Copinha e Seu Conjunto Interpretam os Sucessos de Pixinguinha

Copinha e Seu Conjunto Interpretam os Sucessos de Pixinguinha

A década de 60 registrou o lançamento do LP “Copinha e Seu Conjunto Interpretam os Sucessos de Pixinguinha” (selo Philips, 1961), arranjos do homenageado e parcerias com Benedito Lacerda, João de Barro, entre outras pérolas.


Em Alfredo da Rocha Viana Filho, o Pixinguinha, devemos considerar o instrumentista, o compositor, o orquestrador e o chefe de orquestra. Poderíamos ainda, acrescentar o cantor, se êste não fosse tão pouco conhecido do público em geral. Em todas as manifestações de sua arte, Pixinguinha revela-se admirável o que nos leva a firmar, com toda serenidade, estarmos frente ao maior músico popular que já tivemos em tôdas as épocas, mesmo considerando a grandeza de um Ernesto Nazareth, de um Sinhô ou de um Noel Rosa.

Alfredo da Rocha Viana Filho nasceu no dia 23 de abril de 1898 na Rua da Floresta número 44 (atualmente Rua Padre Miguelinho), no bairro do Catumbi, no Rio de Janeiro. Pixinguinha é filho de Alfredo da Rocha Viana e de D. Raimunda Viana. O pai “tocava de primeira vista”, a princípio “na sua flauta amarela de cinco chaves, e, ultimamente em uma de novo sistema” conforme testemunho de Alfredo Gonçalves Pinto, o “Animal”. Apaixonado pela música sem ser um grande instrumentista, o velho Viana deixou um grande arquivo de músicas antigas e modernas. Criado em meio de instrumentistas, ouvindo diariamente os lundus, as polcas e as valsas da época, o menino, que mereceu da avó a alcunha de “Pizindin”, que quer dizer, segundo alguns, “menino bom” em certo dialeto da África, certamente muito deturpado, cedo se apaixonou pêlos ritmos e melodias que eram executadas pelo seu pai e pelos familiares da casa. Seus primeiros estudos foram feitos no colégio do professor Bernardes, situado na Rua Miguel Paiva. O mestre-escola tinha “carta-branca” para proceder com a maior severidade com seus pupilos, funcionando a régua e a palmatória amplamente. Passando para outro colégio, o Liceu Santa Teresa, da Rua dos Coqueiros, 35, Pixinguinha já era popular entre os meninos do bairro — Mário Boi, Amadeu, Pedro Linguiça e Haroldo — pela sua habilidade no jogo do gude e na confecção dos mais belos “papagaios” do bairro. Fumando os seus primeiros cigarros, marca “Icaraí”, de tostão o maço, o menino lastimava sua falta de jeito para o futebol, que começava então a despertar os entusiasmos da garotada. Foi no Mosteiro de São Bento, o terceiro educandário por onde passou, que se fez sacristão. Quando a família mudou-se para Rua Vista Alegre , Pixinguinha já fazia acordes nas cordas do cavaquinho , enquanto Léo e Henrique, seus irmãos, manejavam os violões. Constatando a inclinação dos filhos para a música, o velho Viana encaminhou-os a um colega de repartição, seu vizinho de número nove, César Augusto Leitão, que de música pouco mais conhecia que os alunos. A “artinha” de Francisco Manoel passou de mão em mão. Em 1911, Pixinguinha compunha o seu primeiro chôro — “Lata de Leite”. Percebendo que o menino queria realmente tocar um instrumento, seu pai sugeriu que ele tocasse flauta. Pixinguinha queria uma requinta, mas a flauta estava mais a mão, havendo duas em casa. Enquanto o filho fazia a primeira escala, o pai fazia a segunda.

Copinha e seu Conjunto, interpretando músicas que estão a desafiar o tempo, pelo seu caráter e sua autenticidade, é o que vamos ouvir

Quando o grande Irineu de Almeida, amigo da família Viana, anunciou a sua transferência para o Rio, foi logo convidado a vir morar na “Pensão Viana”, assim chamada pela hospitalidade que a todos os amigos dispensava a residência familiar. A casa tinha oito quartos e quatro salas, e os meninos ficaram radiante com a vinda do novo hospede, que poderia ministrar-lhes uma cultura musical mais aprofundada. A chegada de Irineu foi comemorada com uma grande festa. Pixinguinha já possuía uma bela flauta, que o pai mandara vir da Europa e que custará a elevada soma de seiscentos mil réis.

