Paulinho da Viola (1968)

Capa do Disco Paulinho da Viola 1968

“Paulinho da Viola” é o primeiro álbum de estúdio do sambista carioca Paulinho da Viola, lançado em 1968 pela gravadora Odeon. Paulo César Batista de Faria (12/11/1942 Rio de Janeiro, RJ) apresentou temas como “Sem ela eu não vou”, “Coisas do mundo, minha nêga” além de interpretar canções de Cartola, como “Amor proibido” e “Vai, amigo” além de parcerias com Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho em “Samba do amor”. Abaixo transcrevo o texto publicado na contracapa do LP, assinado pelo próprio Paulinho, aonde ele faz sua “autobiografia”.

Paulinho da Viola pertence a mais alta linhagem do samba carioca: cantador, ele segue a escola de Mario Reis, Luís Barbosa e João Gilberto. Compositor, ele vem com a mesma fidalguia de um Cartola e de Geraldo Pereira, e com elegância pessoal que caracterizou o mestre Paulo da sua amada Portela. Dono da mais linda voz masculina aparecida nesses últimos anos, ele jamais participou de esquemas publicitários ou se beneficiou dos muitos movimentos que se armaram à sua volta, ficando num canto da vida armando seus sambas, matutando seus versos tão sinceros e dando de ombros para tudo o que cheirasse a promoção. O mundo de Paulinho, ele o carrega em seu coração trazendo os olhos sempre abertos para os muitos caminhos propostos para a nossa música nestes últimos dez anos. Mas não se engana: seu pensamento é brasileiro, e ele o formula dentro de um nacionalismo que não transige com fórmulas estranhas que pregam a descaracterização de nossa linguagem. “As coisas estão no mundo, só que preciso aprender” — diz ele num de seus versos mais sábios. E o compositor foi por aí, na voz da enluarada Elizete, exaltado por Aracy de Almeida em versos de Caetano, caminhando ao lado de seus parceiros, levando pra frente, sem alardes ou faixas, a sua música tão serenamente plantada no chão do amor. Ai vai a autobiografia de Paulinho da Viola: “Em 1960, eu e alguns amigos da Vila Valqueire ( lugar aonde fui criado depois dos 12 anos, apesar de ter nascido em Botafogo e residido neste bairro até bem pouco tempo) fundamos um bloco carnavalesco que se chamou Foliões da Rua Amália Franco. Ai, fiz a minha primeira experiência como compositor (lancei um samba que, confesso, não tenho mais coragem de cantar) e a segunda como sambista (quando era menino, saia no Carijó em Botafogo tocando tarol). Nenhum dois dois blocos existe mais e alguns componentes do primeiro, Washington, Broa, Bira, Neguinho e Joel, ajudaram, posteriormente na organização de outro que atualmente é um dos grandes blocos do Rio: o Unidos da Fazenda da Bica. Nós foliões criamos um pequeno conjunto de samba constituído de Celso (e seu incrível bongô), Clarindo (cantor), Clezie (no pandeiro), Osmando (cavaquinho) e eu na viola. Todo o grupo tocava muito mal, o que não o impedia de andar pelas ruas do Valqueire todo fim-de-semana, ora parando na casa do Elias, ora na casa do Foca, ora na casa da dona Paula.

Paulinho da Viola pertence a mais alta linhagem do samba carioca, êle vem com a mesma fidalguia de um Cartola e com elegância pessoal que caracterizou o mestre Paulo da sua amada Portela.

Deixei o Foliões em 1962 e ingressei na ala dos compositores da União de Jacarepaguá que ficava na mesma rua do nosso bloco. Estava começando: tinha alguns sambas mas pouca prática. Naquela escola fiquei conhecendo Catoni (hoje na Portela) e Jorge Mexeu, dois excelentes poetas que me ajudaram bastante. Eu conhecia alguns acordes no cavaquinho e dava as instruções dos sambas pelo microfone da escola. Ai, lancei o meu segundo samba de terreiro: “Pode ser ilusão”.

Fui levado para a Portela pelo meu primo Bigode, diretor de bateria da grande escola de Madureira, a qual tenho a honra de pertencer até hoje. Foi na Portela que aprendi muita coisa sobre o samba e a nossa gente. Foi na Portela que conheci grandes compositores do passado, homens que viram as primeiras escolas e os primeiros desfiles na Praça XI, tais como Alvaiade, Ventura e Alberto Nonato. Pude, também, conhecer Natal e Lino figuras importantíssimas para a história do samba.

Selo lado A do disco Paulinho da Viola 1968

Numa tarde de domingo encontrei diversos poetas numa roda de samba na Portela. Fui aceito por eles e outras rodas de samba se sucederam. Ficamos amigos para sempre. Já estávamos acostumados com aquelas tardes: Candeia, Casquinha, Bubú, Jair, Monarco, Picolino, Colombo, Carlos Elias, Waldir 59, Chatim, Matraca, Walter Rosa, Altair, Joãozinho, Ary do Cavaco, eu e outros que iam chegando. Afinávamos nossos instrumentos, algumas cervejas eram abertas, alguém reclamava uma batida e, então ninguém mais se lembrava dos relógios , das mulatas (a não ser através dos sambas) ou mesmo da vida. Nem sempre estava essa turma toda, mas pude presenciar muitas reuniões no bar do Nôzinho.

