Nelson Sargento Encanto da Paisagem
  • "data": "7 abril 2020"
  • "título": "Encanto da Paisagem"
  • "ano/gravadora": "1986, Kuarup Discos"
  • "tags": ""

“Encanto da paisagem”. Álbum de Nelson Mattos (Nelson Sargento), com magníficas criações, gravado no Japão pelo produtor Katsunori Tanaka. No Brasil o disco saiu pelo selo Kuarup em 1986.


Sobre a faixa que deu título ao disco, “Encanto da Paisagem” faixa dedicada ao morro da Mangueira, Nelson critica a desigualdade social e evoca a simplicidade do samba. Enaltece a beleza do morro que, no entanto, sofre com o lento progresso da urbanização. Fala sobre a pobreza que permeia a “elevação” e as transformações que o samba sofreu, perdendo a tradição para sofisticação — ironicamente, utiliza linguagem rebuscada na composição.

No documentário biográfico de Sargento, dirigido por Estevão Ciavatta Pantoja, o sambista comentou esse samba: “Isso aí [vocabulário sofisticado] já é meio frescura, mas tudo bem. Isso é pra agradar os possíveis intelectuais que olharem meu samba. Topografia da cidade, suntuoso personagem. Bonitinho, né?”.

Na contracapa do L.P., texto de Sergio Cabral que transcrevo a seguir.

Este disco é o produto de um caso de amor entre um jovem japonês, Katsunori Tanaka, e a música popular brasileira . Tanaka não é um japonês investidor, em busca de reprodução de capital. É um trabalhador comum, que resolveu aplicar a sua poupança num tipo de música brasileira que as nossas, gravadoras não querem gravar.

Nelson Sargento chama-se, no registro civil, Nelson Mattos (ele faz questão dos dois t). Seu apelido surgiu do tempo em que era Sargento do Exército, quando era identificado de duas maneiras: no quartel, era o Sargento Nelson: na Mangueira, o Nelson Sargento.

Mas não é sobre o apelido de Nelson que desejo falar. Quero, na verdade, é chamar a atenção para um homem que absorve como poucos outros o qualificativo de artista. Nelson é um artista, pronto e acabado. É um poeta, um cronista, um humorista, um pintor (de quadros e de parede) e um Nelson Sargento admirável. Tem o talento e a emoção do artista. Um homem do povo, que enfrenta todas as graves dificuldades que desabem sobre o trabalhador brasileiro mas que nunca abriu mão de sua condição de artista . Ele cria sua obra, vai para o batente para sustentar a família e ainda pensa na obra de quem o influenciou. Canta as músicas do padrasto. O velho Alfredo Português, homenageia Cartola com um samba e escreve um livro sobre Geraldo Pereira (edições Funarte). Coisa de artista.

Aqui está Nelson Sargento, acompanhado por vários amigos, músicos, “Nelson Sargentões” e cantores, apresentando músicas que expressam maravilhosamente a criatividade do sambista. Razão pela qual chamo a atenção do ouvinte para o fato de que adquiriu mais do que um disco. Aqui está um documento de importância histórica: é a obra de um artista, de um grande artista do povo e que a gente conhece pelo nome de Nelson Sargento.

O caso de amor de Tanaka é exatamente com essa música bonita, expressiva, forte, verdadeira e que os donos do consumo não prestigiam por considerá-la não comercial. Também sou apaixonado por essa música, mas isso não é nada demais, porque sou daqui. Razão pela qual homenageio o amigo do outro lado do mundo, a quem manifesto a minha gratidão e a quem louvo pela coragem e pelo bom gosto.

SÉRGIO CABRAL


Encanto da Paisagem

Nelson Sargento 1986, Kuarup Discos (KLP-025)
Ouça no spotify, youtube ou itunes
DISCO É CULTURA

REPERTÓRIO

Encanto da Paisagem
Nelson Sargento
[ ouça ♫ ]

morro és o encanto da paisagem
suntuoso personagem
de rudimentar beleza
morro, progresso lento e primário
és imponente no cenário
inspiração da natureza
na topografia da cidade
com toda simplicidade
és chamado de elevação
vielas, becos e buracos
choupanas, tendinhas, barracos
sem discriminação

morro, pés descalços na ladeira
lata d’água na cabeça
vida rude alvissareira
crianças sem futuro sem escola
se não der sorte na bola
vai sofrer a vida inteira
morro, o teu samba foi minado
ficou tão sofisticado,
já não é tradicional
morro, és lindo quando o sol desponta
e as mazelas vão por conta
do desajuste social

Homenagem ao Mestre Cartola
Nelson Sargento
[ ouça ♫ ]

só um peito vazio descobre que o mundo é um moinho
e quando isso acontece a alegria vai embora
e as cordas de aço de um violão solam baixinho
uma canção que se chama disfarça e chora
eu confesso que tive sim, um amor proibido
vai amigo e diz-lhe o quanto eu tenho sofrido
mas tudo se ajustará numa grande alvorada
um sol nascerá, pouco importa depois
se estaremos juntos nós dois
o nosso amor brilhará numa noite tão linda
as rosas não falam, mas podem enfeitar
a grande festa da vinda

Vim lhe Pedir
Nelson Sargento – Cartola
[ ouça ♫ ]

vim lhe pedir
me perdoa, reconheço errei
se aqui voltei
foi para lhe dizer então
que há motivos de força maior
que às vezes, prende a gente
me dissestes que voltei sinicamente
pra zombar de te ver chorar

foi a saudade que me trouxe aqui
depois que te perdi
mergulhei na sofreguidão
ao cair na realidade
descobri que a felicidade
está na bondade do seu coração

Vai Dizer a Ela
Nelson Sargento
[ ouça ♫ ]

vai correndo vai dizer a ela
que são muito tristes os dias meus
que a saudade lentamente me devora
depois que ela me disse adeus
vai correndo vai dizer a ela
que volte pelo amor de Deus

a solidão já tomou conta do meu lar
dia e noite a minha vida é chorar
vai correndo, vai
depressa por favor
dizer a ela
que volte ao meu amor

De Boteco em Boteco
Nelson Sargento
[ ouça ♫ ]

vou de boteco em boteco bebendo a valer
na ânsia de esconder
as dores do meu coração
conselhos não adianta estou no final
perdi o elã e perdi a moral
meu caso não tem solução

eu bebo demais pro meu tamanho
arranjo brigas e sempre apanho
isto me faz infeliz
entro no boteco pra afogar a alma
as garrafas então batem palmas
me embriago elas pedem bis

Idioma Esquisito
Nelson Sargento
[ ouça ♫ ]

fui fazer o meu samba
na mesa de um botequim
depois de umas e outras
o samba ficou assim

estrambonático, palipopético
cibalenítico, estapafúrdico
protopológico, antropofágico
presolopépipo, atroverático
batunitétrico, pratofinandolo
calotolético, caranbolâmbolu
posolométrico, pratofilônica
protopolágico, canecalônica

é isso aí, é isso aí
ninguém entendeu nada
eu também não entendi
(eu então vou repetir)

Só Voltarei
Nelson Sargento
[ ouça ♫ ]

eu só voltarei
se você chorar
o que eu chorei

nosso grande amor desabrochou
qual uma flor
depois murchou
mas fenecer não deixarei
acontece que eu te amo tanto
mas só quando eu ver seu pranto
é que a minha opinião
eu mudarei

Mar de Lágrimas
Nelson Sargento
[ ouça ♫ ]

você vai se arrepender
vai querer voltar para me dizer
que errou demais quando me deixou
a paz almejada não alcançou
eu lhe direi então
que pouco sofri com a separação

vá, siga o seu destino
a vida lhe fez assim
fuja no seu desatino
da paz que se encontra em mim
dei tanto conselho
dei tanto carinho
e hoje me encontro sozinho

eu ao seu lado passei
e sofri tanta humilhação
por isso me conformei
com a nossa separação
vejo um mar de lágrimas
para lhe afogar
no dia em que você voltar

Prometo Ser Fiel
Nelson Sargento
[ ouça ♫ ]

preciso arranjar uma mulher
que me deixe fazer tudo que eu quiser
gosto de samba, gosto de baile e de futebol
também gosto de praia nos domingos de sol

em troca cumprirei o meu papel
de bom chefe de família e prometo ser fiel
quero liberdade pra beber no botequim
bater papo com os amigos pois eu sou feliz assim

liberdade a ela eu também darei então
porque eu não quero que me chamem de machão

A Felicidade se Foi
Nelson Sargento
voz.: CLAUDIA SAVAGET
[ ouça ♫ ]

a felicidade se foi
quando você me abandonou
a tristeza sem ser convidada
o seu lugar ocupou
hoje trago comigo
solitária uma grande dor
é meu imenso castigo
por perder seu amor

na minha alucinação
eu te vejo em outros braços
a sorrir e a zombar dos meus fracassos
o amor muitas vezes nos põe demente
ou nos transforma em farrapo de gente

Amante Vadio
Nelson Sargento – Zé Luiz
[ ouça ♫ ]

amei
profundamente um certo alguém
que durante algum tempo
me amou também
depois partiu
sem me dar explicação
muito eu tenho chorado
pra desabafar meu coração

meu coração, amante vadio
ficou vazio com a sua ingratidão
e pra perdoar me sinto tão frio
quisera ter a chama do início da nossa paixão
como eu te amei, ninguém te amará
desejo que você seja bem feliz
estou chorando, desabafando
e não lamento todo bem que eu lhe fiz

Agoniza mas não Morre
Nelson Sargento
voz.: CÔRO E BETH CARVALHO
[ ouça ♫ ]

samba
agoniza mas não morre
alguém sempre te socorre
antes do suspiro derradeiro
samba
negro forte destemido
foi duramente perseguido
na esquina no botequim no terreiro
samba
inocente pé-no-chão
a fidalguia do salão
te abraçou te envolveu

mudaram
toda a sua estrutura
te impuseram outra cultura
e você nem percebeu


FICHA TÉCNICA — PRODUÇÃO: Katsunori Tanaka / PRODUÇÃO ARTÍSTICA: Henrique Cazes / PRODUÇÃO EXECUTIVA: Beto Cazes / ARRANJOS: Henrique Cazes e Luiz Otávio Braga (fx. 1b) / MÚSICOS: Rafael Rabello (violão de 7 cordas), Luiz Otávio Braga (violão), Henrique Cazes (cavaquinho), Nelsinho (trombone), Paulo Sérgio Santos (clarinete), Dazinho (flauta, sax-alto e assobio), percussão: Beto Cazes (pandeiro, ganzá, repique de mão, tamborim, garrafa de cerveja com abridor, coco, tan-tan e surdo), Marçal (cuíca e tamborim), Élton Medeiros (caixa-de-fósforo e tamborim), Gordinho (surdo), Marcos Suzano (frigideira, agogô e tamborim), Oscar Bolão (pandeiro, caixa e agogô) / coro em “Idioma Esquisito”: Paulo, Marlene, Wilson, Servula, Henrique, Isabela, Marquinhos, Beto, Nelson Sargento, Leo e Marcos Paiva, coro em “Amante Vadio”: Dinorah, Nara, Eurídice, Henrique Cazes, Dalmo Medeiros e Nelson Sargento, coro em “Agoniza mas não Morre”: Bee, Beth Carvalho, Beto Cazes, Cláudio Jorge, Cristina, Delcio Carvalho, Elton Medeiros, Henrique Cazes, Jair do Cavaquinho, Marcos Suzano, Mauro Duarte, Nelson Sargento, Paulão, Servula, Tanaka, Vivinha, Wilson Moreira, Zé Luiz e a Velha Guarda da Portela (Monarco, Chico Santana, Manacéa, Argemiro, Casquinha, Alberto Lonato, Osmar do Cavaco, Chatim, Doca, Eunice e Surica). / ENGENHEIRO DE SOM: Paulo Lavrador / ESTÚDIOS: Museu da Imagem e do Som / GRAVAÇÃO: em junho de 1986, no Estúdio HARA, Rio de Janeiro / FOTO: Paulo Ricardo / CAPA: Janine Houard / PINTURA: Nelson Sargento;

Considerações finais

Espero que você tenha gostado desse post com o álbum de Seu Nelson, lançado em 1986 pelo selo Kuarup. Se assim for, encorajo você a se inscrever na newsletter do blog, abaixo. Ao informar seu email, você receberá todas as novas publicações do blog automaticamente.

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