Elizete sobe o morro

Capa do Disco ‘Elizete sobe o morro’

Em março de 1965, Elizeth participou do espetáculo “Rosa de ouro”, que rendeu — fato explicado no texto mais a diante — o LP que trago neste post: “Elizete sobe o morro”, um dos grandes LPs da discografia brasileira. Esse disco marcou também a estréia de Nelson Cavaquinho em gravações. Foi também o disco que trouxe a primeira composição gravada de Paulinho da Viola. Muitos bambas do samba ainda participaram da gravação: Nelson Sargento, Elton Medeiros, Raul Marques, Buci Moreira e outros. É disco para se ouvir muitas e muitas vezes!


A concepção de “Elizete sobe o morro”: Em 1965, Hermínio Bello de Carvalho dirigiu o célebre musical “Rosa de ouro”. Elizeth assistiu a uma apresentação e ficou tão encantada que informou Hermínio de sua intenção de gravar todas as músicas do show. A cantora convidou todo o elenco para almoçar em sua casa. Isso foi seguido por mais reuniões, nas quais Elizeth selecionou as músicas e as ensaiou com os músicos tão minuciosamente que eles foram capazes de entrar no estúdio de gravação sem arranjos escritos e colocaram todas as faixas em apenas quatro sessões. O LP, que trago neste post, recebeu o título “Elizete sobe o morro”, e Hermínio foi o produtor. A seguir transcrevo o texto publicado na contracapa assinado também por Hermínio.

Vou levar, pela vida afora, a satisfação de dizer que este disco nasceu na estréia do “Rosa de ouro”, espetáculo de música popular que dirigi para o lindo Teatro Jovem, de Kleber Santos. Estava eu abraçado ao meu divinal Pixinguinha, quando Elizeth me segreda o desejo de gravar as músicas do “Rosa”. Não preciso contar minha emoção. Porque faço parte dessa gente comum que ama, acarinha, pensa e vive Elizeth. Agora, neste estúdio: ninguém mais simples e modesta que ela, ninguém com mais vontade de realizar o melhor. Daí explico essa onda de carinho e respeito que todo mundo aqui dentro lhe devota. E um afeto coletivo quase religioso, e isso comove, comove. Bem, Elizeth voltou muitas vezes à salinha cheia de “afiches” do Teatrinho. Lápis na mão, ia anotando este ou aquele samba, a lista ultrapassando de muito as doze faixas convencionais. O titulo que sugeri de “Elizete sobe o morro” não foi ao acaso. Vamos encontrar na ficha deste elepê alguns dos mais representativos compositores dos morros e das escolas de samba cariocas: o divino Cartola, Nelson Sargento e Nelson Cavaquinho, da Mangueira; Elton Medeiros, da Aprendizes de Lucas; Zé Keti, Jair do Cavaquinho, Candeia e Paulinho da Viola, da Portela; e Nescarzinho, do Salgueiro. E porque não desejava realizar nada parecido com os seriais que vem gravando para sua fábrica, foi que a Divina convidou excelentes instrumentistas populares para darem a esta gravação a atmosfera verdadeira para os sambas selecionados. Vamos encontrar o prato-e-faca e a irrequieta caixa-de-fósforos de Elton; o tamborim do velho Bucy Moreira, neto da legendária Tia Ciata, dos famosos candomblés do princípio do século, na Visconde de Itaúna; o pandeiro de Geraldo; a caixa de Jair Alves; o tamborim do grande Arnaud Carnegal; o afochê de Aléio; o agogô de Oscar; o surdo de Raul Marques; o cavaco de Jair; o tamborim de Anescarzinho; os violões de Nelson Sargento, José Soares de Freitas (este com solenes baixarias) e de Paulinho. Participando especialmente desta gravação, o iluminado Nelson Cavaquinho, alternando sua voz espessa com os cantares tão belos da Divina. É também a primeira vez que se perpetua, em disco, a famosa batida “galope” do poeta de Mangueira. Algumas fórmulas foram utilizadas para mostrar o samba carioca em suas múltiplas gamas: alterou-se e reduziu-se o instrumental rítmico: Elizeth, em algumas faixas, aparece acompanhada alternadamente pelos violões de Paulo, e de Nelson, tendo ao fundo a caixa-de-fósforos de Elton, e tão à vontade como se estivesse numa das mesas do Zicartola. Um coro misto (Othoniel. Valéria, Cosme, Noemi, Jair, Vera e Glória) intervém em algumas faixas. Desnecessário dizer que foi tudo no improviso, sem um arranjo escrito sequer.

