Os 5 Crioulos

Os 5 Crioulos

Apesar de sua curta vida, o grupo de samba Os Cinco Crioulos está inscrito no meio da galeria imprescindível do gênero. Formado pelos integrantes do grupo A Voz do Morro e posteriormente Rosa de Ouro, Os Cinco Crioulos teve o grande Mauro “Bolacha” Duarte substituindo Paulinho da Viola. Os outros membros foram Anescar do Salgueiro (Nescarzinho), Jair do Cavaquinho, Nelson Sargento e Elton Medeiros. O primeiro dos três álbuns gravados para a Odeon foi lançado em 1967, Samba…no Duro. “No Duro Vol. 2” foi lançado no ano seguinte e, em 1969, esse que trago neste post: “Os 5 Crioulos”. O grupo se reuniu novamente em 1990 (sem Mauro Duarte, que morreu em 1989), especialmente para um especial da TV Cultura (Ensaio) dedicado a Paulinho da Viola. A seguir transcrevo o texto publicado na contracapa do elepê assinado por Arley Pereira. Espero que gostem o disco é muito bom.


Os Cinco Crioulos vocês sabem, são produto da depuração do cadinho de samba que misturou o conjunto original A Voz do Morro com seu sucessor, que se chamou Rosa de Ouro, nascido no espetáculo de mesmo nome, do poeta Hermínio Bello de Carvalho, um dos principais responsáveis por se ouvir hoje — e êste LP é exemplo disso — música popular brasileira. Os mesmos Cinco Crioulos que vez ou outra — pra alegria da gente — viram a chave na fechadura lá de casa, São Paulo espalhando pelos cantos tamborim, pandeiro, violão e afoché. Que o Q. G. paulista deles é na Avenida Ipiranga, onde o Jair deixa um pouco o cavaquinho para cuidar de um refogado com nuanças branco-azuis da sua Portela, enquanto o Anescar (que lá é Nescarzinho mesmo) se preocupa mais em olhar, quieto, pela janela ou contar coisas do Morro do Salgueiro. Nelson Sargento que estão sujando o branco que ele derramou (entremeando o preparo de suas tintas com muito samba do seu ex-violão verde, que hoje descansa na mesma parede que nem os instrumentos originais do já falado Rosa de Ouro) em todos os cômodos. O Elton remexe na discoteca procurando coisas para apresentar no programa de rádio do conjunto enquanto o Mauro vai servindo “cana” pra todo mundo e reclama do Jair a demora da “gordura”.

Depois do almoço ou do jantar, ou tenha lá o nome que tiver, que essas coisas nunca tem hora pra acontecer, o negócio esquenta. Ou é o Elton que começa a bulir no cavaquinho e o Jair vem logo “para mostrar o acorde certo”, ou é o Anescar que bate um tamborim em surdina enquanto o Mauro roda o afoché nas mãos. O violão provoca nas “baixarias” do Nelson Sargento e a “jiripoca começa a piar” quando o Elton chega de pandeiro ou escolhe a caixa-de-fósforos (que ninguém bate como ele, em lugar nenhum) se a coisa é de madrugada.

É um lembra “aquele samba”, outro emenda na deixa, alguém puxa o samba-enrêdo de sua Escola, até que o inevitável acontece, quando um refrão de partido-alto convida pro improviso, que não pára mais. Tudo muito bom, muito lindo lavando a alma e o coração da gente, tão precisados disso, compensando mesmo a “destruição” da única coleção de pinga, que não chega nunca a décima garrafa diferente, sendo “consumida” a cada roda-de-samba na Avenida Ipiranga. Mas, não tem nada não. A coleção já começou outra vez e vocês estão convidados agora a participar da roda, com os Cinco Crioulos fazendo aí na sua cada tudo que fazem na nossa. E olhem que não é muita gente que pode sair por aí, se vangloriando de tais ilustres visitas.

