Festival de Samba – Sambas enrêdo das escolas de samba 1968

Disco Festival de Samba Enredo 1968

O primeiro volume do “Festival de Samba” tem gravação “ao vivo” e qualidade de som ruim. Entretanto, a péssima qualidade de gravação acaba tornando as performances mais “energizadas”, como se todos aqueles que estavam participando da gravação estivessem em um verdadeiro transe coletivo.

Em 1968, foram lançados dois LPs que reuniam os sambas-enredo apresentados naquele carnaval: “As dez grandes escolas cantam para a posteridade seus sambas-enrêdo de 1968″, produzido pelo Museu da Imagem e do Som (MIS); e “Festival de Samba” (este post), pela gravadora Discnews. Enquanto o primeiro tinha um propósito documental, o segundo daria início à prática e gravação e lançamento de discos anuais de samba-enredo que perdura até hoje.


Infelizmente, faltaram os sambas de três escolas nesse “Festival de Samba”, disco da Discnews: (São Carlos, Império da Tijuca e Independentes do Leblon). Ambas as gravações são muito precárias, tendo o objetivo (malsucedido) de priorizar a voz do cantor. Na primeira, os sambas são cantados só pelo intérprete. Na segunda passada, a bateria entra com as pastoras. Primeiro, que a bateria mais parece uma batucada mal feita com latas, gerando um som oco, nada cadenciado. Segundo, que na maioria das faixas as pastoras aparecem muito desafinadas.

Se a gravadora já sabia bem o tipo de gravação que ela tinha na época, por que forçar tanto a barra? Voltando a falar da bateria, eles pegaram somente uns poucos caras tocando alguns instrumentos de uma bateria convencional e botaram pra gravar. Conheço muitos discos da época e até mais antigos que têm qualidade de gravação muito melhor que este “Festival de Samba”. Portanto, os “recursos disponíveis na época” não são justificativa para isso. Para outros que dizem que a gravação deixou o povão mais próximo do desfiles, ainda tenho minhas dúvidas. Eu vi há pouco tempo um vídeo com o desfile do clássico imperial “Heróis da liberdade” em 1969. A emoção passada na avenida é algo completamente diferente desta precária gravação. Porém, nada abala a safra memorável deste ano, com três obras primas: “Sublime pergaminho”, “Dona Beja, feiticeira de Araxá” e “Exaltação a Portinari”. Outras escolas também fizeram grandiosos sambas este ano, como Vila Isabel, Império Serrano, Mocidade e a bicampeã Mangueira.

Sobre os sambas…

SALGUEIRO 68
D. Bêja – Feiticeira de Araxá
(Aurinho da Ilha)
[ ouça ♫ ]

Aurinho da Ilha, parceiro maior de Didi na União da Ilha, emplacou essa belíssima composição na escola “nem melhor, nem pior, apenas diferente”, em 1968. O samba é tão bem construído que a gente até esquece que ele não possui refrões. Conta o enredo de forma brilhante, detalhada, poética. A melodia é única. Um samba como não se faz hoje em dia, principalmente depois do “Efeito Ita”.

Neste disco, na primeira, os sambas são cantados só pelo intérprete. Na segunda passada, a bateria entra com as pastoras.

LUCAS 68
Sublime pergaminho
(Carlinhos Madrugada – Zeca Melodia – Nilton Russo)
[ ouça ♫ ]

Um samba emocionante, de letra poética, claramente dividido em duas partes — uma primeira mais triste, mostrando o sofrimento do escravo, desde o navio negreiro até o cativeiro; na segunda parte, com a abolição da escravidão, letra e melodia se casam de tal forma que a canção se torna uma verdadeira celebração da liberdade, representada e esculpida de forma espetacular no refrão final. É impressionante como estas duas partes são ligadas, como o samba vai ganhando força aos poucos, evoluindo até chegar ao clímax no final. “Sublime pergaminho” é a grande contribuição da escola para o carnaval carioca e o grande samba de 1968.

MOCIDADE 68
Viagem pitoresca através do Brasil
(Da Roça – Djalma)
[ ouça ♫ ]

O samba da Mocidade tem variações melódicas interessantes e conta bem o enredo. No entanto, a letra é demasiadamente grande e os refrões não colam nos ouvidos. Além disso, a obra possui inúmeros erros técnicos, principalmente de métrica, com versos longos demais, atrapalhando o canto dos componentes.

