Mandingueiro

Moacyr Luz Mandingueiro

O CD “Mandingueiro” de Moacyr Luz tem como referência maior o samba. Elogiado pela crítica, o disco resgata a formação clássica das rodas de samba predominando as dobradinhas: cavaquinho e violão, bandolim e sete cordas, pandeiro, surdo, cuíca e tamborim.


Em seu terceiro álbum, “Mandingueiro”, lançado em 1998 pela Dabliú Discos, Moacyr Luz conquistou rasgados elogios da crítica e trouxe algumas boas parcerias com Nei Lopes e Paulo César Pinheiro. Moacyr Luz divide bem o tempero com o grande poeta letrista, Aldir Blanc, e valoriza o que é brasileiro, mostrando o melhor do samba carioca. O disco tem como referência maior o samba. Elogiado pela crítica, o disco resgata a formação clássica das rodas de samba predominando as dobradinhas: cavaquinho e violão , bandolim e sete cordas, pandeiro, surdo, cuíca e tamborim. No repertório sambas como “Anjo da Velha-Guarda”, “Pra que Pedir Perdão?” e “Cachaça, Árvore e Bandeira”. (site oficial de Moa)

Sobre algumas pérolas contidas no repertório desse CD, umas poucas palavras a seguir.

Moacyr não compõe ele faz uma prece. Fica nítido em suas apresentações sua devoção e respeito ao samba . Suas mãos por muitas vezes se erguem numa posição clara de reverência ao que está sendo realizado. O título — ou seria aposto? — de anjo da guarda foi proposto por Moacyr Luz e Aldir Blanc, no samba “Anjo da Velha-Guarda”. É narrado, o samba, na primeira pessoa. Os homenageados (os mestres das escolas), tão tímidos quanto modestos (mas, com certeza, sabem-se merecedores da homenagem). “o terno branco parece prata”, começam os versos “o terno branco parece prata…

Para ouvir-se a bela música feita por Moacyr Luz e Aldir Blanc, é necessário unção. A homenagem prestada a Carlos Cachaça emociona, na voz arranhada de Moacyr, nos versos de Aldir, que retomam em citações mínimas o universo musical do poeta de Mangueira. Vejam a graça indizível, como diria Vinícius, ao se referir à mulher que volta, da expressão “aurora bordadeira”, que veste o rosa do arvoredo, quando Mangueira acorda.

A música guarda ainda alguns outros achados muito bonitos. O processo metonímico em que Carlos Cachaça é ao mesmo tempo o gênio da raça, a fina flor, o mito da massa, o Embaixador, raiz, tronco, folha sagrada abre a possibilidade de verificar-se a integralidade do retrato do artista e seu alcance mágico e profundo. Deixando de ser identidade, o artista passa a entidade e empunha o que de mais precioso pode ter um país, a herança de seus mestres, de seus sábios, por isso o Sambista passa a ser dança.

No plano do simbólico, ser dança é produzir sentido para além do sentido, sabiam-no já os gregos que tinham sua expressão identitária da representação artística na dança, só que por representação artística entendiam eles a identidade da própria polis, onde o processo de integração de seus habitantes se dava a partir da rítmica que levava o corpo a integrar-se também ao cosmo. A festa dionisíaca é festa da dança, as bacantes dançam insufladas pelo ritmo frenético da música.

Ao transformar-se em dança, do artista afirma-se ser a bandeira possível e desejada que bordará, como diz Aldir Blanc, o céu estrelado de nossa bandeira pela bandeira viva dos mestres-estrela a identificar com a história de seu povo.

