Recantando Mágoas – Lupi, a Dor e Eu

Jamelão Racantando Mágoas

No ano de 1987, Lupicínio Rodrigues foi homenageado por Jamelão no LP “Recantando Mágoas – Lupi, a Dor e Eu”, no qual o cantor interpretou muitos sucessos do boêmio.

Na carreira de Jamelão, Lupicínio Rodrigues exerceu uma grande influência. O cancioneiro “dor de cotovelo” do compositor gaúcho encontraria um privilegiado canal de expressão no vozeirão enxuto e sem vibratos que imortalizou, em dois LPs (Jamelão Interpreta Lupicínio Rodrigues e Recantando Mágoas – Lupi, a Dor e Eu), ou em canções como “Vingança” e “Nervos de Aço”. Músicas de versos tristes, mas apropriados para um cantor negro que se sentia discriminado — “Já fui deixado de lado por outros caras só porque eles eram brancos” — e ao ser questionado porque vivia de cara amarrada, rebatia: “Rir de quê?”


A seguir, transcrevo uma publicação do jornal O Globo em 13 de dezembro de 1987, abordando o lançamento do elepê “Recantando Mágoas – Lupi, a Dor e Eu”.

Jamelão traz de volta fossa de Lupicínio

Há mais de 15 anos que Jamelão acalentava o sonho de novamente gravar um disco só com músicas de Lupicínio Rodrigues, com arranjos da Orquestra Tabajara, como fez em 1972. Muita fossa, dor-de-cotovelo e fartas doses de romantismo que, segundo o cantor, andam em falta no cenário artístico. Depois de uma longa espera, Jamelão conseguiu realizar seu desejo. Desde o mês passado está nas lojas “Recantando Mágoas — Lupi, a Dor e Eu”, pela Continental , que reúne alguns dos maiores sucessos do compositor gaúcho e até algumas canções praticamente desconhecidas do grande público.

O LP considerado um dos melhores do ano pela crítica especializada, deu novo alento à carreira desse mangueirense — puxador oficial do samba-enredo da escola —, carioca de São Cristóvão, mas que hoje mora em Vila Isabel. Realizar o sonho não foi fácil, já que a gravadora queria outra orquestra.

— A Continental protelou bastante a execução desse disco. Para gravá-lo enfrentei as maiores dificuldades. Briguei um bocado para poder trabalhar com a Tabajaras, que não era do elenco. E, mesmo agora, não estou vendo divulgarem o meu LP. Mas, apesar dos obstáculos, estou contente por realizar um sonho antigo — conta.

O sonho foi traduzido em alguns clássicos, como “Esses Moços” e “Volta Castigo”, além de preciosidades como “Ex-Filha de Maria” e “Maria Rosa”. Para Jamelão, ainda não surgiram compositores à altura de Lupicinio, Lúcio Cardin — autor de “Matriz e Filial” — e Cartola.

— Lupi e Lúcio não deixaram herdeiros no gênero fossa. Aliás, os grandes mestres, entre os quais incluo Cartola, não tiveram seguidores na atual safra. O resultado é que uma música toca nas rádios, as pessoas cantarolam por dois ou três meses e depois esquecem. Infelizmente, o panorama artístico está multo fraco, com raríssimas exceções — afirma o cantor.

Uma delas é, segundo Jamelão, o cantor e compositor José Augusto, para quem ele prevê um futuro e sucesso:

— O José Augusto é um bom poeta e, caso se dedique ao estilo dor-de-cotovelo, certamente fará uma carreira brilhante. Porém, de uma maneira geral, falta romantismo nas canções.

Jamelão diz que a falta de romantismo não ocorre apenas na música. As relações amorosas também mudaram bastante, e para pior, na sua opinião.

— Hoje, a moda é o namoro descartável. As vezes, até fico sem graça, porque pergunto pela namorada do sujeito e ele nem se lembra mais de quem se trata. Eu sei que a vida é assim mesmo, mas as transformações foram rápidas demais para a minha cabeça .

Por isso, ficou a nostalgia de dançar de rosto colado, das big-bands americanas, de Nat King Cole e dos grande intérpretes de jazz, além de Ary Barroso, Haroldo Barbosa e Luiz Reis. Tempos de músicas “marcantes”, segundo Jamelão.

— As letras tinham um conteúdo forte e as melodias eram fora de série. Atualmente, faz sucesso a música de “curtição”. O pagode, por exemplo, pode ser o grande estouro do momento, mas não veio para ficar — profetiza.


Recantando Mágoas – Lupi, a Dor e Eu

Jamelão 1987, Continental (1.07.405.358)
DISCO É CULTURA

REPERTÓRIO

Maria Rosa
Lupicínio Rodrigues – Alcides Gonçalves
[ ouça ♫ ]

vocês estão vendo
aquela mulher de cabelos brancos
vestindo farrapos, calçando tamancos
pedindo nas portas pedaço de pão
a conheci quando moça
era um anjo de formosa
seu nome Maria Rosa, seu sobrenome Paixão
os trapos de sua veste não é só necessidade
cada um que ela veste representa uma saudade…
ou de um vestido de baile
ou de um presente talvez
que algum seu apaixonado lhe fez

quis certo dia Maria por a fantasia
de tempos passados
porém sua galeria uns novos apaixonados
esta mulher que outrora a tanta gente encantou
nem um olhar teve agora, nenhum um sorriso encontrou
então dos velhos vestidos
que foram outrora sua predileção
mandou fazer esta capa de recordação
vocês Marias de agora
amem somente uma vez
prá que mais tarde esta capa
não sirva em vocês

Eu e Meu Coração
Lupicínio Rodrigues
[ ouça ♫ ]

quando o coração
tem a mania de mandar na gente
pouco lhe interessa a agonia
que a pessoa sente
eu, por exemplo
sou um desses infelizes
que nem direito tenho tido de pensar
pois meu coração
tem a mania de me governar

eu preciso esquecer a mulher
que me fez tanto mal
tanto mal que me fez
e ele insiste em dizer que lhe quer
e que eu devo lhe procurar outra vez
e por isso vivemos brigando
toda a vida, eu e meu coração
ele dizendo que sim
e eu dizendo que não

Castigo
Lupicínio Rodrigues – Alcides Gonçalves
[ ouça ♫ ]

eu sabia que você um dia
me procuraria em busca de paz
muito remorso, muita saudade
mas afinal
o que é que lhe traz…
a mulher quando é moça e bonita
nunca acredita em poder tropeçar.
quando os espelhos, dão lhes conselhos
é que procuram em quem se agarrar
e você pra mim é uma delas
que no tempo em que eram belas
viam tudo diferente do que é
e agora que não mais encanta
procura imitar a planta
as plantas que morrem de pé
e eu lhe agradeço por mim em ter se lembrado
e entre tanto desgraçados
que em sua vida passou
homem que é homem
faz qual o cedro
que perfuma o machado
que o derrubou

Esses Moços (Pobres Moços)
Lupicínio Rodrigues
[ ouça ♫ ]

esses moços, pobres moços
ah! se soubessem o que eu sei
não amavam, não passavam aquilo que já passei
por meu olhos
por meus sonhos
por meu sangue
tudo enfim
é que eu peço a esses moços
que acreditem em mim…

se eles julgam que há um lindo futuro
só o amor nessa vida conduz
saibam que deixam o céu por ser escuro
e vão ao inferno à procura de luz
eu também tive nos meus belos dias
essa mania e muito custou
pois só as mágoas que trago hoje em dia
e essas rugas o amor me deixou

Cadeira Vazia
Lupicínio Rodrigues – Alcides Gonçalves
[ ouça ♫ ]

entra meu amor, fique à vontade
e diz com sinceridade
o que desejas de mim
entra, podes entrar, a casa é tua
já que cansaste de viver na rua
e os teus sonhos chegaram ao fim…
eu sofri demais quando partiste
passei tantas horas triste
que nem devo lembrar esse dia
mas de uma coisa podes ter certeza
o teu lugar aqui na minha mesa
tua cadeira ainda está vazia…

tu és a filha pródiga que volta
procurando em minha porta o que o mundo não te deu
e faz de conta que eu sou o teu paizinho
que tanto tempo aqui ficou sozinho
a esperar por um carinho teu…
voltaste, estás bem, estou contente
só me encontraste um pouco diferente
vou te falar de todo coração
não te darei carinho nem afeto
mas pra te abrigar
podes ocupar meu teto
pra te alimentar
podes comer meu pão

Pra São João Decidir
Lupicínio Rodrigues
[ ouça ♫ ]

aquele dia
levantei de madrugada
por que a noite passada
eu não consegui dormir
rosinha disse que ia por num papelzinho
o meu nome e o do vizinho
pra São João decidir…
o que ficasse de manhã mais orvalhado
ia ser seu namorado
ia com ela casar
e eu tinha tanta confiança neste santo
que apostei um conto e tanto
que era eu que ia ganhar
sabem o que foi que eu vi
quando rompeu o dia
vi foguete que expodia
busca-pé, bomba-rojão
era o vizinho que já tinha triunfado
festejando entusiasmado o dia de São João…
então de noite foi mais grossa a brincadeira
acendeu-se uma fogueira
todo mundo foi pular
só eu chorando a traição daquele santo
soluçava no meu canto
vendo a lenha se queimar

Volta
Lupicínio Rodrigues
[ ouça ♫ ]

quantas noites não durmo
a rolar-me na cama,
a sentir tanta coisa
que a gente não sabe explicar
quando ama
o calor das cobertas
não me aquece direito
não há força no mundo
que possa afastar
esse frio em meu peito

volta!
vem viver outra vez ao meu lado
eu não posso dormir sem teu braço,
pois meu corpo está acostumado

Ex-Filha de Maria
Lupicínio Rodrigues
[ ouça ♫ ]

da nossa fé ó Virgem,
o brado abençoai
era esta bonita oração
que ela cantava
na hora da missa,
quando ela estava
no coro das vírgens, filhas de Maria,
e com esta canção me embalava
enquanto eu rezava,
pedindo esta graça,
bom Deus, você faça,
com que quem eu amo,
pertença-me um dia.

acontece porém,
que o caminho do bem
é tão longo da gente trilhar,
que esta pobre mulher,
num tropeço qualquer,
desviou-se pra outro lugar

hoje anda em lugares tão feios,
em tão tristes meios, que eu fico a chorar.
pois suponho que Deus nem em sonho,
por alí tencione passar.

mas eu sigo os teus passos,
ofereço meus braços
na ância de dar proteção,
a esta alma coitada,
que vive atirada,
na estrada da desilusão.
e prossigo rezando,
pedindo, implorando,
a Deus, o que a tanto eu espero
se ele não a quer mais,
que me dê, que eu a quero

Rosário de Esperança
Lupicínio Rodrigues
[ ouça ♫ ]

eu fui convidado por alguns amigos
pra ir a uma festa beber e cantar
peguei a viola, afinei a garganta
e até pus a manta, pra me agasalhar
e fiz um convite pra dona alegria
melhor companhia pra festa não há
mas eu não sabia, digo com franqueza
que dona tristeza morava por lá

levei um rosário feito de esperança
pra aquela festança que fui convidado
cheguei satisfeito, alegria no peito
sorriso na boca, viola do lado…
mas vi com surpresa na primeira mesa
sentada com outro a mulher que eu amei
voltei desolado, tristonho, magoado,
viola do lado não bebi, nem cantei.

Nunca
Lupicínio Rodrigues
[ ouça ♫ ]

nunca!
nem que o mundo caia sobre mim
nem se Deus mandar
nem mesmo assim
as passes contigo eu farei
nunca!
quando a gente perde a ilusão
deve sepultar o coração
como eu sepultei

saudade
diga a essa moça, por favor
como foi sincero o meu amor
quanto eu a adorei
tempos atrás
saudade
não esqueça também de dizer
que é você quem me faz adormecer
pra que eu viva em paz


FICHA TÉCNICA — DIREÇÃO GERAL: Wilson Souto Jr. / DIREÇÃO ARTÍSTICA: Jairo Pires / PRODUÇÃO: Marcus Pitter / ARRANJOS E REGÊNCIAS: Severino Araújo / MÚSICOS: Jaime Araújo e Salomão (sax-alto), Vavá e Luiz (sax-tenor), Geraldo Medeiros (sax-baritono), Enedyr Santos, Sobrinho, Maurilio e Wagner (trumpete), Manoel Araújo, Guilherme, Tião e José Rodrigues (trombone), Agostinho Silva (piano), Baygon (baixo), Marcio (guitarra), Plinio Araujo (baterista), Walter, Ronaldo Araújo e Rui Mastop (percussão) / ENGENHEIRO DE SOM: Anibal Felix, Lacyr e Loureiro / ESTÚDIO: Transamérica / CAPA: Toshio H. Yamasaki.

Considerações finais

Espero que você tenha gostado desse post com o álbum de Mestre Jamelão, cantando Lupicínio Rodrigues, no elepê “Recantando Mágoas – Lupi a Dor e Eu” lançado em 1987 pelo selo Continental.

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