Geraldo Filme (1980)

Geraldo Filme 1980

Em 1980, aos 52 anos, Geraldo Filme de Sousa lançou pela Eldorado o primeiro LP, “Geraldo Filme”, que contou com textos do teatrólogo e escritor Plínio Marcos e nele gravou várias de suas composições, tais como “São Paulo, Menino Grande”, “Silêncio no Bexiga”, “Vai no Bexiga pra Ver”, “A Morte de Chico Preto”, “Vai Cuidar da Tua Vida”, “Reencarnação”, “Vamos Balançar” e “Garoto de Pobre”, entre outras, de sua autoria, interpretando também “Tristeza do Sambista”, de Osvaldo Arouche e Walter Pinho. É esse elepê sensacional que trago neste post. Um pouquinho do samba da “Terra da Garôa”, que com certeza vai além dos Mestres Adoniran Barbosa e Paulo Vanzolini


Aproveitando a publicação deste elepê de Geraldo Filme, divulgo aqui um podcast feito pelo Estúdio F da Rádio Cultura sobre o disco, além do texto da contracapa e de outro texto no site Itaú Cultural.

GERALDO FILME – O Estúdio F apresenta seus principais sambas que foram registrados em seu único LP, “Geraldo Filme”, da Gravadora Eldorado em 1980

Seu nome de batismo é Geraldo Filme de Souza. Nasceu em São Paulo em 18 de outubro de 1927, mas foi registrado na terra natal de seus pais, São João da Boa Vista, no ano seguinte. Desde os cinco anos de idade viveu na Barra Funda e foi nesse bairro central de São Paulo que se tornou um dos mais representativos nomes do samba paulista.

Geraldo Filme registrou em seus sambas as tradições africanas, a situação do pobre, o cotidiano da cidade e fez homenagens a personalidades do povo , como a do sambista Pato N’Água, morto pelo esquadrão da morte em 1969 (“Silêncio no Bexiga”), e da cultura, caso do poeta e folclorista Solano Trindade, que tema de samba enredo da Vai-Vai em 1976 (“Solano, Vento Forte Africano”).

Sua história está intimamente ligada às escolas de samba. Foi compositor da Escola de Samba Paulistano da Glória e da Colorado do Brás. Foi um dos fundadores da Unidos do Peruche, além de ser da ala de compositores e assessor da diretoria da Vai-Vai. Ao falecer em 1995, aos 67 anos de idade, era coordenador de carnavais de bairro do Anhembi.

O Estúdio F apresenta seus principais sambas que foram registrados em seu único LP, “Geraldo Filme”, da Gravadora Eldorado em 1980. Além disso, o programa traz Beth Carvalho em “Tradição”, samba de terreiro que fez muito sucesso, e sua participação no projeto “Canto dos Escravos”, que ele divide com Clementina de Jesus e Tia Doca.

Podcast – Estúdio F

Além das músicas citadas, o Estúdio F traz “Batuque de Pirapora”, “Vou Sambar Noutro Lugar”, “Tebas, o Escravo”, “Vamos Balançar” e “Reencarnação”, todas de Geraldo Filme.

Apresentado por Paulo César Soares, produzido pela FUNARTE e gravado pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro, Estúdio F apresenta semanalmente o perfil de um importante nome da música brasileira, com dados sobre sua vida e registros de suas principais gravações.

Estúdio F
Geraldo Filme
Apresentado na RCB – Quarta-feira, 13 de abril de 2016, às 9 e às 21 horas.
Domingo, 17 de abril de 2016, às 13 horas.

Programa de Paulo César Soares
Produção: Rádio Nacional – Rio de Janeiro

O SAMBISTA GERALDÃO DA BARRA FUNDA
POETA DO POVO BRASILEIRO

Quando o crioulo elegante, que saia com seu violino nos cordões carnavalescos de São Paulo, parou de tocar seu instrumento. Dona Augusta não teve tempo para curtir sua mágoa. Foi obrigada a enxugar as lágrimas no avental e dar duro na cozinha de uma pensão para não interromper o sonho que lhe embalava a vida: fazer seu garoto, o Geraldinho, um doutor. Mas, na batalha do dia-a-dia, o filho de Dona Augusta tinha que dar uma mão. Enquanto não chegava o tempo da faculdade, ele ia entregando as marmitas lá pelos lados da Barra Funda. Era andar pela Praça Marechal, pela Alameda Giete, pelos Campos Elíseos, pelo Largo da Banana, com as marmitas, e escutar samba. Samba pesado, batuque vindo dos terreiros do café no interior do Estado. E o Geraldinho, que naquele tempo era conhecido pelo apelido de Negrinho das Marmitas, foi ficando ligado ao samba . Lá no Largo da Banana, as curiolas se juntavam pra esperar caminhão pra descarregar. Enquanto não vinha caminhão, jogavam “tiririca”. E o Negrinho das Marmitas foi chegando na roda dos bambas. Foi ficando taludo, apanhou, aprendeu a bater. Fez nome. Geraldão da Barra Funda. Ficou espaçoso. Já ia pára o Bexiga nos bailinhos de porão, onde crioulo de mais de metro e setenta tinha que dançar dobrado em cima da dama para não bater a cabeça nas vigas do teto. Quando o pagode esquentava, a poeira subia e só se sabia que tinha gente lá dentro pelo ronco da cuíca e pelos gemidos do cavaquinho. E no Bexiga, o Geraldão foi ganhando divisa, direito de dizer seu samba na Rua Direita, no Largo São Bento e na Sé. Na Praça da Sé, no pé do velho relógio, ponto de tira-teima dos sambistas do passado. Aí, o sonho de faculdade já era. Mas, Geraldão da Barra Funda, o Geraldo Filme, se fazia um poeta maior, cantor da sua cidade.

Ele, mais do que ninguém, foi preservando nos seus sambas a memória desta cidade que crescia e cresce desordenadamente e que vai sendo descaracterizada a todo momento com a justificativa do progresso. Ele, Geraldão, que conhece São Paulo como a palma da sua mão e que ama São Paulo, tem feito o que pode para registrar o espírito da cidade. Ele é um cronista da gente e da cidade que ama. Canta nos seus sambas o Largo da Banana, a Sé, o Bexiga. Chora a morte dos bairros e dos bambas como Pato N´água. Sua obra é muito importante, não só no aspecto do samba puro da paulicéia. A obra de Geraldão Filme é uma referência para todos os que quiserem saber da história da cidade de São Paulo. Como artista popular, o Geraldão da Barra Funda tem batalhado para abrir espaços para ele e para os seus companheiros. Porém (e sempre tem um porém), só agora já coroa (52 anos), ele por feliz iniciativa da Eldorado, tem a chance de mostrar um LP todinho seu (e aproveita para meter um de gente que vem chegando agora, Oswaldo Aroucha e Walter Pinho). Que Deus nos ajude para que esses sambas lindos cheguem ao nosso povão . Que os disc-jóqueis, sempre tão envolvidos com a música estrangeira, dêem passagem para esse sambista maior: Geraldo Filme, o Geraldão da Barra Funda, legítimo poeta do povo brasileiro.

PLÍNIO MARCOS
contracapa

No site Itaú Cultural, outro texto bem elucidativo sobre Geraldo Filme que transcrevo a seguir.

Geraldo Filme: patrimônio do samba

Já em 1982, Geraldo Filme lamentava: “o samba não levanta mais poeira, o asfalto hoje cobriu o nosso chão” e, no entanto, apesar de os arranha-céus do Bixiga cobrir a luz da lua, “o Vai-Vai está firme no pedaço, é tradição, e o samba continua”. Essas frases, trecho do samba “Tradição”, contam um pouco da história do samba na capital paulista. Para além da fama do Bixiga, outros bairros também são temas da música de Geraldo, como atesta o historiador Amailton Azevedo em conversa com o Observatório. “Geraldo canta a Barra Funda, o Bexiga, circula nos chamados territórios negros antigos da cidade”, ou, nas palavras de Amailton, as “micro-áfricas” de São Paulo .

Nascido em São João da Boa Vista, em 1928, no interior de São Paulo, Geraldo Filme chegou a gravar quatro discos, entre os quais “História das Quebradas do Mundaréu” (1973), com Plínio Marcos, Toniquinho Batuqueiro e Zeca da Casa Verde, e “O Canto dos Escravos” (1982), com Clementina de Jesus e Doca. O seu legado, vale salientar, segue muito vivo na música brasileira, sobretudo em relação ao samba paulistano.

