Monarco (1976)

Monarco 1976 Continental

Hildemar Diniz, o Monarco, disse ao mundo a que veio muito antes de gravar este que é o seu primeiro disco, de 1976. Mas estreia é estreia — e esta aqui é invulgar. Em 12 faixas, brilham o compositor sofisticado e o intérprete extraordinário, figura mítica em sua amada Portela e no mundo do samba. Tudo neste “Monarco”, da capa aos arranjos, funciona em perfeita harmonia, não sendo exagero qualificá-lo como perfeito.

O apelido de “Monarco” vem desde os seus seis anos de idade e quando aos onze começou a sair com o bloco Primavera, de Oswaldo Cruz, ele já era assim conhecido nos arredores da Bica do Inglês, atrás do botequim do Seu Nôzinho, irmão de Natalino, ambos figuras importantes na Escola de Samba da Portela.

Aos doze a Portela desfilava no Praça Onze e o garoto Monarco descia com a Escola, “puxando corda”. Mas foi aos 15 que Monarco já na Ala dos Amigos Ursos fez seu primeiro samba, que orgulhosamente mostrou para João da Gente, que passou o cantar a composição de Monarco nos ensaios no terreiro. Um belo dia Natal ouviu João da Gente e perguntou:

— De quem é este samba, João?

João apontou para Monarco, que tremendo se acercou de Natal e foi apresentado. Desse dia em diante Monarco passou a sair na ala dos compositores, recém-criada por Natal. Esse samba, que abriu as portas da mais cobiçada ala da Portela ao garoto Monarco, chamava-se “Retumbante Vitória”, e louvava a vitória da Portela na Praça Onze no Carnaval do ano anterior. Animado com o incentivo de Natal e de todo o pessoal da Velha Guarda da Portela, Monarco compôs “Amor de Malandro”, que veio a ser um grande sucesso no terreiro da Escola.

Dai em diante, Monarco começou o ser um integrante efetivo da ala dos compositores sendo prestigiado por parceiros famosos como Francisco Santana, Miginha, Hortêncio Rocha, Manacé, Alvaiade e Alcides. Veio então a primeira gravação: “Vida de Rainha”, de parceria com Alvaiade, por Risadinha, na Continental, em 1956.

Até 1967 Monarco integrou e contribuiu com seu talento para sua querida Portela, (fazendo sambas de terreiro e participando das disputas dos sambas-de-enredo) quando o seu samba-de-enredo “Tiradentes”, foi retirado arbitrariamente da competição por um diretor da Portela.

Magoado e triste Monarco aceitou um convite de Norato Mota, fundador da Escola de Jacarézinho e ingressou naquela escola, estreando com o pé direito com o samba-de-enredo “Exaltação a Frei Caneca” com o qual a Unidos de Jacarézinho venceu o desfile do 3.° grupo, na Praça Onze, subindo para o segundo grupo.

Monarco, não é apenas um dos maiores sambistas cariocas contemporâneos. É também um arquivo do samba de Oswaldo Cruz.

Juarez Barroso

Foi novamente com outro samba de Monarco que o Jacarézinho subiu para o 1.° grupo, em 1969. “Vila Rica do Pilar” era o tema do samba, que foi também o último que Monarco fez para a Unidos do Jacarézinho, pois, Natal foi buscá-lo de volta para sua querida Portela, onde até hoje, pontifica como um dos mais respeitados compositores.

Há muito ainda que dizer e escrever sobre Monarco, mas quanto ao que me cabe, quero esclarecer, que ao produzir este primeiro LP deste importante compositor a Continental está preenchendo uma lacuna na fonografia brasileira e especialmente na MPB.

Romeu Nunes
contracapa

Em torno da cabine de som do “Portelão”, vigiando todo o espaço, alertando a escola contra perigosos desvios, estão retratados, os grandes sacerdotes do samba de Oswaldo Cruz: Paulo, Ventura, Lonato, Manacéia, Mijinha, Chico Santana. Na galeria , o retrato de um que teria idade de ser filho de qualquer um dos demais. É o retrato de Monarco, civilmente Hildemar Diniz, 40 e poucos anos, carioca, nascido em Cavalcanti, criado em Oswaldo Cruz, ex-contínuo de repartição, ex-feirante, ex-guardador de carros. Merecido privilégio por parte de quem, desde os primeiros anos de sambista, na adolescência, soube compreender que a chave do samba (não a chave do sucesso, simplesmente) estava ali, de posse daqueles que seriam mais tarde identificados como a Velha Guarda da Portela.

Reunido, por escolha pessoal, aos patriarcas, só deles receberia influência para desenvolver um estilo próprio , de preciosas modulações melódicas preparando terreno para resoluções poéticas singelas e sinceras como “Com tua ausência quase morro de saudade” ou requintadas como “Mas matéria de amor, eu conheço na palma da mão. Sei que essa tal de saudade tortura demais meu pobre coração”.

Junto ao pessoal da escolas, o nome de Monarco tem mais de 20 anos de tradição. Para o público, seu nome surge a primeira vez em 1957, num LP da Portela, assinando junto com Chico Santana, o samba “O Lenço”, mais tarde regravado por Paulinho da Viola. A partir da gravação de “Tudo menos Amor” (com Walter Rosa), por Martinho da Vila, sua carreira não é difícil de acompanhar, nas vozes de Clara Nunes, Beth Carvalho, Roberto Ribeiro, Maria Creusa.

Monarco, não é apenas um dos maiores sambistas cariocas contemporâneos. É também um arquivo do samba de Oswaldo Cruz , divulgando, procurando ajudar artisticamente seus companheiros mais velhos.

Compadre Monarco, isto eu já te disse muitas vezes e repito: sem desfazer de ninguém, quem sabe cantar teus sambas é você mesmo, com este registro de voz amplo, áspero, ágil, de extrovertido lamento. Vai em frente, compadre. Se não confeitarem tua voz com clarinadas, violinadas e gastas dissonâncias violonísticas (espero que isto não aconteça), o pessoal vai sentir o que é samba.

Um abraço do amigo
Juarez Barroso


Atravessando um momento em que a música brasileira se volta para suas origens, procurando uma saída para o impasse em que se encontra. É a volta ao samba tradicional, autêntico, nascido no meio do povo para divertir o povo . E o samba cresce, entra nas paradas de sucesso, vira moda, é consumido por todas as classes sociais. E no que vira moda, no que é consumido, muita coisa ruim aflora, muita concessão é feita, muito gato passa por lebre e muito mistificador, falsificador da autenticidade faz sucesso. Mas a pedra perfeita, o autêntico, o realmente bom não se mistura, não se corrompe e acaba por prevalecer. Simples, autêntico, poeta, alma sensível, bom entre os bons, portelense ilustre (e viva nossa Portela), que há mais tempo merecia um disco, aqui está essa maravilhosa figura de ser humano: Monarco.

Carlos Lemos


Se outro mérito não tivesse o fato do samba ter entrado em moda, bastaria esse: os melhores e mais puros compositores estão finalmente encontrados a sua oportunidade de terem os seus discos. Para falar a verdade, parece um sonho ouvir num disco a voz e os sambas desse magnífico Monarco, honra e glória da Portela.

Durante muitos anos Monarco tem dado a sua contribuição ao samba carioca com talento e dignidade. E obteve uma posição curiosa: ao mesmo tempo em que era um dos compositores de maior prestígio entre os “iniciados” do mundo do samba, permanecia inteiramente desconhecido do consumo. Suas músicas não apareciam nos discos e ele próprio se apresentava muito pouco em público. Só depois que os chamados veículos de comunicação descobriram que a nossa mais expressiva música popular também poderia entrar nas paradas de sucesso é que Monarco começa a ter vez.

E como teve vez! Não há um disco de grande sambista lançado nos últimos quatro anos que não tenha um samba de Monarco. Com isso, ele provou ao consumo que é um dos nossos maiores criadores. Agora, com este LP, vamos ouvi-lo em viva voz. O samba na voz do sambista. A poesia na interpretação do poeta. Parece um sonho .

Sérgio Cabral


Meu caro Monarco. Antes que nada quero me desculpar pelo atraso. Atraso que tem suas justificativas na falta de tempo, mas principalmente no desejo de fazer uma capa de acordo a teus merecimentos e a nossa velha amizade. Cá está ela até que em fim. Procurei o espírito dos nossos pagodes improvisados na nossa querida Portela, hoje na Tia Vicentina como antigamente no bar do Nôzinho, ou em qualquer outro cantinho de Madureira e Oswaldo Cruz, onde tivesse uma mesa e umas Brahmas… ou aquela maravilhosa champanha São Jorge (lembra?)

LAN

textos: contracapa


Transcrevo a seguir um texto assinado por João Máximo no jornal O Globo em 25 de janeiro de 2011. O texto aborda o disco chamado de “Histórico” pelo Instituo Moreira Salles.

Viva voz

Passando giz no taco, Villa-Lobos se chega para ouvir Monarco cantar samba da Portela. Na mesma ABI, onde o sambista trabalha como entregador de correspondência, o elevador se abre e dois figurões o surpreendem a ensaiar uns passos. O primeiro é ninguém menos que Harry Truman, presidente dos Estados Unidos. O outro, Herbert Moses, presidente da casa, que gosta menos de samba que Villa-Lobos e demite seu funcionário tamanha ousadia.

A impressão que se tem — diante desse admirável compositor em cuja voz está a própria identidade da chamada música de raiz — é de que todas as suas histórias, e elas são muitas, começam ou acabam em samba. Uma delas, a de seu primeiro LP, lançado em 1976, será lembrada por ele (acompanhado por Paulão no sete cordas, Mauro Diniz no cavaquinho e Felipe de Angola na percussão) esta noite, às 20h, no Instituto Moreira Sales, dentro da série em que bambas cantam e contam a íntegra de discos históricos, que começou com “A Arte Negra de Wilson Moreira e Nei Lopes“, em outubro.

Histórico e tardio. Monarco já tinha 43 anos e uma impressionante carreira de compositor quando sua voz, única, chegou ao disco em 12 composições suas. O menino de Cavalcante, nascido Hildemar Diniz, que compôs aos 7 anos seu primeiro samba (“a Liga da Defesa Nacional/ vai contratar o crioulinho Sabá,/ para cantar no Rio Grande do Sul/ vai contratar Monarco e Luís/ e a garotada vai pedir bis”), acredita dever o gosto pelas rimas à herança paterna, José Felipe Diniz tendo versos publicados nas páginas da revista “Jornal das Moças”.

— Meu pai era um comunista de Ubá, zangado com quase tudo. Meu irmão mais velho herdou dele as ideias, a queda pela política. O do meio, as ferramentas de marceneiro. E eu, uma coleção de suas poesias — conta Monarco.

Em 1947, com a separação dos pais, Monarco mudou-se com a mãe para Osvaldo Cruz. Logo se aproximou do samba , embora como mero puxador das cordas que, na época, separavam a escola do público.

— Garoto ainda, sem dinheiro para a fantasia, era nas cordas que eu desfilava — lembra.

A escola, claro, era a Portela. Monarco lamenta ter chegado lá quando o célebre Paulo da Portela já tinha ido para a Lira do Amor, de Bento Ribeiro:

— Paulo veio de São Paulo, com Heitor dos Prazeres e Cartola, e foi direto para o desfile da Portela. Manuel Bambambã, veja só, barrou os três. Quem perdeu foi a escola.

