História das Escolas de Samba – Mangueira

História das Escolas de Samba - Mangueira

LP da Coleção História das Escolas de Samba dedicado a Estação Primeira de Mangueira, com interpretações de Cartola, Prêto Rico, Carlos Cachaça, Padeirinho, Nelson Sargento etc.


Era 1974 e a Discos Marcus Pereira decidiu trazer os morros do Rio de Janeiro para o asfalto. Dentro da orientação de documentar a música e a cultura brasileira, o então diretor artístico da gravadora, Aluízio Falcão teve a ideia de registrar os sambas dos morros, das escolas de samba, não apenas composições recentes mas aquelas antigas, que marcaram a trajetória das agremiações. A ideia era registrar o trabalho dos sambistas e compositores que, com sangue, suor e talento, colocaram na história a música criada para alegrar os terreiros das comunidades e, que ao chegar ao asfalto, deram vida e forma ao Carnaval carioca. E para o asfalto vieram, pela primeira vez, muitos destes compositores, e gravaram os sambas presentes nesta coleção de quatro LPs, que contempla a história musical da Mangueira, Portela, Salgueiro e Império Serrano, as principais escolas de samba daquele início dos anos setenta do século passado. A seguir, o texto publicado na contracapa assinado por Sergio Cabral.

Em 1932 o jornal Mundo Sportivo, desaparecido logo depois, promoveu o primeiro desfile de escola de samba da história, um desfile realizado na velha Praça Onze no qual se apresentava pela primeira vez de maneira organizada para a classe média a “música dos malandros” (como diziam os jornais da época). A escola de samba vencedora chamava-se Estação Primeira de Mangueira.

Os sambistas de Mangueira fizeram do seu lugar um dos pontos cardeais da música popular brasileira.

Em 1933, coube ao jornal O Globo a iniciativa de promover o desfile, aproveitando-se um pouco da organização feita pelo Mundo Sportivo e introduzindo novidades no regulamento. Escolas de samba de todos os pontos do Rio de Janeiro participaram do desfile. A escola de samba vencedora também chamava-se Estação Primeira de Mangueira.

De maneira que quando a gente ouvir falar, ou ir ao terreiro, ou assistir ao desfile da Estação Primeira de Mangueira tem que levar em conta que atrás da escola tem uma história de glórias, uma história que se confunde com a própria história do samba carioca.

Os sambistas de Mangueira fizeram do seu lugar um dos pontos cardeais da música popular brasileira. “Aquele mundo de zinco que é Mangueira” tem dentro dos seus barracos alguns dos nomes mais expressivos da cultura brasileira, como Cartola, Carlos Cachaça, Padeirinho, Nelson Sargento, Prêto Rico, Jurandir, Pelado, uma gente com tanto talento que nós — impregnados por valores diferentes dos deles — torcemos para que eles fiquem ricos, como se a riqueza compensasse o que eles contribuíram para a nossa felicidade.

A Mangueira é uma festa, talvez fosse o título de um livro que Hemingway escreveria se tivesse no morro antes de ter vivido em Paris. O povo de lá reage contras as injustiças que a estrutura social lhe fez cantando, fazendo lindos sambas. Não é uma imagem: o mangueirense sorri. E canta com tal entusiasmo que tenho impressão de que a escola na Avenida seria capaz de transformar qualquer samba boi-com-abóbora (para usar uma gíria dos velhos sambistas) numa obra-prima.

Dedicamos este disco à memória de Saturnino Gonçalves

contracapa

Felizmente, nunca foi necessário para a Mangueira provar na prática essa teoria. Seus compositores sempre contribuíram para a escola — e para a música popular brasileira — com sambas belíssimos, como esses que o produtor Pelão selecionou para esse disco. São músicas feitas pelos poetas de Mangueira, uma classe de gente que — palavra de honra! — sei que é diferente. É que eles tem um quê para citar um outro samba — a Mangueira “têm um quê que nenhuma outra escola tem”.

Cartola, um dos fundadores da escola, tem tanta certeza disso que certa vez, ao ser convidado a fazer novamente sambas para a escola — respondeu um convite com um samba, um samba que está neste disco, no qual afirmava que não seria necessária a sua volta, pois os jovens também faziam lindos sambas. Ele disse:

“Continuam nossas lutas
Podam-se os galhos
Colhem-se as frutas
E outra vez se semeia
E surge outro compositor
Jovem, de grande valor,
Com o mesmo sangue na veia”

É que — como já disse — a Mangueira, árvore-morro-música, tem a semente do samba.

Sérgio Cabral
contracapa


Coleção História das Escolas de Samba – Mangueira

1974, Discos Marcos Pereira (LP-MPC-4002)
DISCO É CULTURA

História das Escolas de Samba - Mangueira

REPERTÓRIO

Lado A: “A mais querida”, (samba de quadra de 1965), de Padeirinho, com o autor — ouça ♫ ; “Cântico à natureza”, de Nelson Sargento, com o autor (samba-enredo de 1955) — ouça ♫ ; “Vingança”, samba de quadra (1937), de Carlos Cachaça com o autor — ouça ♫ ; “O grande presidente”, de Padeirinho, com o autor (samba-enredo de 1956) — ouça ♫ ; “Lendas do Abaetés”, de Prêto Rico, Jajá e Manoel, com Prêto Rico (samba-enredo de 1971) — ouça ♫ ; “Vale do São Francisco”, de Cartola e Carlos Cachaça, com Cartola (samba-enredo de 1948) — ouça ♫ .

Lado B: “Imagens poéticas de Jorge de Lima”, de Tolito, Mozart e Tojal, com o “Grupo da Mangueira” (samba-enredo de 1975) — ouça ♫ ; “Fiz por você o que pude”, de Cartola, com o autor (1950) — ouça ♫ ; “Mercadores e suas tradições”, de Jurandir, Darci e Hélio Turco, com Jurandir (samba-enredo de 1967) — ouça ♫ ; “Homenagem”, de Carlos Cachaça, com o autor (samba-enredo de 1934) — ouça ♫ ; “Chega de demanda”, de Cartola, com o autor — ouça ♫ ; “Velha baiana”, – samba de quadra de 1957, de Preto Rico e Moacir, com Preto Rico — ouça ♫ ;


FICHA TÉCNICA — Angenor de Oliveira (Cartola) (direção de harmonia), percussionistas e instrumentistas dos morros da cidade do Rio de Janeiro, gravado em 4 canais, nos estúdios do Hara Internacional, em dezembro de 1974, Aluízio Falcão (diretor artístico), J. C. Botezelli (Pelão) (produção e direção de estúdio), Dilson, Aramis e Max Pierre (técnicos de som), Jorge José da Silva, Aramis e Max Pierre (mixagem), Mesquita (lay-out), Ernesto Cerri (arte).

Considerações finais

Espero que você tenha gostado desse post com o álbum referente a Mangueira da Coleção História das Escolas de Samba (selo Marcos Pereira). Se assim for, encorajo você a se inscrever no blog sambaderaiz abaixo. Ao informar seu email, você receberá todas as novas publicações do blog automaticamente.

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