Influenciado pelo samba rural que chegava à Pauliceia, aos 10 anos o artista já tinha composição própria. “Eu Vou Mostrar” foi feito em resposta à provocação de seu pai, homem que dizia que São Paulo não era terra onde se fazia samba. Grande parte da vivência de Geraldo teve influência familiar: neto de ex-escravizados, sua produção musical não estava alheia a isso e é uma das representações da resistência cultural da população negra, força transformada, por exemplo, na música “História da Capoeira”.

A vida do sambista é tema da pesquisa do historiador Amailton Magno Azevedo, professor do Programa de Pós-Graduação em História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) e autor do livro “Sambas, Quintais e Arranha-Céus: as Micro-Áfricas em São Paulo” (2016). Tamanho interesse surgiu, segundo Amailton, de uma conversa ou “de uma espécie de noite musical” com seu amigo e músico Lemenestréu:

“Nessa época, Lemenestréu e eu morávamos juntos. Eu era estudante do mestrado e estava fazendo uma pesquisa sobre rap em São Paulo. Ficávamos tocando violão e compondo. Numa madrugada dessas ele tocou um samba de Geraldo Filme, ‘O Silêncio no Bexiga’. Perguntei: ‘Pô, quem é esse cara?’. E ele me respondeu: ‘Como você não conhece? É um cara daqui de São Paulo que é muito importante na história do samba paulistano. Dá uma pesquisada que você vai ver que não é só o Adoniran Barbosa: tem muito mais coisa e o Geraldo é um desses caras que ajudaram a fundar uma memória do samba’. Fiquei curioso, em um primeiro momento: uma curiosidade musical que se transformou em uma preocupação de pesquisa.”

Ao adentrar no universo de Geraldo Filme, Amailton deparou-se com uma questão: Adoniran e a música “Trem das Onze” são os mais conhecidos quando se fala do samba paulistano. Porém, por meio da busca de documentação e em conversa com familiares e amigos, o historiador foi reconhecendo um conjunto bem maior de sambistas que, com Geraldo, compunham “uma experiência negra na cidade de São Paulo, muito vibrante, produtiva e criativa”. Fora o próprio Tio Gê, existiram Zeca da Casa Verde, Toniquinho Batuqueiro e a família do Seu Nenê de Vila Matilde.

“É palpável essa comunidade negra de São Paulo, essa micro-África paulistana, na primeira República. É possível identificar onde ela se encontrava e quais eram as suas práticas: na Penha, no Bexiga, na Liberdade, na Baixada do Glicério, na região central, ali onde tem a Igreja da Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no Largo do Paissandu e vem se estendendo pela Barra Funda até o lado da linha do trem. Então, há um mapa da cultura negra atuante do ponto de vista da produção cultural”.

A história de Geraldo Filme perpassa a própria história de São Paulo e da resistência da comunidade negra em relação ao racismo, bem como a crescente urbanização pela qual passou a capital paulista. Não à toa, na canção “Vou Sambar Noutro Lugar”, Geraldo canta com Zeca da Casa Verde e Toniquinho Batuqueiro: “fiquei sem o terreiro da escola/ já não posso mais sambar/ sambista sem o Largo da Banana/ a Barra Funda vai parar// surgiu um viaduto, é progresso/ eu não posso protestar/ adeus, berço do samba/ eu vou-me embora/ vou sambar noutro lugar”.

Amailton Azevedo lembra a importância da imprensa negra a partir da década de 1930. Dois casos que comprovam isso são A Voz da Raça, periódico da Frente Negra Brasileira que circulou de 1933 a 1937, e o jornal Alvorada, publicado de 1945 a 1948, obra da Associação Negra Brasileira. Veículos de informação significativos colocavam-se na luta contra o racismo em um contexto em que as fronteiras entre liberdade e escravidão ainda não estavam bem definidas, apesar da abolição de 1889. Tão importantes quanto esses periódicos são os próprios partidos, como a Frente Negra Brasileira, posta na ilegalidade em 1937 por Getúlio Vargas. É desse cenário, em suma, que nascem os sambas de Geraldo Filme. Atento ao seu redor, à luta do povo negro e à história de resistências, Geraldo canta em “Tebas”, canção em referência ao marco zero da cidade de São Paulo, na Praça da Sé:

“Tebas, negro escravo/ profissão: alvenaria/ construiu a velha Sé/ em troca pela carta de alforria/ trinta mil ducados que lhe deu Padre Justino/ tornou seu sonho realidade/ daí surgiu a velha Sé/ que hoje é o marco zero da cidade/ exalto no cantar de minha gente/ a sua lenda, seu passado, seu presente,/ praça que nasceu do ideal/ e braço escravo/ é Praça do povo/ […]/ no meu São Paulo, oi lelê, era moda/ vamos na Sé que hoje tem samba de roda”

De rodas em rodas de samba, Geraldão fica conhecido e ajuda a construir o samba paulistano. Amailton afirma:

“Geraldo engaja-se nesse meio do samba e participa ativamente da fundação e da consolidação da escola de samba Paulistano da Glória, que valorizava a cultura negra. Trata-se de uma escola que nasce em meados dos anos 1940 e atua até o início dos anos 1970; uma escola muito apegada a esses temas, como o Peruche. Ele se enturma, circula nesses espaços, compõe músicas, torna-se vencedor de samba enredo até conseguir gravar seu primeiro disco no início dos anos 1980. Ele participou, em 1973, do disco Quebradas do Mundaréu, de Plínio Marcos, mas é só em 1980 que lança Geraldo Filme. É simbólico que o disco tenha o seu nome, porque ele já era uma pessoa consideravelmente conhecida no meio musical, no universo do samba , mas pôr o seu nome no título é simbólico no sentido de se apresentar para um público que até então não o conhecia.”

Outro fator importante para pensar a obra de Geraldo Filme são as críticas que ele fez à ditadura militar, o seu engajamento político quando chegou a fazer parte do PCdoB. Ou refletir acerca da tensão entre Geraldo e os esforços das autoridades paulistanas (como o então prefeito Brigadeiro José Vicente Faria Lima) em profissionalizar o samba. Questionava o Carnaval como modelo de espetáculo, da televisão e dos negócios que foram incorporados nessa festa. Amailton Azevedo pontua: “Na entrevista para a TV Cultura em 1992, ele diz que o samba perdeu espaço para o glamour, para as celebridades”.

Geraldo, Geraldão da Barra Funda ou simplesmente Geraldo Filme faleceu em 1995, aos 67 anos. Suas composições continuam ecoando ainda hoje, assim como seu nome e sua história, tanto nas rodas de samba quanto em pesquisas de historiadores como a de Amailton Azevedo. Não por acaso, quando Amailton vai à Cohab para conversar com os amigos de Geraldo, percebe um sentimento de gratidão:

“As pessoas eram muito gratas a ele, conheciam os seus clássicos. Em uma das primeiras entrevistas que fiz, perguntei para uma dessas pessoas o que significa o Geraldo Filme. Com um sorriso que contava tudo, o sujeito me disse que Geraldo foi uma pessoa muito importante, que sonhava com a possibilidade de pôr uma escola na avenida, uma escola de samba na Cohab, uma escola que já tinha um nome: Quilombo do Educandário.”

Geraldo Filme é um patrimônio do samba. Suas letras são como uma janela privilegiada para a história de São Paulo, do samba paulistano e da resistência dos negros ao longo do século XX . Silêncio, o sambista está dormindo, ele foi, mas foi sorrindo. Ressaltar a sua memória é também fazer um convite à sua obra e aos temas das suas canções.

Geraldo Filme

1980, Estúdio Eldorado (29.80.0358)
DISCO É CULTURA

REPERTÓRIO

Vai no Bexiga pra Ver
Geraldo Filme
[ ouça ♫ ]

quem nunca viu o samba amanhecer
vai no Bexiga pra ver
vai no Bexiga pra ver

o samba não levanta mais poeira
asfalto hoje cobriu o nosso chão
lembrança eu tenho da Saracura
saudade tenho do nosso cordão
Bexiga hoje é só arranha-céu
e não se vê mais a luz da lua
mas o Vai-Vai está firme no pedaço
é tradição e o samba continua

A Morte de Chico Preto
Geraldo Filme
[ ouça ♫ ]

na morte de Chico Preto
houve muita tristeza no ‘arraia’
ele era cumpadre de todos,
não havia criança pagã no lugar
os grandes rezavam excelência,
as crianças chamando o padrinho a chorar
era mestre em bezendura,
curava quebrando e doce queimadura,
picada de cobra não soube curar
nós “estava” na lavoura,
pra ganhar algum dinheiro
urutu tava na moita,
urutu tava na moita e picou meu companheiro

a cumadre Dona Benta ele deixou como herança
um banquinho, uma esteira e também quatro crianças
três machos barrigudinhos, muringa e um violão
que Chico Preto tocava sob o luar do sertão
deixou também Maria a pobre e triste menina
tão pequenina a coitada mas já tem a sua sina
vocês é que nada sabem do que vai pelo sertão
menina quando é bonita é presente pro filho do patrão