Com quinze anos de idade, Pixinguinha tornou-se músico profissional. Levado por amigos uma casa de chope, na Lapa, ainda de calças curtas, foi convidado a tocar. Não se fez de rogado, executando alguns números do seu repertório, sendo muito aplaudido. Contratado pela direção do estabelecimento, fez parte durante pouco tempo da orquestra do Pádua, onde conheceu, entre outros, o exímio pistonista Bonfiglio de Oliveira. Mais tarde, pelas mãos do violinista Artur Nascimento (Tute), foi levado à presença do maestro Paulino Sacramento, que dirigia a orquestra do Teatro Rio Branco, na Avenida Gomes Freire. O empresário Auler relutou em contratar o novo músico , dada a sua pouca idade. Mas a técnica que já possuía e o domínio que exercia sobre o instrumento fizeram com que o empresário mudasse de opinião. Pixinguinha estreou com a peça “Chegou Neves”, com um elenco com os melhores da época — Cinira Polônio, Brandão Velho (avô de Brandão Filho), Mercedes Vila, Júlia Martins, Pinto Filho e outros. Pixinguinha tocava com a orquestra, mas em certa passagem da peça, executava um chôro, como solista, em determinado número de Brandão Velho. A família do flautista , os amigos do bairro e os companheiros de música estavam presentes á representação. Todos vibravam de entusiasmo e chamavam o solista pelo apelido de “Carne Assada”. (Durante uma festa em sua residência, Pixinguinha desaparecera; mais tarde, encontraram-no escondido, comendo toda a carne assada do jantar, razão do apelido). Aos domingos, o Teatro Rio Branco exibia um filme cinematográfico. Pixinguinha acompanhava, da orquestra, as peripécias de Pearl White e os amores de Theda Bara. Como ficasse doente, foi, certa vez, substituído pelo flautista Antônio Maria Passos. Sem o mesmo talento musical, o robusto Antônio Maria levou tremenda vaia, pois muitos dos espectadores frequentavam o cinema apenas para ouvir a flauta magistral do jovem músico.

Em 1922, Pixinguinha passa-se para o Cinema Palais, na Avenida Rio Branco próximo à Rua Sete de Setembro. Ai nasceria o mais célebre conjunto instrumental da nossa música popular — “Os Oito Batutas”. Já era então orquestrador e compositor de várias peças de sucesso, como “Rosa”, “Sofres porque Queres”, “Nostalgia ao Luar”, “Alma que Sofre”, “Porque Sofrer?”, “Mentirosa”, etc. Um certo coronel Gustavo era, então, o proprietário do Cine Palais, que mantinha duas orquestras, uma na sala de espera, outra no salão de projeções, acompanhando os filmes. Chamado pelo gerente da casa o sr. Franklin, Pixinguinha muito se espantou quando lhe foi proposta a organização de um conjunto para se exibir na sala de espera, sabido que só músicos brancos eram admitidos para aquelas funções, Pixinguinha organizou, então, o conjunto dos Oito Batutas, formado por êle e mais os instrumentistas Ernesto dos Santos (Donga), violão; Otávio Viana (China), pianista, violonista e cantor; Nelson dos Santos Alves, cavaquinho; Luiz de Oliveira, bandois e reco-reco, Raul Palmieri, violão, Jacob Palmieri, pandeiro e José Alves, bandolin e ganzá. Em poucos dias o hall do Palais atraia multidões. O trânsito da Avenida Central era interrompido, muita gente comprava entrada apenas para ouvir o novo conjunto, tal a novidade e a beleza de suas execuções, o ineditismo de suas músicas. Ruy Barbosa era admirador dos mais assíduos às sessões do cinema. Ernesto Nazareth saía do seu piano, no Cinema Odeon, quase em frente ao Palais, para ouvir deliciado as músicas de Pixinguinha e seus companheiros. Passou a ser a grande sensação da temporada as exibições dos Oito Batutas. Com a vinda do bailarino Duque e sua companheira, Gaby, que faziam furor nas capitais do velho mundo, passaram os Oito Batutas a tocar, também, no cabaré Assirio, no andar subterrâneo do Teatro Municipal, frequentado pela jeunesse dorêe, os playboys da época, rapazes ricos e pouco atarefados. Foi Duque quem sugeriu ao sr. Antônio Guinle ajudar o conjunto em uma temporada na Europa.

