “Cláudio Jorge 70”, os nomes vêm nas com composições e gravações, com suas histórias .

— Gravei o disco ao longo de quase seis anos, bem devagar — conta ele.

— Tive o apoio do Frejat, que me cedeu seu estúdio, o DuBrou, além de contribuir com uma guitarra rock’n’roll e vocais em “Trem da Central“. Ele originalmente ia lançar o disco apenas nas plataformas digitais, mas um amigo o fez mudar de ideia

— O Paulinho (Paulo Cesar) Pinheiro, quando ouviu que o disco seria apenas digital comentou: “Então eu não vou ouvir” — diz o músico. — Eu sei que as plataformas de streaming são a onda do momento, a gente tem que aceitar, mesmo com a remuneração muito mais baixa do que aquela dos CDs físicos. Mas como o Paulinho pediu, e eu já gosto mesmo de um disco, um “cráudiofunding” e estamos lançando o CD físico também.

O amigo Paulinho (outro da safra de 1949, chegando aos 70 como Cláudio) também é parceiro no disco, em “Paixões imortais”. Ele se une a uma lista que tem Wilson Moreira, Nei Lopes, Ivan Lins e outros.

— Tentei reunir algumas das parcerias mais significativas da minha vida — explica ele. — O Wilson Moreira, por exemplo, meu deu uma fita cassete há muito com duas melodias. Essa fita ficou num caixote que me acompanhou de casa em casa. Finalmente a reencontrei e ouvi uma melodia belíssima, que Wilson disse que tinha vindo em um sonho. Aí, fiz “Doce realidade”, sobre a Portela, escola dele, e chamei o Mauro Diniz, ilustre portelense, para me acompanhar na gravação.

“NÃO VEM DE PLAY”

A escola do coração de Cláudio também é homenageada, em “Vila Isabel”.

— Fiz essa com o Manduka e a lancei num compacto pela Odeon, em 1981 — lembra ele.

Além do lado afetivo, o humor é outro tempero forte em “Samba jazz, de raiz”, que traz canções como “Denise”, sobre um amor com final infeliz (e rimas como “hemoptise” e “freezer”), “Coração lan-house” (“não vem de play que eu não estou de pause”) e “Rogando uma praga”, sobre os maus políticos.

— Humor é tudo — resume ele. — O Luis Filipe de Lima (violonista, é mais um a participar do disco) diz que tem sempre a impressão de que eu canto rindo. Alegria, deboche, cinismo, tudo isso vale.


Samba Jazz, de Raiz

Cláudio Jorge 2019, Mills Records (MIL 063)
Ouça no spotify, youtube ou itunes
DISCO É CULTURA

Cláudio Jorge
Cláudio Jorge – foto: Mariana Maiara/Divulgação

Repertório

Samba jazz, de raiz
Cláudio Jorge
Cláudio Jorge (arranjo, violão e guitarra solo), Zé Luiz Maia (baixo acústico), Wilson das Neves (bateria)
[ ouça ♫ ]

vou pedir passagem pra explicar meu samba
é tipo samba jazz, mas ele tem raiz
se liga nesse toque, o rótulo proclama
é linguagem africana, assim a história diz

essa modelagem me sacode a cama
fazendo a minha vida sempre por um triz
vem com baixo de pau, mas swing de bamba
é pura malandragem que me faz feliz

o samba é bom de se tocar
bom de improvisar
de qualquer jeito fica bom
mas quando o samba encontra o jazz
alguma coisa se refaz
dá pra perceber no som

tá lá no que tocou o J.T. Meireles
no baixo do Luizāo e no Don Salvador
no Edson Machado e no Wilson das Neves
o groove lá do jazz que o samba arredondou

Denise
Cláudio Jorge – Nei Lopes
Cláudio Jorge (arranjo, violão e guitarra), Ivan Machado (baixo elétrico), Camilo Mariano (bateria)
part.esp.: HUMBERTO ARAÚJO (sax tenor e barítono)
[ ouça ♫ ]

tanto que eu fiz
e Denise me lesou
cometeu mais um deslize e azulou
arrebentou as varizes
e teve uma crise de hemoptise, segundo alegou
Denise me lesou

e comentou com Marise e com Jojo
que precisava de um freezer pro calor
se mandou pra Perdizes ou Marataízes
levando de leasing um refrigerador
Denise me lesou

vou pedir pra uma outra Denise,
que tem mais juízo, Denise forçar.
pra ver se ameniza essa falta de siso
esse falso sorriso de hipnotizar
oh! Denise se reorganize
legalizo o que preciso for
mas Denise se sensibilize
e me indenize no que me lesou