Oswaldo Martins


Mandingueiro

Moacyr Luz 1998, Dabliú Discos (DB 0043)
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DISCO É CULTURA

REPERTÓRIO / MÚSICOS

Jogo Rasteiro
Moacyr Luz – Nei Lopes
Carlinhos 7 Cordas (violão 7 cordas), Gordinho (surdo), Moacyr Luz (violão), Pedro Amorim (violão tenor) [ ouça ♫ ]

angoleiro!
mandingueiro!
inzoneiro!
mandingueiro!
é na ginga que o bom mandingueiro (olerê)
vai ganhar devagar, tempero, ioiô!
aprender a jogar rasteiro
e atrasar pra chegar primeiro
é no mar e não lá no estaleiro (olerê)
que se vê o bom saveiro, ioiô!
enfrentando qualquer banzeiro
tempestades ou nevoeiros
o jogo do amor tem dessas manhãs
feito as águas de Inaê
não precisa de grandes façanhas
é saber gingar e ser
maneiro,
mandingueiro
bom saveiro
no banzeiro

Encontros Cariocas
Moacyr Luz – Aldir Blanc
Beto Cazes (ganzá), Carlinhos 7 Cordas (violão 7 cordas), Gordinho (surdo), Moacyr Luz (violão), Pedro Amorim (cavaquinho, bandolim) [ ouça ♫ ]

ai, meu Deus do céu, eu fui feliz
bebendo com você
no bar Luiz
e hoje quem diz
que havia um riso permanente em nossa boca…
louca, a saudade acende as chamas:
revejo o Lamas,
você brejeira, mãos de menina,
pedindo ao Vieira a conta
e nós indo dançar
pra descerrar na Estudantina
o que há na vida da bailarina…

que prazer, com você, ouvir o Noca
na roda dos Encontros Cariocas…
hoje a madruga, anda vazia,
quanto mais a gente enxuga rugas e agonia.
cresce no bar da Dona Maria
a falta que faz a tua companhia
– no Bip Bip te vejo qualquer dia
em São Cristóvão, Monarco é garantia
é o Rio fazendo pra mim a melodia!

Samba de Fato
Moacyr Luz – Paulo Cesar Pinheiro
Beto Cazes (ganzá), Carlinhos 7 Cordas (violão 7 cordas), Gordinho (surdo), Moacyr Luz (violão), Pedro Amorim (cavaquinho), Marcelinho Moreira (repique de mão, tantã), Beto Cazes, Didu Nogueira, Ione Papas, Paulão 7 Cordas (coro) [ ouça ♫ ]

que eu gosto de samba é fato
e um samba de fato eu gosto assim
na faca e no prato
na mão de um mulato
no couro de gato
que faz um bom tamborim
num samba que é bom, meu trato
eu curto um barato até o fim
não tenho recato
arrasto o sapato
na Boca do Mato ou em qualquer botequim
eu chego e no ato
assino o contrato
aonde o samba chamar por mim

quem vai pro samba não tem
perna bamba e pé chato
não vai de gaiato
nem acha ruim…
na galeria do samba
eu já pus me retrato
pro isso sou grato ao Senhor do Bonfim
se houver sindicato
eu me candidato
e cumpro o mandato
ao toque do seu clarim
eu chego e no ato
assino o contrato
aonde o samba chamar por mim

Anjo da Velha-Guarda
Moacyr Luz – Aldir Blanc
Beto Cazes (ganzá), Carlinhos 7 Cordas (violão 7 cordas), Gordinho (surdo), Moacyr Luz (violão), Pedro Amorim (cavaquinho, violão tenor) [ ouça ♫ ]

o terno branco parece prata
e a fita em meu peito diz que eu sou
daqueles que vão pra Maracangalha
rever Anália, eu vou!
no vento que leva o chapéu de palha,
também sou de fibra e de pau-brasil.
o samba é tudo que eu sei
e Momo é o único rei que amei

sou a sétima corda e passo devagarinho
com rodouro no coração,
meu nome em letras de ouro
é parte do tesouro de qualquer agremiação
de cuíca eu manjo,
também vou de banjo,
fiz das avenidas meu salão…
fidalguia esbanjo
e danço com meu anjo:
eu sou da Velha Guarda, meu irmão!

Não Deves Sorrir Assim pra Mim
Roberto Martins
Beto Cazes (ganzá), Carlinhos 7 Cordas (violão 7 cordas), Gordinho (surdo), Marcelinho Moreira (repique de mão, tantã), Pedro Amorim (cavaquinho, bandolim), Moacyr Luz (violão) [ ouça ♫ ]

não deves sorrir assim pra mim
as vezes do riso começa um romance
amando vamos penar
estamos tão bem assim
pra não trocarmos de mal
não deves sorrir pra mim

o riso foi a imagem da alegria
e que deixou a nostalgia
no meu coração
o meu primeiro amor também sorriu assim pra mim
e me deixou chorando por fim

o teu olhar também é provocante
e é outro agravante
para uma paixão
olhares e sorrisos são sementes dos amores
para depois trazer dissabores

Gotas de Samba
Moacyr Luz – Aldir Blanc
Beto Cazes (ganzá), Carlinhos 7 Cordas (violão 7 cordas), Gordinho (surdo), Moacyr Luz (violão) [ ouça ♫ ]

ouço dizer que o futuro a Deus pertence, eu sei lá!
sem você, futuro serve pra quê?
a não ser pra olhar pra trás e rever
que houve um tempo em que eu pensava:
a esperança é a última que morre
e Oxalá
os teus olhos dêem luz pra os meus
empréstimo feito a Deus

sei que quem casa quer casa,
o inocente anda nu,
muita pressa atrasa,
o apressado como cru,
quem cuspir pro alto recebe na cara,
se o assunto é onça,
faz melhor quem mede a vara…

nem tanto ao mar…
peixe morre pela boca,
ai, não jura!
samba é sangue em gota
na pedra dura:
não pensando em ficar, perdura

Choro das Ondas
Moacyr Luz – Aldir Blanc
Beto Cazes (ganzá), Carlinhos 7 Cordas (violão 7 cordas), Gordinho (surdo), Moacyr Luz (violão), Pedro Amorim (bandolim) [ ouça ♫ ]

do teu corpo, saciado
debruçado sobre mim
brotam risos estrelados
iguais ao som de um bandolim
entre as pernas, em teus pelos
um licor de flamboyant
faz tua ilha Paquetá de manhã
cai a chuva nos cabelos
e há lampejos e trovões no ar…
mais um beijo e o arco-iris
tinge o seu olhar
nadam cardumes e peixes
nos pingos do teu suor,
voam flamingos nas redes das mãos
e os seios ao sol.
divindades sacrificam
dentro dos olhos ateus
e ondas brancas tingem lenços de adeus.
e o teu corpo saciado
deixa o meu de lado e vai dormir
e o meu corpo desvairado
não se conforma em ver partir
quem me ensinou
a não se despedir

Pra que Pedir Perdão?
Moacyr Luz – Aldir Blanc
voz: ALDIR BLANC
Carlinhos 7 Cordas (violão 7 cordas), Gordinho (surdo), Marcelinho Moreira (repique de mão, tantã), Moacyr Luz (violão), Pedro Amorim (cavaquinho) [ ouça ♫ ]

se é pra recordar dessa maneira
sempre causando desprazer,
jogando fora a vida em mais uma bebedeira,
ó, sinceramente, é preferível me esquecer
eu te prometi mundos e fundos
mas não queria te magoar
eu não resisto aos botequins mais vagabundos
mas não pretendia te envergonhar
marquei bobeira…

vi muitas vezes o destino
ir na direção errada
e a bondade virar completo desatino,
a carícia se transformando em bofetada
eu sou rolimã numa ladeira
não tenho o vício da ilusão:
hoje eu vejo as coisas como são
e estrela é só um incêndio na solidäo
se eu feri teu sonho em pleno vôo,
pra que pedir perdão se eu não me perdôo?

Mandingueiro
Moacyr Luz – Aldir Blanc
Carlinhos 7 Cordas (violão 7 cordas), Moacyr Luz (violão) [ ouça ♫ ]

num samba assim mandingueiro
é que eu divido bem o tempero
e é bom dosar o ingrediente:
um dente, sal menos louro,
eu não entrego o ouro e é olé
no gringo
brincar com eu brinco
é armar um rolo,
aí meto o couro pra valorizar
o que é brasileiro
porque só quem gira a pé no morro
sabe o que eu corro por aí
pra essa peteca não cair

canto qualquer parada
mando: não tem errada
porque só quem gira a pé no morro
sabe o que eu corro por aí
pra essa peteca não cair
meu samba não vai cascatear,
eu digo então tá e dou o plá!
quer ver esse molho desandar?
põe muito louro e blá-blá-blá…

Chupa Cabra com Ketchup
Moacyr Luz – Aldir Blanc
Carlinhos 7 Cordas (violão 7 cordas), Gordinho (surdo), Marcelinho Moreira (repique de mão, tantã), Moacyr Luz (violão), Ovídio Brito (cuíca), Pedro Amorim (cavaquinho) [ ouça ♫ ]

veio com mancha roxa no pescoço
essa eu não segurei, já não sou moço.
de justificativa, uma mentira das braba:
que não vacilou, que o autor foi o tal chupa-cabra
eu perdi a razão, saí da linha,
já não tô pra pegar balão…
nem vem de galinha frita:
isso é pra sócio do Pita
dá o fora, não sou nenhum bagulhão

ela fez um chamego e disse: negô,
você não vive sem meu bobó,
sem meu xinxim, sem meu quindim,
olha pra mim, não fica assim,
quem vai saber qui-ti-dendê
salpica o pirão que eu te faço
apaguei o cigarro e disse, inteiro:
a muqueca tu vai levar!
esse lero de tempêro já desandou, popará!
jejum de chifre é melhor que se empaturrar
pega o chupa-cabra e enfia onde tu acha que dá:
não põe ketchup no meu vatapá!

O Tocador É Bom
Moacyr Luz – Aldir Blanc
Carlinhos 7 Cordas (violão 7 cordas), Marcelinho Moreira (tantã), Beto Cazes (ganzá), Moacyr Luz (violão), Pedro Amorim (violão tenor, cavaquinho) [ ouça ♫ ]

bate na caixa
bate no tambor
Santa Cecília protege o tocador

a gente cria
na mão vazia
morria se não fosse tocador

um bêbado de botequim tocando
o tamborim num cinzeiro de barro
não dá pra parar o som
é um toma lá da cá
samba que o baião vai dar
que o tocador é bom

o batuque do sapato no chão brilhando
o pente fino no papel do cigarro
é música fazendo o som
pega a frigideira lá
faz a faca assoviar
samba que o baião vai dar
que o tocador é bom
cuíca na gamela dá
areia na garrafa dá
samba que agora dá
que o tocador é bom

Cachaça, Árvore e Bandeira
Moacyr Luz – Aldir Blanc
Beto Cazes (ganzá), Carlinhos 7 Cordas (violão 7 cordas), Marcelinho Moreira (repique de mão, tantã), Moacyr Luz (violão), Ovídio Brito (cuíca), Pedro Amorim (cavaquinho), Beto Cazes, Didu Nogueira, Ione Papas, Paulão 7 Cordas (coro) [ ouça ♫ ]

gênio da raça:
Carlos Cachaça
dos Arengueiros, a fina flor.
mito da massa,
Carlos da Cachaça
da verde-rosa, o embaixador.
o tempo passa
na corredeira…
Carlos Cachaça bebeu Mangueira.
raiz e tronco,
folha sagrada onde o morro
reescreve a história do seu povo
mas essa é verdadeira!
são os tambores
que narram a lenda guerreira
no quilombo da Estação Primeira!
Mangueira

e é tão bonito
ver um sambista transformar-se em dança
de ramos verdes onde o vento e a sombra
transmitem aos filhos sua herança.
quando o arvoredo amanhece
vestindo o rosa da aurora bordadeira
cada estrela troca o céu
pela bandeira da Mangueira.


FICHA TÉCNICA — PROJETO: José Carlos Costa Netto / PRODUÇÃO: Moacyr Luz / PRODUÇÃO EXECUTIVA: Zé Luiz Soares / ARRANJOS: Moacyr Luz / TÉCNICO DE GRAVAÇÃO: Nilo Sérgio / GRAVAÇÃO: Gravado nos dias 12, 13, 14, e 2 de janeiro no Estúdio Hora – Lapa, Rio / FOTOGRAFIA: Dirce Satiko Ito / CAPA: Ricardo Amaral.

Considerações finais

Espero que você tenha gostado desse post com o álbum de “Mandingueiro” de Moacyr Luz, lançado em 1988 pelo selo Dabliú Discos.

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