O cronista Floresta de Miranda que, na época, se achava em Paris, evoca em uma de suas crônicas a chegada dos nossos músicos à capital da França: “Paris, inverno de 1922. Frio de rachar, vários graus abaixo de zero. Duque e eu estávamos na estação de Quai d´Orsay, esperando o trem de Bordeaux. Nesse trem iriam chegar os Oito Batutas. As 23 horas apareceram os músicos brasileiros, cada qual carregando o seu instrumento. Trajavam roupas leves e tiritavam. Na manhã seguinte Duque os levou a comprar roupas apropriadas para aquele clima. Vem a estréia no Sheherazade. Sucesso completo. Paris acode aquele dancing. Pixinguinha com a sua flauta infernal faz o diabo. China abafa com o seu violão e a sua bela voz e Donga abafa no pinho de desperta paixões…” Harold de Bozzi primeiro prêmio de flauta do Conservatório de Paris, fica embasbacado com o Pixinguinha. Durante seis meses os nossos músicos foram cercados pelo público numeroso mais entusiasmado que é possível imaginar. Findo o período de exibições, embarcaram de volta ao Brasil, estendendo a viagem até Buenos Aires, onde gravaram na Victor argentina discos dos mais precisos e dos mais raros da discografia da música popular brasileira.

De volta ao Brasil, muitos discos são realizados, tendo Pixinguinha como solista, como orquestrador e chefe de orquestra. De 1925 a 1930, sucedem-se centenas de gravações. Com o Grupo da Velha Guarda e Diabos do Céu, acompanha os nossos principais intérpretes: Francisco Alves, Cârmem Miranda, Mário Reis, Silvio Caldas, Moreira da Silva… Os long-playings que gravou para a Companhia Brasileira de Discos estão entre os melhores que já se fizeram nestes últimos anos, principalmente “Assim É que É Pixinguinha” e “Cinco Companheiros”.

Este Disco

No disco que temos em mãos, feito com o melhor e mais moderno aparato técnico, está presente o compositor e o orquestrador Pixinguinha . Foram reunidos alguns de seus números mais representativos, dos mais belos e característicos como “Sofres porque Queres”, “O Gato e o Canário”, “Vou Vivendo”, “Proezas do Solon”, etc. Os arranjos foram todos escritos pelo próprio Pixinguinha.

Copinha, que se apresenta à frente de seu conjunto, é notável flautista, digno sucessor dos mestres do passado, de um Patápio Silva, de Benedito Lacerda e do próprio Pixinguinha. Possuidor de uma invejável técnica, ele soube captar perfeitamente a mensagem e o clima musical do compositor que focaliza, apresentando-se de maneira soberba, demostrando todos os seus notáveis recursos de virtuoso. E com ele, vamos encontrar instrumentistas do quilate de Sandoval (sax-tenor), Chiquinho (acordeon), Baden-Powell (violão), Menezes (cavaquinho), Hugo (bateria), Alberto (pandeiro) e Bide (ganzá).

Copinha e Seu Conjunto, interpretando músicas que estão a desafiar o tempo, pelo seu caráter e sua autenticidade, é o que vamos ouvir , numa série de números dos que ficam, não trouxessem eles a assinatura de Alfredo da Rocha Viana Filho.

RÁDIO TAPAJÓS LTDA.
Lúcio Rangel


Copinha e Seu Conjunto Interpretam os Sucessos de Pixinguinha

1961, Philips (P-630.465)
DISCO É CULTURA

Pixinguinha e Copinha
Pixinguinha e Copinha (foto: contracapa do LP)

REPERTÓRIO

O Gato e o Canário
Pixinguinha – Benedicto Lacerda
[ ouça ♫ ]

Naquele Tempo
Pixinguinha – Benedicto Lacerda
[ ouça ♫ ]

Um a Zero
Pixinguinha – Benedicto Lacerda
[ ouça ♫ ]

Cochicho
Pixinguinha
[ ouça ♫ ]

Não Posso mais
Pixinguinha
[ ouça ♫ ]

Proezas do Solon
Pixinguinha – Benedicto Lacerda
[ ouça ♫ ]

Carinhoso
Pixinguinha – João de Barro
[ ouça ♫ ]

Segura Ele
Pixinguinha – Benedicto Lacerda
[ ouça ♫ ]

Cinco Companheiros
Pixinguinha
[ ouça ♫ ]

Acerta o Passo
Pixinguinha – Benedicto Lacerda
[ ouça ♫ ]

Vou Vivendo
Pixinguinha – Benedicto Lacerda
[ ouça ♫ ]

Sofres porque Queres
Pixinguinha – Benedicto Lacerda
[ ouça ♫ ]


Considerações finais

Espero que você tenha gostado desse post com o álbum de Copinha e Seu Conjunto, interpretando Pixinguinha, lançado em 1961 pela Philips.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *