Mangueira – Sambas de Terreiro e Outros Sambas

Mangueira - Sambas de Terreiro e Outros Sambas

Projeto do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro com patrocínio da Prefeitura, o livro/CD “Mangueira – Sambas de Terreiro e Outros Sambas” é dividido em dois discos um com 31 faixas e o outro com 26.

Mas a divisão mais clara é entre as gravações antigas, caseiras, feitas entre 1963 e 1969 e recuperadas pelo produtor Hermínio Bello de Carvalho, e as novas, de estúdio, realizadas no ano passado sob a batuta do próprio Hermínio e do diretor musical Paulão. Estas últimas vão da faixa 25 do primeiro disco até a 25 do segundo, além do acompanhamento de estúdio dado a Cartola na faixa final, “Alegria” são belos momentos, revelando sambas nunca antes gravados, mas com alguns baixos entre vários altos. Já as primeiras 24 faixas merecem ser escutadas com ouvidos em riste, olhos marejados e, aos mais ortodoxos, recomenda-se ouvir de joelhos.

Dando a partida num projeto de recuperação do passado das escolas de samba, os discos dedicados à Mangueira saíram no início do ano sem fins comerciais, mas em breve, talvez já em julho, chegarão às lojas. É um documento imperdível. Começa com Cartola acompanhando-se no violão em “Sala de Recepção” e sugerindo que esta música abra o disco que Hermínio sonhava fazer nos anos 60 com os mais belos sambas da Mangueira. Depois vêm cinco faixas em que Cartola canta ao lado do violão de Jacob do Bandolim. É simplesmente sublime. Uma aula de elegância e contenção. Jacob passeia pelas melodias sem floreios, apenas deixando vazar a beleza das músicas, e Cartola batuca com suavidade enquanto desfila “Tive Sim”, “Amor Proibido”, “Vai Amigo” (“diga-lhe que terminou toda aquela vaidade/ e que sinto saudade/ quero amá-la com mais fervor”), “Amanhecer” e “Divina Dama.”

as faixas merecem ser escutadas com ouvidos em riste, olhos marejados e, aos mais ortodoxos, recomenda-se ouvir de joelhos

Marcelo Oliveira

A seguir vem o bloco de Nelson Cavaquinho, atacando um violão preciso e com sua voz rascante mais potente do que a que viria ser conhecida nas gravações dos anos 70. Acompanhado por ninguém menos que Elton Medeiros (coro e caixa de fósforos) e Zé Keti (coro), Nelson canta a clássica “Notícia”, a deliciosa “Nome Sagrado” (“a cobra não morde uma mulher gestante/ porque respeita o seu estado interessante”) e o par “Caridade”/”Cheiro de Vela.”

O fluxo de redescobertas segue apertando a garganta com Preto Rico apresentando seu “Baile das Flores”, Clementina de Jesus entoando “Eu Hei de Te Ver Chorar” e um bloco só de Padeirinho, um dos maiores compositores mangueirenses, hoje praticamente esquecido: ele mesmo canta seus três sambas, sendo que em “O Remorso Me Persegue” Carlos Cachaça prolonga as sílabas finais dos versos lindamente.

O bloco seguinte é do próprio Carlos. Ao lado de Nelson Sargento e Hermínio, ele mostra músicas que fez sozinho, a começar pela mais conhecida, “Lacrimário”, sempre prolongando os “erres” na interpretação, conseguindo conjugar solenidade e informalidade. E é nas suas parcerias com Carlos que Cartola volta a aparecer: novamente ao lado de Jacob na melhor versão que já foi feita de “Tempos Idos”, e sozinho em “Vale do São Francisco”, samba feito para o carnaval de 1948 e que cabe com delicadeza no violão, algo quase impossível nos enredos velocistas dos desfiles de hoje .

Cartola ainda troca idéias com Carlos Cachaça em “Não Me Deixaste Ir ao Samba” (de Carlos e Heitor dos Prazeres) e “Meu Amor Já Foi Embora” (de Cartola e Zé com Fome), divide com Hermínio a solar “Alvorada” (cantando “em Mangueira” em vez de “lá no morro”, no início da letra) e acompanha a voz de pastora da cunhada Menininha (irmã de Zica e mulher de Carlos) na pequena “Eu não Posso Viver na Orgia”. Até aí é tudo tão lindo e emocionante, numa mistura de sofisticação e despojamento que é a marca dos grandes sambistas , que o resto fica ofuscado.

Mas o material está longe de ser fraco. Paulão montou uma cozinha de percussão (Bira Show, Jaguaracy e Ovídio) que levanta a bola de todas as músicas, desde as cantadas por vozes mais contidas como a de José Ramos (autor de “Nasceste de Uma Semente”, “Capital do Samba”) até as que passam pelos dolentes Jurandir (a sua “Minha Companheira” e “Barraco de Mangueira”, de Estudante) e Tantinho (entre outras, a ótima “Boêmio Fracassado”, de Hélio Cabral, num estilo gêmeo ao de Nelson Cavaquinho).

Ainda há outros bons momentos: com Xangô e Comprido entoando “pontos”, Nelson Sargento relendo seu xará Cavaquinho e Geraldo Pereira, e a roda de samba formada para “Naquela Noite de Sereno” (Babaú e Alfredo Português). Marca da escola, também há muitos sambas auto-referentes, que tecem loas à própria Mangueira. Mas não é um trabalho restrito a mangueirenses.

Os discos aceleram o coração de qualquer pessoa que goste de boa música e ainda sublinham a óbvia necessidade de se registrar esses sambas feitos nas quadras das escolas (os chamados sambas de terreiro), que só sobrevivem graças à tradição oral.

Talvez não por acaso, “Mangueira – Sambas de Terreiro e Outros Sambas” encerra com Cartola cantando “alegria, era o que faltava em mim/ uma esperança vaga eu já encontrei”.

Sobre essa obra prima de disco, o jornal O Globo publicou em 12 de fevereiro de 2000, em seu SEGUNDO CADERNO, o texto que transcrevo a seguir, assinado por Hugo Sukman

Tesouro musical da Mangueira vem à luz

Arquivo da Cidade lança CD-livro com 57 registros inéditos de Cartola, Nelson Cavaquinho e companhia

Atenção, gravadoras! Há por aí um tesouro inexplorado que em qualquer lugar civilizado seria motivo para festas, fogos, banquetes, filmes de Wim Wenders, concertos no Carneggie Hall e, sobretudo, disputas acirradas entre executivos. No Brasil, é resultado do esforço de abnegados servidores públicos associados a figuras como o produtor e compositor Hermínio Bello de Carvalho, que, sabedor dos descuidos do país com sua memória, passou a vida manejando sempre que possível um gravador pra registrar vozes e canções que, do contrário, estariam perdidos sempre. Trata-se do majestoso projeto ‘Mangueira — Sambas de Terreiro e Outros Sambas’, um CD-livro duplo com 57 registros inéditos de músicas de ligados à Verde-e-Rosa. Ê o primeiro volume do projeto “Pela Memória do Samba”, realizado pela Prefeitura através do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Os três mil exemplares que serão lançados no dia 17 , na quadra da Escola, ficarão limitados a escolas, pesquisadores e musicais.

Ponto de partida foi o acervo de Hermínio Bello

O público, até alguma gravadora se interessar em fazer a edição comercial (por favor, sejamos cosmopolitas, modernos, globalizados) terá que ir ao Arquivo para ouvir Cartola acompanhado por Jacob do Bandolim, Nelson Cavaquinho em sambas inéditos, escoltado por Elton Medeiros e Zé Keti, ou inéditas de Padeirinho, Geraldo Pereira, José Ramos.

— Foram dois anos de pesquisa, recolhendo as gravações, gravando e entrevistando pessoas da Velha Guarda — diz Vera Mangas, do Departamento Geral de Documentação e Informação, que supervisionou o projeto, coordenado por Lélia Coelho Frota, diretora do Arquivo, e produzido por Hermínio Bello de Carvalho com o apoio decisivo da própria Mangueira, seus dirigentes e integrantes.

O objetivo, diz Lélia no seu texto incluído no CD-livro, era o resgate da história, dos fundamentos de um dos mais extraordinários patrimônios culturais do Rio de Janeiro: o samba de suas Escolas. Mas o ponto não foi o samba-enredo, infelizmente monopólio das escolas no atual contexto, mas o samba de terreiro, ou samba de quadra, que hoje, se não está em extinção, é relegado aos fundos de quintal.

O ponto de partida foram as gravações caseiras feitas por Hermínio sobretudo nos anos 60, a década que viu o ressurgimento de Cartola (praticamente sumido desde anos os 40), a revelação tardia de um Nelson Cavaquinho de uma Clementina de Jesus e o auge da produção musical de clássicos compositores da escola, como Carlos Cachaça, Padeirinho e José Ramos.

O primeiro disco é todo composto por essas gravações, também pinçadas do arquivo sonoro particular do jornalista e pesquisador paulistano Arley Pereira. O segundo disco, com novos arranjos do violonista Paulão (um dos melhores instrumentistas de samba da atualidade, diretor musical da banda de Zeca Pagodinho), traz sambas inéditos de antigos compositores famosos como Geraldo Pereira (“Sofrer É Minha Sentença”, por Nelson Sargento) e Cartola (“Se o Amor É Isso”), e composições de autores e cantores vivos como Comprido, Tantinho, Jurandir e Leléo, só para mostrar, como diria Luiz Carlos da Vila, que “a chama não se apagou”.

A preocupação de Lélia e Hermínio não obedeceu a qualquer fator mercadológico. “Não nos norteou qualquer dos critérios estéticos vigentes no mercado para registrar as obras deste disco; pelo contrário”, escreve Hermínio na apresentação do CD-livro. “Os atuais padrões, regidos por códigos duvidosos, refutariam seu conteúdo. As fitas que pertencem ao nosso arquivo particular e ao de Arley Pereira, incluindo as que foram encontradas no acervo de Jacob do Bandolim, mostram tão somente a preocupação de revelar determinadas obras em seu estado mais bruto, no momento em que nos foram mostradas.

Cartola é acompanhado por Jacob do Bandolim

Nessas “obras em seu estado bruto” estão futuros clássicos de Cartola como “Sala de Recepção”, “Tive Sim”, “Amor Proibido”, “Tempos Idos” e a mais antiga “Divina Dama”, todas com o compositor acompanhado por Jacob do Bandolim em algum barraco da Mangueira, tendo como objetivo a formação do repertório de um (nunca realizado) disco de Aracy de Almeida cantando Cartola. Tem ainda pepitas de Nelson Cavaquinho como “Notícia”, “Nome Sagrado”, “Caridade” e “Cheiro de Vela” com o típico violão galope do autor, a caixa de fósforos de Elton Medeiros e a voz de Zé Keti. Melhor ainda são as músicas menos conhecidas de Padeirinho (em “Modificado”, por exemplo, ele bole com João Gilberto, “não se fala mais no sincopado/ desde que aqui o desafinado teve grande aceitação”), Carlos Cachaça (a beleza de “Lacrimário’ justificaria toda uma obra), Geraldo Pereira, Zagaia e outros confeiteiros de biscoitos finos que ainda não chegaram às massas.


Mangueira – Sambas de Terreiros e Outros Sambas

1999, Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (CRILSM99CD)
DISCO É CULTURA

Ala dos Compositores Mangueira
Em pé (esq/direita): Quedinho, Alfredo Português, Nego, Geraldo da Pedra. José Ramos, Maçú (Marcelino José Claudino), Cartola (Angenor de Oliveira), Carlos Caçhaça (Carlos Moreira de Castro), Zagaia e Alfaiate, Sentados (esq/direita): Aloízio Dias, Edson, Odaléa (Madrinha da Ala dos Compositores), Zeca e Baiano. (fonte: Blog Raymundo de Castro)

REPERTÓRIO

/disco 1

Sala de Recepção
Cartola
Cartola (voz e violão)
[ ouça ♫ ]

habitada por gente simples e tão pobre
que só tem o sol que a todos cobre
como podes, Mangueira, cantar?
pois então saiba que não desejamos mais nada
a noite, a lua prateada
silenciosa, ouve as nossas canções
tem lá no alto um cruzeiro onde fazemos nossas orações
e temos orgulho de ser os primeiros campeões

Tive Sim
Cartola
Cartola (batucada e voz), Jacob do Bandolim (violão)
[ ouça ♫ ]

tive, sim
outro grande amor antes do teu
tive, sim
o que ela sonhava eram os meus sonhos e assim
íamos vivendo em paz
nosso lar, em nosso lar sempre houve alegria
eu vivia tão contente
como contente ao teu lado estou
tive, sim
mas comparar com o teu amor seria o fim
e vou calar
pois não pretendo amor te magoar

