Evocação V

Geraldo Pereira Evocação V

“Evocação V” de Geraldo Pereira, um mineiro de Juiz de Fora criado no morro da Mangueira. Malandro, valentão, mulherengo e principalmente excelente sambista, Geraldo Pereira foi um verdadeiro cronista dos morros, dos subúrbios e da vida boêmia do Rio.


“… em 1944 eu gravei a ‘Florisbela’ no mesmo dia em que o Ciro gravou a ‘Falsa Baiana’ que eu nem preciso dizer nada. “

O Ciro gravou de manhã na RCA, ali na Praça da República, com a regional do Benedito Lacerda: o Benedito, Dino, Meira e Canhoto, Popey no pandeiro e mais o Raul de Barros. Depois, de tarde, o regional foi pra Continental gravar comigo. A Continental ficava ali na avenida Rio Branco, em cima das Cintas Trianon, bem defronte ao Nice. Depois da gravação nós saímos pra festejar: o Geraldo, o Ciro e eu. Meu deus! O Ciro, meu compadre, neste tempo era da Mayrink e já era muito popular. O Geraldo tinha gravado dois sambas no mesmo dia e eu tinha gravado meu primeiro disco. Nós saímos do Nice prá Lapa prá festejar e fomos amanhecer na Taberna da Glória.

O Geraldo estava alegre e comandou a noite toda.

“- Canta meu samba Ciro
– Agora o outro, Batista…”

Acima transcrevo um texto assinado por Batista de Souza e abaixo, outro assinado por Moacyr Andrade, ambos publicados na contracapa do LP.

Pixinguinha, um nome que pode resumir, simbolicamente, toda a música popular brasileira, foi talvez ao longo de quatro décadas — pelo menos do fim dos anos 20 a meados dos anos 50 — o mais ativo orquestrador e arranjador dos nossos palcos e estúdios. Isto significa que trabalhou e burilou a criação de centenas de compositores dos mais obscuros aos mais famosos. Pixinguinha alinhava a genialidade á discrição: não era qualquer coisa que provocava nele uma demonstração de arroubo ou entusiasmo que traísse a sua frieza profissional. Pois bem, uma vêz em 1939, ao fazer o arranjo para uma música de um compositor até então completamente desconhecido, o grande mestre saiu por instantes de uma sábia indiferença para pedir ao cantor Roberto Paiva, intérprete do autor estranho, que o apresentasse aquele criador tão surpreendente. E foi logo dizendo o que o comovera: o samba a que acabara de dar roupagem orquestral guardava uma melodia inteiramente original para a época. O samba era o “Se Você Sair Chorando”, primeira composição gravada de Geraldo Pereira.

Já estava aí nessa estréia, embora praticamente já associada, a fantástica divisão rítmica que consagraria Geraldo Pereira, um dos mais interessantes e mais ricos criadores de estilo, de escola, entre os compositores brasileiros. Essa marca se acentuaria logo a partir do terceiro samba que ele, no ano seguinte e na voz de Ciro Monteiro, conseguiu pôr em disco: “Acabou a Sopa”, no qual a sequência de síncopes configuram uma constante. Seu domínio desse recurso foi total. Diversificando em cada nova música uma inventiva melódica de fato prodigiosa. Geraldo levou a síncope — que basicamente consiste no prolongamento do som de um tempo fraco com tempo forte — ás últimas consequências, terminando por fazer-se reconhecer como o mais perfeito cultor do gênero sincopado, hoje, soa também como uma homenagem a Geraldo Pereira uma citação de seu papel e de sua força no desenvolvimento da nossa música popular .

Esse papel é singular também no terreno poético. Aqui, o correspondente da síncope musical é a síntese acabada e irretocável. Cada samba de Geraldo Pereira é um quadro de costumes, um comentário de um flagrante do cotidiano de um segmento social — o seu — feito sem desperdícios retóricos, sem “folclorizações” e sem apelos alegóricos. Seus versos tem o poder de uma boa notícia de jornal, aquela que conta tudo numas poucas linhas de sua coluna . E são mais esclarecedores, do ponto de vista de levantamento sociológico, do que a enfadonha pretensão científica de certos estudos e pesquisas acadêmicas.

É que Geraldo punha em seus sambas — com uma felicidade constatada ao se ouvir, sempre com renomado prazer, qualquer deles — o seu ambiente, o modo de vida de toda uma camada popular carioca . E como o fazia da posição de quem esta de dentro, isto é, podendo ser um personagem verossímil da cena descrita (e frequentemente o era), eis-nos diante de observador e registrador de comportamentos provavelmente inigualável entre os que, em sua época, também tentaram, como compositores populares, contribuir para a fixação de uma fase de nossa vida urbana.

Geraldo ganhou a vida como motorista dos caminhões de coleta de lixo. E gastou-a — embora seja mais correto dizer que a aproveitou — no morro (Mangueira), no subúrbio (Engenho de Dentro) e na zona boêmia (Lapa). Essas indicações sugerem tudo: trabalhou como um mouro, fez ponto nas escolas de samba e nos terreiros (os religiosos, inclusive), amanheceu nos cabarés e nas gafieiras, viveu e sofreu incontáveis ligações amorosas. Não precisou, pois — ao contrário de outros compositores que também buscaram pintar retratos sociais, mas vendo as coisas de fora, como observadores platônicos — de imaginar ou “criar” situações: ele viveu cercado da inspiração, que, no seu caso, eram os próprios fatos e emoções em que esteve permanentemente mergulhado.

Quando Geraldo morreu, no dia 8 de maio de 1955, aos 37 anos e de hemorragia intestinal — consequente a uma briga até hoje não suficientemente esclarecida com outra figura de escola da Lapa, o lendário Madame Satã — fazia grande sucesso o seu samba “Escurinho”, gravado por Ciro Monteiro. Apesar disso, Geraldo morria pobre (Ciro teve que pagar do próprio bolso o enterro). E a impressão que se tinha era a de que estava arquivada uma página da música popular brasileira, destinada a futuras pesquisas de seus historiadores.

Seis anos mais tarde, em 1961, pleno apogeu da bossa-nova, João Gilberto, o grande nome desse movimento, regravou “Bolinha de papel”, um samba que 16 anos antes enriquecera o repertório dos Anjos do Inferno. Foi uma revelação: a peça, da construção rítmica á picardia da letra, era plena de atualidade.

Descobria-se aí, ou confirmava-se, outra característica da obra de Geraldo Pereira: sua perenidade hoje inteiramente comprovada. Trata-se de um clássico, um autor de sambas á prova de todas as épocas.

Moacyr Andrade
contracapa


Evocação V

Geraldo Pereira 1980, Estúdio Eldorado (40.81.0365)
DISCO É CULTURA

REPERTÓRIO / MÚSICOS

Escurinha
Geraldo Pereira – Arnaldo Passos
João Nogueira (voz), Alceu Maia (cavaquinho), Marçalzinho (surdo), Franklin (flauta), Luna (pandeiro), Neco (violão), Nelsinho (trombone), Raphael Rabello (violão 7 cordas), Wilson das Neves (bateria).
[ ouça ♫ ; ]

escurinha
tu tens de ser minha
de qualquer maneira
te dou meu boteco
te dou meu barraco
que eu tenho no morro de Mangueira
comigo não há embaraço
vem que eu te faço, meu amor
a rainha da escola de samba
que teu o nego é diretor

quatro paredes de barro
telhado de zinco
assoalho no chão
só tu escurinha é quem está faltando
no meu barracão
sai disso, bobinha
só nessa cozinha levando a pior
lá no morro eu te ponho no samba
te ensino a ser bamba
te faço a maior

Pisei num Despacho
Geraldo Pereira – Elpídio Viana
Jackson do Pandeiro (voz), Canhoto (cavaquinho), Dino 7 Cordas (violão 7 cordas), Elizeu (caixeta), Franklin (flauta), Jorginho (pandeiro), Luna (triângulo), Marçal (ganzá), Meira (violão), Orlando Silveira (acordeon), Raul de Barros (trombone).
[ ouça ♫ ]

desde o dia em que passei
numa esquina e pisei num despacho
entro no samba e meu corpo tá duro
bem que eu procuro a cadência e não acho
meu samba meu verso
não fazem sucesso
há sempre um porém
vou à gafieira
fico a noite inteira
no fim não dou sorte com ninguém

mas eu vou a um canto
vou num pai-de-santo
pedir qualquer dia
que me dê uns passes, uns banhos de ervas
e uma guia
está aqui um endereço
um senhor que eu conheço
me deu há 3 dias
o mais velho é batata
diz tudo na exata
é uma casa em Caxias

Pode Ser?
Geraldo Pereira – Marinho Pinto
Cristina (voz), Canhoto (cavaquinho), Dino 7 Cordas (violão 7 cordas), Elizeu (agogô), Franklin (flauta), Jorginho (pandeiro), Luna (reco-reco), Marçal (tamborim), Meira (violão), Orlando (piano).
[ ouça ♫ ]

entre nós houve uma contrariedade
pra dizer a verdade
eu não guardo rancor
porque é que você quando passa por mim
não me dá mais bonjour?
eu sempre vi em você
o meu rêve d’amour

o que houve entre nós foi um mal-entendido
tudo eu já fiz pra desfazer
porque meu coração não é fingido
não é não
e precisa muito de você
pode ser?

Ainda Sou Seu Amigo
Geraldo Pereira
Elton Medeiros (voz), Canhoto (cavaquinho), Dino 7 Cordas (violão 7 cordas), Jorginho (pandeiro), Marçal (ganzá), Meira (violão), Netinho (clarineta), Netinho (saxofone soprano), Nilton Rodrigues (trompete), Zé Bodega (saxofone tenor)
[ ouça ♫ ]

um dia gostei da cabôcla faceira
fiz uma casinha de zinco e madeira
pro resto da vida com ela viver
um ano depois estava o nosso leito
todo destruído e nosso amor desfeito
e nós dois a sofrer

ela tem chorado e eu tenho sofrido
embora magoado porque fui traído
não vivo com ela mas sou seu amigo
pois viver com ela
que perigo

Até hoje não Voltou
Geraldo Pereira – J. Portela
Nelson Sargento (voz), Canhoto (cavaquinho), Dino 7 Cordas (violão 7 cordas), Franklin (flauta), Jorginho (pandeiro), Luna (ganzá), Marçal (caixeta), Meira (violão), Raul de Barros (trombone).
[ ouça ♫ ]

eu fui buscar uma mulher na roça
que não gostasse de samba
e nem gostasse de prosa
uma semana depois que aqui chegou
mandou esticar os cabelos
e as unhas dos pés pintou
foi dançar na gafieira
e até hoje não voltou

ela não tinha um vestido
um sapato que se apresentasse
eu comprei
chegou toda errada
falar não sabia
fui eu que ensinei
perdi muito tempo
gastei meu dinheiro
fui tão longe à toa
mas já vi que sou muito infeliz
é melhor eu viver sem patroa

Bolinha de Papel
Geraldo Pereira
Grupo Tarsis (voz), Dino 7 Cordas (violão 7 cordas), Jorginho (pandeiro), Nilton (trompete).
[ ouça ♫ ]

só tenho medo da falseta
mas adoro a Julieta
como adoro a Papai do Céu
quero seu amor, minha santinha
mas só não quero que me faça
de bolinha de papel

tiro você do emprego
dou-lhe amor e sossego
vou ao banco e tiro tudo
pra gente gastar
posso Julieta
lhe mostrar a caderneta
se você duvidar

Acabou a Sopa
Geraldo Pereira – Augusto Garcez
Marçal (voz e tamborim), Marçalzinho (surdo), Canhoto (cavaquinho), Dino 7 Cordas (violão 7 cordas), Doutor (repique), Franklin (flauta), Jorginho (pandeiro), Luna (agogô, tamborim, reco-reco), Meira (violão), Netinho (saxofone soprano), Raul de Barros (trombone), Zé Bodega (saxofone tenor). [ ouça ♫ ]

essa não é a primeira vez
que você me aborrece
e depois, com cara de santa me aparece
pedindo perdão
sem me pedir foi ao baile
isso não se faz
eu vou lhe mandar embora
para nunca mais

pode arrumar sua roupa
porque acabou a sopa
volte ao baile
vá dançar melhor
abusou da confiança
você já não é mais criança
se eu lhe perdoar
fará depois pior

Onde Está a Florisbela?
Geraldo Pereira – Ari Monteiro
Batista (voz), Canhoto (cavaquinho), Dino 7 Cordas (violão 7 cordas), Franklin (flauta), Jorginho (pandeiro), Luna (reco-reco), Meira (violão), Nelsinho (trombone), Orlando (piano).
[ ouça ♫ ]

na madrugada voltei do baile
na certa de encontrar minha amada
achei a janela aberta e as portas
quero esquecer mais não posso
tive um pouco de remorso
as horas já eram mortas

entrei e verifiquei toda a casa
meus ternos já eram cinzas
e meu violão era brasa
bati na janela da vizinha
ó Dona Estela me diga, para onde foi Florisbela?

a vizinha respondeu
quando notei a fumaça
bem que eu disse, ó Florisbela
não é coisa que se faça
ela contou-me chorando
que lhe viu nos braços de outro alguém
ah meu vizinho, a razão dá-se a quem tem
botei fogo também

Pedro do Pedregulho
Geraldo Pereira
Vânia Carvalho (voz), Canhoto (cavaquinho), Dino 7 Cordas (violão 7 cordas), Jorginho (pandeiro), Meira (violão).
[ ouça ♫ ]

Pedro dos Santos vivia no Morro do Pedregulho
quebrando boteco, fazendo barulho
até com a própria polícia brigou
vivia do jogo
e quando perdia só mesmo muamba
rasgava pandeiro, acabava com o samba
parece mentira, Pedro endireitou

Estelinha, orgulho do morro
mulher disputada
que quando ia ao samba
saía pancada
ao Pedro dos Santos
deu seu grande amor
e ele trocou o revólver que usava
fingindo embrulho
por uma marmita
e sobe o Pedregulho
de noite, cansado do seu batedor

Ministério da Economia
Geraldo Pereira – Arnaldo Passos
Monarco (voz), Canhoto (cavaquinho), Dino 7 Cordas (violão 7 cordas), Doutor (repique), Elizeu (tamborim), Jorginho (pandeiro), Luna (ganzá), Marçal (cuíca), Meira (violão), Raul de Barros (trombone).
[ ouça ♫ ]

seu presidente,
sua excelência mostrou que é de fato
agora tudo vai ficar barato
agora o pobre já pode comer
seu presidente,
pois era isso que o povo queria
o Ministério da Economia parece que vai resolver
seu presidente
graças a Deus não vou comer mais gato
carne de vaca no açougue é mato
com meu amor eu já posso viver
eu vou buscar
a minha nega pra morar comigo
porque já vi que não há mais perigo
ela de fome já não vai morrer
a vida estava tão difícil
que eu mandei a minha nega bacana
meter os peitos na cozinha da madame
em Copacabana
agora vou buscar a nega
porque gosto dela pra cachorro
os gatos é que vão dar gargalhada de alegria
lá no morro

Escurinho
Geraldo Pereira
Roberto Silva (voz), Canhoto (cavaquinho), Dino 7 Cordas (violão 7 cordas), Franklin (flauta), Jorginho (pandeiro), Luna (ganzá), Marçal (caixeta), Meira (violão), Orlando Silveira (acordeon), Raul de Barros (trombone).
[ ouça ♫ ]

o escurinho era um escuro direitinho
agora tá com essa mania de brigão
parece praga de madrinha
ou macumba de alguma escurinha
que ele fez ingratidão
saiu de cana ainda não faz uma semana
já a mulher do Zé Pretinho carregou
botou embaixo o tabuleiro da baiana
porque pediu fiado e ela não fiou
já foi no Morro da Formiga
procurar intriga
já foi no Morro do Macaco
já bateu num bamba
já foi no Morro dos Cabritos
provocar conflitos
já no foi no Morro do Pinto
acabar com o samba

Mais cedo ou mais tarde
Geraldo Pereira
Jards Macalé (voz e violão)
[ ouça ♫ ]

ah, mais cedo ou mais tarde
ela tem que voltar!
meu Deus, não posso me conformar
à outra meu coração não entrego
confesso, não nego
sem ela não posso continuar
outra meu coração não aceita
parece até coisa feita
mas seja o que Deus quiser
quero seguir para outro caminho
buscar um novo carinho
mas meu coração não quer

Se Você Sair Chorando
Geraldo Pereira – Nelson Teixeira
Elton Medeiros, Nelson Sargento, Marçal (voz), Marçalzinho (surdo), Canhoto (cavaquinho), Dino 7 Cordas (violão 7 cordas), Doutor (agogô, repique), Elizeu (tamborim), Jorginho (pandeiro), Luna (tamborim), Meira (violão), Raul de Barros (trombone), Marçal (ganzá, cuíca), Bee de Campos, Elton Medeiros, Marçal, Nelson Sargento (coro).
[ ouça ♫ ]

se você sair chorando
dizendo que vai embora
meu amor não ignoro
o seu pensar
ficarei muito contente
vou viver com alegria
espero seu desprezo um dia
não vou chorar

você vai que a rua lhe convida
de que valem duas vidas
sem prazer
tudo quanto é difícil
eu dou-lhe com sacrifício
e você não sabe me compreender


FICHA TÉCNICA — PRODUÇÃO: Homero Ferreira / DIREÇÃO: Orlando Silveira / COORDENAÇÃO ARTÍSTICA: Aluízio Falcão / PESQUISA DE REPERTÓRIO: Miêcio Caffé / TÉCNICO DE GRAVAÇÃO: Carlinhos / TÉCNICO DE MIXAGEM: Flávio Barreira / ASSISTENTES DE GRAVAÇÃO: Índio e Peninha / CAPA: Ariel Severino / GRAVAÇÃO: Estúdio Hawai (Rio) em julho/agosto de 1980.

Considerações finais

Espero que você tenha gostado desse post com o álbum de Geraldo Pereira, o “Rei do sincopado”, lançado em 1980 pelo selo Eldorado.

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