Moreira da Silva, o “Tal”… Malandro

O Tal Malandro... Moreira da Silva

“O ‘Tal’… Malandro”, álbum de 1962 lançado pela Odeon, marcou o surgimento do Kid Morengueira no samba de breque “O Rei do Gatilho” de Miguel Gustavo.


Cabral descobriu o Brasil, Pelé inventou o gol impossível e Moreira da Silva criou uma linguagem particular . Há quase 30 anos êste bom moço encampou dois grandes produtos nacionais: o samba de breque e a gíria. Dois produtos nacionais de grande aceitação, sem dúvida. E êle chega ao ponto de criar gíria de gíria!

Seus sambas tem mais calor humano porque agora são a linguagem viva do povo contando um “causo”, onde entram os mais variados ingredientes: uma Solingen, muita uca, mulatas, bambas, otários e gente da Lei, no epílogo. Por coincidência no momento em que escrevo estas notas, recebo duas revistas desta semana com dados sôbre o cantor.

Difícil, em pouco espaço, traçar um perfil mais esclarecedor da personalidade de Moreira da Silva. Um tipo humano pitoresco, simpático; uma figura clássica do nosso samba que hoje com tantas tendências misturadas e tão pouca definição musical só não definha por causa de meia dúzia de personalidades da altura de um Moreira da Silva – SR. CRONISTA, 1° E ÚNICO da história do morro, das gafieiras, dos otários e dos valentes .

joagus
contracapa

Manera meu “chapa”, que o “papai” Morengueira nunca foi malandro…

Quem não sabe que fique admirado: Moreira da Silva está com 63 anos de idade! Nasceu ele antes do samba se tornar o ritmo dos brasileiros. E lá pelo ano de 1923, fazia Moreira exame para motorista profissional. Ficou como dono de táxi até 1926, quando conseguiu um emprego público estadual, do qual hoje se encontra aposentado.

E a vida do cantor, que na verdade é um “falso malandro”? Quando rapaz tornou-se seresteiro, cantando modinhas de Hermes Fontes e Cândido das Neves. Porém, um dos seus melhores fregueses, como passageiro no táxi, era o compositor Ismael Silva. Esse, não se cansava em “catequizar” o motorista, fazendo-lhe sentir o que era o samba. Até que um dia, Moreira da Silva aceitando uma sugestão, gravou a primeira música do compositor.

O aparecimento de Moreira da Silva, nos Discos e no Rádio, foi marcado por um ineditismo. Tratava-se de um cantor, com jeito de malandro, pinta de malandro, linguagem de malandro e que na verdade não era malandro…

Hoje, o Moreira relembra tudo isso contando:

— Acontece que o “papai” aqui teve muita convivência com os ases da malandragem da época, como Manoel Carritilha, Waldemar da Babilônia, João Cobra, Brancura etc. Eu olhava tudo aquilo que eles faziam, achava curioso e saí fazendo também. Só que agüentei o jiló e destampei o caldeirão. Afobado é que come cru!…

— A linguagem que você emprega é sua ou deles?

— Muitos termos são criações pessoais. Outros não. As antenas estão sempre ligadas, e falou gostoso eu agarro o som!…

Dando-nos uma lição do seu curioso dicionário, Moreira da Silva ensinou-nos que “Chá de urubu” é café, assim como “Fio de Antena” (macarrão), “Africano embalado (feijão), “Maracanã” (prato fundo) e “Ligar o macaco” (telefonar). Quando se diz, “Fui de Maracanã e remo”, significa que se comeu em prato fundo com á mão…

Mas, voltamos ao diálogo com Moreira da Silva:

— Como surgiu o samba de breque?

— Em 1936, eu me copiplantei no acaso e descobri o samba de breque. Estava cantando em Bangu, quando parei o samba e disse uma frase. Depois continuei e o público aplaudiu de pé. Vi logo que ali estava o petróleo do meu terreno. Não deixei mais de cantar assim, compondo sambas no estilo e tendo outros compositores fazendo músicas idênticas para mim. Abra a cortina do passado e veja se o agrião não está enxuto.

— Já foi vítima de qualquer malandragem?

— Te manca que já entrei até numa barra pesada, quando comprei um determinado apartamento. Levaram meu tutu sem nenhuma consideração. Não estrilei porque o bom cabrito não berra.

— Verdade que não bebe nada, a não ser água?

— Não sou assim tão abstêmio. Vez por outra, nos domingos, tomo uns refrigerantes. E em dias de festa chego ao exagero de beber um pouco de vinho.

— Quais foram os seus maiores sucessos?

— No Carnaval foram “Implorar Só a Deus” e “Arrasta a Sandália”. Em matéria de samba de breque, “Acertei na Milhar”, “Na Subida do Morro”, “Amigo Urso”, “Amigo da Onça” e “Conversa de Camelô”. Agora estou aí com Moreira Contra 007″.

— E as próximas novidades?

— Vou preparar um LP, para a Odeon, só com músicas antigas.

— Toda essa vida o que lhe deu?

— Posso viver de sapato no pé, em sombra e água fresca. Tenho dois apartamentos, duas casas e nota legal em cano. Mas, olha o imposto de renda. Lá a cana é dura.

— Para finalizar, que conselho dá aos vigaristas?

— Repito o que já disse alguém: “Se um vigarista soubesse quanto é gostoso estar ao lado da lei, se tornaria honesto só por vigarismo”…

E Moreira da Silva, nada mais acrescentou. Mostrou-nos como vive, realmente feliz, ao lado da esposa, da filha e da sua mamãe, tão forte aos 93 anos de idade.

Revista do Rádio – edição 845


O “Tal”… Malandro

Moreira da Silva 1962, Odeon (MOFB 3299)
DISCO É CULTURA

O Rei do Gatilho
Miguel Gustavo
[ ouça ♫ ]

“o rei do gatilho…super bang-bang de Michael Gustav, com Kid Morengueira, o mais temido pistoleiro de Wichitta. temido pelos bandidos pois só atirava em nome da lei…”

o rei do gatilho!

começa o filme com o garoto me entregando
um telegrama do Arizona, onde um bandido de lascar
um bandoleiro transviado que era o bamba lá da zona
e não deixava nem defunto descansar….
pedia urgente que eu seguisse em seu socorro
a diligência do Oeste neste dia ia levar
vinte mil dólares do rancho Águia de Prata
onde a mocinha costumava me encontrar…
(venha urgente, pois estou morta de medo. só tú poderás salvar-nos. Beijos da tua Mary)
botei na cinta os dois revólveres que atiram
sem que eu precise nem ao menos me coçar
assobiei para um cavalo que passava do outro lado
e com o bandido mascarado fui lutar
cheguei na vita e nem dei bola pro sheriff
entrei direto no saloon, fui me encostando no balcão
com o chapéu em cima dos olhos nem dei conta
de que o bandido me esperava a traição
(cuidado, Moreira)
era um indio meu parceiro que sabia
das intenções do bandoleiro contra mim
e advertia a seu amigo do perigo que corria
devo-lhe a vida, mas isso não fica assim
a essa altura o cabaret em polvorosa
já tinha um cheiro de cadáver se espalhando
houve um “suspanse” de matar o Hitchicock
e em “close-up” prô bandido fui chegando
parou o show e as bailarinas desmaiaram
fugiram todos só ficando ele e eu
eu atirei, ele atirou, e nós trocamos tanto tiro
que até hoje ninguém sabe quem morreu
(eu garanto que foi ele, ele garante que fui eu)
só sei dizer que a mulher dele hoje é viúva
que eu nunca fui de dar refresco ao inimigo
e como filme bang bang bang bang vale tudo
o casamento da viúva foi comigo…
(tem um final, mas o final é meio impróprio e eu não digo… volte na próxima semana se quiser ser meu amigo… eu de cowboy fico gaiato, mas não fujo do perigo)

Reconciliação
Jam – Moreira da Silva
[ ouça ♫ ]

venho lhe dizer
meu velho amigo
que aquela mulher
está novamente comigo
só vendo como está tão diferente
já não é mais aquela formosa mulher
de antigamente…

ela reconheceu que eu estava com a razão
por isso veio propor reconciliação
pelo seu gesto inconsciente
muito sofremos, junto dela
aquele inocente e eu

Fraco Abusado
Vespasiano Luz – Moreira da Silva
[ ouça ♫ ]

ó seu garçon suma daqui com essa despesa
pois estou numa dureza, não há grana pra pagar
com valentia nada se decide, bota a conta no cabide
não vale a pena brigar
você já sabe que comigo a cana é dura
trago o aço na cintura pra poder me defender
e, vê se arranja a grana pro café, porque com esse tereré
nada podemos resolver
mas o garçom que conhecia a malandragem
não quis saber de visagem
nem de ir no arrastão
foi dizendo essa casa não é nossa
se vieres com essa bossa vais entrão no bofetão, seu trapalhão
e todos sabem que eu sou muito fraquinho
que só tenho esse corpinho, não posso apanhar
nesse momento só tive um pensamento
foi de arranjar um jeito para me pirar…
(aguenta aí que eu vou ali e volto já)
mas como sempre nas minhas atrapalhadas
boa sorte camarada vem me ajudar
meti o “peito” pulando daquele “jeito”
num bonde ás nove em ponto que acabava de passar
e o condutor veio com aquele: faz favor
eu fui logo perguntando, quantas vezes quer cobrar?
ele me disse, estou com a cabeça maluca
me pediu muita desculpa me deixando viajar
chega pra lá o seu Oscar me dá lugar, quero sentar

Aviso aos Fazendeiros
Lourival Ramos – Ribeiro Cunha – Moreira da Silva
[ ouça ♫ ]

estava na Central
quando chegou o noturno do interior
cheio de passageiros
onde vinha um gajo se chapéu de aba larga
cano de bota no estilo de fazendeiro
mais do que depressa fui me aproximando
acendi um cigarro e começei a palestrar
ele perguntou se eu podia dar um jeito
de arranjar um bom hotel para ele descansar
e foi logo dizendo que tinha um milhão
e queria ir à tal Caixa Econômica guardar
meto-lhe a conversa tomo-lhe a granalina
entro no Campo Santana e mando o Jeca me esperar
saio no portão do fundo apanho um carro e vou em frente
desguio com o milhão sabendo que ele era rico
pois ele deve de saber perfeitamente
que o palhaço com dinheiro
pode incendiar um circo
(eu sou malandro e vivo disso é sirico tico).

Deu o Bode… pra Polícia
Silvino Netto
[ ouça ♫ ]

“seu” comissário me perdoe o rebolado
mas eu desejo uma melhor explicação
soube a notícia que os jornais têm publicado
onde alguém levou a parte do “leão”.
pelo que eu vejo essa boca é muito boa…
e o tutu vai muito acima de um bilhão!
e eu lhe faço uma pergunta à-toa…
qual foi o “tal” que afinal meteu a mão?
joguei no touro, no macaco e no cavalo…
no elefante, no peru e no pavão!
de todo o jeito eu cerquei o galo…
e o resultado arrebentou na minha mão!
quebrei a cara e perdi o balançado
quando os jornais me deram conta da notícia
que eu só perdi porque fui tapeado…
pois nesse dia deu o bode… pra polícia!
(o bom cabrito não berra be e e e).

Anúncio pra Mulher
Kiabo – Moreira da Silva
[ ouça ♫ ]

procuro para minha companheira
uma deusa faceira
tenho dinheiro no banco
prá me divertir
vou percorrer a Europa
irei a Paris
juro que serei feliz
não faço questão
que seja preta, branca, loura ou mulata
o que cai na rede é peixe
estou com a situação
vou dar um giro
ao redor do mundo
se alguém se interessar
não deve demorar
deve mandar com urgência
um mensageiro com endereço
pra minha mansão a beira-mar
e procurar ao novo ricaço
vamos sambar com Tio Sam
um samba de casaca e violino
eu vou mostrar que sou fino
vou castigar no meu sapateado
vou meter ginga de pato
até no twist

Bailarinos do Gramado
L. Ramos – Moreira da Silva – R. Cunha
[ ouça ♫ ]

há muita gente que teima em dizer
que o futebol não passa de banalidade
mas com o tudo tem a sua razão de ser (eu vou provar)
que em futebol também se faz celebridade
Gilmar, Mauro e Nilton Santos, são três figuras
que compõem a grande zaga
cobriram de glória a bandeira brasileira
perante o mundo a nossa fibra é respeitada
deram prova nos gramados do Chile
com a exibição que a seleção apresentou
Garrincha, Didi, Vavá e Amarildo
e o grande Zagalo, cinco craques de valor!
na zaga Djalma Santos é um reforço absoluto
ao lado de Zózimo: ainda faltou o Rei Pelé…
na linha de half o Zito e sua classe
matava a criminosa na ponta do pé
(de calcanhar deu na direita a seu Mané)

Papagaio Poliglota
Miguel Lima – Adelmo Garcia
[ ouça ♫ ]

meu papagaio
fala tudo que eu falo
e não perde um intervalo
pra meus chôros “ensaia”
já canta o galo garnizé
bem direitinho…
canta o “xote bonitinho”
e o “tico tico no fubá”
meu papagaio
é um malandro diferente
papagaio inteligente
igual aquele… eu nunca vi…
fala francês, italiano e alemão
e traduz qualquer palavra
para o guarani
meu papagaio
fica triste quando eu saio
faz “xamego” quando eu chego
procurando me agradar
mas quando nota
que eu estou me demorando
ele fica reclamando
e pôe-se logo a resmungar…

Que Loura é Essa?
Alberto Costa – Oldemar Magalhães
[ ouça ♫ ]

que é que há?
toda gente me pergunta…
eu nunca vi tanta curiosidade junta
serei feliz até quando ela quiser
arranjei uma loura, meu Deus que mulher!

chama-se Wilma
nunca vi tanta beleza
os olhos claros
matam a lua de tristeza
quando ela passa
todo o mundo perde a pressa
e diz com espanto…
ai meu Deus, que loura é essa?

Sou o Primeiro
Moab Moreira – Moreira da Silva
[ ouça ♫ ]

sou o primeiro
astro do rádio que já apareceu
neste bonito estilo de samba
o rei do breque no Brasil sou eu
(pois foi um dom que Deus me deu)
e quem me ouve diz
que eu tenho uma linda voz de quilate
reparem bem que eu não sou muito prosa
e tenho até toda modestia a parte
(e para cantar eu tenho arte)
falando em bossa
não dou confiança ao azar
eu meto tantos birigodigos
todas dificeis de se apanhar
e quando eu acabo de cantar o meu sambinha
aqui ao microfone
não custa muito, estão pedindo bis (tirrim tirrim)
bate a campainha do telefone
(eu me orgulho como homem)
ao microfone
aos meus ouvintes eu aviso
para não ficar batido o primeiro
eu canto este agora de improvisso
e soltando breques e mais breques
de uma fonte que me jorra insana
dedico esta bossa aos meus ouvintes
boa noite, passe bem, até a próxima semana
(eu canto até chupando cana)

Ciúmento
Moreira da Silva – Ayrton Amorim
[ ouça ♫ ]

você bem sabe que eu sou muito ciúmento
pinta os lábios de tal jeito
para me contrariar
toma atitudes, que eu condeno e que reprovo
certamente, não aprovo
o seu modo de andar
quando perguntam
você gosta muito dela?
eu respondo simplesmente
isso é uma veneração!
talvez por isso eu seja assim tão ciúmento
aqui, no meu pensamento
só pra ela tem lugar
e mesmo assim você brinca comigo
não faz conta do que eu digo
só faz quando aquilo que quer
a culpa não é sua eu reconheço
de não der um certo apreço à vida
por que é mulher
meu bem ouça uma coisa
eu não sei porque
estou apaixonado por você

Sou do Barulho
Sá Róris – Leonel Azevedo
[ ouça ♫ ]

eu sou do barulho e gosto mesmo de brigar
disto me orgulho,
eu tenho fama de valente
já tirei carta patente como bamba do lugar
eu vou ali e volto já pra lhe explicar
é que eu sou escolado e quem tiver
que me enfrentar tome cuidado
pois brigar comigo é um caso sério
quem se mete nessa empresa vai parar no cemitério
eu já enfrentei Primo Carnera
isso foi antigamente
hoje não é mais vantagem francamente
pois atualmente eu piso o pé de um valentão
e ele vem humilde suplicar o meu perdão
e quando eu entro numa bebedeira
ronca o pau a noite inteira
e assistência já não para de tocar
o hospital pronto socorro tem ferido pra cachorro que não para de chegar
eu que até pareço tão franzino quando faço um desatino
tem pancada e correria pra chu chu
mas quando terminado o sururu por exceção, eu juro
não levei uma pancada, um arranhão
e quem sentir a minha brilhantina vai parar
além da China
na cabeça eu sou mais duro que marfim
eu sou um bamba na rasteira
sou doutor na capoeira
sou mulato e sou ruim


Considerações finais

Espero que você tenha gostado desse post com o álbum de Kid Morengueira (Moreira da Silva); O Tal… Malandro, lançado em 1962 pelo selo Odeon.

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