Aqui, a Senhora Sambista (nunca esquecer o seu passado glorioso de porta-estandarte do “Turunas de Monte Alegre”; de crooner do dancing Avenida; de campeã de Charleston do Kananga do Japão) se contrapõe à intérprete daquele importante e inesquecível “Canção do amor demais”, de Tonzinho e Vinícius, de ambiência sofisticada e, por vezes, semi-camerística. Lembremos: se registrava naquele disco a primeira manifestação bossa-nova, com João Gilberto ao violão acompanhando Elizeth. Aqui é o regresso às fontes, aos banzos, às raízes. No trajeto de sua carreira, em que se consagrou a maior cantora moderna brasileira, Elizeth não teme, agora, esse novo estágio — o de enfrentar uma gravação despojada de qualquer sofisticação, a antítese, enfim, de um estilo que ela mesmo consagrou, e do qual se afasta temporariamente. Poderia este elepê, de tão simples que é, ter sido gravado na birosca da Efigênia do Balbino, lá no Buraco Quente, ou num pagode de partido-alto no quintal da Menina e do Carlos Cachaça, poeta abençoado de Mangueira. Em quatro sessões (31 de maio; 7, 14 e 15 de junho de 1965) perpetuou-se este disco, sob a direção musical extremamente carinhosa de Moacyr Silva.

Este poeta agradece, comovido, a lembrança de Elizeth de solicitar-lhe esta contracapa. E, rosa de ouro na mão, vem ofertá-la ternamente à enluarada amiga.

Herminio Bello de Carvalho
contracapa

Esse disco me trouxe definitivamente o mundo desses compositores de um samba autêntico de maior elegância e sofisticação: Zé Keti, Elton Medeiros, Paulinho da Viola, Nelson Cavaquinho e Cartola

Gudin – maio/2010

São vários os motivos que fazem deste um dos maiores discos da história da música brasileira . A começar pela cantora, que justamente recebeu o título de A DIVINA: ELIZETH CARDOSO.

Elizeth Moreira Cardoso nasceu no Rio de Janeiro em 16 de Julho de 1920. Nasceu em São Francisco Xavier, perto do morro de Mangueira. O pai, seresteiro, tocava violão e a mãe gostava de cantar. Pouco antes de completar seis anos estreou cantando no rancho Kananga do Japão; aos oito já cobrava ingresso (10 tostões) da garotada da vizinhança para ouvi-la cantar os sucessos de Vicente Celestino. Gravou mais de 40 Lp’s, foi contratada em todas as as fases áureas de veículos de comunicação, como a Rádio Mayrink Veiga e a TV Record. Mas, em 1965, decidiu fazer algo diferente em sua carreira — ao invés de seguir com seu bem sucedido repertório de sambas canção, a Divina optou por conhecer de perto algo que já vinha sendo feito em alguns lugares como o Teatro Opinião, no Rio de Janeiro, por cantoras como Nara Leão e músicos como Carlos Lyra: gravar os compositores populares dos morros cariocas. Então subiu o morro e de lá voltou com sambas de Nelson Cavaquinho (“Vou partir”, “Luz negra” e “A flor e o espinho” — parcerias com Jair Costa, Amâncio Cardoso e Alcides Caminha, respectivamente), Zé Keti (“Malvadeza durão”), Cartola (“Sim”) e um outro menino novo de nome Paulinho da Viola (“Minhas madrugadas”, composta com Candeia, e “Rosa de ouro”, parceria com Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho).

E, para completar, entre os músicos estão Elton Medeiros (prato e faca, caixa de fósforo em “Folhas no ar”, de sua autoria com Hermínio), Nelson Sargento e Paulinho da Viola (nos violões) e Jair do Cavaquinho.

O disco ELIZETE SOBE O MORRO é marcadamente a maior referência de Samba Tradicional já registrada em gravação. Imperdível!

Elizete sobe o morro

Elizeth Cardoso 1965, Copacabana (11434) | discogs
DISCO É CULTURA

Elizete Cardoso 1960
Elizete Cardoso 1960 – Foto: Arquivo Nacional

Repertório

Lado A

Vou partir
Nelson Cavaquinho – Jair Costa
[ ouça ♫ ]

vou partir
não sei se voltarei
tu não me queiras mal
hoje é carnaval

partirei para bem longe
não precisas te preocupar
só voltarei pra casa
quando o carnaval acabar

Malvadeza durão
Zé Keti
[ ouça ♫ ]

mais um malandro fechou o paletó
eu tive dó, eu tive dó
quatro velas acesas em cima de uma mesa
e uma subscrição para ser enterrado
morreu Malvadeza Durão
valente, mas muito considerado

céu estrelado, lua prateada
muitos sambas, grandes batucadas
o morro estava em festa quando alguém caiu
com a mão no coração, sorriu
morreu Malvadeza Durão
e o criminoso ninguém viu

Folhas no ar
Elton Medeiros – Hermínio Bello de Carvalho
[ ouça ♫ ]

vou buscar aquilo que foi meu
e que no mundo se perdeu
qual folhas que o vento soltou no ar
ter a mesma paz de antigamente
sair cantando por cantar
qualquer canção sob qualquer luar
vou buscar aquele amor tão meu
sair andando a perguntar
qual o caminho por onde ele foi
e por onde for irei também
até o coração achar
que simplesmente não achou
e aí então vou entender
que ao buscar eu me perdi
de tudo aquilo que eu sou

Pecadora
Jair Costa – Joãozinho
[ ouça ♫ ]

vai pecadora arrependida
vá tratar da tua vida
por favor me deixe em paz
eu sofri um grande desgosto
e não quero ver teu rosto
palavra de rei não volta atrás
eu quero um amor perfeito
para aliviar meu peito
que por ti já padeceu demais

agora tens o mundo
a teus pés pra caminhar
se eu cansei de sofrer
cansaste de errar
eu plantei flor
colhi espinhos
mas agora arranjei outra
para me fazer carinho

