Fundo de Quintal O Mapa da Mina

Considerado por muitos o melhor LP do Fundo de Quintal (O MAPA DA MINA, 1986 RGE) é o sexto álbum do grupo, com produção do Maestro Rildo Hora. O disco reúne 12 sambas, sendo a maioria sucesso. Começa com uma “roda de samba da melhor qualidade”, uma SELEÇÃO DE PAGODES de primeira. Esse pot-pourri é bem constante na maioria das rodas de samba de hoje em dia. Temos também SÓ PRA CONTRARIAR, samba que foi lançado nesse disco, fazendo parte também, posteriormente, do elepê solo de Arlindo Cruz “Arlindinho” (1993/Line Record). Não deixando a bola cair, segue de Beto S/Braço e Giovana Ô IRENE. Não poderia faltar a dupla D.Yvonne/Delcio Carvalho em CANSEI DE ESPERAR VOCÊ, Aragão (c/ Dedé da Portela/Dida) em MAIS UMA AVENTURA etc… Enfim, um elepê clássico do samba. Com certeza, um dos melhores discos de meu acervo .


Nelson Rodruigues dizia que toda unanimidade é burra e por isso o texto acima pode ser contestado! Se ouvirmos por exemplo “É Aí que Quebra a Rocha” (1991), o coro contrário pode aumentar! Começando com um medley que tem como título ‘ Seleção de Pagodes ‘ e que já vale por todo o álbum, “O Mapa da Mina” chega aos 34 anos e olhando pra situação atual do grupo, dá saudades dos anos 80 …

Não que o grupo não tenha hoje outros bons álbuns mas é que de uns tempos pra cá eles, como muitos, vivem de regravações e álbuns ao vivos, o que impede que venham outros trabalhos históricos como esse. Dois mega hits do Fundo de Quintal estão nesse LP (que em 2006 foi reeditado em CD) são eles “Só pra Contrariar” e “Ô Irene”. A faixa título e “Sorriu pra Mim” também foram bem executadas nas rádios da época. Conferindo a ficha técnica dá pra ter uma idéia da qualidade, pois composições de Almir Guineto, Jorge Aragão, Mauro Diniz e Zeca Pagodinho estão presentes. Sem falar que Arlindo Cruz na época ainda estava no sexteto. “Cansei de Esperar por Você” é ótima e teve um cover dispensável registrado por Roberta Sá em seu CD “Que Belo e Estranho Dia pra se Ter Alegria”. .

Infelizmente nos anos 90 o Fundo de Quintal foi pro fundo do quintal e ficou a sombra de grupos de pagode(?) que dominaram as paradas de sucesso e viraram figurinhas fáceis nos programas de TV. Resistentes, eles já gravaram vários CD, mas, vale a pena ouvir de novo e sempre “O Mapa da Mina”.

Publico a seguir um texto do jornal O Globo de 1986 (12/12/86) abordando o lançamento de “O Mapa da Mina”.

Fundo de Quintal lança novo LP

“Mapa da mina”. O título do sexto LP do grupo Fundo de Quintal chega a ser profético. Antes mesmo de seu lançamento oficial, o conjunto ganhava com ele o disco de ouro , pela venda antecipada de 220 mil unidades.

O sambista Ubirany, o repinique do grupo, está entusiasmado:

— Agora, estamos trabalhando para chegar ao disco de platina, o que não deve ser muito difícil, pois contamos com alguns carros chefe no disco.

O grande destaque é a seleção de pagodes do lado A, com músicas que têm identificação com as raízes do movimento e de compositores tradicionais como Paulo da Portela, Monarco, Candeia, Elton Medeiros e algumas até mesmo de domínio público, criadas no anonimato dos tradicionais pagodes de fundo de quintal.

Outro ponto reto do disco, que tem a produção de Rildo Hora, é a participação de Beto Sem Braço, que faz parceria com Serginho Meriti e Arlindo Cruz na música que dá título ao disco.

“Só prá Contrariar”, de Almir Guinéto, Sombrinha e Arlindo Cruz, e o afoxé “Força, Fé e Raiz”, de Sereno e Arlindo Cruz, são dois outros destaques , que já estão “puxando” o disco.

O grupo Fundo de Quintal faz questão de manter sua posição de abrir espaço para os bons compositores e, assim, continuar difundindo a música popular brasileira. Para a gravação deste disco eles ouviram mais de 400 fitas, muitas das quais vindas de São Paulo, Bahia, Minas Gerais e outros Estados.

Bira, o criador e líder do grupo, lembra que esta abertura à participação de compositores desconhecidos e importante porque o Fundo de Quintal está tendo um papel primordial na reconstrução musical do País. E lembra:

— O pagode sempre existiu, mas foi somente a partir das inovações introduzidas pelo grupo, como a utilização do banjo e do repinique de mão, além de alterações harmônicas, é que ele realmente saiu do fundo de quintal e conquistou os mais variados espaços.

Ele completa dizendo que o pagode é importante não só como manifestação e preservação de nossa cultura, mas também como mercado de trabalho. Aumentou muito a venda de instrumentos musicais e nunca se tocou tanta música ao vivo no Brasil como depois do advento do pagode.

Logo após o recebimento do disco de ouro, numa grande festa de pagodeiros na Praça da Apoteose, o Fundo de Quintal partiu para Angola, onde, a convite de Martinho da Vila, foi representar o Brasil na Feira Internacional de Indústria e Comércio.

— O sucesso foi tão grande, que apesar de termos somente três apresentações programadas, acabamos fazendo oito — conta Ubirany.

Bira completa dizendo que lá “a gente sente o que eles fazem e eles sentem o que nós fazemos em termos de música”.

— Foi um verdadeiro encontro com as raízes, pois a identificação é muito grande em tudo: na alegria, nos costumes, apesar de Angola estar passando por um período de reconstrução. Encontramos lá manifestações populares que também temos aqui e não sabíamos suas origens.

O intercâmbio, conseqüentemente, foi grande e espontâneo e, antes de sua volta ao Brasil, o grupo Fundo de Quintal pôde ouvir um pagode angolano.


O Mapa da Mina

Fundo de Quintal 1986, RGE (303.6059)
Ouça no spotify, youtube ou itunes
DISCO É CULTURA

REPERTÓRIO / SOLISTAS

Seleção de Pagodes

Chuá, Chuá
D.R

Fui Passear no Norte
D.R

Moemá Morenou
Paulinho da Viola – Élton Medeiros

Baiana Serrana
D.R

Serei Teu Iô-Iô
Paulo da Portela

Vem Menina Moça
Candeia

solistas: Sombrinha, Arlindo Cruz. E no final, Bira Presidente, Ubirany e Cléber Augusto
[ ouça ♫ ]

eu pisei na folha seca/ vi fazer chuá, chuá/ eu também pisei na folha seca/ vi fazer chuá, chuá/ chuá, chuá…/ juro por Deus que não minto/ com sinceridade eu vou lhe contar/ porque/ eu pisei na folha seca/ vi fazer chuá, chuá/ chuá, chuá…// bem cansado de pagode/ me mandei pro Ceará/ mas eu fui passear

fui passear no Norte/ gostei muito, tive sorte/ conheci o Ceará,/ o meu Ceará/ encontrei uma cearense/ que gostou de mim/ tenha paciência/ com cearense eu não quero nada/ porque/ Ceará botou/ Santo Antônio na jangada// amigo se for à Recife/ me traga um rifle de papo amarelo/ também me traga uma caixa de bala/ que dê no calibre do meu parabelo/ se você for na Bahia/ me traga uma caixa de bala dum-dum/ eu preciso munição/ pra botar no oitão/ e pegar um por um

Moemá morenou/ a água do mar te molhou/ o sol da Bahia te queimou/ teu corpo morena morenou

baiana serrana/ eu queria partir/ e ela me pediu/ para eu não ir/ lalá, laiá/ dizendo se eu abandonasse/ a Serrinha/ ela jamais seria minha/ então eu resolvi a ficar/ pra não ver a minha baianinha chorar/ pra não ver a minha baianinha chorar// seu Chico Bento bota a camisa pra dentro/ quem mandou foi o sargento/ do primeiro batalhão/ houve uma blitz no Morro do Juramento/ foi tremendo vucovuco/ foi tremenda confusão/ eu tô de ronda na esquina/ cacetete de borracha não pode faltar/ eu dou em cima/ dou no meio/ dou embaixo/ quem mandou foi o sargento/ da Polícia Militar

serei teu ioiô / tu serás minha iá-iá/ a vida feliz/ bem longe daqui/ iremos provar/ só tem duas coisas/ que pode impedir/ você a sorrir me perguntará/ — meu bem que será/ olha eu que bem sei/ te responderei/ a sombra da inveja meu bem/ ou golpe de azar

teu olhar tá me dizendo/ você quer me namorar/ mas papai não quer deixar…/ um palacete pra morar/ vem menina moça…/ um carrão pra passear/ vem menina moça…/ pro cacique desfilar/ vem menina moça…/ vou te dar muito carinho/ mil beijinhos vou te dar/ mas papai não quer deixar…/ todo mundo vai versar/ vem menina moça…/ meu pandeiro eu vou tocar/ vem menina moça…/ miudinho eu vou sambar/ vem menina moça…/ vivo só pra te adorar/ vem menina moça…/ eu não posso vacilar/ vem menina moça…/ vem depressa me encantar/ vem menina moça…/ sem querer me abandonar/ vem menina moça…/ eu prometo te amar/ vem menina moça…/ ô sereno, o quê que há/ vem menina moça…

Só prá Contrariar
Almir Guineto – Arlindo Cruz – Sombrinha
Arlindo Cruz, Sombrinha (solistas), José Menezes (violão tenor)
[ ouça ♫ ]

só pra contrariar, eu não fui mais na favela
só pra contrariar, não desfilei na Portela
só pra contrariar, pus a cara na janela
só pra contrariar, eu não fiz amor com ela

contrariei, sabendo que ainda era a mais bela
e tinha malandro ligado na dela
que nunca deu bola, que nunca deu trela
contrariei, revelando segredo que não se revela
só pra contrariar, ela ainda é donzela

contrariei, e acho que dei um bico na canela
desprezando o que todo o mundo zela
como trunfo, jóia, escultura ou tela
contrariei, mas desta castidade abri a fivela
só pra contrariar, ela ainda é donzela

Ô Irene
Beto Sem Braço – Giovana
Sereno, Ubiranby, Cléber Augusto, Sombrinha, Arlindo Cruz (solistas)
[ ouça ♫ ]

ô Irene, ô Irene
ô Irene, ô Irene
vai buscar o querosene
pra acender o fogareiro

mel, alfavaca feitiço manjericão
arruda e guiné pra dispersar o mau olhado

meu pai minha mãe mandou
meu pai minha mãe mandou você
tomar um banho de alecrim cheiroso
Irêne

O Mapa da Mina
Arlindo Cruz – Beto Sem Braço – Serginho Meriti
Sombrinha, Arlindo Cruz (solista), José Menezes (violão tenor)
[ ouça ♫ ]

eu vou pensar se vou te dar o mapa da mina
e até pensar se vou te dar o mapa da mina

você não vai me comprar jamais
com sua propina
pois eu não me vendo moço
sou duro, sou osso e osso não inclina

mas se chegar sua hora
e na hora provar que é gente fina
pode ser que eu vá te dar
o mapa da mina
e até posso te dar pra ajudar
o mapa da mina

você não vai me encontrar por aí
em qualquer esquina
pois tenho minha bagagem
sou da malandragem e ninguém me ensina

mas se eu provar teu veneno
e for café pequeno não estricnina
pode ser que eu vá te dar
o mapa da mina
e até posso te dar pra ajudar
o mapa da mina

No Calor dos Salões
Guilherme Nascimento – Roberto Serrão
[ ouça ♫ ]

hoje é o grande dia
vamos todos festejar
essa união que faz o povo
sambar e cantar
Vila ou Portela, Mocidade ou Cabuçu
palmas pro Salgueiro, pra Mangueira e a Beija Flor

caprichosamente coração se revelou
se fez guerreiro imperial
cacique é Carnaval

e no calor dos salões
esqueço a vida, sambo pra valer
deito e rolo no prazer

Nem Lá, Nem Cá
Cléber Augusto – Nei Lopes
Cléber Augusto (solista), realejo e gaita (Rildo Hora)
[ ouça ♫ ]

eu hoje estou igual
a esta cerveja deste bar
nem gelada, nem quente
nem bom, nem doente
nem lá, nem cá

garçom
me traz então
um bom traçado igual a mim
nem vazio, nem cheio
a dose meio a meio

assim assim
hoje eu sou um laço
que não ata e nem desata
sou sustenido, sou bemol
sou dia que não chove
e nem faz sol
é, hoje eu estou assim

eu hoje estou assim
nem mal, nem bem
nem mau, nem bom
feito um samba canção
à meia luz, num meio tom
feito um samba canção
nem samba
e nem canção

Sorriu prá Mim
Sereno – Mauro Diniz
Sereno (solista), Rildo Hora (realejo, gaita), José Menezes (violão tenor)
[ ouça ♫ ]

sorriu pra mim
provocando uma festa em meu coração
nasceu assim
uma grande paixão
em seu olhar
um brilho de ternura ofusca o luar
que se escondeu para o sol despertar

aconteceu o amor floriu
igual a uma estrela cadente
ao ver.que me sorriu.
venho alegrar meu interior
pois ele estava tristonho carente de amor

e assim todo céu reluziu
outra vida surgiu
nova emoção apossou-se de mim
em forma de canção
deixo minha voz solta pelo ar
então cantei, cantei e vou cantar
pois me faz feliz
ver essa raiz
que um dia vai brotar

Receita da Sorte
Arlindo Cruz – Acyr Marques – Franco
Arlindo Cruz, Ubirany (solista), José Menezes (violão tenor)
[ ouça ♫ ]

olhar de secar pimenteira não vai me secar
bate três vezes na madeira (pra que?), isolar
um bom galho de arruda sempre ajuda a clarear
pra quem tem fé, guiné, no bolso um patuá

se a coisa anda torta
ferradura atrás da porta
se caiu quebrou o espelho
pega no pé de coelho
senão sabe como entrar
o pé direito é o de pisar
se feliz deseja ser
ache um trevo pra colher

fizeram um trabalho bem feito
jogaram pra cima um sanhaço
não pega em quem leva no peito
a velha corrente de aço

axé, eu quero axé, todo mundo quer
axé, eu quero achar, pra melhorar
a força do pensamento é quem traz bom vento
e faz positivar
olhar de secar pimenteira

bota banca e roupa branca quando o ano começar
pra quem tem fé, guiné, no bolso um patuá
faça figa, cruze os dedos, que seu dia há de chegar

Primeira Dama
Arlindo Cruz – Marquinhos China – Sombrinha – Zeca Pagodinho
Sombrinha (solista)
[ ouça ♫ ]

por onde andará
a minha primeira dama
me abandonou e me disse não
não escutou a razão, partiu
e nem me deu perdão

anunciei no rádio e na televisão
classifiquei seu nome na relação
pedi auxílio, achei fartura
que ajudou na procura
pra curar meu coração

Cansei de Esperar Você
D.Ivone Lara – Délcio Carvalho
Sereno (solista), D. Ivone Lara (gorjeio)
[ ouça ♫ ]

quando cansei de esperar você
vi minha estrela maior renascer
vi minha vida mais colorida
cheia de encanto e de mais prazer

vi quando o mar se abriu
deixando passar todo o meu sentimento
até na chuva e no vento
vi a luz da poesia

minha alegria voltou
brilhando no alvorecer
quando deixei de amar
e esperar por você

Força, Fé e Raiz
Arlindo Cruz – Sereno
Arlindo Cruz (solista), José Menezes (violão tenor), Ubirany (gorjeio)
[ ouça ♫ ]

axé, axé
cheia de graça é a nossa raça cor de café
passa o que passa e só por pirraça, caem no afoxé
axé, axé
chega de pranto meu bem abre o peito e vem cantar
quem sofre tanto também tem direito de debochar
axé

ninguém nega que o negro é
muita força, fé e raiz
tem quem negue que o negro quer
liberdade é o que sempre quis
mas nem sempre alcança
e não perde a esperança
solta o corpo e balança
dança pra ser feliz

Mais uma Aventura
Jorge Aragão – Dedé da Portela – Dida
Bira Presidente (solista), José Menezes (cavaquinho, violão tenor)
[ ouça ♫ ]

mais uma aventura
outro amor que passa
novamente o coração
entrou na contramão
foi mais uma ilusão

eu me atirei e até pensei
que era de verdade
maldade, você me enganou
saudade me leva que eu vou


FICHA TÉCNICA — PRODUÇÃO: Rildo Hora / ORQUESTRAÇÃO E REGÊNCIA: Rildo Hora / MÚSICOS: Sombrinha (violão de 7 cordas e cavaquinho), Cléber Augusto Sombrinha nas fxs. 3B – 4B (violão de 6 cordas), Arlindo Cruz (banjo e apitos), Sereno (tan-tan), Ubirany (repique de mão), Bira Presidente (pandeiro), Gordinho (surdo), Papão (bateria), Trambique (repique), Paulinho da Aba (tarol), Pirulito (agogô, tamborim, atabaque), Leonardo Bruno, Edgardo, Luiz, Jaime, Jorge Alexandre, Fátima Regina, Analimar, Mart´nália, Dinorah e Zélia (côro) / TÉCNICOS DE GRAVAÇÃO: Luiz Carlos T. Reis, Mario Jorge / FOTO: J. Alexandre Fonseca / ILUSTRAÇÃO: Mário “Bag” / FORMAÇÃO FUNDO DE QUINTAL: Bira Presidente, Ubirany, Sereno, Arlindo Cruz, Sombrinha, Cléber Augusto

Considerações finais

Espero que você tenha gostado desse post com o álbum “O Mapa da Mina” do Grupo Fundo de Quintal, lançado em 1986 pela RGE. Se assim for, encorajo você a se inscrever na newsletter do blog, abaixo. Ao informar seu email, você receberá todas as novas publicações do blog automaticamente.

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