Escolham aí um gole da “Azuladinha” ou da “Chora na Rampa”, dêem uma bicada na “Recordações de 1940” ou se preferirem tem da “Mocotolina” também, sem falar naquelas que os rótulos não podem ser lidos em público. Já “municiados” em “paiol” brasileiro saibam que vocês vão ouvir música brasileira. Seis inéditas e cinco já conhecidas. Que desta vez — êste é o terceiro volume dos Cinco Crioulos — eles fugiram um pouco daquela formula a que se obrigaram nas gravações, de lugar uma música inédita de cada um deles e regravar sete sucessos do passado. Acontece que a raíz dêste LP é um compacto que não chegou a ser gravado e que teria o partido-alto de Candeia e Casquina “Vida Apertada” e o “Machucando o Jiló”, de Geraldo Babão. Assim, ao invés de cinco, ganhamos sete inéditos.

Gargalhei” de Henrique Almeida, Arnô Canegal e Augusto Garcez, surgiu originalmente na voz de Carlos Galhardo em 1939 e abre agora este elepê com Nescarzinho do Salgueiro fazendo o solo, no samba do trio que, separadamente, marcou muito sucesso na música popular. — Em “Vida Apertada“, quem faz o solo é o portelense Jair do Cavaquinho, não fossem os autores do partido-alto (Candeia e Casquinha) tão de Oswaldo Cruz quanto ele. — Já Mauro Duarte é quem “dá o recado” no “Em Cima da Hora” que João Petra de Barros gravou originalmente em novembro de 1939. Há quem diga que o parceiro de Russo do Pandeiro neste samba foi Peter Pan, mas na realidade quem fez “Em Cima da Hora” com o Sr. Antônio Cardoso Martins, foi mesmo o parceiro predileto de Gadé, esse extraordinário Walfrido Silva de tantas glórias. — “Só Vou Dizer“, de Nelson Sargento, é a primeira faixa de um dos “Crioulos”. O samba (que segundo um “crítico”, num Festival não tem tessitura), é solado pelo próprio compositor da música por demais exaltada Estação Primeira de Mangueira e chama atenção pela introdução “característica” improvisada por Nelsinho, que uniu seu trombone à flauta de Altamiro Carrilho e ao sax-alto de Abel Ferreira, que para surpresa — evidentemente agradável — dos Cinco Crioulos, foram incluídos na gravação, dirigida por esse mesmo monstruoso maestro Nelsinho. — “Aquela Nêga” fecha a face “A”, é uma música de um compositor de Ala da Escola de Samba (Élton Medeiros, da Unidos de Lucas) á letra de um intelectual, assistente de Marcus em Berlim (Nuno Veloso) em mais um produto dessa coisa bonita de integração musical que só a música popular brasileira consegue. — “À Sombra do Salgueiro” é a faixa mais longa e nela Nescarzinho do Salgueiro sola o samba que fez com seu mais habitual parceiro, Ivan Salvador.

Olhem aí, irmãos. Reforcem a dose com uma “Chororô” uma “Areia Branca”, ou — em homenagem ao som — uma “Batucada” destilada em Barreiros, no interior de Pernambuco, e virem o disco, que ainda tem muita lenha pra queimar. Não esqueçam de dar atenção a “cozinha”, onde se misturam cuíca, surdo-tamborim, reco-reco, agogô, atabaque e pandeiro, passando pelas mãos de Juquinha, Luna, Marçal, Elias, Jair do Pandeiro e Eliseu. Que os “Cinco Crioulos” estão — folgados — só colocando mesmo a voz na bolacha. E esses violões que a gente ouve só podem ser do Meira e do Arlindo Ferreira, enquanto o cavaquinho (que quem está por dentro já sentiu a afinação em Ré/Sol/Sí/Ré é do Índio, de dedos firmes e palhetas seguras. Mas virem o disco, que tem mais.

“Lamentação” abre a face “B”. Mauro Duarte é seu compositor e solista e, na ordem cronológica da gravação do Lp foi a primeira que o conjunto gravou. Fiel ao seu estilo , reparem na beleza dos versos do compositor da Foliões de Botafogo e no solo de Abel Ferreira, lembrando aquêles que fazia, seu sax-alto acompanhando os Quatro Ases e Um Coringa. — “Fingiu que não me Viu” é de uma das mais famosas duplas de compositores carnavalescos: Haroldo Lobo e Milton de Oliveira, criadores de um sem número de sucessos de fevereiro (lembram-se de “Passarinho do Relógio”; “Passo do Canguru”; “Tem Galinha no Bonde”; “A Mulher do Leiteiro” etc?) e quem faz o solo é Nelson Sargento. — “Machucando o Jiló” é uma batucada de Geraldo “Babão”, que, apesar de ser compositor do Salgueiro lançou-a na quadra de ensaios do Bloco Carnavalesco Foliões de Botafogo. — “Solidão” é outro samba original, que seu autor, Jair do Cavaquinho mostra, naquela mesma linha tímida que marca o trabalho do compositor de “Barracão de Zinco”. – “Meu Amor Foi-se Embora” [ ouça ♫ ] é de Chiquinho da Mangueira (Francisco Modesto), dono de uma “tendinha” lá no “Chalet”, no tôpo do morro mais famoso, de parceria com Germano Augusto, o português que tanto samba fêz, principalmente com Kid Pepe. O solo é de Élton Medeiros e esta faixa encerra o LP.

No mais, vamos tratar de recomeçar (outra vez) a coleção. E lamentar que não tenha saído dela o “combustível” usado pela turma quando da gravação, que começou as 14 horas e foi direto até as 2 da madrugada. Que mais tempo não foi necessário.

Arley Pereira
contracapa


Os 5 Crioulos

1969, Odeon (MOFB 3616)
DISCO É CULTURA

REPERTÓRIO

Gargalhei
Henrique de Almeida – Augusto Garcês – Arnô Canegal
Nescarzinho (solo)
[ ouça ♫ ]

quem disse que eu chorei, mentiu
gargalhei de alegria
quando o meu amor partiu
pensando que ela foi embora e não voltou
é mais uma gargalhada que eu dou

amando, fui de mal a pior
sozinho, vivo muito melhor
sorrindo, vou procurando esquecer
invés de sofrer
eu sinto mais alegria em viver

Vida Apertada
Candeia – Casquinha
Jair do Cavaquinho (solo)
[ ouça ♫ ]

estou com a vida apertada
mas hei de sair desse nó

se ficar marcando toca
vão fechar meu paletó

dizem que foi uma nega
que fez um feitiço pra mim
porém a ela não dou bola
pego a viola e canto assim

bate o pé, bate a mão
bate bate como pé no chão
só a viola controla a tristeza
que trago no meu coração

Em Cima da Hora
Walfrido Silva – Russo do Pandeiro
[ ouça ♫ ]

tá em cima da hora
nêga não chora
que eu vou me embora
a batucada me chamou
a lua lá no céu já brilhou
é o samba quem manda
eu vou eu vou

eu já fiz tudo
pra você compreender
que o samba
é a razão do meu viver
não adianta você reclamar
só volto quando a orgia acabar

Só Vou Dizer
Nelson Sargento
Nelson Sargento (solo)
[ ouça ♫ ]

eu não vou sofrer
não vou chorar
nossa separação
eu só vou dizer
que você não tem coração

eu já esperava
essa ingratidão
eu só vou dizer
que você não tem coração

Aquela Nêga
Elton Medeiros – Nuno Veloso
[ ouça ♫ ]

depois do muito que passei sem te encontrar agora estou voltando
aquela nêga que um dia te ganhei em plena madrugada
que me levou a promover a revisão de toda a minha vida
trocando o piso do meu chão e a rima fácil do meu coração
mas o melhor dessa história está pra vir e vou te confessando
ninguém vai me acreditar
que o caso é muito ‘mermo’ pra se duvidar

teve apartamento conjugado mas com água correndo
levando a correção por conta de um aumento
e a nêga não sorria, sempre a cismar
mas o jeito mesmo foi trazer a nêga pro seu canto
e nessa decisão eu fiz calar seu pranto
e os olhos da neguinha outra vez brilhar

