Samba…no duro

Disco Os Cinco Crioulos

“Samba…no duro” primeiro álbum gravado pelo grupo Os Cinco Crioulos formado por membros dos grupos A Voz do Morro e Rosa de Ouro — Elton Medeiros, Nelson Sargento, Jair do Cavaquinho, Mauro Duarte e Anescar do Salgueiro, saiu pela Odeon em 1967 e abriu caminho para mais dois trabalhos no final dos anos 60.


A seguir, transcrevo o texto publicado na contracapa do LP:

O grupo de sambistas que neste LP apresenta vários sambas de sua autoria e mais uma série de excelentes sambas, que vão de um passado remoto (vide “Pelo telefone”) a um passado recente (vide “Chica da Silva”), é remanescente do extraordinário conjunto Rosa de Ouro (Vols. I e II), discos ODEON MOFB-3430 e 3494, respectivamente. Apenas Paulinho da Viola, que aparecia no grupo da Rosa, foi substituído por Mauro Duarte, neste grupo dos Cinco Crioulos. Nomear um por um é o que fazemos, para que o dono dêste LP veja que êles trilharam o caminho da autenticidade, daí o motivo pelo qual cada faixa do disco consegue ser um primor de ritmo e interpretação.

ELTON MEDEIROS — Já aos 14 anos saía em blocos carnavalescos e compunha os seus primeiros sambas. Mais tarde fundaria o bloco Tupi de Brás de Pina, posteriormente elevado à condição de escola de samba. Transferiu-se depois para a Escola de Samba Aprendizes de Lucas, onde permaneceu até a recente fusão desta com a Unidos da Capela, o que veio a dar na atual Escola de Samba Unidos de Lucas. Elton, sempre presente nos movimentos em prol da nossa música popular, fundou a Ala dos Compositores de Aprendizes de Lucas (única no gênero) e foi um dos grandes incentivadores do Zicartola, casa onde os espetáculos de bom samba foram os primeiros passos para a valorização do samba autêntico. Participou de vários musicais, tais como o já célebre “Rosa de Ouro” e, com o poeta Walmir Ayala, escreveu o espetáculo “Chão de estrêlas”, baseado na vida de Orestes Barbosa, sendo ai o diretor musical.

“Samba…no duro” primeiro álbum gravado pelo grupo “Os Cinco Crioulos”, saiu pela Odeon em 1967 e abriu caminho para mais dois trabalhos no final dos anos 60.

JAIR DO CAVAQUINHO — Seu nome verdadeiro é Jair Costa. Ganhou o apelido porque desde 1930, quando entrou para a GRES da Portela, o cavaquinho tem sido o seu instrumento inseparável. Sapateador emérito e bom partideiro, costuma dizer que tudo aprendeu com João da Gente, Alberto Lonato e vários outros que — como êle — foram contemporâneos na agremiação do grande Paulo da Portela. Também participou de vários espetáculos de exaltação ao samba, entre os quais “A hora e a vez do samba”; e antes de ficar conhecido, através do Rosa de Ouro, já fazia sucesso como compositor.

MAURO DUARTE — É da Ala dos Compositores do Império Serrano, mas sua grande paixão são os blocos carnavalescos, tendo participado da fundação de vários dêles, como é o caso atual do Bloco Carnavalesco Foliões de Botafogo. Quando o Grupo Opinião lançou o espetáculo “A hora e a vez do samba”, Mauro revelou-se tão bom ator que acabou no cinema, trabalhando nos filmes “Coração de ouro” (baseado no notivo samba do mesmo nome, de Elton e Joacyr Santana) e em “O homem nu” (baseado na famosa crônica de Fernando Sabino).

NELSON SARGENTO — Mangueirense doente. Nasceu na Praça XV, foi morar depois no Salgueiro, mas aos 12 anos já era da Estação Primeira. Aprendeu a tocar violão com o veterano Cartola, por quem não esconde uma profunda admiração. Sua dedicação ao samba tem início com sua parceirada com o falecido Alfredo Português, numa dupla responsável por vários sambas de enredo da Mangueira, tais como “Rio São Francisco” (1948), “Apologia dos mestres” (1950) e “Primavera” (1955). Como os outros — salvo Mauro Duarte — fêz parte do importante conjunto A Voz do Morro, o primeiro a entrar num estúdio de gravação para gravar e desagravar o bom samba.