Amor Proibido
Cartola
Cartola (batucada e voz), Jacob do Bandolim (violão)
[ ouça ♫ ]

sabes que vou partir
com os olhos rasos d’água
e o coração ferido
quando lembrar de ti
me lembrarei também
deste amor proibido
fácil demais
fui presa
servi de pasto
em tua mesa
mas fique certa que jamais
terás o meu amor
porque não tens pudor

faço tudo para evitar o mal
sou pelo mal perseguido
só o que faltava era essa
fui trair meu grande amigo
mas vou limpar a mente
sei que errei
errei inocente

Vai Amigo
Cartola
Cartola (batucada e voz), Jacob do Bandolim (violão)
[ ouça ♫ ]

vai amigo
e diga-lhe por favor
que não sei o que faço
que já nem sei quem sou
diga-lhe que terminou
toda aquela vaidade
e que sinto saudade
quero amá-la com mais fervor
lembro-me bem
um dia eu lhe disse
uma grande tolice
e nosso lar deixei
todos tem o seu drama
só não sofre quem não ama
pra amenizar meu castigo
só você poderá, amigo

Ao Amanhecer
Cartola
Cartola (batucada e voz), Jacob do Bandolim (violão)
[ ouça ♫ ]

ao amanhecer
ao anoitecer
cantam em bando aves fazendo verão
ouve-se acordes de um violão
e são eles, verdes periquitos
têm o peito forte tal qual o granito
e são lindas as suas canções

quando a tarde vai morrendo
ai, meu Deus
o crepúsculo vem descendo
reúne-se o bando na rua
e cheios de alegria
entoam uma melodia
que faz dançar a própria lua

Divina Dama
Cartola
Cartola (batucada e voz), Jacob do Bandolim (violão)
[ ouça ♫ ]

tudo acabado
e o baile encerrado
atordoado fiquei
eu dancei com você
divina dama
com o coração
queimando em chama

fiquei louco
pasmado por completo
quando me vi tão perto
de quem tenho amizade
na febre da dança
senti tamanha emoção
devorar meu coração
divina dama

quando eu vi
que a festa estava encerrada
e não restava mais nada
de felicidade
vinguei-me nas cordas
da lira de um trovador
condenando o teu amor
divina dama

Notícia
Nelson Cavaquinho – Alcides Caminha – Nourival Bahia
Elton Medeiros (caixa de fósforos), Nelson Cavaquinho (violão e voz)
[ ouça ♫ ]

já sei a notícia que vens me trazer
os seus olhos só faltam dizer
o melhor é eu me convencer
guardei até onde eu pude guardar
o cigarro deixado em meu quarto
é a marca que fumas
confessa a verdade, não deves negar

amigo como eu jamais encontrarás
só desejo que vivas em paz
com aquela que manchou meu nome
vingança, meu amigo, eu não quero vingança
os meus cabelos brancos
me obrigam a perdoar uma criança

Nome Sagrado
Nelson Cavaquinho – José Ribeiro – José Alcides
Nelson Cavaquinho (voz e violão), Élton Medeiros (caixa de fósforo e coro), Zé Keti (coro)
[ ouça ♫ ]

o nome de mulher é tão sagrado
mulher é nome pra ser respeitado
a cobra não morde uma mulher gestante
porque respeita seu estado interessante

minha mãe também tem nome de mulher
tenho que defender
eu choro quando vejo ela sofrer
Deus, Nosso Senhor devia castigar
o infeliz que faz uma mulher chorar

Caridade
Nelson Cavaquinho – Ermínio do Vale

Cheiro à Vela
Nelson Cavaquinho – José Ribeiro

Nelson Cavaquinho (voz e violão), Élton Medeiros (caixa de fósforo e coro), Zé Keti (coro)
[ ouça ♫ ]

não sei negar esmola
a quem implora a caridade
me compadeço sempre de quem tem necessidade
embora algum dia eu receba ingratidão
não deixarei de socorrer a quem pedir um pão
eu nunca soube evitar de praticar o bem
porque eu posso precisar também

sei que a maior herança que eu tenho na vida
é meu coração, amigo dos aflitos
sei que não perco nada em pensar assim
porque amanhã não sei o que será de mim

não sei nada a respeito dela
porque jamais convivi com ela
se ela sai a noite e volta ao amanhecer
a mim não interessa, é o que deves fazer

eu trato todos com muito respeito
assim faz um homem que é direito
vou sair daqui, seu caso cheira a vela
quem está te olhando é o marido dela

Baile das Flores
Preto Rico
Preto Rico (voz e palmas), Cartola (violão), Carlos Cachaça (ao fundo cantando)
[ ouça ♫ ]

me lembro do baile das flores
o jardim era o salão dos amores

o cravo que regia uma orquestra
abrilhantava a festa com suas suaves canções
as rosas, as mais lindas debutantes
que sorrindo a todo instante, conquistavam corações

margarida lá estava tão formosa
bailando com o jasmim
hortências e violetas
espalhavam perfume pelo salão
e causavam ciúme a mal-me-quer e bugarim
outras flores com seu perfil de beleza
o baile foi orgulho da natureza

Eu Hei de te Ver Chorar
Nelson Batatinha
Clementina de Jesus (voz)
[ ouça ♫ ]

eu hei de te ver chorar
como eu chorei sem querer chorar
para reconhecer a dor
que sofre este fiel provador
vou despedir-me da cidade, mas adeus
e adeus para nunca mais amor
eu não quero nem brincando
dizer adeus a ninguém
quem parte, parte chorando
quem fica, saudades tem
minha mãe me botou fora
foi no tempo da miséria
tinha eu quatorze anos
veja que tamanha…

Decepção de Um Autor
Padeirinho
Padeirinho (voz), Nelson Sargento (violão), Élton Medeiros (caixa de fósforo)
[ ouça ♫ ]

desci do morro com meu samba pra cidade
e tive uma grande decepção
no meio da alta sociedade
desfizeram da minha composição
infelizmente quem compõe no morro
não tem direito a gravação
(sem razão)

enquanto o compositor do morro
pede socorro
e não encontra proteção
existem os que vivem no apogeu
as custas de melodias
de autores como eu

O Remorso me Persegue
Padeirinho
Padeirinho (voz), Nelson Sargento (violão), Carlos Cachaça (ao fundo cantando)
[ ouça ♫ ]

hoje o remorso me persegue
esta sombra que me segue
só vem pra me atormentar
naquele dia eu perdi a paciência
mas me dói a consciência
só em vê-la como está
o que ela sofre não merece
até se ela quisesse
vinha se vingar

eu sei que ela deve estar
sofrendo por demais
e isso só me traz
remorso e compaixão
eu vou pedir até
perdão a essa mulher
nem que ela se vingue
da minha humilhação