À Sombra do Salgueiro
Nescarzinho – Ivan Salvador
Nescarzinho (solo)
[ ouça ♫ ]

meu amor
vê se volta
para mim
sinto, já estou chegando ao fim

meu amor
como é triste
saber que a saudade existe
e você, ela insiste no seu pertubar
eu que sou mais fraco quero a morte

meu amor, meu amor
estou na curva do caminho
esperando por você
ai ai ai meu Deus
pra voltar ao nosso ninho (meu amor)

meu amor, meu amor
nosso lar ainda é o mesmo
tem a sombra do salgueiro
sem cercado e sem dinheiro

Lamentação
Mauro Duarte
Mauro Duarte (solo)
[ ouça ♫ ]

meus olhos, água
meu peito, mágoa
minha boca, vazia
igual minhas mãos
e meus ouvidos
cheios de lamentação

sem ideal, esperando o Carnaval
pra matar minhas penas
na esperança que um canto
venha sufocar meu pranto
mas Carnaval, são três dias apenas

Fingiu que não me Viu
Haroldo Lobo – Milton de Oliveira
Nelson Sargento (solo)
[ ouça ♫ ]

jamais eu imaginei
que você fosse ingrata assim
passou bem pertinho de mim
que dor
que meu coração sentiu
e você teve a coragem
de fingir que não me viu

não sei nem posso explicar
porque assim procedeu
passou por perto de mim
fingiu que não conheceu
eu tenho plena certeza
que nada eu fiz de mal
sofrer assim por amor
é natural

Machucando o Jiló
Geraldo “Babão”
[ ouça ♫ ]

o samba
é de fato legal
porque não tem
o tal de preconceito
o negro
pode sambar à vontade
o branco também tem o seu direito

não existe distinção
quando entra a bateria
a linguagem é uma só
a moçada manda brasa
com a harmonia em cadência
só machucando o jiló

machucando o jiló
na velha base da rima
machucando o jiló
botando o samba pra cima

Solidão
Jair do Cavaquinho
Jair do Cavaquinho (solo)
[ ouça ♫ ]

Deus,
somente Deus
é quem sabe
dos sofrimentos meus

já fui feliz
nunca pensei
em viver nessa solidão
já pedi a Deus do céu
pra devolver
aquela que me fez
ingratidão

Meu Amor Foi-se Embora
Chiquinho da Mangueira – Germano Augusto
Élton Medeiros (solo)
[ ouça ♫ ]

eu vivo no mundo
sem felicidade
eu vou chorar
porque não sou feliz
meu coração
palpita toda hora
meu amor foi-se embora
não sei onde mora
quem é que não chora

quem perdeu um grande amor
não tem mais o que perder
não quer saber de mais nada
perde o gosto de viver
o meu amor foi-se embora
mas espero ele voltar
a casa está preparada
pro dia em que ele chegar


FICHA TÉCNICA — PRODUÇÃO: Milton Miranda / DIREÇÃO MUSICAL: Lyrio Panicali / ARRANJOS E REGÊNCIAS: Maestro Nelsinho / DIRETOR TÉCNICO: Z. J. Merky / TÉCNICOS DE GRAVAÇÃO: Nivaldo e Jorge / FOTO: Mafra / LAY-OUT: Moacir Rocha.

Considerações finais

Espero que você tenha gostado desse post com o álbum do Grupo Os Cinco Crioulos, formado por Nelson Sargento, Elton Medeiros, Nescarzinho, Jair do Cavaquinho e Mauro Duarte (só fera!). O Lp foi lançado em 1969 pela Odeon.

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