Elza Soares baterista: Wilson das Neves

Disco Elza Soares

Lançado em 1968, o álbum “Elza Soares baterista: Wilson das Neves” se tornou uma referência de suingue na extensa discografia da cantora, além de destacar o trabalho do instrumentista – à época, já reconhecido no meio musical por suas performances em grupos de samba-jazz, como “Os Gatos” e “Os Catedráticos”. Esse LP veio também na esteira do sucesso de seu espetáculo “Elza de todos os sambas”.


O disco que trago neste post é um dos discos mais inacreditáveis já feitos na história da música popular brasileira. Wilson tocava com Elza, fazia turnês pelo mundo com ela e deixou a cantora impressionadíssima quando fez um solo de bateria durante um show na Argentina – a ponto de, lá mesmo, a cantora pedir a um presidente da Odeon local para fazer um LP em dupla (só foi lançado no Brasil alguns anos mais tarde). Tem “Balanço Zona Sul” (de Tito Madi, em versão furiosa), “Deixa isso pra lá” (do repertório de Jair Rodrigues), “Garota de Ipanema” (Tom Jobim e Vinicius de Moraes), etc.

Outra curiosidade sobre o disco: foi gravado no ano do casamento de Elza e de Garrincha, um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos, enquanto este ainda estava casado. Uma jovem cantora (38 anos), com um “Deus do Botafogo“, isso dava pano pra manga. Mas Garrincha já estava em declínio, sofrendo de alcoolismo e Elza permaneceu ao seu lado apesar dos sofrimentos que uma situação como esta causa. Ele faleceu em 1983.

Aproveitando a postagem de “Elza Soares baterista: Wilson das Neves” transcrevo a seguir um texto de Luiz Guilherme Sanitá presente na dissertação “A trajetória musical do baterista Wilson das Neves” . Vale a pena a leitura bem como a audição do disco.

Lançado em 1968 pela Odeon o LP “Elza Soares baterista: Wilson das Neves” é grande referência aos estudiosos da música brasileira. Não apenas pelo título e capa do disco, que já notamos uma projeção maior à bateria, mas essencialmente pelo seu conteúdo musical. Haroldo Campos escreveu uma crítica em 7 de maio de 1968. Vejamos:

Elza Soares está de volta ao disco com um elepê que nasceu para o sucesso. Com orquestrações do maestro Nélsinho, que sempre capricha cada vez mais, e um show de ritmo do baterista Wilson das Neves. Elza alcança momentos de inesquecível grandeza em interpretações de grande classe, onde ela transborda o seu ritmo, a sua ginga crioula, a sua enorme bossa.
[…]
Está ai, oferecido o reencontro com o samba numa das suas formas mais espetaculares, a forma de Elza Soares. Dá gôsto a gente ouvir e constatar que o nosso principal ritmo têm uma intérprete desta qualidade e desta fidelidade.

Mais uma vez, o discurso da “autenticidade” é a tônica quando do “reencontro com o samba”. Não notamos, porém, ao longo de seu texto, uma atenção maior ao baterista. O crítico discorre também sua preocupação em relação à baixa produção de música brasileira “de qualidade” naquele período, o que poderia “abrir o flanco para as importações”.

O disco que trago neste post é um dos discos mais inacreditáveis já feitos na história da música popular brasileira. Elza e Das Neves.

Uma outra crítica, em consonância com a de Haroldo, aparece no texto de Mário Sabino publicada no Jornal Diário de Pernambuco. O autor assim escreveu:

Elsa Soares fez turnê por tôda América Latina. Uma autêntica consagração. A personalização do samba brasileiro autêntico, movimentado, dinâmico, quente, alegre como a alma do carioca. Agora, quando essa sambista do asfalto, retornar aos Estados Unidos da América do Norte a fim de mostrar o que é realmente o SAMBA, a “Odeon” lança um nôvo LP da cantora, juntamente com o baterista Wilson das Neves.

Aqui é mais evidente o discurso da identidade nacional apoiado no samba tradicional como representante da nação-povo brasileiro (“dinâmico”; “quente”; “alegre com a alma do carioca”). Um pouco adiante, Mário cita, além da própria Elza, Miltinho, Jorge Veiga, Roberto Silva, Nerino Silvio e Elizeth Cardoso como os que ainda conseguiam “manter viva essa chama de brasileiríssimo que não deveria ser apagada à título de modernização”.

A importância do instrumento bateria não se reduz, entretanto, ao título e à capa do LP. Nesse momento, o baterista já estava bem integrado no mercado musical e era bastante solicitado por vários artistas. Não por menos, aparece junto à cantora na capa do disco.

Wilson conta que começou a trabalhar com a cantora em 1968. Na ocasião, estavam em turnê — somente os dois — pela América Latina, acompanhados por um conjunto de músicos argentinos. Após um show em uma boate na Argentina, Elza lembra que estava presente um dos diretores ligado à Odeon e que, impressionado com a performance, especialmente da interação da bateria e voz, propôs que gravassem um disco.

E estava presente um dos diretores, que fazia parte da presidência da EMI, da Odeon. Aí eu pedi. Ele me olhando assim, disse: “Mais que invenção. O que é que você vai fazer com um cara tocando assim na bateria?’. Eu disse: “Vou cantar. Fica assim: Elza Soares/Wilson das Neves, Wilson das Neves/Elza Soares, os dois se completam.” Ai ele falou assim: “Bom, por mim tá tudo ok. Agora vamos ver se lá no Brasil eles permitem.” Porque ele achou que seria loucura minha né. Logo que chegamos no Brasil, falei: “Wilson, meu cumpadre, a gente vai fazer esse trabalho.”