Modificado
Padeirinho
Padeirinho (voz), Nelson Sargento (violão), Carlos Cachaça (ao fundo cantando)
[ ouça ♫ ]

vejo o samba tão modificado
que também fui obrigado
a fazer modificação
espero que ninguém não me censure
o que eu quero é que todos procurem
ver se eu não tenho razão

já não se fala mais no sincopado
desde quando o desafinado
aqui teve grande aceitação
e até eu também gostei daquilo
modificando o estilo
do meu samba tradição

gosto de um samba ritmado pra sambar
também gosto de um sincopado pra dançar
mas agora tudo é diferente
já não se fala mais naquele samba de ritmo quente

Lacrimário
Carlos Cachaça
Carlos Cachaça (voz), Hermínio Bello de Carvalho (voz), Nelson Sargento (violão e voz solo)
[ ouça ♫ ]

tenho um lacrimário, extraordinário, lindo relicário
que um dia fiz do meu sofrer
fiz de agonia, fiz de nostalgia
parte de um romance, sem acabar o meu viver

quando às vezes quero lembrar sorrindo a minha dor
abro o relicário onde guardei tudo que sofri
e para reler as promessas feitas de um beijo
triste, chorando, revejo o romance que escrevi

guardo tudo, tudo, que se refere ao meu sofrer
são páginas que leio sintetizando a minha dor
e todo o passado dolente, hoje revive
não guardei porque não tive saudade de um falso amor

Pátria Querida
Carlos Cachaça
Carlos Cachaça (voz), Hermínio Bello de Carvalho (voz), Nelson Sargento (violão e voz solo)
[ ouça ♫ ]

eu tenho orgulho em ter nascido aqui no Brasil
a paz que encerra no seio desta terra me obriga a cantar
enquanto eu ouço, um grande alvoroço febril do universo
quero nestes versos, oh pátria querida, teu nome exaltar

pátria querida que dá guarida a um qualquer
a cidade moderna que é seu encanto, prende e seduz
cidade-luz que a natureza caprichosamente
deu-lhe tudo que tinha para ser a rainha soberanamente

quando as florestas ensaiam orquestra de seus passarinhos
em cada galho ninho, nos vem a lembrança, pequenos heróis
que como nós tiveram vontade de venturas mil
de cantarem na história, estrofes e glórias, para o nosso Brasil

Se Algum Dia
Carlos Cachaça
Carlos Cachaça (voz)
[ ouça ♫ ]

se algum dia eu souber que você vai deixar
meu coração, que é todo seu, em busca de outro amor
não serei mais feliz, porque você não quis
depois serei, como fui seu, da minha dor

se a dor depois, por ingratidão, também me deixar
eu hei de chorar, com muita razão, por não ser feliz
e hei de dizer a quem perguntar, prefiro morrer
do que serve viver se a dor que sofria também não me quis

se me perguntarem a causa da dor e de meus queixumes
eu terei ciúmes não responderei, sentindo depois
e mesmo sofrendo a causa da dor guardarei comigo,
em meu peito amigo e pode voltar a paz entre nós dois

Tempos Idos
Cartola – Carlos Cachaça
Cartola (batucada e voz), Jacob do Bandolim (violão)
[ ouça ♫ ]

os tempos idos
nunca esquecidos
trazem saudades ao recordar
é com tristeza que relembro
coisas remotas que não vêm mais
uma escola na Praça Onze
testemunha ocular
e perto dela uma balança
onde os malandros iam sambar

depois, aos poucos, o nosso samba
sem sentirmos se aprimorou
pelos salões da sociedade
sem cerimônias ele entrou
já não pertence mais à praça
já não é mais samba de terreiro
vitorioso ele partiu para o estrangeiro

e muito bem representado
por inspiração de geniais artistas
o nosso samba, humilde samba
foi de conquistas em conquistas
conseguiu penetrar no Municipal
depois de percorrer todo o universo
com a mesma roupagem que saiu daqui
exibiu-se para a Duquesa de Kent no Itamaraty

Vale do São Francisco
Cartola – Carlos Cachaça
Cartola (voz e violão)
[ ouça ♫ ]

não há, neste mundo um cenário
tão rico, tão vário
e com tanto esplendor
nos montes onde jorram as fontes
que quadro sublime
de um santo pintor
pergunta o poeta esquecido
quem fez esta tela
de riquezas mil
responde soberbo o campestre
foi Deus, foi o Mestre
quem fez meu Brasil!
meu Brasil! ô meu Brasil!

e se vires poeta o vale
o vale do rio
em noite invernosa
em noite de estio
como um chão de prata
riquezas estranhas
espraiando belezas
por entre montanhas
que ficam e que passam
em terras tão boas
Pernambuco Sergipe
majestosa Alagoas
e a Bahia lendária
das mil catedrais
a terra do ouro
berço de Tiradentes
que é Minas Gerais

Não me Deixaste Ir ao Samba
Carlos Cachaça
Carlos Cachaça (voz), Cartola (voz e violão)
[ ouça ♫ ]

não me deixastes ir ao samba em Mangueira
e tu saíste, fostes para o candomblé
agora espero que tu me mandes embora
amor tão rude, meu coração não faz fé

eu não te deixo ir ao samba em Mangueira
principalmente lá na casa do Arthurzinho
eu tenho medo que você fiques por lá
porque a tropa toda sabe brincar direitinho

Alvorada
Cartola – Carlos Cachaça – Hermínio Bello de Carvalho
Hermínio Bello de Carvalho (voz), Cartola (voz e violão)
[ ouça ♫ ]

alvorada em Mangueira
que beleza
ninguém chora
não há tristeza
ninguém sente dissabor
o sol colorindo é tão lindo
é tão lindo
e a natureza sorrindo
tingindo, tingindo

você também me lembra a alvorada
quando chega iluminando
meus caminhos tão sem vida
e o que me resta é bem pouco
ou quase nada,
de que ir assim, vagando
numa estrada sem vida

Amar, Amar
Cartola – Maciste
Cartola (voz e violão)
[ ouça ♫ ]

amar, amar
amar para sofrer
hei de te esquecer
teu amor de sentimento
quantos tormentos passei
eu passei

amar, amar
amar para sofrer
e você esquecer
teu amor de sentimento
quantos tormentos passei
eu passei

Meu Amor Já Foi Embora
Cartola – Zé da Zilda
Carlos Cachaça (voz), Cartola (voz e violão)
[ ouça ♫ ]

meu amor já foi embora
eu na tristeza fiquei
e não podemos conter
a dor do meu padecer
foi por isto que eu chorei
uma falsidade é triste
sem a gente merecer
tudo eu posso relevar
mas essa ingratidão
não poderei esquecer

e na hora da partida fiz uma investida
quase implorei para ela ficar
mas para não dar ousadia, que era covardia
aos pés de uma mulher chorar

Eu não Posso Viver na Orgia
Zé Criança
Cartola (violão), Menininha (voz)
[ ouça ♫ ]

eu vou lhe dar a liberdade
teu sorriso é só maldade
e eu não posso viver assim
eu na sua companhia
eu não tenho alegria
eu vou viver,
eu vou viver na orgia

mulher para mim não vale mais
eu procuro a tua vida
e arranjo outro rapaz
criança ingrata não deve fazer assim
mas por pensares que eu sou pobre
só queres zombar de mim

Linda Demanda
Saturnino Gonçalves
Cartola (violão e voz), Dona Neuma (voz), Jaguara da Mangueira (tamborim), Paulão 7 Cordas (violão)
[ ouça ♫ ]

linda demanda
existe no samba
a nossa luta é sem rancor
Mangueira, Oswaldo Cruz, Estácio
amizade, estreitos laços
só por amor

Chega de Demanda
Cartola
Paulão 7 Cordas (cavaquinho, coro e arranjo), Zélia, Hermínio Bello de Carvalho, Jurandir, Soninha da Pedra, Tantinho, Zé Maurício e Zenith (coro)
[ ouça ♫ ]

chega de demanda
chega!
com este time temos que ganhar
somos da Estação Primeira
salve o Morro de Mangueira

Ri
Gradim
Jaguara (surdo), Márcio Almeida (Hulk) (cavaquinho), Paulão 7 Cordas (violão e arranjo), Zélia, Soninha da Pedra e Zenith (coro)
[ ouça ♫ ]

ri, da tristeza que me abraça agora
sorri, pode sorrir
meu coração por você hoje chora

ri, quá quá quá
eu bem sei que chegou o meu fim
pode rir de mim, pode rir de mim

hoje sou eu, amanhã é você
tudo que nasceu morreu
por um motivo qualquer
hoje sou um derrotado, mas não lamento
o meu fardo seja o que Deus quizer

Adeus Mangueira
Zé Espinguela
Dona Neuma (voz), Jaguara (surdo, tamborim e pandeiro), Márcio Almeida (Hulk) (cavaquinho), Paulão 7 Cordas (violão e arranjo)
[ ouça ♫ ]

bem que eu quero expirar
mas existe um porém
sinto a minha memória cansada
essa simples melodia
serve de último adeus
adeus, escola de samba
adeus, Mangueira, adeus!

adeus, escola de samba adeus!
eu vou partir chorando
relembrando os versos meus
que mais cedo ou mais tarde
é triste, é doloroso recordar
a orgia vai se acabar
adeus Mangueira

Castelo Desmoronado
José Ramos
Zé Ramos (voz), Bira Show (pandeiro e tamborim), Carlinhos 7 Cordas (violão 7 cordas), Jaguara (tamborim, caixa, repique e surdo), Márcio Almeida (Hulk) (cavaquinho), Ovídio Brito (cuíca), Paulão 7 Cordas (violão e arranjo)
[ ouça ♫ ]

sim, quer dizer tudo acabado
desmoronaste o meu castelo, do lar
emocionado fiquei
quando em um cabaré te encontrei
sorrindo, cantando
no braço de um rival, bailando

e a orquestra tocava
um samba que eu fiz
e ela dançando com ele
pedia bis

Quem Chegou Foi a Mangueira
Mestre Gato
Comprido (voz), Jaguara (percussão), Márcio Almeida (Hulk) (cavaquinho), Paulão 7 Cordas (violão 7 cordas e arranjos), Zélia, Soninha da Pedra e Zenith (coro)
[ ouça ♫ ]

quem chegou foi a Mangueira
a rainha do Carnaval
eu estou chegando agora
com meu povo tradicional
pode falar de mim quem quiser
eu sou a Mangueira, ainda estou de pé

o meu nome não sai da história
eu sou a velha Mangueira sim
eu sou do tempo de outrora
tem que respeitar meu tamborim
tem que respeitar meu tamborim
(tem sim)

Nasceste de Uma Semente
José Ramos

Quando Ouvi Essa Batida
José Ramos

Zé Ramos (voz), Bira Show (pandeiro e tamborim), Carlinhos 7 Cordas (violão 7 cordas), Jaguara (apito, repique, surdo, tamborim e caixa), Márcio Almeida (Hulk) (cavaquinho), Ovídio Brito (cuíca), Paulão 7 Cordas (violão e arranjo), Zélia, Soninha da Pedra e Zenith (coro)
[ ouça ♫ ]

Mangueira, nasceste de uma semente
à beira de uma nascente
você não pode morrer
Mangueira, onde o sol faz a sombra
onde o poeta faz samba
pro mangueirense viver

quando eu falo em samba
Mangueira, é obra prima
no balanço dos seus galhos
cada folha que cai é uma rima

quando ouvir esta batida
é Mangueira que chegou

a escola que envaidece o artista
a escola que dá diploma ao sambista
a cabrocha mangueirando nas cadeiras
abre ala iaia,
quem chegou foi Mangueira

ô ô ô ô ô
a turma não crê em fracasso
ô ô ô ô ô
Mangueira vai mostrar que ainda é braço

ô abre alas
deixa a Mangueira passar
ô abre alas
eu quero ver balançar

/disco 2

Jequitibá
José Ramos

Capital do Samba
José Ramos

Zé Ramos (voz), Bira Show (pandeiro e tamborim), Carlinhos 7 Cordas (violão 7 cordas), Jaguara (surdo, repique e tamborim), Márcio Almeida (Hulk) (cavaquinho), Ovídio Brito (cuíca), Zélia, Soninha da Pedra e Zenith (coro), Paulão 7 Cordas (arranjo)
[ ouça ♫ ]

madeira de dá em doido é jequitibá
deixa a Mangueira passar

embalança meu bem,
embalança a roseira
embalança cabrocha,
embalança a Mangueira
ô ô ô ô ô ô o jequitibá do samba chegou

Mangueira é uma floresta de sambista,
onde o jequitibá nasceu
veio o fogo queimou, veio o vento tombou
o machado, o jequitibá ficou
ô ô ô ô ô ô o jequitibá do samba chegou

chegou a capital do samba
dando boa noite com alegria
viemos apresentar
o que a Mangueira tem
mocidade, samba e harmonia
nossas baianas com seus colares e guias
até parece que eu estou na Bahia

na Cidade Alta da Mangueira
avisto a Vila tenho saudades de alguém
até parece que eu estou em São Salvador
avistando o que a Bahia tem
é a minha maior alegria
até parece que eu estou na Bahia

Sorriso Falso
Zé Criança

Quem se Muda pra Mangueira
Zé da Zilda

Dona Neuma (voz), Nelson Sargento (voz), Bira Show (tantã e tamborim), Jaguara (ganzá, tamborim, pandeiro e surdo), Márcio Almeida (Hulk) (cavaquinho), Paulão 7 Cordas (violão e arranjo), Zélia, Soninha da Pedra e Zenith (coro)
[ ouça ♫ ]

com esse riso fingido
muito me tens traído
mas eu vou
eu vou te abandonar
em paz eu vou te deixar mulher
nunca vi sorriso falso
iguais esses seus
adeus, adeus, adeus

Mangueira
foste tu sempre a primeira
és a única bandeira
sem orgulho e sem maldade

quem se muda pra Mangueira é verdade
leva a vida cheia de felicidade
quem se muda de Mangueira tem saudade
e voltará ou mais cedo ou mais tarde

Quando Xangô Pegar o Apito
Nelson Sargento – Marreta
Comprido (voz), Nelson Sargento (voz), Bira Show (tamborim e pandeiro), Jaguara (surdo), Paulão 7 Cordas (violão e arranjo)
[ ouça ♫ ]

quando Xangô trilar o apito
peguem firme no cabrito
que o samba vai começar
e você pastora em fileira
com sua voz altaneira
me ajude a cantar
Mangueira que foste o meu berço dourado
galhardamente defenderei teu passado

no cenário do samba
tens a tua tradição
no Carnaval quando desfila
causa grande sensação
por isso me ajude a cantar
e preste bem atenção
quando Xangô apitar
tá legal ou não tá

Cuidado que o Vento Te Leva
Chico Modesto
Xangô (voz), Bira Show (prato e faca), Jaguara (tantã), Paulão 7 Cordas (pandeiro e arranjo)
[ ouça ♫ ]

cuidado que o vento de leva e você vai
cuidado que o vento de leva e você vai

você tá ficando acabada
você tá sumindo
já vieram me contar
que isso tudo é paixão
e você vai acabar
morrendo do coração
vai mal

sentes dores em teu peito
outra eterna saudade
sei que você ainda tem fé
de gozar bem a sua mocidade
samba de partido alto que samba menina de Copacabana
samba uma família rica
filha da Rosa Baiana

Divergência
Jorge Zagaia – Quincas do Cavaco – Xangô da Mangueira

Diretor de Harmonia
Jorge Zagaia

Xangô da Mangueira (voz), Bira Show (tamborim, tantã e pandeiro), Jaguara (tamborim, apito, surdo e ganzá), Márcio Almeida (Hulk) (cavaquinho), Paulão 7 Cordas (violão 7 cordas e arranjo)
[ ouça ♫ ]

eu encontrei no Carnaval que passou
aquela que foi o meu grande amor
como estava bela
fantasiada com as cores da Portela

eu não pude resistir chamei por ela
ela não me quis ouvir
a minha divergência com ela
é que eu sou Mangueira e ela é Portela

sou eu o diretor de harmonia
apito para entrar a bateria
sou eu é quem manda o mestre de sala
apresentar a porta bandeira Maria

se estou errado, me perdoa
eu sou o samba em pessoa
você já pensou
quando a velhice chegar
e eu não puder mais sambar

Eu Quero Nota
Arthurzinho
Nelson Sargento (voz), Dona Neuma (voz), Bira Show (pandeiro, prato e faca, tamborim e tantã), Jaguara (surdo e ganzá), Márcio Almeida (Hulk) (cavaquinho), Paulão 7 Cordas (arranjo)
[ ouça ♫ ]

eu quero é nota, carinho e sossego
para viver descansado
cheio de alegria, meu bem
com uma cabrocha ao meu lado

eu queria ter dinheiro
que fosse em grande porção
eu comprava um automóvel
e ia morar lá no Leblon

eu, como sou operário
e não posso ser barão
vou morar lá em Mangueira
num modesto barracão

todo mundo acha graça
de um pobre vagabundo
se a sorte fosse igual
ninguém ria neste mundo

eu desço de madrugada
enganando a moçada
que vou trabalhar
porém quando a fábrica apita
pego ná marmita
vou me alimentar

Naquela Noite de Sereno
Babaú – Alfredo Português
Nelson Sargento (voz), Comprido (voz), Bira Show (prato e faca), Jaguara (pandeiro e surdo), Márcio Almeida (Hulk) (cavaquinho), Paulão 7 Cordas (violão e arranjo), Zélia, Soninha da Pedra e Zenith (coro)
[ ouça ♫ ]

naquela noite de sereno
quando você veio me avisar
eu julguei que era veneno seu
e não quis acreditar
mas depois quando eu regressei
foi verdade, encontrei
outro em meu lugar

eu desço de madrugada, enganando a moçada que vou trabalhar
porém quando a fábrica apita, pego na marmita, vou me alimentar
acabou-se o meu dinheiro, porém eu não sei explicar quando foi
está cheio Rio de Janeiro, de nego que vive na sombra do boi

dizem que cachaça mata, cachaça não mata ninguém
quem mata é o vinho do porto que jogou o morto debaixo do trem
eu não ando contando vantagem, porém no trabalho sempre é de dia
eu não ensino a minha malandragem, quem dá luz a cego é Santa Luzia

era eu e tu e ela, era ela, e tu e eu
agora nem tu nem ela, nem ela nem tu nem eu
as mulheres de hoje em dia, deixa os filhos andar à beça
depois corre da polícia, pra fazer caso de peça

todo mundo acha graça de um pobre vagabundo
se a sorte fosse igual, ninguém ria neste mundo
jogasse visão pra quem mente também pra quem fala da vida alheia
foi por isso é que pedi a gente igualmente teria que ir pra cadeia

Fiquei sem Esperança
Saturnino
Dona Neuma (voz), Jaguara (percussão), Márcio Almeida (Hulk) (cavaquinho), Paulão 7 Cordas (violão e arranjo)
[ ouça ♫ ]

fiquei sem esperança
minha estrela já não brilha
perdeu todo seu fulgor

só me resta sofrer com paciência
que no meio da existência
meu farol se apagou

Freira Querida
Alfredo Português – Nelson Cavaquinho
Nelson Sargento (voz), Bira Show (tantã), Jaguara (tamborim, pandeiro, surdo e ganzá), Márcio Almeida (Hulk) (cavaquinho), Paulão 7 Cordas (violão e arranjo), Pedro Amorim (bandolim)
[ ouça ♫ ]

morreu a freira mais querida
que durante a sua vida
foi abadessa que mais reinou
vivia sempre a rezar na frente do altar
a Jesus o seu coração entregou
morreu com todos os seus prantos
que nem anjos, nem santos,
nem Cristo a salvou

quem professa a religião
diz a sagrada escritura
hoje poucos se salvarão
porque a matéria não é pura
não se deve errar
ao amor da devoção cristã
se não te podes salvar
para que rezas tanto, irmã?

Deus Onipotente Criador
Cícero dos Santos
Soninha da Pedra (voz), Jaguara (tantã), Paulão 7 Cordas (violão e arranjo)
[ ouça ♫ ]

Deus
onipotente criador
olhai
pra esse pobre sofredor

tem pena
sofrer assim já é demais
sou uma alma
perdida, que não tem
na vida
um minuto de paz

Deus
somente Deus
onipotente criador
é que poderá
aliviar a minha dor
só porque

Se o Amor É Isso
Aloísio Dias – Cartola
Zélia (voz), Jaguara (tamborim, pandeiro, surdo e ganzá), Márcio Almeida (Hulk) (cavaquinho), Ovídio Brito (pandeiro), Paulão 7 Cordas (violão, violão 7 cordas e arranjo)
[ ouça ♫ ]

eu fui infeliz
enquanto quis
dar-te atenção
sei quanto sofri
se desisti
foi com razão
se amor é isso
o que encontrei
nunca mais
eu amarei

a nossa vida era calma
havia paz em minh’alma
mas você foi além da imaginação
brigas e tantos queixumes
e o fantasma do ciúmes
foram a causa crescente da separação

Os Teus Olhos Cansam de Chorar
Nelson Cavaquinho – Alfredo Português
Nelson Sargento (voz), Bira Show (tantã), Márcio Almeida (Hulk) (cavaquinho), Paulão 7 Cordas (violão e arranjo), Pedro Amorim (violão tenor)
[ ouça ♫ ]

os teus olhos cansam de chorar
e me faz admirar
a tuas faces que não tem cor
quem será que te faz penar
querendo assassinar
o teu amor?

se eu te pudesse valer
não te deixava morrer
nos braços de algum sedutor

ilusões jamais terás
no teu triste viver
por certo lhes darás
sentença ao teu sofrer
à dor que te oprime
não terás perdão
se te matares de paixão é crime

Barraco de Mangueira
Estudante
Jurandir (voz), Bira Show (tamborim e tantã), Márcio Almeida (Hulk) (cavaquinho), Ovídio Brito (cuíca), Paulão 7 Cordas (violão e arranjo)
[ ouça ♫ ]

ai, ai, ai meu Deus
tenha dó de mim
não posso mais
viver assim

eu morro num barraco esburacado
nem de verde e rosa ele é pintado
sempre quando chove tem goteira
o meu barraco é o mais pobre de Mangueira

Sofrer É Minha Sentença
Geraldo Pereira
Nelson Sargento (voz e violão), Paulão 7 Cordas (arranjo)
[ ouça ♫ ]

sofrer é a minha sentença
e esta dor
para aliviar só a morte
já procurei a sorte
não encontrei, me conformo
com a sina que Deus me deu
alguém é mais infeliz do que eu

na revolução de trinta
explusaram Washington Luís
deixaram Getúlio Vargas
como chefe do país
as pastoras de Mangueira
todas são inteligentes
cantam o samba com cadência
deixam o versinho pra gente

O Índio
Geraldo da Pedra
Zenith (voz), Márcio Almeida (Hulk) (cavaquinho), Ovídio Brito (cuíca), Paulão 7 Cordas (violão e arranjo)
[ ouça ♫ ]

pensando, escrevi o que veio na minha imaginação
uma tribo de índios, fazendo proclamação
sobre a vida cruel desta nossa nação

verdadeiros patriotas pela mata
era lindo ouvir o seu clamor
demonstrando que tinha eterno amor

povo forte, humilde e varonil
és da terra, é meu Brasil
terra aonde Deus passou
eu sempre direi
que morrerei, com meu amor

Agora Se Arrependeu
Jorge Zagaia – Leléo
Leléo (voz), Bira Show (tantã), Jaguara (surdo e tamborim), Márcio Almeida (Hulk) (cavaquinho), Paulão 7 Cordas (violão e arranjo), Zé da Velha (trombone), Zélia, Soninha da Pedra e Zenith (coro)
[ ouça ♫ ]

agora se arrependeu
é tarde demais
o que você me fez
outra não me faz
eu cansei de lhe aconselhar
ou mesmo lhe avisar
é bom parar
tudo terminou
só me resta saudade
minha flor

francamente foi
essa solução
que deliberou
o meu coração
chora,
você pode chorar
eu não lhe darei perdão

Você Quer Saber
Jabá
Tantinho (voz), Bira Show (pandeiro e tamborim), Jaguara (tamborim e surdo), Márcio Almeida (Hulk) (cavaquinho), Paulão 7 Cordas (violão e arranjo), Zélia, Soninha da Pedra e Zenith (coro)
[ ouça ♫ ]

você quer saber
o que aconteceu
ela foi embora
desapareceu

vivo na estrada dessa vida
com a alma dolorida
sem aquele amor
eu confesso a verdade
eu não merecia
essa falsidade
(você quer saber)

Minha Companheira
Jurandir
Jurandir (voz), Bira Show (tantã), Jaguara (ganzá e tamborim), Márcio Almeida (Hulk) (cavaquinho), Paulão 7 Cordas (violão e arranjo), Zé da Velha (trombone)
[ ouça ♫ ]

minha companheira foi embora
a solidão veio comigo morar
já não tenho mais os lindos sonhos
não há mais ninguém a me esperar
quando me lembro daqueles olhos tristonhos
sinto até vontade de chorar

não me dar mais prazer de contemplar o luar
pelos buracos do teto do meu barracão
que já não é mais palácio encantado
pois estou magoado, ferido no coração

até essa vida que eu tanto amo
sinto que está chegando ao fim
o meu barracão de madeira, lá em Mangueira,
sem ela não é nada para mim

Com Você não Tive Sorte
Leléo – Jabá
Leléo (voz), Bira Show (pandeiro), Carlinhos 7 Cordas (violão 7 cordas), Jaguara (reco-reco, surdo e tamborim), Márcio Almeida (Hulk) (cavaquinho), Paulão 7 Cordas (violão e arranjo)
[ ouça ♫ ]

com você não tive sorte
porque você é de morte
não adianta derramar
não adianta derramar
suas lágrimas fingidas
és um atraso de vida
queres destruir meu lar

vai, deixa livre o meu caminho
juro por Deus nunca mais
lhe darei o meu carinho
mas pra mostrar que sou legal
não lhe desejo o bem
também não lhe quero o mal

Sai da Minha Frente
Jorge Zagaia
Xangô (voz), Comprido (voz), Bira Show (prato e faca), Jaguara (tantã), Zélia, Hermínio Bello de Carvalho, Jurandir, Paulão 7 Cordas, Soninha da Pedra, Tantinho, Zé Maurício e Zenith (coro), Paulão 7 Cordas (arranjo)
[ ouça ♫ ]

Terreiro de Itacuruçá
Padeirinho
Tantinho (voz), Bira Show (tamborim, tantã e pandeiro), Carlinhos 7 Cordas (violão 7 cordas), Jaguara (surdo e reco-reco), Márcio Almeida (Hulk) (cavaquinho), Paulão 7 Cordas (violão e arranjo), Zé da Velha (trombone)
[ ouça ♫ ]

me chamaram compadre
pra ir num terreiro
em Itacuruçá

vai vendo senhor o que eu fui arrumar
mas tem uma coisa eu nunca mais vou lá
em Itacuruçá, andei a noite inteira
levando poeira, foi de amargar
só de madrugada foi que eu cheguei lá
no tal terreiro em Itacuruçá

ao chegar no terreiro
um tal de cambono veio me falar
primeiro o senhor tem que ir no congá
pedir preto velho pra lhe consultar
e dizer saravá
justamente na hora
em que eu estava salvando
a polícia chegou
levou todo mundo
eu fui logo o primeiro
só o macumbeiro
foi quem não entrou
(imagine o senhor)

Boêmio Fracassado
Hélio Cabral
Tantinho (voz), Bira Show (pandeiro e tantã), Carlinhos 7 Cordas (violão 7 cordas), Jaguara (surdo), Márcio Almeida (Hulk) (cavaquinho), Paulão 7 Cordas (violão e arranjo), Pedro Amorim (bandolim)
[ ouça ♫ ]

quero morrer cantando
não quero ver ninguém chorar
sou um boêmio fracassado
canto para me desabafar
fiz esta melodia
para que todos se lembrem de mim
vou fingindo-me contente
sempre sorridente
até chegar meu fim

adeus orgia
adeus madrugada
adeus, companheiros de noitada
ô lua prateada
leve o derradeiro beijo
a minha amada

Vela Acesa
Fandinho
Xangô (voz), Comprido (voz), Bira Show (prato e faca), Jaguara (tantã), Zélia, Hermínio Bello de Carvalho, Jurandir, Paulão 7 Cordas, Soninha da Pedra, Tantinho, Zé Maurício e Zenith (coro), Paulão 7 Cordas (arranjo)
[ ouça ♫ ]

eu procurei
de vela acessa na mão
alguém que fosse
igual a ela
e que tivesse
a mesma opinião
em morar comigo na favela

[…]

Estamos Aí
Comprido – Pelado
Comprido (voz), Bira Show (prato e faca e pandeiro), Jaguara (surdo, ganzá e pandeiro), Márcio Almeida (Hulk) (cavaquinho), Paulão 7 Cordas (violão e arranjo)
[ ouça ♫ ]

não adianta
querer me humilhar
o meu castelo
não vai desmoronar
quem falar de mim
não sabe o que diz
eu sou a Mangueira
e me sinto bem feliz

estamos aí,
estamos aí,
Mangueira tem fortes raízes
não pode cair

com o canto de tua nova geração
incentivo á velha guarda
todos vivem em meu coração
e sabem que a vitória não tarda

Verde Rosa
Mauro Pereira
Tantinho (voz), Carlinhos 7 Cordas (violão 7 cordas), Jaguara (surdo), Márcio Almeida (Hulk) (cavaquinho), Ovídio Brito (cuíca), Paulão 7 Cordas (violão e arranjo)
[ ouça ♫ ]

verde rosa pra mim
vou sambar em Mangueira
verde rosa pra todos nós
pedaço da nossa bandeira
ó Rosa,
venha ver meu samba
em homenagem a Mangueira
terra, de gente bamba

o Carnaval
são só três dias
para a gente brincar
no carnaval
a verde rosa
sempre teve o seu lugar
sem Mangueira
não há Carnaval pra mim
por isso é que eu canto assim

Alegria
Cartola – Gradim
Cartola (voz), Jacob do Bandolim (violão), Pedro Amorim (bandolim), Zélia, Hermínio Bello de Carvalho, Jurandir, Paulão 7 Cordas, Soninha da Pedra, Tantinho, Zé Maurício e Zenith (coro), Paulão 7 Cordas (arranjo)
[ ouça ♫ ]

alegria,
era o que faltava em mim
uma esperança vaga
eu já encontrei
pelos carinhos que me faz
me deixa em paz
não te quero ver
para nunca mais

eu sei
que teus beijos e abraços
tudo isso não passa
de pura hipocrisia
já que tu não és sincera
eu vou te abandonar
um dia


Projeto, Coordenação e condução antropológica de Lélia Coelho Frota (Diretora do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro). Produção Artística de Hermínio Bello de Carvalho. Pesquisa musical de Anésio dos Santos ”Comprido” (Presidente da Ala dos Compositores da Mangueira), José Maurício Horta, Marcos André de Carvalho e Cristiane Cotrim. Direção musical de Paulão.

A primeira parte do CD 1 (Que vai da faixa 1 a 25) foi gravada por Hermínio Bello de Carvalho nos anos 60. A segunda parte do CD 1 (Da faixa 26 a 31) e todo o CD 2, foi gravada em estúdio em 1999.

Resumidamente os músicos que participam do CD: Paulão 7 cordas (regência, arranjos, violão de 6 e 7 cordas e violão de centro), Carlinhos (violão 7 cordas), Márcio (cavaquinho), Jaguaracy (surdo, tamborim, reco-reco, tantã e ganzá), Bira Show (pandeiro, tamborim, prato e faca e tantã), Zé da Velha (trombone), Pedro Amorim (bandolim), Ovídio (cuíca), Hermínio Bello de Carvalho, Paulão, Tantinho, Jurandir, Comprido, Nelson Sargento, Xangô da Mangueira, Zé Maurício, Tia Zélia, Zenith e Soninha da Pedra (coro).

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