Rosa de ouro
Hermínio Bello de Carvalho – Elton Medeiros – Paulinho da Viola
[ ouça ♫ ]

ela tem uma rosa de ouro nos cabelos
e outras mais, tão graciosas
ela tem outras rosas que são os meus desvelos
e seu olhar faz de mim, um cravo ciumento
em seu jardim, de rosas
rosa de ouro, que tesouro
ter essa rosa plantada em meu peito!
rosa de ouro, que tesouro
ter essa rosa plantada no fundo do peito!

esta rosa de ouro que eu trago nos cabelos
e outras mais tão graciosas
floresceu no lindo jardim dos meus desvelos
brotou em meu coração e cravos ciumentos
querem colher, o que? a rosa
rosa de ouro, singela
quero ofertar esta rosa tão bela!
rosa de ouro, singela
quero ofertar a vocês esta rosa tão bela!

A flor e o espinho
Nelson Cavaquinho – Alcides Caminha – Guilherme de Brito
[ ouça ♫ ]

tire o seu sorriso do caminho
que eu quero passar com a minha dor
hoje pra você eu sou espinho
espinho não machuca a flor
eu só errei quando juntei minh’alma à sua
o sol não pode viver perto da lua

é no espelho que eu vejo a minha mágoa
a minha dor e os meus olhos rasos d’água
eu na sua vida, já fui uma flor
hoje sou espinho em seu amor

Lado B

Minhas madrugadas
Paulinho da Viola – Candeia
[ ouça ♫ ]

vou pelas minhas madrugadas a cantar
esquecer o que passou
trago a face marcada
cada ruga no meu rosto
simboliza um desgosto
quero encontrar em vão o que perdi
só resta saudade não tenho paz
e a mocidade que não volta mais

quantos lábios beijei
quantas mãos afaguei
só restou saudade no meu coração
hoje fitando o espelho
eu vi meus olhos vermelhos
compreendi que a vida
que eu vivi foi ilusão

Águas do rio (Só resta saudade)
Noel Rosa de Oliveira – Anescar Pereira Filho
[ ouça ♫ ]

tudo ficou diferente
depois que você me deixou
dos nossos beijos ardentes
hoje resta o amargo sabor
até a água do rio
que a sua pele banhou
também secou com a saudade
que a sua ausência deixou

a lua, não tem mais brilho
o sol, não tem mais calor
o pomar não dá mais frutos
e o jardim não dá mais flores
daquela noite tão linda
que nos inspirava o amor
hoje só resta saudade,
muito sofrimento e dor…

Sim
Cartola – Oswaldo Martins
[ ouça ♫ ]

sim,
deve haver um perdão
para mim
senão nem sei qual será
o meu fim
para ter uma companheira
até promessas fiz
consegui um grande amor
mas eu não fui feliz
e com raiva para os céus
os braços levantei
blasfemei
hoje todos são contra mim

todos erram neste mundo
não há exceção
quando voltam a realidade
conseguem perdão
porque é que eu Senhor
que errei pela vez primeira
passo tantos dissabores
e luto contra a humanidade inteira

Meu viver
Elton Medeiros – Jair Costa – Kleber Santos
[ ouça ♫ ]

é tão simples
ser quem sou
quanta dor
economiza quem não sofre o mal do amor

meu sofrer
vai onde eu for
eu aprendi a viver assim
alimentando essa dor
que nasceu em mim

Ele deixou
Nelson Mattos – Jair Costa
[ ouça ♫ ]

ele deixou
de andar atrás de mim
compreendeu que o nosso amor
chegou ao fim

ele não sabe
todo bem que me fez
agora sou feliz
estou livre outra vez

Luz negra
Nelson Cavaquinho – Amâncio Cardoso
part.esp.: NELSON CAVAQUINHO (voz)
[ ouça ♫ ]

sempre só
eu vivo procurando alguém
que sofre como eu também
e não consigo achar ninguém

sempre só
e a vida vai seguindo assim
não tenho quem tem dó de mim
estou chegando ao fim

a luz negra de um destino cruel
ilumina o teatro sem cor
onde estou desempenhando o papel
de palhaço do amor


Ficha técnica

Moacyr Silva (produção e direção musical), Paulo Roberto do Nascimento (técnico de som), Walter Wendhausen (capa), Músicos informados no texto acima.

Considerações finais

Na década de 1960, Elizeth foi responsável pela consagração de vários sambistas. Gravou mais de 50 discos, entre eles o LP — ELIZETE SOBE O MORRO — , um destaque da discografia brasileira, que marcou a estréia de Nelson Cavaquinho em gravações e trouxe a primeira composição gravada de Paulinho da Viola. Espero que você tenha gostado desse post com o álbum da “Divina” Elizeth Cardoso, com um repertório de clássicos, lançado em 1965 pelo selo Copacabana.

2 comentários em “Elizete sobe o morro”

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