Ao longo do disco, Wilson alterna a tradicional função de acompanhamento da bateria, buscando uma abordagem rítmica de complementaridade com a melodia exposta pela voz. Wilson explica que esta interação acontecia de maneira despretensiosa: “Porque eu dividia com ela, entende. Ela cantava, eu respondia na bateria…uma coisa assim sem ensaio, sem nada, que virou uma atração né”.

Contando com Milton Miranda na direção de produção, Lyrio Panicalli como diretor musical e de Nelsinho para orquestração e regência, o LP é composto por doze fonogramas. Interpretando temas já conhecidos do repertório de música brasileira e uma releitura da música “In the mood” de Joe Garland e Andy Razaf, com versão de Aloysio de Oliveira, o disco, de maneira geral, apresenta uma sonoridade próxima do universo do samba tradicional de gafieira dos anos 50, assumindo forte caráter dançante.

Em relação ao caráter dançante do disco, podemos inferir que tal escolha estética se justifique pelo fato de tanto a cantora quanto o baterista, estarem ligados a um gênero musical que caminhou junto com a bossa-nova. “Balanço”, “samba de balanço” ou “sambalanço” foi uma das denominações dadas a uma das modalidades do samba que se configurou ao longo dos anos de 1950 e 1960 em paralelo à bossa-nova. Trata-se de um estilo que propôs “maior impacto rítmico” e “nova estruturação instrumental”, diferenciando-se da oposta à produção bossanovista. O jornalista e crítico musical Tárik de Souza, faz uma síntese sobre tal estilo:

Como traço comum, a pontuação de piano, órgão e precursores teclados elétricos (Solovox) por meio de alguns de seus principais difusores, como Djalma Ferreira, Waldir Calmon, Ed Lincoln, Celso Murilo, Walter Wanderley, Eumir Deodato e Zé Maria, além de eventuais adesões de Steve Bernard, Ely Andrade, André Penazzi e até mesmo do pila da Jovem Guarda, Lafayette. E mais, sopros de inclinação percurssiva e marcação rítmica acentuada, de ases como Rubens Bassini, Jadir de Castro, Ohana, Jorge Arena, Edison Machado, Dom Um Romão, Wilson das Neves, Humberto Garin (frequentemente com sotaque afro-caribenho) para turbinar a evolução dos pares dançarinos. E ainda letras extrovertidas, de exaltação ou lirismo, quase sempre leves e bem-humoradas, sem a introspecção da bossa-nova.

O LP assume claramente essa tendência. A instrumentação é composta por bateria, contrabaixo, piano, naipe de metais e voz. Os arranjos são semelhantes entre as músicas. Quase em sua totalidade as aberturas das músicas são introduções que remetem ao samba das grandes orquestrações. Seguem expondo em duas partes (A-B) com improvisações em cima do tema. Com faixas curtas e características mais ou menos homogêneas, o disco apresenta uma sonoridade bastante semelhante entre as músicas. O estilo musical optado pelos músicos e arranjadores segue fiel da primeira à última musica do disco. O que nos chama atenção é a maneira como o baterista se posiciona junto à cantora. Em outras situações, por exemplo no disco de Elis Regina (1968), gravado no mesmo ano, o comportamento do baterista é outro. Talvez pela projeção dada à bateria de Wilson junto a Elza, sua performance é mais ousada no sentido técnico-expressivo.

Faixas

O repertório com doze faixas tráz na face A “Balanço Zona Sul” de Tito Madi; “Deixa isso pra lá” de Alberto Paz e Edson Menezes; “Garota de Ipanema” de Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes; “Edmundo (In the mood)” de Joe Garland e Andy Razaf (versão: Aloysio de Oliveira); “O pato” de Jaime Silva e Neuza Teixeira; “Copacabana” de João de Barro e Alberto Ribeiro.

Na face B, as faixas: “Teleco-téco no.2” de Nelsinho e Oldemar Magalhães; “Saudade da Bahia” de Dorival Caymmi; “Samba de verão” de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle; “Se acaso você chegasse” de Lupicinio Rodrigues e Felisberto Martins; “Mulata assanhada” de Ataulfo Alves; “Palhaçada” de Horoldo Barbosa e Luiz Reis.

Em linhas gerais, identificamos alguns procedimentos técnicos característicos de Wilson das Neves, no que tange à sua execução de samba na bateria. Assim como em Os Ipanemas, que sua escolha de interpretação seguia um estilo contrário ao que faziam os músicos do Beco das Garrafas, — com muito fraseado no prato de condução —, mais uma vez, Wilson opta pelo “samba-conduzido”, tanto no prato de condução quanto chimbau.

Elza Soares baterista: Wilson das Neves

Elza Soares 1968, Odeon MOFB 3521 – DISCO É CULTURA – Ouça no spotify, youtube ou itunes

Disco Elza Soares
capa: Moacyr Rocha | foto: Mafra

Milton Miranda (diretor de produção), Lyrio Panicali (diretor musical), Nelsinho (orquestrador e regente), Z. J. Merky (diretor técnico), Jorge Teixeira da Rocha (diretor de gravação), Moacyr Rocha (lay-out), Mafra (fotos), faixas e seus respectivos compositores informados no texto acima.

1 comentário em “Elza Soares baterista: Wilson das Neves”

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