Elton Medeiros 1973
  • "data": "10 abril 2020"
  • "título": "Elton Medeiros (1973)"
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A carreira individual de Elton Medeiros só se iniciou de fato em 1973, com o álbum que trago neste post: “Elton Medeiros” (Odeon – 1973), LP com clássicos do samba como “Mascarada”, “Pressentimento”, “O sol nascerá”, “Sei chorar”…


Imagine-se um respeitável orixá — um Xangô maduro — sabedor da vida que um dia se recusou a vestir suas cores para dançar. Um orixá que, ao som dos atabaques, baixou em seu cavalo apenas para um desabafo:
— Neste candomblé só da turista. Me desculpem mas esta não é a minha. Procurem outra.

No quadro do que seria a cultura popular carioca — samba, carnaval, essas coisas — esse orixá se chama Élton Medeiros. Élton Antônio Medeiros, conforme a identidade. Nascido na Glória bairro de tradições populares (a festa de Nossa Senhora da Glória). Filho de funcionário do Arsenal da Marinha, participante da fundação de duas Escolas de Samba (Tupi de Brás de Pina e Unidos de Lucas) e da primeira ala de compositores realmente organizada (Aprendizes de Lucas — e isto deu o que falar), padrinho da famosa ala de compositores da Portela Élton, certo dia, levantou os olhos para a arquibancada e só viu turistas olhou em volta e só viu crioula malabarista, crioula de passo marcado e grã-fina vestida de dama imperial o povo que vive samba, estava lá fora sem poder entrar. Ao que disse Élton:
— Não sou bandeja de borboleta para ser vendido a gringo.
Desvestiu as cores da escola e nunca mais ouvidos turísticos ouviram seu samba.

Este disco foi tratado com carinho profissional, com sentido criativo, sem firulas repetidas e uma autenticidade tão levianamente invocada e explorada por aí.

Juarez Barroso

O trabalho de Élton, para os que sabem compreendê-lo em toda extensão, é um reflexo desta atitude crítica diante das pessoas, diante do samba e da música. Compositor de vasta carreira, registrada em vozes como a de Jamelão, Elizeth Cardoso, Paulinho da Viola, Dalva de Oliveira, Elza Soares, Élton é o popular que se refina. Sua pureza é a do sambista que, da mesa de botequim, que contempla a vida, ou a do “falso malandro”. Faz questão de saber para aonde vai. E analisa, depara, seleciona a partir daí, inspiração para ele é a apenas a base, para ele atingir o produto final que assim, o coloca entre os melhores de nossa música popular.

Ao que disse Élton: “Não sou bandeja de borboleta para ser vendido a gringo”. Desvestiu as cores da escola e nunca mais ouvidos turísticos ouviram seu samba.

Este é o primeiro disco individual de Élton (em 1966 dividiu com Paulinho da Viola as faixas do excelente LP “Na madrugada”. É uma síntese de seu trabalho, um mapa de sua caminhada desde um “Mascarada”, por exemplo, até inéditos como “Avenida fechada” e “Sebastiana”. É uma síntese, na qual ele homenageia seus parceiros principais, deixando claro, outra característica de Élton, conservando sua identidade, ele funciona como denominador comum entre épocas e sensibilidades, entre sambistas como Joacyr, Zé Keti, Mauro Bolacha, um veterano como Ciro de Souza (autor de “Tenha pena de mim”), ou o novíssimo Cristóvão Bastos (pianista e arranjador) e o poeta-pedreiro Angenor de Oliveira, o Cartola.

Pureza, espontaneidade esse disco tem. Mas ninguém espere ouvir um daqueles discos de samba “gravados ao vivo”, em “clima de feijoada” ou outras expressões usadas para encobrir deslizes da produção. Este disco foi tratado com carinho profissional, com sentido criativo, sem firulas repetidas e uma autenticidade tão levianamente invocada e explorada por aí.

Dos grandes parceiros de Élton, um ficou de fora (ou mais dentro que os outros): Paulinho da Viola, produtor do disco — Élton fez questão disso — esmerou-se na arrumação da casa, comprou o vinho, organizou o cardápio, atendo aos menores detalhes para o êxito da recepção. E como um mordomo digno, esta agora, recebendo os convidados para essa noite de gala de seu irmão musical. Festa que é sua, parabéns.

Juarez Barroso
outubro de 1973


Elton Medeiros

Elton Medeiros (LP Odeon SMOFB 3820, 1973) – Ouça no spotify, youtube ou itunes
DISCO É CULTURA

Elton Medeiros 1973

REPERTÓRIO

Lado A:
1. Avenida fechada (Elton Medeiros – Cristóvão Bastos – Antônio Valente)
2. Pra bater minha viola (Elton Medeiros)
3. Pressentimento (Elton Medeiros – Hermínio Bello de Carvalho)
4. Meu carnaval (Elton Medeiros – Cacaso)
5. Fotos e fatos (Elton Medeiros – Otávio de Morais)
6. Mascarada (Zé Keti – Elton Medeiros) / O sol nascerá (Cartola – Elton Medeiros)

Lado B:
1. Vem mais devagar (Elton Medeiros – Joacyr Sant´Anna)
2. Sebastiana (Elton Medeiros – Ciro de Souza)
3. Sandália dourada (Elton Medeiros – Austeclinio)
4. Vazio (Elton Medeiros – Mauro Duarte)
5. Hora “H” (Elton Medeiros – Antônio Valente)
6. Sei chorar (Cartola)

FICHA TÉCNICA — Milton Miranda (diretor de produção), Maestro Gaya (diretor musical), Paulinho da Viola (assistente de produção), Orlando Silveira (arranjos e regência), Z. J. Merky (diretor técnico), Toninho e Nivaldo Duarte (técnicos de gravação), Reny R. Lippi (técnico de laboratório), Elifas Andreato (capa), Iolanda Husak (foto).

MÚSICOS — Copinha (flauta), Cristóvão Bastos (teclados, violão nas fxs. 6a, 2b, 5b, arranjos nas fxs. 1a, 5b), Dazinho (ritmo), Dininho (contrabaixo), Dino 7 Cordas (violão 7 cordas), Elizeu Felix (ritmo), Elton Medeiros (caixa de fósforos), Geraldo Sabino (ritmo), Jonas Pereira da Silva (cavaquinho), Juquinha (bateria), Marçal (ritmo).


Considerações finais

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