Coração lan-house
Cláudio Jorge
Cláudio Jorge (arranjo, violão), Ivan Machado (baixo elétrico), Camilo Mariano (bateria), Marcelinho Moreira (tamborim e pandeiro)
[ ouça ♫ ]

você vem no facebook
com a maior cara de pau
vem me dando um cutuque
pra amizade virtual
o que deu nessa cabeça
apagou tua memória
como pode essa ideia
totalmente sem noção
não há tecnologia, nem mandinga ou fantasia
que me faça deletar tamanha desilusão

eu, que já fui o teu domínio
amarguei com o declínio de um amor
que parecia ser tão bom
as coisas do teu mundo tão real
me fizeram muito mal
e eu quis a separação
e agora junto com a modernidade
vens com ares de saudade junto a mim
querendo enfim compartilhar
não vem de play que eu não estou de pause
teu coração é uma lan house
qualquer um pode entrar…

Vila Isabel
Cláudio Jorge – Manduka
Cláudio Jorge (arranjo, violão), Ivan Machado (baixo elétrico), Camilo Mariano (bateria)
part.esp.: LEONARDO AMUEDO (guitarra solo)
[ ouça ♫ ]

Vila Isabel pôs um bonde nos meus trilhos
pra não deixar mais a pé meu coração
agora vou visitar quem mora longe
se você quiser que eu chegue
é só dizer aonde

todas as luzes da indústria de automóveis
não acenderam a minha inspiração
mas quando eu vi esse bonde no caminho
vi que na barra do mundo eu não vou sozinho

passa na rua do amor
passa no que passou e no que passará
passa em todo o lugar
onde houver uma pena querendo passar
no túnel da solidão
na ladeira que sobe e que desce a paixão
e que desaparece naquela
Avenida Brasil da ilusão

Doce realidade
Wilson Moreira – Cláudio Jorge
Cláudio Jorge (arranjo, violão), Ivan Machado (baixo elétrico), Camilo Mariano (bateria)
part.esp.: FERNANDO MERLINO (piano) e MAURO DINIZ (voz)
[ ouça ♫ ]

é ela, é ela
foi a certeza que tive quando te encontrei
Portela, Portela
és o retrato daquilo que um dia eu sonhei
foi assim: céu azul e um canavial
uma águia pousada sobre um cristal
o som dos tambores abria pra mim
portas, janelas de um mundo sem fim
de repente eu estava cantando este samba
que me ensinava caminhos para o meu viver
conselhos de bambas
que me tornava um sambista sem eu perceber
desde então eu só vivo felicidade
já foi sonho, hoje é doce realidade
Portela pra sempre no meu coração
ela é a fonte mais bela da minha inspiração

Curiosidade
Wilson das Neves – Cláudio Jorge
Cláudio Jorge (arranjo, violão e guitarra solo), Ivan Machado (baixo elétrico), Camilo Mariano (bateria)
[ ouça ♫ ]

confesso não entendi quando vieram me contar
você com essa estória de saber como é que eu vou
não sei qual o motivo pra você se preocupar
já faz tanto tempo, o que se passou?
a curiosidade que você me revelou
serviu pra me lembrar quando eu te disse assim
a felicidade, eu terei de novo
você ainda vai ouvir alguém falar em mim

dirão que estou vivendo em paz
que sou feliz, vou bem demais
que sou tratado que nem paxá
só de alegrias eu sei falar
carinho e afeto vêm de bandeja
que até em sonhos ela me beija
ouça meu samba como um recado
as mágoas e você ficaram lá no meu passado