IMPÉRIO SERRANO 68
Pernambuco “O Leão do Norte”
(Silas de Oliveira)
[ ouça ♫ ]

“Pernambuco, Leão do Norte” é um samba atípico até para os anos 60. Lembra um pouco os primeiros sambas que Silas de Oliveira compôs para o Império Serrano. Tem letra curta, palavreado rebuscado e o tradicional “lá lá ia” ditando o canto dos componentes. O destaque da composição, no entanto, é a melodia, inusitada e muito forte. Este é o pior dos sambas de Silas no seu período de ouro (de 1964 a 1969, quando venceu todas as disputas do Império), mas, ainda assim, é excelente.

PORTELA 68
Tronco do ipê
(Cabana)
[ ouça ♫ ]

Um dos piores sambas da história da escola. Cabana, autor de inúmeros sambas da Beija-Flor no período pré-Joãozinho Trinta, assina este “boi com abóbora”. Talvez influenciados por Silas de Oliveira, que tinha cultura e um vocabulário rico, utilizando isto em suas composições, os compositores, muitas vezes, colocavam palavras cujo sentido desconheciam para tornar suas obras mais impressionantes. É o caso deste samba, cuja letra não diz coisa com coisa. Basta examinar este trecho: “Escrita por José de Alencar grande vulto de valor excepcional, orgulho da literatura nacional. Tronco do Ipê é o ponto culminante desta estória, onde o Pai Benedito fazia feitiçaria (…)“. O que é orgulho da literatura nacional? José de Alencar ou o Tronco do Ipê? O tronco do ipê é o ponto culminante de que estória — do José de Alencar ou da feitiçaria do Pai Benedito? A letra cheia de ambigüidades, combinada com uma melodia mal resolvida tornam este samba intragável…

MANGUEIRA 68
Samba, festa de um povo
(Darcy – Batista – Luiz – Hélio Turco – Dico)
[ ouça ♫ ]

Samba com a cara da escola, provavelmente um dos grandes trunfos para a conquista do bicampeonato. Hélio Turco criou uma fórmula que qualquer outro compositor da escola vai ter de seguir para ganhar samba na verde e rosa. Por causa disso, “Samba, festa de um povo”, se fosse reeditado, passaria tranquilamente por um samba atual, apesar de ser poeticamente mais rico do que qualquer samba feito hoje em dia.

VILA ISABEL 68
Quatro séculos de modas e costumes
(Martinho)
[ ouça ♫ ] 

Enquanto Silas de Oliveira resgatava o passado para compor “Pernambuco, Leão do Norte”, Martinho olhava para o futuro, prosseguindo na sua missão de revolucionar o gênero samba de enredo. “Quatro séculos de modas e costumes” é aquele tipo de samba simples, irresistível, contagiante, de refrões que colam no ouvido… Sem ser bobo, oba-oba ou apelativo. Interessante como as escolas que mais revolucionaram o carnaval, como o Império Serrano e a Vila Isabel, hoje tem fama de tradicionais… Enfim, mais um belo samba da Vila.

RITMO DA ESCOLA
[ ouça ♫ ]


Festival de Samba – Sambas enrêdo das escolas de samba 1968

1968, Discnews (DN-68/2) – Ouça no spotify, youtube ou itunes
DISCO É CULTURA

Disco Festival de Samba Enredo 1968

Considerações finais

Espero que você tenha gostado desse post com o álbum dos sambas-enredo de 1968 lançado pela Discnews (Festival do Samba). Se assim for, encorajo você a se inscrever no blog sambaderaiz abaixo. Ao informar seu email, você receberá todas as novas publicações do blog automaticamente.

Você também pode obter atualizações dos posts mais recentes, agregando o RSS do blog a seu leitor de feeds ou seguindo-me no Twitter. Quer fazer alguma observação sobre o álbum? Deixe-nos saber na área de comentários abaixo 🙂 Para fazer uma BUSCA no blog, clique nesse link. Forte abraço, Marcelo.

2 comentários em “Festival de Samba – Sambas enrêdo das escolas de samba 1968”

  1. Pingback: As dez grandes escolas cantam para a posteridade seus sambas-enrêdo de 1968 | sambaderaiz

  2. Pingback: Festival de Samba Vol.2 – Sambas enrêdo das Escolas de Samba 1969 | sambaderaiz

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *