Nos Pagodes da Vida

Nos Pagodes da Vida

Grupo Fundo de Quintal Vol.3 – Nos Pagodes da Vida é o terceiro álbum lançado pelo grupo formado no final da década de 1970. Elepê de muito sucesso como os dois anteriores. Disco lançado em 1983 pela RGE no qual se destacaram vários sucessos como por exemplo “Caciqueando” de Noca da Portela, música do Bloco Carnavelesco Cacique de Ramos para o Carnaval de 84. Outro fato marcante deste disco foi a entrada de Cleber Augusto no lugar de Walter Sete Cordas. É essa “pedrada” que tragos neste post juntamente com uma reportagem publicada no jornal O Globo por ocasião do lançamento de “Nos Pagodes da Vida”. Espero que goste, forte abraço, Marcelo.

Fundo de Quintal lança o ‘novo samba’ em elepê

Heloisa Daddario

Com uma filosofia diferente, na base do “se meu amor foi embora, a gente arranja outro”, a introdução do banjo, repique de mão e do tantã no lugar do surdo, um samba novo e diferente acontece hoje na quadra do Cacique de Ramos, comemorando o lançamento do terceiro elepê do grupo Fundo de Quintal. Nascido e criado nas quadras do Cacique, o grupo tem, segundo a madrinha Beth Carvalho, “um swing fantástico e um estilo único”. Compositores da maior parte das músicas que cantam, eles são autores de sucessos como “Coisinha do Pai” e de “Vou Festejar”. Este ano o Cacique de Ramos, com dez mil figurantes, entra na avenida com “Caciqueando”, carro-chefe do novo elepê do grupo, de autoria do Noca da Portela.

As quartas-feiras o Ubirani, que é presidente do bloco, levava um grupo para jogar pelada e tomar chope. Depois da cerveja vinha o samba, tocado no quintal, debaixo de um pé de tamarindo

O Fundo de Quintal nasceu do encontro de sambistas embaixo de uma tamarineira, no fundo da quadra do Cacique de Ramos . E o que começou às quartas-feiras apôs a pelada e o tradicional chopinho, transformou-se em renovação do samba, com letras que exprimem um novo sambista, não mais o sofredor que cantava para a cidade as agruras do morro. Mas as novidades não ficaram nas melodias. O grupo inovou também introduzindo o banjo como substituição ou complemento do cavaquinho tocado por Arlindo Cruz. Sereno, por sua vez, trocou o surdo pelo tantã, espécie de atabaque com som mais grave, usado para a marcação como se fosse o surdo. E Ubirani, Vice-Presidente do Cacique faz o repique de mão, em vez da baqueta.

O elepê “Nos Pagodes da Vida”, da etiqueta RGE, foi produzido e dirigido por Milton Manhães e José Sobral. O repertório e os arranjos foram feitos pelo próprio grupo. O carro-chefe é o samba do Cacique, de autoria de Noca da Portela. Mas há ainda um samba em homenagem a Dona Ivone Lara, “Canto de Rainha”, do Arlindo Cruz a Sombrinha, outro composto pela própria Ivone Lara e Jorge Aragão, que compara um romance com o desfile da escola na avenida, e mais quatro sambas que falam de amor. Do elepê constam ainda dois partidos altos, o “Encrespou o Mar, Clementina”, de Walmir Lima e Roque Ferreira, e “Boca sem Dente”, de Almir Guineto e Gelcy, dois sambas com letras interessantes e bem humorados. O primeiro fala do tempo em que “malandro de fato não ouvia desacato”. O nome da samba é a gíria que o partideiro usa para dizer que hoje não há tanta honestidade, fartura e consideração. O otimismo, no elepê, fica por conta de Serrano e Guilherme Nascimento em “Saber Viver”, uma exaltação ao sonho, vida e a liberdade.

— Nosso samba tem uma linguagem nova — diz Cleber Augusto, compositor e violonista. — A imagem primitiva do sambista era a do cara autêntico, que cantava o morro para a cidade. O samba trazia a marca do sofrimento em função do desamor. Era aquele negócio do “meu amor me deixou” e dai vinha toda a infelicidade. Hoje tá tudo diferente e a filosofia que é exposta no samba é mais atual. Nós não curtimos mais a dor do amor que nos deixou e sim o presente, o amor que nasce hoje porque a vida continua e ninguém vai ficar vivendo em função do passado.

Diz Arilndo Cruz. compositor e tocador de cavaquinho e banjo:

— O que a gente faz de diferente e por isso sobressai — explica Arlindo — é a harmonia. Toda a parte harmônica é muito cuidada. Basicamente os ritmos são os mesmos mas há inovações na maneira de tocar. O samba mais lento sumiu das escolas, o samba de quadra também. Na escola de samba hoje só dá samba-enredo. No Cacique eles sobreviveram mas ganharam uma linguagem diferente.

Em 1979 Beth Carvalho foi levada ao Cacique, e do encontro com os sambistas surgiu o elepê da cantora chamado “Pé no Chão”, gravado com o Fundo de Quintal, com o sucesso “Vou Festejar”, de Jorge Aragão, Neucir e Dida. Em 1980 Beth gravou no álbum “No Pagode” a música “Coisinha do Pai”, também de compositores do Fundo de Quintal. Nesse ano o grupo gravou o primeiro elepê, “Samba É no Fundo de Quintal”, volume I. O segundo foi gravado um ano depois. Nesse intervalo, Roberto Ribeiro, Alcione, Beth Carvalho e Os Originais do Samba gravaram sucessos do grupo. O terceiro elepê, lançado hoje, tem a participação de Cleber Augusto (violão), Arlindo Cruz (cavaquinho e banjo), Sombrinha (violâo de sete cordas e cavaquinho), Sereno (tantã), Bira (pandeiro) e Ubirani (repique de mão).

— Nós somos somos a terceira formação do grupo, que já teve a participação do Almir Guineto, Jorge Aragão, Neucir o Walter Sete Cordas — diz Cleber. — Tudo surgiu com o Cacique. As quartas-feiras o Ubirani, que é presidente do bloco, levava um grupo para jogar pelada e tomar chope. Depois da cerveja vinha o samba, tocado no quintal, debaixo de um pé de tamarindo. O pagode começou assim, a frequência foi aumentando, apareceu gente para apreciar, até que a Beth Carvalho pintou e fez a proposta para a gravação de um disco, em 1979. O grupo nasceu do encontro de sambistas, no pagode, que é mais informal do que a roda de samba.

O Globo, 24 de janeiro de 1984


Nos Pagodes da Vida

Grupo Fundo de Quintal Vol.3 1983, RGE (308.6043)
Ouça no spotify, youtube ou itunes
DISCO É CULTURA

REPERTÓRIO

Caciqueando
Noca da Portela
[ ouça ♫ ]

olha meu amor
esquece a dor da vida
deixe o desamor
caciqueando na Avenida
nesse ano eu não vou marcar bobeira
vou caciquear só vou parar na quarta-feira

na onda do Cacique, eu vou
pois caciqueano, eu sou

Te Gosto
Adilson Victor – Mauro Diniz
[ ouça ♫ ]

não sei se tu falas verdade
ou se é falsidade
quando estás junto a mim
só sei que te gosto criança
essa vida é uma dança
do princípio ao fim

sou feliz
quando estou
nos braços teus
só Deus sabe a minha alegria
vejo em ti
tudo que eu queria
a tua companhia me faz sentir
um amor assim
mesmo sem esperança
o seu jeito criança faz bem pra mim

Canto de Rainha
Arlindo Cruz – Sombrinha
[ ouça ♫ ]

tentando esquecer os amargos da vida
um dia saí
e consegui disfarçar minha solidão
pois descobri algo mais que a inspiração
quando ouvi Ivone cantar
e vi toda poesia pairar no ar

seu canto entrou na minha vida e fez o que quis
hoje até posso afirmar samba é minha raiz
quem nasceu pra sonhar e cantar e tem sorriso de criança
pode embalar em cada canto uma esperança

eu descobri o que é viver e não é sonho ver
um fundo de tanta maldade desaparecer
se o mundo inteiro ouvir
Ivone cantar ao alvorecer

olha como a flor se ascende
se o mundo inteiro ouvir
Ivone cantar ao alvorecer

tiê tiê oiá lá oxá
se o mundo inteiro ouvir
Ivone cantar ao alvorecer

acreditar, acreditar eu não
se o mundo inteiro ouvir
Ivone cantar ao alvorecer

olha como a flor se ascende
se o mundo inteiro ouvir
Ivone cantar ao alvorecer

Encrespou o Mar, Clementina
Walmir Lima – Roque Ferreira
[ ouça ♫ ]

(encrespou o mar)
encrespou o mar Clementina, encrespou o mar
encrespou o mar Clementina, encrespou o mar

no tempo que o malandro era de fato,
não ouvia desacato
tempo de sopa com osso,
lenço branco no pescoço
navalha no paletó,
era bem melhor
malandro era muito diferente
não pegava no batente,
mas tinha disposição
pra enfrentar o camburão, hoje não

casa ainda tinha cumieira,
manga fresca na mangueira
roupa lavada em quintal,
nego era tão legal
bebedor de botequim,
pagava sim
havia muito mais honestidade,
mais fartura na cidade
e mais consideração,
mais velho tinha razão, hoje não

samba era mesmo no terreiro,
refogado no tempero
do feijão da Dona Augusta,
hoje veja quanto custa
é grande a exploração,
não tá mole não
boa companheira dava em cacho,
hoje eu procuro e não acho
é moça pra dar a mão,
precisava permissão, hoje não

Momento Infeliz
Julinho – Moysés Sant’Anna
[ ouça ♫ ]

por culpa de um momento infeliz
a nossa paz, quase foi abalada
senti profundamente o que eu fiz
mas não faz mal
isso não há de ser nada (por culpa)

procurei compor uma canção
tentar esquecer o que se deu
preciso aliviar meu coração
apagar de vez, o que aconteceu

vamos supor que aquele dia não surgiu
o sol se pôs, até a lua se cobriu
afogue as rugas, sem ter medo de errar
e de mãos dadas hoje vamos passear

Saber Viver
Serrano – Guilherme Nascimento
[ ouça ♫ ]

fantástico é saber curtir a vida
se libertar com prazer
ter belos sonhos com seu bem-querer
sorrir, cantar,
lalaiá saborear o doce mel
sentir no peito nosso Papai do Céu

irmão, na vida tudo passa
assim que nem fumaça perdida no ar
entre lamento e sofrimento
mais vale o divertimento que se lamentar

corra, corra atrás do seu ar puro
faça mole o caminho duro, sem desanimar
agüente o ferimento dos espinhos
sem deixar que os inflamem
deixando correr na veia
a fé que incendeia
pra chegar ao fim de uma longa caminhada
e ter feliz jornada

Enredo do Meu Samba
D. Ivone Lara – Jorge Aragão
[ ouça ♫ ]

não entendi o enredo desse samba amor
já desfilei na passarela do teu coração
gastei a subvenção do amor que você me entregou
passei pro segundo grupo e com razão

meu coração carnavalesco não foi mais que um adereço
teve um dez na fantasia, mas perdeu em harmonia
sei que atravessei um mar de alegorias
desclassifiquei o amor de tantas alegrias

e agora sei desfilei sob aplausos da ilusão
e hoje tenho este samba de amor por comissão
finda o carnaval, nas cinzas pude perceber
na apuração perdi você

Boca sem Dente
Almir Guinéto – Gelcy
[ ouça ♫ ]

aquela boca sem dente que eu beijava
já está de dentadura
aquela roupa velha que você usava
hoje é pano de chão
mandei reformar o barraco
comprei geladeira e televisão
e você, e você me paga com ingratidão

mas o que mais me revolta
é não reconhece o que eu fiz por você
obra da fatalidade eu ser desprezado
sem saber porque
você zombou de mim
só fez me aborrecer
sinceramente eu hei de lhe ver sofrer

Primeira Semente
Noca da Portela – Toninho Nascimento
[ ouça ♫ ]

Paulo plantou a primeira semente
e a jaqueira humildemente, cresceu
e através de gerações,
foi mantendo as tradições
que você não conheceu
poetas ritmistas e cantores
eram seu reais valores
e a Portela era feliz
agora que a bananeira deu cacho
você chega lá de baixo
pra cortar nossa raiz

dê uma volta no passado
bem pior quem está errado
e não quer pedir perdão
as folhas da jaqueira que eram belas
hoje estão tão amarelas
como folhas de verão

Fases do Amor
Chiquinho – Marquinho PQD – Fernando Piolho
[ ouça ♫ ]

o primeiro amor enche de alegria
qualquer coração em nossa vida
a mais doce ilusão, a mais doce ilusão
quando na infância se vê de repente
a ingênua visão do amor
quando a gente cresce, ele esmorece
não tem mais valor

no segundo amor, tudo modifica
é bem diferente, a inocência vai
vem a experiência pra nos completar
se aprende a viver
já não se ilude com qualquer prazer
do primeiro amor o que ficou pra trás
não é mais ferida

e assim sucessivamente então
virão, novas aventuras
não devemos ir fundo
porque nesse mundo de desilusões
tem tantas falsas juras
colhendo amarguras, para os corações

Nossas Raízes
Sombrinha – Ratinho
[ ouça ♫ ]

nossas raízes estão enfraquecidas
há tanta gente a se meter em nossas vidas
por que o ouvido não fala
só escuta, a boca se cala
e o óbvio é morrer sem ir à luta

tem boca que fala o que não quer
e até desdenha quando consegue ferir
amor é hora de gritar
pois sentir sem reclamar
é concordar com o inimigo

se for pra morrer
eu morro lutando contigo (se for pra morrer!)

Guadalupe e Sulacap
Cleber Augusto – Nei Lopes
[ ouça ♫ ]

Guadalupe morava em Sulacap
lá morava o Cabo Sula
que queria ser um dia capitão
Cabo Sula com o seu rosto de bode
era o tantan dos pagodes
e era o bambambam da Fundação
mais um dia em pleno Cacique
ouvindo o repique, Guadalupe se baratinou
ao som do banjo de Almir Guineto, carente de afeto
pelo Ubirany se apaixonou

Guadalupe com aquele ‘ar lindinho’
dizia um ‘pagodinho’ no ouvido do seu novo amor
Cabo Sula quando viu a fita
passou a Chiquita, na certa o sombrinha e sereno ficou
mas na hora que escutou os versos
num pagode em Bonsucesso
e todo seu balé
Cabo Sula deu um tremilique
e entrou no Cacique, ele e seu pajé
e saiu pela rua gritando
eu não sou um qualquer


FICHA TÉCNICA — PRODUÇÃO E DIREÇÃO: Milton Manhães e José Sobral / ASSISTENTE DE PRODUÇÃO: Dilson Santos (Dico) / ARRANJOS DE CORDAS: Sombrinha, Arlindo Cruz e Cleber Augusto / SELEÇÃO DE REPERTÓRIO E ARRANJOS DE BASE: Grupo Fundo de Quintal / TÉCNICO DE GRAVAÇÃO E MIXAGEM: Rafael Azulay / MÚSICOS CONCIDADOS: Luiz Fernando (pirulito), Gordinho e Bira Hawai (ritmo), Dinora, Zélia e Maria Helena (coro), Alceu Maia (cavaco) / ESTÚDIOS: gravado nos Estúdios Transamérica, em 16 Canais, em plena primavera (outubro / novembro de 83) / CAPA: Cosme de Oliveira e Oskar Sjóstedt.

Considerações finais

Em seu terceiro trabalho, os pioneiros do pagode refinam e dão forma ao estilo que vinha se consagrando como a via de acesso do samba à música popular dos anos 80. As músicas contemplativas de Nos Pagodes da Vida, lançado em 1983, retornam organizadas em torno de temas do cotidiano carioca e surgem já numa formulação mais moderna e bem definida do pagode. São elas que dão o tom do álbum, embora a abertura fique por conta da agitada “Caciqueando”, música cheia de vibração carnavalesca. Espero que você tenha gostado desse post.

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