Nelson Cavaquinho (1972)

Disco Nelson Cavaquinho

Sobre esse volume da Série Documento, Nelson já era exemplo de luta contra a adversidade antes de ter um cavaquinho de verdade — seu primeiro instrumento era feito de arames e uma caixa de charutos.

Nesta compilação, que traz o melhor do artista entre 1956 e 1973, fica claro que seu talento era grande demais para qualquer obstáculo. Refletindo a carreira de Nelson, o foco deste álbum está menos na técnica instrumental ou vocal e mais na composição musical e lírica. Ganham destaque os arranjos e participações especiais de gigantes como Paulinho da Viola e Clara Nunes. A seguir os texto publicado na contracapa e assinado por Sérgio Cabral.


Por favor, não ouçam este disco como se ele fosse de um cantor comum. Não cometam a injustiça do comparar Nelson Cavaquinho como se este cara fosse um desses cantores que estão sempre nas paradas de sucesso. Se isso acontecer, você pode até não gostar da voz dele. É uma voz ao mesmo tempo rouca o fanhosa, não convencional. Detenha-se, portanto, no que há dentro desta voz, dentro deste camarada que você esta ouvindo, nas entranhas deste genial poeta.

Saiba que Nelson Antônio da Silva, o ex-soldado da Policia Militar do Rio de Janeiro que jamais marchou com o passo certo, é um boêmio que nada encontrou na vida capaz de modificá-lo. Se ele tiver que continuar dando parceria ao quitandeiro que lhe vendeu fiado o alface e a banana, continuará. Nem o prêmio da Loteria Esportiva — ele, o único ganhador — lhe tiraria dos botequins infectos da Lapa e da Praça Tiradentes. Nem o acontecimento mais terrível lhe impedira de cantar seus sambas pros amigos.

Nelson Cavaquinho é na minha opinião, um dos raros gênios da música popular brasileira. Ninguém como ele pega o lirismo popular, o ponto de vista popular, a visão popular, a poesia popular, o sentimento popular e expressa-os com tanto talento e força criativa. Ninguém como ele se confessa (naquele sentido que Manoel Bandeira dizia que Lima Barreto, o escritor, se confessava) de uma maneira tão bonita, tão emocionante. O que eu quero dizer é o seguinte — poucos artistas mostram sua alma e seu coração com tanta beleza quanto Nelson Cavaquinho mostra a sua, nos seus sambas.

Nesta compilação, que traz o melhor de Nelson Cavaquinho entre 1956 e 1973, fica claro que seu talento era grande demais…

Nelson Cavaquinho faz música há uns 35 anos. Fez até alguns sucessos, como o samba “Rugas” (gravado por Ciro Monteiro aqui mesmo na RCA). “Palhaço”, “Degraus da vida”, “A flor e o espinho” e outros. Apesar disso, ele nunca foi um cara de andar atrás de cantores para gravar suas músicas. Quem quisesse que fosse ouvi-lo nos botequins – o seu mundo. Nem mesmo a sua Estação Primeira de Mangueira, para a qual compôs vários sambas — tirou-o da mesa do bar para desfilar. Nelson Cavaquinho é, rigorosamente, um puro. Preste atenção a sua letra. Verifique você mesmo que poeta extraordinário é esse camarada que jamais leu um livro de poesia na vida. (Perguntei-lhe uma vez, qual era o seu poeta preferido e ele me disse que só tinha um livro em casa: um dicionário que ainda não tinha folheado). Sempre tive um certo desprezo por um tipo de contestação que foi moda na música popular brasileira, por uma filosofia “underground” que predominou durante algum tempo, exatamente por causa de pessoas como Nelson Cavaquinho, que já estavam nessa há muito tempo e os observadores não sabiam. Nelson Cavaquinho já fazia contra-cultura há mais de 30 anos e os nossos contestadores musicais procuravam o modelo internacional para fazer a sua, desrespeitando inclusive os princípios daqueles que os levaram a adotar a posição que tomaram. Nelson, sim, jamais se enquadrou nos padrões da moda. Jamais criou visando ao consumo, jamais se rendeu aos padrões impostos por quem dita o gosto, de quem se guia pelo apresentador de-dia-a-dia-da-televisão.

Portanto, ouça-o como se estivesse penetrando no âmago de um criador fabuloso. E você entenderá melhor os seus versos e suas intenções. E gostará muito da sua voz cheia de cachaça, de sofrimento e de boêmia. E o amará como nós os “nelsoncavaquinhistas” — o amamos.

Sergio Cabral
contracapa

Aproveito e publico uma matéria publicada no Jornal da Tarde, por ocasião da morte de Nelson Cavaquinho.

A ala dos compositores da Mangueira perde mais um: Nelson Cavaquinho

Sr.: Há sete anos — no mês de fevereiro — fiz uma entrevista exclusiva para o Jornal da Tarde com Nélson Cavaquinho (Nélson Antônio da Silva).

Durante cerca de 60 minutos, no hall de entrada do hotel em que esteve hospedado, na avenida São João, em São Paulo, ele — de chinelos, camisa esporte, fumando muito — falava da saudade dos carnavais passados, do seu cansaço e de que não iria desfilar na ala de frente (ala dos compositores) da Estação Primeira de Mangueira.

Mas, não se pode falar de Nélson Cavaquinho sem conhecer a Mangueira por inteiro, como tão bem a exalta o samba de Mirabeau e Milton de Oliveira: “Fala, Mangueira, fala!/ Mostra a força da tua tradição./ Com licença da Portela, favela/ Mangueira mora no meu coração!/ Tuas cabrochas gingando/ Teus tamborins repicando!/ É monumental!/ Estou falando da Mangueira/ A velha Mangueira/ Tradicional”.

Assim, convido o leitor a subir o morro e chegar à rua Visconde de Niterói, 1.082, onde está a sua quadra de ensaios que durante o ano recebe grande número de simpatizantes, turistas, altas autoridades. É preciso conviver com os sambistas, sentar numa mesa, beber cerveja bem gelada, comer a deliciosa feijoada, tomar a “cachacinha” e ouvir a famosa bateria que tem em Waldemiro Tomé Pimenta um dos seus grandes expoentes.

Dona Neuma — respeitada e querida pelos moradores do morro da Mangueira, mora há mais de 50 anos ao lado da quadra e faz questão de dizer que se considera “apenas uma componente da escola” e que a sua grande disposição “é ajudar uma diretoria boa”. “Como você sabe” — diz tia Neuma como as crianças e adultos do lugar a chamam — “fazemos parte de uma comunidade. Embora não tenha laços de sangue com a maioria dos moradores, tenho uma grande amizade por eles. É como se fôssemos irmãos. Irmãos de samba, de irmandades…”

Beijando uma linda criança que entra na humilde sala de jantar, ela fala com amor da sua escola, composta de 3.000 pessoas. Acariciando uma criança no colo e brincando com outra, tia Neuma explica que “as crianças são doutrinadas desde cedo para que sejam futuros sambistas. Fazemos tudo para que nossas crianças ocupem o primeiro lugar”.

Com as cores verde e rosa — propostas pelo saudoso Cartola, em homenagem às pastorinhas e ranchos dos seus tempos de criança, no Catete e nas Laranjeiras — Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira foi fundado no dia 28 de abril de 1928. A sua origem ocorreu na transformação do bloco dos Arengueiros do morro da Mangueira, que aparece pela primeira vez nos idos de 1927. Posteriormente, viriam juntar-se os blocos Tia Tomázia, Tia Fé, Senhor Júlio, Mestre Candinho, como também o rancho Príncipe da Floresta.

Foi nesse ambiente que Nélson Cavaquinho passou a sua vida, compondo durante cinco décadas música, e muito bonita, também com o seu principal parceiro, Guilherme de Brito.

Ele na sua simplicidade sabia como só ele descrever o lugar em que vivia: “Mangueira é celeiro/ De bambas como eu/ Portela também teve/ O Paulo que morreu/ Mas o sambista vive eternamente/ No coração da gente/ Os versos em Mangueira são modestos/ Mas há sempre força de expressão/ Nossos barracos são castelos/ Em nossa imaginação.”

Na entrevista exclusiva concedida ao JT, Nélson Cavaquinho lembrava o ano de 1955:

“Nessa época bebia muito e acabava perdendo o instrumento… Passei a conhecer Guilherme de Brito, ele morava em Ramos. Ele passava por volta das 7 horas da manhã rumo ao trabalho e eu estava sentado no botequim, tocando. Quando ele voltava pra casa, à tarde, eu ainda estava no mesmo lugar… Ele queria falar comigo e acabou falando. Então, fizemos “Pranto do poeta”, “A flor e o espinho”, “O bem e o mal”. Depois veio “Miragem”, “Folhas secas”, “Tenha paciência” e “Sempre Mangueira”, com parceria de Geraldo Queiroz.”

Nélson Cavaquinho falava então de uma cantora com grande orgulho: Beth Carvalho — audente no dia da morte do compositor (18 de fevereiro) em razão de compromissos assumidos nos Estados Unidos, mas que estava lembrada pelas flores de uma coroa no velório realizado na quadra da Mangueira.

Muito ainda se poderia falar sobre esse grande compositor de cabelos brancos, ultimamente de óculos — sempre solícito, atencioso para com a imprensa, pois — perguntava —, “se não fosse ela [a imprensa], como o povo iria saber da minha existência, das minhas músicas?”

Amigos da Mangueira levaram o seu corpo para a última morada, sob os acordes do surdo, acordes tristes, de despedida, alguém, naquele derradeiro instante, ainda teve tempo de lembrar — de autoria de Nélson Cavaquinho: “Em Mangueira/ Quando morre um poeta/ Todos choram/ Vivo tranquilo em Mangueira porque/ Sei que alguém há de chorar/ Quando eu morrer”

Antônio Carvalho Mendes, Capital.


Nelson Cavaquinho

Nelson Cavaquinho 1972, SÉRIE DOCUMENTO, RCA-Victor 103.0047 – DISCO É CULTURA – Ouça no spotify, youtube ou itunes

Disco Nelson Cavaquinho

LADO A: “Quando eu me chamar saudade” (Nelson Cavaquinho – Guilherme de Brito” ; “Tatuagem” (Nelson Cavaquinho – Guilherme de Brito) ; “Eu e as flores” (Nelson Cavaquinho – Jair do Cavaquinho) ; “Palhaço” (Oswaldo Martins – Nelson Cavaquinho – Washington) ; “Sempre Mangueira” (Nelson Cavaquinho – Geraldo Queiroz) ; “Deus não me esqueceu” (Nelson Cavaquinho – Ananias Silva – Armando Bispo) .

LADO B: “A flor e o espinho” (Nelson Cavaquinho – Alcides Caminha – Guilherme de Brito) ; “Degraus da vida” (Nelson Cavaquinho – César Brasil – Antônio Braga) ; “Notícia” (Nelson Cavaquinho – Nourival Bahia – Alcides Caminha) ; “Lágrimas sem júri” (Nelson Cavaquinho – Fernando Mauro) ; “Luto” (Nelson Cavaquinho – Sebastião Nunes – Guilherme de Brito) ; “Luz negra” (Nelson Cavaquinho – Amâncio Cardoso) .


Waldyr Santos (coordenação artística), Osmar Zandomenigui (coordenação geral), Tebaldo (lay-out).

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