O peso de um não
Cláudio Jorge
Cláudio Jorge (arranjo e violão), Zé Luiz Maia (baixo acústico), Camilo Mariano (bateria), Peninha (bongô)
[ ouça ♫ ]

o peso de um não…
o peso de um não…
é grito de guerra, revolve a terra
tira o pé do chão
o peso de um não dói no coração
espinho cravado, é mais que pesado
não tem dimensão

o peso de um não…
o peso de um não…
destrói as vitrines, provoca os crimes
faz revolução
o peso de um não nos tira a visão
me olhei no espelho, buscando conselho
perdi a razão

sim! eu disse sim!
paixão iludida
e a vida bandida
te negou pra mim

o peso de um não…
sinal de solidão
fez soar as notas mais tristes
nas cordas do meu violão
me tornou cigarra
gritando na barra
de um sol de verão

Maneira de dizer
Cláudio Jorge – Lula Queiroga
Cláudio Jorge (arranjo, violão), Ivan Machado (baixo elétrico), Camilo Mariano (bateria), Marcelinho Moreira (tamborim e ganzá)
[ ouça ♫ ]

é só uma maneira de não magoar mais
respeito ao sentimento
bem sei que só palavras
não vão explicar, não
no fundo meu peito sabe de nós
e como a vida nos uniu

vamos assim vivendo o nosso momento
tão junto, maior
essa é a maneira que encontrei pra te dizer
que o nosso amor nunca vai morrer
essa é a maneira que encontrei pra te contar
que nosso amor nunca vai passar

tem desejo, tem ciúme deixa cicatriz
tem carinho pra seguir feliz
depois tem dia de cão
de sol, de renascer
não vamos nos culpar
então deixar ouvir
a voz do coração

essa é a maneira que encontrei pra te dizer
que o nosso amor nunca vai morrer
essa é a maneira que encontrei pra te contar
que nosso amor nunca vai passar

Paixões imortais
Cláudio Jorge – Paulo Cesar Pinheiro
Cláudio Jorge (arranjo e violão), Zé Luiz Maia (baixo acústico), Camilo Mariano (bateria)
part.esp.: KIKO HORTA (acordeon)
[ ouça ♫ ]

talvez não haja mais
as paixões imortais
como eu creio que seja a nossa
hoje elas vêm com o luar
e antes do sol raiar se vão
mas perder os sinais
das paixões imortais
eu não creio que a alma possa
são chamas, são ânsias no coração.

em poesia as paixões imortais
quem escreve a imagem que faz
é de um barco ancorado no cais
ao sabor do sal, da água do mar que adoça
tendo o mar, tendo cais, creio eu, que jamais
vão ter fim as paixões imortais

Trem da Central
Cláudio Jorge – Ivan Wrigg
Cláudio Jorge (arranjo, violão), Ivan Machado (baixo elétrico), Camilo Mariano (bateria), Peninha (timbales, reco e congas)
part.esp.: FREJAT (voz e guitarra solo)
[ ouça ♫ ]

vem o trem
que atrasou outra vez
da Central
vem trazendo um destino comum
vem um trem
nem um tostão nem vintém
da Central
não empurra que dá cada um
e o trem
cartão de ponto final
da Central
tinha alguém pendurado que eu vi

vem o trem
é um por dez, dez por cem
da Central
a esmola pro cego, quem deu?
vem o trem
alguém roubou quem não tem
da Central
e esse corpo colado no meu
e o trem
chegou ao ponto final
dá Central
olha aí o quintal do Brasil

Rogando uma praga
Cláudio Jorge
Cláudio Jorge (arranjo, violão e guitarra solo), Ivan Machado (baixo elétrico), Camilo Mariano (bateria)
[ ouça ♫ ]

você quer comandar, me dirigir
só quer impor, aqui e ali
tua verdade tem que ser
pra toda gente igual
quer ser dono de mim
dono de tudo, e se puder, dono do mundo
presta atenção, você assim vai se dar mal

o teu comportamento egoísta
só te faz deixar à vista
um caráter que não engana,
vê-se a olho nu
bem que eu podia aproveitar a rima
mas vou nivelar por cima
até o fim, ouve o meu a.é.i.o.u.

usa não. deixa o meu
eu sou eu
ninguém manda mim
não gosto, não concordo, não aceito
não tolero teu defeito
dá linha na pipa
porque tá guardado o que é teu

pois quando for chegada a tua hora
e o teu nome entrar pra história,
a memória do planeta vai ser teu algoz
e a tua família, filho e neto,
e também os teus bisnetos,
saberão como você
fez mal pra nós

Vai ser bom ser sempre assim
Wanderson Martins – Cláudio Jorge
Cláudio Jorge (arranjo, violão), Ivan Machado (baixo elétrico), Camilo Mariano (bateria)
part.esp.: ITAMAR ASSIÉRE (piano)
[ ouça ♫ ]

vejo o mundo mais bonito
pelo foco dessa lente
que revela sem segredos
o que a nossa alma sente
fico mais iluminado e você resplandecente
a felicidade existe quando olho para a gente

a brisa soprando na madrugada
a minha e a tua respiração
as gotas de orvalho naquela flor
teu corpo suando fazendo amor
na nossa visão tudo é tão afim
vai ser bom ser sempre assim
é o nosso olhar transformando a vida
fazendo a esperança não ser perdida

Uma ilusão a mais
Cláudio Jorge – Nei Lopes
Cláudio Jorge (arranjo, violão), Zé Luiz Maia (baixo acústico), Camilo Mariano (bateria)
[ ouça ♫ ]

uma ilusão a mais
um sonho a mais, talvez
sentir porém
isso outra vez
é bom demais
é flutuar no ar
na vasta imensidão
é velejar num lago azul
bem manso de paz

quantas vezes a existência das coisas reais
não tem a importância de um sonho fugaz
de um pião colorido
de um balão de gás
de um sonho de criança

uma ilusão a mais
um sonho a mais, talvez
sem freios, sem meios,
sincero porém
mesmo que seja ilusão
devolveu a um velho coração
a emoção de bater por alguém

Com a fé que Deus me deu
Cláudio Jorge
Cláudio Jorge (arranjo e violão), Dirceu Leite (clarinete), Walter D’Ávila (guitarra solo), Victor Neto (flauta), Luís Filipe de Lima (violão de 7 cordas), Cacau D’Ávila (atabaque)
[ ouça ♫ ]

feliz sou eu
com a fé que Deus me deu
feliz sou
feliz sou eu
com a fé que Deus me deu

batizado e crismado
fui na infância um cristão
rezei em colégio de padre
já fiz muita comunhão
mas o tempo tem segredos
e hoje eu vivo bem assim
sou ogã de Oxalá
foi pelas mãos de Babamim

toquei sino de budista
quando estive no Japão
Marçal tava junto comigo
lembro bem da emoção
recolhi pedra vulcânica
pro Exú que cacau assentou
e na igreja messiânica
Ismael Silva me levou

com Peri e seu Sete Flechas
a Jurema com eles provei
dancei com Camisa Preta
pro seu Sete da Lira toquei
Pai Joaquim me deu cantiga
a Ogum da Ronda me apeguei
e seu Tranca, Farrapo e Pilintra
“nas encruzas” já saudei

já cantei num templo hindu
mas sou do povo do dendê
sou um filho de Oxum
com meu pai Obaluaiê
aproveito essa roda
pra juntar meu pessoal
do ilê Otá Odara
aonde manda o auto astral

Você pra mim, eu sou pra você
Ivan Lins – Cláudio Jorge
Cláudio Jorge (arranjo e violão), Ivan Machado (baixo elétrico), Camilo Mariano (bateria)
part.esp.: FÁTIMA GUEDES (voz), IVAN LINS (piano) e REINALDO FIGUEIREDO (locução)
[ ouça ♫ ]

é bom viver a vida nos amando
por isso você fez quando eu pedi
um brinco assim na orelha
retoques na sobrancelha,
aquela cor de batom que eu sempre quis
te dá prazer me fazer feliz

eu gosto de viver te agradando
me desdobrando para o teu prazer
já estou largando o cigarro,
já troco as flores do jarro,
preparo o que você gosta de comer
fazendo tudo pra te prender
você pra mim e eu sou pra você

o que vivemos
é um dom sagrado
é o alimento de mais valor
Deus deu para o homem e pra mulher
o amor

é bom viver a vida nos amando
por isso faço o que você me diz:
um brinco assim na orelha,
retoques na sobrancelha,
aquela cor de batom que você quis.
me dá prazer te fazer feliz

eu gosto de te ver me agradando
se desdobrando para o meu prazer.
já está largando o cigarro,
já troca as flores do jarro,
prepara aquilo que eu gosto de comer
fazendo tudo pra me prender
você pra mim eu sou pra você

o que vivemos
é um dom sagrado
é o alimento de mais valor
Deus deu para o homem e pra mulher
o amor


Ficha técnica

Cláudio Jorge e Rodrigo Lopes (produção), Cláudio Jorge (direção), Rodrigo Lopes no Estúdio Dubrou [Frejat] , entre março de 2014 e março de 2017 (gravação), Felício Torres (projeto gráfico), Januário Garcia (fotos).

Encarte do CD

Neste ano em que me aproximo velozmente dos 70, lanço este “Samba jazz, de raiz”, meu novo álbum autoral, que mais tempo levei para produzir . É o disco, muito por conta disso, mais artesanal, detalhista, elaborado com muita calma. E não porque eu tenha planejado dessa forma, mas foi assim que ele se impôs nos seis anos de trabalho.

O disco tem a ambição de ser síntese, manual de usuário para aqueles que tiveram contato com meu jeito de tocar violão, guitarra, compor e fazer arranjos, nos meus discos e nos discos de centenas de amigos.

Meu primeiro disco, em 1980 na Odeon, revelava o que eu pretendia em relação à música quando vim lá do Cachambi. Foi um disco de “MPB”, onde eu interpretava samba, baião, valsa, tocava violão e guitarra sem ter noção de que um dia seria deliciosamente abduzido pelo universo do chamado “samba de raiz”. Além do aperfeiçoamento no trabalho como violonista de samba nos estúdios, esse “sequestro” gerou meus discos “Coisa de chefe” e “Amigo de fé”, junto com as parcerias com os grandes bambas que foram chegando.

“Samba jazz, de raiz” é uma volta ao projeto inicial da juventude, uma homenagem às guitarras, as do jazz e as do rock, um reencontro com o baião, tchá-tchá-tchá, valsa, com uma luz especial sobre as sutis influências do jazz na minha forma de compor e tocar, fruto de um jazz suburbano que ouvi na infância, carregado de samba. Bola Sete, Jorge Santos, Hélio Delmiro, Pixinguinha, o disco da Elza Soares com Wilson das Neves e as apresentações de jazz no Mackenzie, no Méier, que não presenciei mas imaginei, ouvindo os relatos de João Nogueira. Tudo isso misturado aos discos do Glenn Miller, Tommy Dorsey, Wes Montgomery, Nelson Cavaquinho, Noel Rosa, Dolores Duran, Django Reinhardt, Elvis Presley, Louis Armstrong e tantos outros da discoteca de meu pai, que sempre entrava em ação aos domingos.

“Samba jazz, de raiz” é uma volta ao projeto inicial marcada principalmente pela inclusão de “Trem da Central”, parceria com meu primeiro parceiro Ivan Wrigg e “Vila Isabel”, parceria com Manduka, que fizeram parte do repertório dos meus primeiros discos na Odeon.

“Samba jazz, de raiz” é o meu barco que sai da roda pra contar histórias em outras margens de um mesmo litoral. Essa viagem é dedicada às memórias de Peninha e Wilson das Neves, músicos que atuaram neste trabalho e que, assim como Wilson Moreira, meu mais recente parceiro, se ausentaram antes deste lançamento. É dedicado também, mais uma vez, ao meu eterno produtor que pilota tudo de lá, Paulinho Albuquerque, um mestre na organização deste trânsito entre o samba e o jazz.

Agradecimentos afetuosos a Rodrigo Lopes e Frejat. Gratidão eterna.

Cláudio Jorge – 2019

Considerações finais

O sambista Cláudio Jorge lançou “Samba jazz, de raiz” disco que comemora seus 70 anos e que traz parceria póstuma com Wilson Moreira, participações especiais de Frejat e Mauro Diniz, e uma canção em memória do célebre produtor (e curador do extinto Free Jazz Festival) Paulinho Albuquerque, amigo do artista e responsável pela produção de seus primeiros álbuns. Espero que você tenha gostado desse [post] álbum lançado em 2019 pelo selo Mills Records.

2 comentários em “Samba jazz, de raiz. Cláudio Jorge 70”

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