Mulher de Malandro
Geraldo Filme
[ ouça ♫ ]

meu bem, eu vou me embora
não fique triste mulher de malandro não chora

eu fiz de tudo para ser bom operário
veio a crise financeira eu perdi o meu trabalho
vou com o sol volto com a luz da lua
oh meu bem não fique triste dinheiro se ganha na rua

dê um beijo nos negrinhos, vou ganhar o nosso pão
carregar algumas malas lá na porta da estação
engraxar sapato e bota, carregar cesto na feira
alugar uma casaca, ser garçon de gafieira

hoje vou jogar no bicho, minha jura quebrarei
quero ver se aumento um pouco sobre aquele que eu ganhei
oh meu bem não tenha medo pois o jogo não dá nada
para tudo tem um jeito a polícia é camarada

vou vender bala de coco, barbatana e rapadura
oh meu bem só tenho é medo do fiscal da prefeitura
pra arrumar algum dinheiro, garantir nossa gordura
vou em algum velório de rico, vou chorar na sepultura

Tristeza do Sambista
Osvaldo Arouche – Walter Pinho
[ ouça ♫ ]

felicidade hoje é fantasia
e o povo canta mesmo sem saber
que a favela virou poesia
na boca de quem nunca soube o que é sofrer

quando sopra o vento
no mês de fevereiro
a nega me pergunta “o que fazer?”
o zinco tremulando é um pesadelo
só rezo e peço a Deus para nos proteger

todos cantam todos falam
mas esquecem o principal
a tristeza do sambista
é não ter no Carnaval
sua própria fantasia
e um barraco em condição
para não ver a realidade
no desfile da ilusão

Eu Vou pra Lá
Geraldo Filme
[ ouça ♫ ]

eu vou pra lá
eu vou pra lá
ai como é bom
paulistano pra gente sambar

minha escola é paulistano
pequenina mais caminha
camisa da barra funda
eis sim é nossa madrinha
eu sou filho de sambista
e por isso vivo assim
sempre cantando meu samba
batendo meu tamborim

um sambista de verdade
faz samba e não pensa em conquista
sou nascido num terreiro
em São João da Boa Vista
na hora em que eu nasci
mamãe me jogou na pista
“se cair deitado é padre, caiu de pé é sambista”

convidei a minha nega
se não vem porque não quer
eu não troco um bom samba
pelo amor de uma mulher
a nega ficou zangada
quase que o pau comeu
eu brinco com todo mundo
no fim do pagode seu nego é só teu

Garoto de Pobre
Geraldo Filme
[ ouça ♫ ]

garoto de pobre
só pode estudar
em escola de samba
ou ficar pelas ruas
jogado ao léu
implorando a bondade dos homens
aguardando a justiça do céu
seu lápis é sua baqueta
que bate o seu tamborim
ninguém olha este coitado
Senhor qual será o seu fim?

na escola de samba da vida
é onde ele vai estudar
ensaia, o ano inteiro
tem provas no Carnaval
ele desce dos morros
ele vem das vilas
e chega a cidade
alegra os turistas
recebe os aplausos da sociedade
se criar novos passos
criar nova ginga
ou compor um samba
está aprovado, recebe o garoto
o diploma de bamba

na escola de samba
aprende a rir,
aprende a sofrer,
aprende a sambar
mas não sabe ler
doutor qual o seu destino será?

Silêncio no Bexiga
Geraldo Filme
[ ouça ♫ ]

silêncio, o sambista está dormindo
ele foi mas foi sorrindo
a notícia chegou quando anoiteceu
escolas eu peço o silêncio de um minuto
o Bexiga está de luto
o apito de Pato N’água emudeceu

partiu, não tem placa de bronze não fica na história
sambista de rua morre sem glória
depois de tanta alegria que ele nos deu
assim, um fato repete de novo
sambista de rua, artista do povo
e é mais um que foi sem dizer adeus

História da Capoeira
Geraldo Filme
[ ouça ♫ ]

oilalá, oilelê
meu avô me chamava
“vem cá meu filhinho aprender capoeira pra se defender”

meu avô preto de Angola
sentado na sua esteira
contava pra criançada
história da capoeira
foi brinquedo de criança
veio lá de sua terra
em defesa do seu povo
já virou arma de guerra

ele me falou também
que em busca da liberdade
negro se refugiavam
no Quilombo de Palmares
quando eles defrontavam
opresor que lhes seguia
era perna que jogava
era gente que caía

São Paulo Menino Grande
Geraldo Filme
[ ouça ♫ ]

São Paulo, menino grande
cresceu não pode mais parar
no pátio do colégio quem lhe viu nascer
um velho ipê parece chorar
não vejo, a sua mãe preta
na rua, com seu pregão
cafezinho quentinho, sinhô,
pipoca, pamonha e quentão

lembrar, deixa-me lembrar,
laiarálalaiálaiá

agora que o menino cresceu
perdeu sua simplicidade
não quer mais o seu amor-perfeito
e um cravo vermelho, seu amigo do peito
São Paulo de Anchieta
e de João Ramalho
onde estão teus boêmios,
a sua garoa, cadê seu orvalho?

Vai Cuidar de Sua Vida
Geraldo Filme
[ ouça ♫ ]

vá cuidar de sua vida
diz o dito popular
quem cuida da vida alheia
da sua não pode cuidar

crioulo cantando samba
era coisa feia
esse negro é vagabundo
joga ele na cadeia
hoje o branco está no samba
quero ver como é que fica
todo mundo bate palmas
quando ele toca cuíca

negro jogando pernada
negro jogando rasteira
todo mundo condenava
uma simples brincadeira
e o negro deixou de tudo
acreditou na besteira
hoje só tem gente branca
na escola de capoeira

negro falava de umbanda
branco ficava cabreiro
fica longe desse negro
esse negro é feiticeiro
hoje o negro vai à missa
e chega sempre primeiro
o branco vai pra macumba
e já é babá de terreiro

Vamos Balançar
Geraldo Filme
[ ouça ♫ ]

vamos balançar
quem é que não vem?
é nova-bossa
o balanço é gostoso
não falte ninguém

eu sou do tempo do samba-de-breque
brinquei muito samba-de-roda aí nas madrugadas, o samba-canção
agora que a mocidade lançou nova bossa
entrei no balanço, gostei do balanço, balanço bom

Reencarnação
Geraldo Filme
[ ouça ♫ ]

Pai, criador do universo
quero lhe pedir perdão
pelos erros cometidos
espero não chamar seu nome em vão
a gente aqui na terra erra
muitas vezes sem razão
peço ao Criador
quero voltar na reencarnação

sei que vou subir
meu pensamento está na descida
espero que o bom Zambi me devolva
tudo de bom que tenho nesta vida
o som do surdo e atabaque
sentir meu corpo tremer
tomar a bença a Mãe Rosa
Pedrinho a me proteger
e as crianças me chamando de Tio Gê

quero ser sambista
ao renascer de novo
pra cantar a alegria
e desventura de meu povo
quero ter muitos amigos
como tenho atualmente
cantar samba na Avenida
e nascer negro novamente


FICHA TÉCNICA — PRODUÇÃO: Estúdio Eldorado / COORDENAÇÃO ARTÍSTICA: Aluizio Falcão / PRODUÇÃO: Carlinhos Vergueiro / ARRANJOS E REGÊNCIAS: Paulo Estêvão, Thiago José e Edson Alves / TÉCNICO DE GRAVAÇÃO E MIXAGEM: Luiz Carlos Baptista / MÚSICOS: Luizinho (violão 7 cordas), Edson (violão, cavaquinho), Heraldo (violão, viola, cavaquinho), Dirceu e Toniquinho (bateria), Dirceu (berimbau), Branca de Neve, Theo e Jorginho (ritmo), Clélia, Nadir, Clóvis, Carlinhos e Edson (coro), Bolão (clarinete, flauta), Carlos Alberto (flauta), Felpudo (felpudo) / DIREÇÃO DE ARTE: Ariel Severino / ASSISTENTE DE ARTE: Flávio Machado.

Considerações finais

Espero que você tenha gostado desse post com o álbum de um ícone do samba Geraldo Filme, lançado em 1980 pelo selo Eldorado.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *