Ismael canta … Ismael

LP Ismael canta... Ismael

Nesse vinil “Ismael canta… Ismael” temos a oportunidade de acompanhar o compositor interpretando suas obras. Uma pérola de disco. Um verdadeiro documentário da música popular brasileira.


Sambista emérito do Estácio, fundador da pioneira escola de samba “Deixa Falar”, Ismael Silva (1905-1978) foi um dos grandes responsáveis pelo desenvolvimento do gênero, em sua fase inicial. Depois de 1927, quando fez o acordo com Francisco Alves pelo qual todas as suas composições figuravam como sendo parcerias com o cantor (em troca de uma remuneração), sua carreira deslanchou, e seu nome passou a ser sempre associado ao do Rei da Voz — e à prática de venda de sambas. Neste disco, lançado originalmente pela gravadora Mocambo em 1957 (cinco anos depois da morte de Chico Alves) e também relançado pela InterCD, temos Ismael interpretando sua obra. Este foi gravado logo depois de “O samba na voz do sambista” (56), primeiro em que se arriscou como intérprete. Cumpre dizer que os anos 40 foram de dificuldades financeiras para o compositor, que conseguiu voltar às paradas em 1950 com a gravação de “Antonico” na voz de Alcides Gerardi, um samba dolente cuja letra fala de um amigo passando por um período difícil, possivelmente o próprio Ismael.

Percebe-se logo que a parceria entre Chico Alves e Ismael foi de fato benéfica para ambos, já que o compositor nunca poderia ter feito sucesso naquela época cantando seus próprios sambas. Vale pelo registro, pela chance de ouvir um ótimo (e histórico) compositor ao microfone. Suas limitações vocais são evidentes, tanto que há um coro cantando a maior parte das músicas — Ismael faz um pequeno solo em cada faixa. O destaque vai para o conjunto instrumental que acompanha o disco, conjugando o regional de samba (cavaquinho, percussão) a um ótimo naipe de metais, com direito a inspirados solos de trombone, trompete e bateria. Pena não haver qualquer informação sobre os músicos. A remasterização não resolveu por completo o problema do desequilíbrio entre os instrumentos, e a percussão fica, em geral, em primeiro plano. Mas mesmo assim é possível apreciar sucessos da década de 30, como “Amar”, “Agradeças a mim”, “Arrependido”, “Não há” ou “Ao romper da aurora” (com Lamartine Babo).

Nana Vaz de Castro

Abaixo, transcrevo a contracapa do LP da Mocambo – LP 40007, 1957 bem como o encarte do CD relançado pela Inter CD Records – R 22013, 2000

InterCD Records, 2000

Sem nenhuma dúvida a biografia de Ismael Silva na história do samba é das mais marcantes. Filho de um operário e de uma lavadeira, nascido em Niterói a 14 de setembro de 1905, logo nos primeiros anos de vida já morava no Rio de Janeiro no Bairro do Estácio onde, apesar de algumas fugas esporádicas montou seu quartel general para a vida inteira.

A carreira de Ismael é paralela a do samba carioca, tendo ambas nascidas praticamente juntas. Ganhou destaque ao lado de nomes famosos da alta, da boêmia do Rio de Janeiro do primeiro quarto do século, gente como Baiaco, Brancura, Mano Edgar, Nilton Bastos, Bide, compositores da fase heroica do samba quando a atividade era sinônimo de malandragem e merecia perseguição policial.

Ismael Silva foi o primeiro compositor popular a transformar seu talento em moeda corrente, de maneira contínua. Antes dele um ou outro tinha vendido composições ou parcerias, mas coube a ele fazê-lo de forma praticamente profissional depois de ter sido procurado pelo cantor Francisco Alves e com ele acertar um contrato pelo qual se obrigava a ceder parceria em suas composições, ou mesmo vende-las integralmente ao intérprete. Existem recibos firmados por Francisco Alves que comprovam tais afirmações de Ismael em entrevistas concedidas muitos anos depois do início de tal “parceria”, inciada em 1927.

Esse CD cuja raíz é um LP gravado pelo selo pernambucano Mocambo é um dos melhores retratos da obra musical de Ismael Silva. Nele estão grandes exemplos da inspiração do sambista do Estácio de Sá, compostos com parceiros reais como Nilton Bastos e Lamartine Babo ou “associados” como Francisco Alves. No texto da contracapa original o respeitadíssimo crítico da época Bricio de Abreu analisa o repertório com a maior propriedade.

É sempre necessário a cada momento que se focaliza Ismael Silva lembrar que foi ele o fundador da primeira Escola de Samba brasileira a Deixa Falar, no seu Estácio de Sá.

Arley Pereira
encarte CD relançado pela InterCD Records – R 22013, 2000

A MOCAMBO ao lançar esse clássico da MPB, procurou preservar na voz do próprio compositor, os seus sambas definitivos.

Mocambo, 1957

Há um período troubled na história da nossa música popular, e que será um dos mais difíceis para o historiador de amanhã, se não procurarmos esclarecê-lo hoje. Começou em 1930, terminou em 1940, e declinou no fim do “Café Nice”, embora ainda perdure. Período de compra e venda de músicas. O que mais espanta é vermos, metidas nessas confusões, nomes de compositores e de cantores de real valor. A coisa tornou-se de tal forma comum, entrando no cotidiano, que hoje temos dificuldades de elucidar os fatos.

Ismael Silva, uma das grandes figuras dessa época, e que nela e com ela viveu, pertence já a antologia da nossa música popular. Seu valor conseguiu se sobrepor aos mistérios da época. Mesmo assim ainda ficaram algumas interrogações que agora, com este long-playing da MOCAMBO procuramos esclarecer.

Em uma contra-capa de um disco do próprio Ismael, o poeta Vinicius de Moraes, ao falar do compositor, se enganou. Não foi em 1924 que o Chico Alves procurou Ismael no Estácio para comprar-lhe um samba. Não. Foi em 1927, Chico queria conhecer o preto Ismael de quem já comprava sambas desde 1924, ano em que Alcides Barcelos fora procurá-lo, em leito de hospital para adquirir “Não me faz carinho”. Desde aquela oportunidade, seguindo-se outras, Chico levou quase três anos para uma noite, descer de um taxi, na porta de um café no Estácio, a procura do preto Ismael. Concordamos, todavia, com Vinicius de Moraes — Esse foi um dos encontros mais importantes para a história da música popular carioca. Principalmente para Chico Alves, que comprou os direitos de grandes sucessos de Ismael, como, por exemplo, aquele “Amor de malandro”, pelo qual pagou a quantia de cem mil reis.

O Brasil inteiro cantou a música que começa assim:

“Vem, vem.
Que eu dou tudo a você…”

Ismael tem hoje quase sessenta anos. Conheço-o a longo tempo, e no meu fichário constam inúmeras coisas dele. Sua vida de compositor ficou ligada a de Chico Alves, desde 1927, com um encontro em um café no Estácio, que por sinal, chamava-se “Bar Apolo”.

Nascido em Catumbi, somente quando rapazinho Ismael foi para o Estácio, onde ganhou nome como seresteiro e compositor. Se alguma vez afastou-se daquele bairro (o que sucedeu duas ou três vezes), foi para voltar logo e sentir então inspiração musical. Ali tinha e tem amigos. Ali sempre se compôs música que rivaliza com os sambas de Mangueira, Salgueiro e Osvaldo Cruz.

Em uma entrevista por ele concedida a antiga revista “Vamos Ler”, hoje desaparecida, vamos encontrar coisas curiosas: — Chico começou a cantar minhas músicas em 24. Eu me achava recolhido a uma casa de saúde, onde tive de permanecer por longo tempo, sofrendo de enfermidade adquirida nas noites de frio e nas serenatas. No meu leito recebi um portador de Chico Viola, que havia mandado saber se eu queria vender um samba meu recente, mas já bastante conhecido no meio dos, sambistas. Aceitei. No dia seguinte o mesmo portador levava-me a quantia estipulada e uma declaração já pronta, que assinei. Assim foi lançado na cidade meu primeiro samba. Todo mundo cantava:

“Você não me faz carinho.
Seu prazer é me ver aborrecido.
Ora vai, mulher contrariada.
Não é obrigada,
a viver comigo.”

E Ismael continua: — Só três anos depois, Chico me procura pessoalmente. Comecei a ganhar dinheiro. Passa-se o tempo e, é Chico quem tem a idéia de fazermos parceria, oferecendo-me um contrato onde todas as músicas que dalí por diante compuséssemos pessoalmente ou em conjunto, levariam nossos nomes. Aceitei porque procurava viver. Associado a Chico Viola, que nada fazia enquanto eu me esforçava para produzir cada vez mais, lancei vários sucessos. Surge então Nilton Bastos, meu velho parceiro de verdade, e fizemos várias melodias, sem a participação de Chico, que estrilou mas acabou por aceitar os sambas já assinados pelos dois. E desse modo surgiram: “Amor de malandro”, “Não é isso que eu procuro”, “Novo amor”, “Nem é bom falar”, “Arrependido”, “Se você jurar”, “Não há” e outros tantos sucessos. Um ano depois morre Nilton Bastos e fico novamente sozinho com Chico, produzindo com afinco sucessos como: “É bom evitar”, “Sonhei”, “Nunca dei a perceber”, “Não digas”. Nessa ocasião Noel Rosa resolve entrar na parceria. Compusemos, então, os três o samba “Adeus” em homenagem ao Nilton, “Para me livrar do mal”, “Boa viagem”, “Razão dá-se a quem tem” e “Quem não quer sou eu”. Dai por diante minha atividade nada apresenta de curioso… É a vida de todo compositor que luta. Continuei a compor, a vender sambas e a mourejar pelas rodas boêmias.

Essas declarações de Ismael vêem esclarecer um pouco a situação de que falei. Note-se que não havia por parte dos seus integrantes desonestidade, mas exploração.

A MOCAMBO ao lançar esse autêntico clássico da música popular brasileira, procurou ainda, talvez como documentário histórico, preservar na voz do próprio compositor, que sempre foi também um seresteiro, os seus sambas definitivos.

Repertório

ARREPENDIDO — Feito no “Bar Apolo”, no Estácio. Nilton Bastos teve a idéia, numa conversa, e fizeram letra e música na mesma noite. Criação de Chico Alves. Samba de Ismael Silva, Nilton Bastos e Francisco Alves [ ouça ♫ ]

É BOM EVITAR — Foi escrito na casa do compositor. Ismael fez a música e a letra em meia hora. Criado por Chico Alves em rádio e em disco. Samba de Ismael Silva, Nilton Bastos e Francisco Alves [ ouça ♫ ]

NÃO HÁ — Numa noite desanimado, sozinho no “Bar Apolo”, Ismael compôs o samba, que foi criado por Mário Reis e Chico Alves. Samba de Ismael Silva, Nilton Bastos e Francisco Alves [ ouça ♫ ]

AMAR — Ismael ia para casa. Não tinha dinheiro para o bonde. Andando foi compondo o samba. Quando chegou em casa, estava pronto. Cantado inicialmente por Chico Alves. Samba de Ismael Silva, Nilton Bastos e Francisco Alves [ ouça ♫ ]

AGRADEÇAS A MIM — Ismael o compôs para figurar em um concurso da Municipalidade. Conseguiu o segundo lugar. Na revisão do julgamento ele, passou para terceiro lugar, figurando então, em segundo a marcha “Foi ela” de Ary Barroso. Criação de Silvio Caldas. Samba de Ismael Silva [ ouça ♫ ]

CHORO, SIM — Inspirado em bruta dor de cotovelo, nos fundos do “Bar Apolo”, sozinho, Ismael compôs. Criado por Chico Alves. Samba de Ismael Silva [ ouça ♫ ]

NÃO VÁ ATRÁS DE NINGUÉM — Inspirado, “meio alto”, ao vir de uma “sambada” em Meriti, Ismael no trem compôs esse samba que foi criado por Ciro Monteiro. Samba de Ismael Silva [ ouça ♫ ]

COM A VIDA QUE PEDISTE A DEUS — Diz Ismael que o samba é um lamento, mas não quis dizer de que, de quem ou como. Afirmou que vem de uma tremenda complicação sentimental. Foi criado por J.B. de Carvalho. Samba de Ismael Silva [ ouça ♫ ]

FÃ — Nasceu de um namoro com uma fã, e foi criado, pelo testemunho deste namoro, pelo cantor Gilberto Alves. Samba de Ismael Silva [ ouça ♫ ]

AO ROMPER DA AURORA — Uma tarde, Chico, Lamartine e Ismael estavam em um café existente na Rua Gonçalves Dias, quando tiveram a idéia de fazer o samba. Cada um entrou com uma “bossa” (diz ele), e em pouco tempo estava composto. Chico foi seu intérprete. Samba de Ismael Silva, Lamartine Babo e Francisco Alves [ ouça ♫ ]

ANTONICO, MEU ÚLTIMO DESEJO — São duas composições de 1950. A primeira dedicada a um amigo e a segunda consequência de um rompimento com uma cabrocha que… “pirou”, com o diz Ismael, sem mais aquela porque ela não o amava… e ficou a tal dorzinha. Ambas possuem, bem acentuado, o estilo e a personalidade do compositor que é Ismael. Sambas de Ismael Silva [ ouça ♫ ] / [ ouça ♫ ]

Eis aqui um disco que será um dos grandes documentários do futuro, serviço que a MOCAMBO presta a nossa música popular.

BRÍCIO DE ABREU
contracapa


Ismael canta… Ismael

Ismael Silva (LP Mocambo LP 40007, 1957) — Ouça no spotify, youtube ou itunes. DISCO É CULTURA

LP Ismael canta... Ismael

Ficha técnica do disco sem créditos aos músicos e arranjadores.

Considerações finais

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