NESCARZINHO DO SALGUEIRO — Ou Anescar, salgueirense cujo cartão de visita se poderia resumir nesta verdade: co-autor de “Chica da Silva”. Tímido em público, é um respeitável improvisador em roda-de-samba. Entre os seus sambas mais famosos, além do citado “Chica da Silva”, estão “Água do rio” e “Quilombo dos Palmares”. Antes de o Salgueiro reunir suas escolas de samba numa só, para a formação da atual Acadêmicos do Salgueiro, Nescarzinho era o mais esforçado colaborador do falado Mané Macaco, na extinta Escola de Samba Unidos do Salgueiro.

DO REPERTÓRIO — Na face “A”: “O mundo encantado de Monteiro Lobato” [ ouça ♫ ] é o samba-enrêdo que deu a Mangueira o primeiro lugar no carnaval dêste 1967. De autoria de Batista da Mangueira, Darcy e Luiz, aqui como solista Nelson Sargento. “Fica doido varrido”, [ ouça ♫ ] um bom samba do repertório de Silvio Caldas, feito por Frazão e Benedito Lacerda, é um dos melhores números do disco (ritmo, principalmente) e tem a segunda parte na voz de Nescarzinho. “Ó seu Oscar”, [ ouça ♫ ] de Ataulfo e Wilson Batista, ganhou o carnaval de 1940, na voz de Ciro Monteiro. Aqui o solista é o alegre Jair. “Brigaram pra valer”, [ ouça ♫ ] do saudoso Geraldo Pereira, marca a estréia de Mauro Duarte como solista do Grupo Cinco Crioulos. É um samba que merecia uma nova versão, como tudo, aliás, que Geraldo compôs. “Vou partir”, [ ouça ♫ ] Nescarzinho, autor e intérprete. “Vai dizer a ela” [ ouça ♫ ] é um dos melhores sambas de Nelson Sargento e seu constante parceiro Marreta. O andamento lento e — acima de tudo — a interpretação de Nelson Sargento surpreendem favoravelmente o ouvinte. “Pelo telefone”, [ ouça ♫ ] de Donga e Mauro de Almeida, o primeiro samba gravado ou, pelo menos, o disco em cujo selo pela primeira vez saiu o nome “samba”, surgiu em 1917. O solista é Elton Medeiros. É a primeira faixa da face “B”. Em seguida: “Chica da Silva”, [ ouça ♫ ] na sua melhor versão, embora Monsueto tenha gravado uma outra muito boa, também na ODEON. Vai tudo em côro.

“Eu nasci no morro” [ ouça ♫ ] é a dignidade do samba de Ary Barroso, quando interpretado sem a vestimenta falsa dos programas de rádio e televisão. Outra vez Elton como solista, tal como na faixa seguinte — “Aurora de paz” [ ouça ♫ ] — dele e de seu parceiro Cacaso. “Barba de môlho” [ ouça ♫ ] é a contribuição de Mauro Duarte como compositor para o repertório do grupo. Ouvindo-o cantar seu samba, notamos que Paulinho da Viola teve um substituto à altura. Para encerrar, “Defensor do samba”, [ ouça ♫ ] com Jairzinho em grande forma.

Sergio Porto
contracapa


Samba…no duro

Os Cinco Crioulos 1967, Odeon MOFB 3502 – DISCO É CULTURA

Disco Os Cinco Crioulos
capa: Moacyr Rocha

produtor fonográfico Indústrias Elétricas e Musicais Fábrica Odeon S/A
equipe de produção artístico-fonográfica realizadora dêste disco:
Milton Miranda (diretor de produção), Lyrio Panicali (diretor musical), Orlando Silveira (orquestrador e regente), Z. J. Merky (diretor técnico), Nivaldo (técnico de gravação), Reny R. Lippi (técnico de laboratório), Moacyr Rocha (capa).

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