Monarco conhecia Paulo da Portela à distância, de vê-lo atuando em circo, andando pela Central, aqui e ali. Mas, de samba conhecia-o bem: “começou a aula perante a comissão/ muita atenção/ quero ver se diplomá-los posso.”

As primeiras tentativas de Monarco como compositor resultaram no que ele mesmo chama de “boi com abóbora”. Mas, em 1952, acertou em cheio com “Retumbante Vitória”, que João Nogueira gravaria com outro título: “Passado da Portela”. É o que considera seu primeiro samba “pra valer”. Vê-lo e ouvi-lo nas vozes das pastoras que o cantaram na Praça 11 é emoção que não esquece. Mas o compositor estava apenas começando.

Seu convívio com Alcides Malandro Histórico foi fundamental em sua formação de sambista, sobretudo pela cultura que lhe foi passada em termos de Portela e do samba em geral. Andavam juntos, Alcides contando histórias e lembrando sambas antigos, Monarco ouvindo e registrando.

— Foi com Alcides que aprendi muito sobre sambistas como Paulo, Brancura, Gradim, o que levou o Jamelão para a Mangueira — diz Monarco. — Tinha uma memória incrível. Foi ele quem ensinou à gente que “Sai pra Lá Brocoió” não é do Paulo da Portela, como todo mundo pensava mas de um certo Zé Cachacinha.

Memória em que Monarco nada deve a Alcides. É capaz de cantar, sem omitir uma nota, sambas históricos do Estácio, da Mangueira, de Vila Isabel e, é claro, da Portela. Às vezes, permitindo-se partir de uma primeira parte de Paulo da Portela para acrescentar uma segunda que resultou no samba “O Quitandeiro”, que abre o primeiro LP. Sambas que, se ele só foi gravar aos 43 anos, não há grande intérprete que não os tenha acrescentado ao seu repertório: Martinho da Vila (na voz de quem seu “Tudo menos Amor”, em 1973, já o consagrava), Roberto Ribeiro, Clara Nunes, João Nogueira, Cristina Buarque, Zeca Pagodinho, Paulinho da Viola. Aos quais se juntou, mais recentemente, a Maria Rita de “Coração em Desalinho”.

A Velha Guarda da Portela faz parte da história de Monarco. Embora ele não goste de tocar no assunto, para que não o interpretem mal, o grupo já não é o mesmo. Anda em atividade, mas “muito desfalcado”. Como não é a mesma a atual ala dos compositores, a maioria mais preocupada com o dinheiro que pode vir do próximo samba-enredo do que com os sambas de terreiro. Até a tradicional feijoada do primeiro sábado do mês perdeu o caráter espontâneo e autêntico para se institucionalizar como assunto de diretoria.

— Os ensaios? Uma chatice — lamenta.

Quando, em 1975, foi relançado o LP “Portela, Passado de Glória”, com a Velha Guarda produzida por Paulinho da Viola, este renegou a reedição. Na capa, onde antes estava Paulo da Portela, aparecia agora o lendário Natal, presidente de honra da escola, falecido pouco antes.

— Nada contra o seu Natal — explica Monarco, para quem o famoso sambista e bicheiro era uma espécie de pai para toda nação portelense.

Monarco recorda Natal como um homem zeloso de sua escola e muito competitivo em relação às demais. No carnaval de 1967, em que Monarco fez samba para a Jacarezinho, campeã do segundo grupo, Natal não gostou. Deu-lhe os parabéns com cara amarrada e resumiu tudo numa frase: “Pros outros você faz samba, pra nós… só merda.”

O que não é verdade. O disco de estreia é apenas a primeira das muitas provas que Monarco dá de que jamais fez algo menos bom. É trabalho para ele e os curtidores recordarem. Dos tempos em que era guardador de carro no “Jornal do Brasil”, do Juarez Barosso que o incentivou, do Lan que fez a capa, do maestro Zé Menezes que caprichou para que o disco não tivesse o menor sotaque de bossa nova e do dia em que o samba carioca ficou mais rico ao descobrir a voz de Monarco.


Monarco

1976, Continental (1-07-405-088) | discogs
DISCO É CULTURA

Monarco
Monarco: “A Portela é minha vida, meu amor, minha luz” (foto: Ana Branco / O Globo)

REPERTÓRIO

O Quitandeiro
Paulo da Portela – Monarco
part.esp.: VELHA GUARDA DA PORTELA
Dino 7 Cordas (violão 7 cordas), Luizão Maia (baixo), Wilson das Neves (bateria), Doutor, Elizeu, Gordinho, Luna e Marçal (ritmo), Zé Menezes (arranjo)
[ ouça ♫ ]

No tempo de Paulo da Portela, os sambas nascidos nos subúrbios e nas favelas só tinham a primeira parte. Era, segundo Noel Rosa, “um samba feito nas regras de arte/ sem introdução e sem segunda parte” e que “só tem estribilho” e “exprime dois terços do Rio de Janeiro”. “O Quitandeiro” era assim. Monarco se encarregou de atualizá-lo, criando uma segunda parte, mas abrindo mão dos direitos autorais em benefício dos herdeiros de Paulo da Portela.

quitandeiro,
leva cheiro e tomate
na casa do Chocolate
que hoje vai ter macarrão
prepara a barriga macacada
que a boia tá enfezada
e o pagode fica bom
chega, só 30 litros de uca
para fechar a butuca
desses negos beberrão
Chocolate, tu avisa a crioula
que carregue na cebola
e no queijo parmesão

mas não se esqueça
de avisar a nêga Estela
que o pessoal da Portela
vai cantar partido alto
vai ter pagode até o dia amanhecer
e os versos de improviso
serão em homenagem à você

Ingratidão
Monarco – José Mauro
Abel Ferreira (saxofone), Dino 7 Cordas (violão 7 cordas), Jorginho (flauta), Wilson das Neves (bateria), Zé Menezes (arranjo, bandolim), Luizão Maia (baixo), Doutor, Elizeu, Gordinho, Luna e Marçal (ritmo)
[ ouça ♫ ]

Em 99% das letras dos sambas, desde a década de 1920, a mulher é a culpada pelo fracasso dos casos de amor. Afinal, 99% dos autores dos sambas são homens. Num país machista, não se poderia esperar outra coisa das letras do nosso samba

é bom
que todos saibam
que você foi quem errou
e sem razão um dia
até de mim você fugiu
agora diz a todos
que fui quem lhe enganei
mentira, todos sabem
foi você quem me traiu
agora
anda pelo mundo afora
dizendo pra tanta gente
que fui eu quem lhe mandei embora
mentira
eu não fiz contigo esta ingratidão
o que eu não posso agora
é lhe dar o meu perdão

a vizinhança toda já testemunhou
pois foi você quem me traiu
e sem razão me enganou
nosso matrimônio
ainda era recente
seu nome já andava
na boca dessa gente
hoje chora e pede o meu perdão
mas eu não vou
contrariar meu coração
é bom

Desengano
Aniceto
* Homenagem de Monarco ao mais antigo compositor da Portela
Abel Ferreira (clarineta), Dino 7 Cordas (violão 7 cordas), Luizão Maia (baixo), Doutor, Elizeu, Gordinho, Luna e Marçal (ritmo), Zé Menezes (arranjo)
[ ouça ♫ ]

Três irmãos, excelentes compositores da Portela, são os autores de alguns dos melhores sambas da escola: Aniceto, Mijinha e Manacéa, todos, infelizmente, já falecidos. Aniceto, autor de “Desengano”, era o mais velho (nasceu no dia 12 de agosto de 1912 e morreu em 1982). “Desengano” é um dos sambas mais cantados por Monarco e pela própria Velha Guarda da Portela

um desengano dói
a minha alma tanto sente
uma dor pungente
que invadiu meu coração
depois de ser
tão benevolente
deste-me o desprezo
em vez de gratidão
mas nem sequer recompensaste a regalia
que gozaste em minha companhia

tanto procurei te agradar
porém em vão
me abandonaste
sem qualquer satisfação
hoje vivo assim
a lamentar a minha sorte
talvez só me esquecerei
com a morte

Amor Verdadeiro
Monarco
Dino 7 Cordas (violão 7 cordas), Wilson das Neves (bateria), Doutor, Elizeu, Gordinho, Luna e Marçal (ritmo), Zé Menezes (arranjo)
[ ouça ♫ ]

O sambista está feliz (“tenho alguém pra me adorar”, “um modelo de ternura”) com o novo amor, também “um modelo de senhora”, mas não deixa de espinafrar o antigo, “o germe que vivia” em seu caminho. “a tristeza que morava ao meu lado/ graças a Deus foi embora.”

a tristeza
que vivia ao meu lado
me deixando amargurado
graças a Deus foi embora
um amor
sem dó, sem piedade
fez tamanha crueldade
já nem me lembro agora
sou feliz
tenho alguém pra me adorar
construí um novo lar
em boa hora
alguém
que me trata com ternura
uma linda criatura
um modelo de senhora

o germe
que vivia em meu caminho
trocou flores por espinho
fez tudo pra me ferir
pensou
que fosse mais lucrativa
a iniciativa
de me trair
mas Deus
que é bom e justiceiro
me deu um amor verdadeiro
pondo fim no meu sofrer
e hoje
vivo em pleno mar de rosas
colhendo flores cheirosas
num jardim com mais prazer

Tudo, menos Amor
Monarco – Walter Rosa
Dino 7 Cordas (violão 7 cordas), Wilson das Neves (bateria), Doutor, Elizeu, Gordinho, Luna e Marçal (ritmo), Zé Menezes (arranjo)
[ ouça ♫ ]

É uma pena que essa parceria não tenha se repetido tantas vezes quanto a gente gostaria, pois são dois compositores com a cara, com o coração e com a alma da Portela. “Tudo, menos Amor”, apesar de um tanto ou quanto cruel com a protagonista de um antigo romance, é sempre recebido com grande alegria pelo público. E um dos maiores sucessos da dupla, graças, especialmente, à gravação de Martinho da Vila

tudo que quiseres te darei, oh flor
menos meu amor
darei carinhos se tiveres a necessidade
e peço a Deus para lhe dar muita felicidade
infelizmente só não posso ter-te para mim
coisas da vida, é mesmo assim
embora saiba que me tens tão grande adoração
eu sigo a ordem e esta é dada por meu coração
neste romance existem lances sensacionais
mas te dar meu amor, jamais

a gente ama verdadeiramente uma vez
outras são puras fantasias, digo com nitidez
mas uma história de linguagens sensíveis e reais
o que quiseres mas o meu amor, jamais…

Mangueira e Suas Glórias
Monarco
Dino 7 Cordas (violão 7 cordas), Doutor, Elizeu, Gordinho, Luna e Marçal (ritmo), Zé Menezes (arranjo)
[ ouça ♫ ]

Um dia, alguém escreverá sobre a maravilhosa amizade entre a Portela e a Estação Primeira de Mangueira. Zagaia, de Mangueira, cantou: “Mangueira, sempre foste a primeira/ Portela, nossa fiel companheira”. Agora é Monarco que faz uma declaração de amor à rival com este excelente samba. Atentem para o carinho com que Monarco fala de Cartola, Nélson Cavaquinho, Zagaia e Padeirinho. É também da sua autoria um belo samba em homenagem ao mangueirense Carlos Cachaça .

essa velha Mangueira
que nos deu Cartola
e Nelson Cavaquinho
é a mesma Mangueira
que dá Zagaia e Padeirinho
ela é a tradição
dos nossos Carnavais
quando me lembro
que saudade me traz
a mocidade vai seguindo
a mesma trilha
e a velha Mangueira
como sempre ainda brilha

brilha igual às estrelas
que tanto seduz
Mangueira fiel companheira
de Osvaldo Cruz
Cartola sempre
em seus versos já dizia
que a Estação Primeira
dava poesia
e Nelson Cavaquinho ainda diz
se lutares pela Mangueira
tu serás feliz

Duelo Fatal
Monarco
Abel Ferreira (clarineta), Jorginho (flauta), Doutor, Elizeu, Gordinho, Luna e Marçal (ritmo), Zé Menezes (arranjo)
[ ouça ♫ ]

Com este samba, Monarco entra no time dos grandes compositores que narraram o confronto entre valentes do morro numa disputa pelo amor de uma cabrocha. O primeiro foi Noel Rosa com o antológico “Quando o Samba Acabou”. A diferença é que Monarco esclarece “que essa história é verídica”

eram dois valentes lá na favela
disputando o amor de uma jovem tão bela
um era Chico Barulho
e o outro Zeca Espírito Mau
travaram, certo dia um duelo mortal
Chico tombou para um lado
Zeca para o outro tombou
e o duelo não teve vencedor
essa história verídica
foi em uma viela
da tradicional favela

chegaram os homens da lei
só se ouvia não vi, não sei
e assim é o morro
não existe delator
à noite não teve ensaio na escola de samba
em homenagem aos bambas
que tombaram em disputa do amor
daquela jovem tão linda
pivô de um duelo mortal
entre o Chico Barulho e Zeca Espírito Mau

Amor Fiel
Monarco
Dino 7 Cordas (violão 7 cordas), Wilson das Neves (bateria), Doutor, Elizeu, Gordinho, Luna e Marçal (ritmo), Zé Menezes (arranjo)
[ ouça ♫ ]

A linha adotada neste samba também faz parte da história das letras de samba: a briga com a moça porque ela gosta de cair na gandaia. Essa não resiste ao carnaval e desprezou o amor fiel do pobre rapaz

você desprezou
um amor fiel
ninguém tem culpa
de andares de déo em déo

eu te avisei
com bastante antecedência
pra não cair na iminência
de errar
mas se você errou meu bem
foi porque quis
não há razão
pra dizer que és infeliz
o carnaval
são apenas três dias
de ilusões e fantasia
você trocou seu lar
seu pequenino céu
ninguém tem culpa
de andares de déo em déo

Glórias do Samba
Monarco
Abel Ferreira (clarineta), Dino 7 Cordas (violão 7 cordas), Jorginho (flauta), Luizão Maia (baixo), Wilson das Neves (bateria), Doutor, Elizeu, Gordinho, Luna e Marçal (ritmo), Zé Menezes (arranjo)
[ ouça ♫ ]

Se Monarco não fosse compositor, estaria escrevendo livros sobre a história da nossa música popular em geral e do samba em particular. Neste samba, ele começa com Sinhô e Tia Ciata e percorre vários nomes que, sem dúvida, são as “Glórias do Samba”

musa inspiradora
minha sedutora
livrai-me dessa aflição
ajudai-me num momento
é só falando de samba
que sinto alegria no meu coração
revendo o livro da nossa história
eu vi páginas de glória
e aqui vou revelar
Sinhô
foi o primeiro a compor
Tia Ciata, saudosa mulata
muito cooperou
dando acolhida
à aquela gente bamba
que lá se reunia
para brincar de samba

rendemos a nossa homenagem ao saudoso Noel
o poeta inesquecível
de Vila Isabel
e Ary Barroso
com sua aquarela
Paulo da Portela
e outros mais
nossa história é longa
vamos terminar
parabéns a nova geração
nossa samba não pode parar
lá laiá laiá…

Conselho
Monarco – Manacéa
Abel Ferreira (saxofone, clarineta), Dino 7 Cordas (violão 7 cordas), Jorginho (flauta), Luizão Maia (baixo), Wilson das Neves (bateria), Doutor, Elizeu, Gordinho, Luna e Marçal (ritmo), Zé Menezes (arranjo)
[ ouça ♫ ]

Por falar em característica das letras dos sambas, agora essa dupla portelense tenta salvar um jovem que se entregou à bebida para fugir das dores do amor. Mas sem a pose do “Por que bebes tanto assim rapaz?/ Chega, já é demais”. Desta vez, Monarco e Manacéa lamentam que o jovem não tenha querido ouvir seus conselhos

vejam vocês
o rapaz como padece
esquecer não se esquece
do amor que lhe traiu
já dei conselhos
ele não quis me ouvir
refugiou-se na bebida
não quer mais sorrir
anda na rua
reclamando a pouca sorte
pedindo a Deus a morte
ou coisa assim
todos os dias
é a mesma agonia
seu lar agora
é um humilde botequim

é mesmo assim
quem sofre de amor neste mundo
o sofrimento
é mais profundo
eu também amei
já sofri
já chorei
rapaz
abandone o botequim
deves construir um lar
antes que chegue seu fim
vejam vocês

Lenço
Monarco – Francisco Santana
Dino 7 Cordas (violão 7 cordas), Zé Menezes (arranjo, bandolim), Wilson das Neves (bateria), Doutor, Elizeu, Gordinho, Luna e Marçal (ritmo)
[ ouça ♫ ]

Um samba com a assinatura destes dois não precisa nem ser ouvido para que todos saibam que se trata de mais uma obra-prima do samba carioca. Quem não acreditar que ouça “Lenço”. São dois craques

se o teu amor
fosse um amor de verdade
eu não queria e nem podia
ter maior felicidade
com os olhos rassos d´água me chamou
implorando o meu perdão mas eu não dou
pegue esse lenço
vai enxugar teu pranto
já enxuguei o meu
o nosso amor morreu

seguirei a ordem do meu coração
não me fale de amor
nem tampouco me peça perdão
eu não vejo honestidade em teu semblante
falsidade
isso sim eu vi bastante
pega esse lenço e não chora
enxuga o pranto
diga adeus e vá embora

Enganadora
Monarco – Alcides Dias Lopes
Abel Ferreira (clarineta), Dino 7 Cordas (violão 7 cordas), Jorginho (flauta), Doutor, Elizeu, Gordinho, Luna e Marçal (ritmo), Zé Menezes (arranjo)
[ ouça ♫ ]

Por falar em magníficos parceiros, eis Alcides Dias Lopes, o Alcides Malandro Histórico da Portela, título criado por Natal (Natalino José do Nascimento, que recorria sempre a ele quando queria saber alguma coisa da história da Portela), que, com o tempo, ficou reduzido para Alcides Histórico

deixa me viver em paz ó mulher
eu tenho compromisso
não posso dar o que você quer
vamos acabar com isso
vamos acabar com tudo
com você já não me iludo
estou falando a verdade
seu amor já não é puro
digo com certeza e juro
é somente falsidade
a proposta é tentadora
mas a outra é possuidora
de um valor que você não tem
vá embora enganadora
me deixa em paz
seu amor não me convém


FICHA TÉCNICA — PRODUÇÃO: Romeu Nunes / DIREÇÃO ARTÍSTICA: Ramalho Neto / MÚSICOS: não especificados por faixa na ficha técnica do disco – Jorge Menezes (violão), Mané do Cavaco (cavaquinho), Neco (cavaquinho), Zé Menezes (cavaquinho, violão), há um coro nas faixas “Duelo Fatal” e “Glórias do Samba” para o qual não há créditos na ficha técnica do disco. (fonte site: Discos do Brasil [Maria Luiza Kfuri]) / ESTÚDIO: Somil / TÉCNICOS: Célio e Deraldo / ARTE CAPA: Lan.

Considerações finais

Espero que você tenha gostado desse post com o 1° álbum lançado por Monarco em 1976 pelo selo Continental.

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