Faz quatro anos que deixei o banco em que trabalhava exaustivamente até as 4 ou 5 da manhã para tentar viver exclusivamente da minha música. Naquele tempo não havia muitas preocupações, andava com algum dinheiro e podia me conceder o privilégio de tal escolha. Foi durante esse período (pouco antes de decidir meu caminho) que conheci o Hermínio. Eu estava escrevendo qualquer coisa que não me lembro e ele apareceu do outro lado do balcão, sendo atendido por outro funcionário. Aproximei-me e perguntei se não nos conhecíamos de algum lugar. “De alguma festa?”, perguntei. Não. “De alguma Escola de Samba?”, Não. “Da casa do Jacob” “Que Jacob?”, perguntou ele. “O do Bandolim?” “É”, respondi. “Ah” Mas é claro que conheço o Jacob”. “Pois é”, prossegui, “eu sou filho do César, aquele que toca violão no conjunto dele…”

Daí pra cá, temos feito muita coisa juntos. Foi ele que me levou para Zicartola quando fiz amizade com meu mestre Cartola, Zica, Ismael, Zé Keti, Nelson Cavaquinho, tantas figuras que admirava e não podia imaginar que iria conhecer… Depois foram alguns discos feitos com o Voz do Morro, o Rosa de Ouro — fomos por aí… Devo dizer que acabei conhecendo amigos que marcaram muito a minha vida de compositor Walter Wendhassen, Sérgio Porto (que nos deixou tão cedo), Elizete Cardoso, Anescar, Nelson Sargento, Padeirinho, Pelado, Prêto Rico, Jorginho, Joacyr Santana, a turma do grupo baiano e a sua coragem, e meu pai que me ensinou a tocar. A todas essas pessoas que me referi nessa breve apresentação e em especial a minha esposa, dedico este meu primeiro disco para a ODEON. A todas elas devo aquilo que sou.

Rio, 7 de outubro de 1968
Paulinho da Viola

P.S — Devo este nome ao Sérgio Cabral, outro amigo do peito.


Paulinho da Viola

1968, Odeon (MOFB 3560) | discogs
DISCO É CULTURA

Paulinho da Viola
Paulinho da Viola – Foto: Reprodução

Repertório

Lado A

Vai, amigo
Cartola
[ ouça ♫ ]

vai, amigo
e diga-lhe por favor
que não sei o que faço
e já não sei quem sou
diga que terminou
toda aquela vaidade
e que sinto saudade
quero amar e com mais fervor

lembro-me bem
que um dia eu lhe disse
uma grande tolice
e nosso lar deixei
todos tem o seu drama
só não sofre quem não ama
pra amenizar meu castigo
só você poderá, amigo

Encontro
Paulinho da Viola
[ ouça ♫ ]

guardei o teu olhar
mas teu nome eu não sabia
e a vida para mim
começou naquele dia
eu andava pelas ruas
te sonhando, te esperando
te sentindo em cada samba
que do coração tirei
teu nome era segredo,
mas ninguém quis me dizer
e o mundo não sabia o quanto
que eu esperei

alô, alô
è o moço que canta samba
sou eu a moça da festa,
tenho em meu nome Maria
tenho andado em tua vida,
pelo que ouço dizer
faz um samba com meu nome
que eu me encontro com você

alô, alô
respondi farei agora
por favor não vá embora
que eu preciso te dizer
que a não ser minha viola
não tenho muito na vida
meu pobre samba é a rosa
que penso te oferecer

guardei do nosso encontro,
teu sorriso teus encantos
e procurei todo mundo
pra contar o que senti
cantei meu samba em teu nome
e vi no mundo o espanto
a ninguém guardei segredo
do amor que consegui

Doce veneno
Valsinho – Carlos Lentine – Goulart
[ ouça ♫ ]

quanta dor
tão infeliz eu sou
por que razão você vive a me torturar
meu sofrimento é infinito
não suporto tanta dor
coração já não existe em mim
ai meu Deus que amargor

ó doce veneno
você é meu querer
você entrou no meu sangue sem eu perceber
ó como eu sou tão infeliz
em pensar sempre em você
eis a razão do meu sofrer

Sem ela eu não vou
Paulinho da Viola
[ ouça ♫ ]

hoje tem samba no morro
só eu é que não posso ir
se alguém notar a minha ausência
disfarça e diz que não me viu
sem ela no samba eu não vou
sem ela este samba acabou pra mim
eu vou sair do morro hoje
ninguém dará por falta do meu tamborim

se por acaso eu voltar amanhã
se o samba foi bom eu não quero saber
não quero saber se ela foi também
se estava sozinha ou com alguém
não quero mais me preocupar
porque, já dei a decisão final
se ela não me procurar
eu vou sair sozinho neste carnaval

Não te dói a consciência
A. Garcez – Nelson Silva – A. Monteiro
[ ouça ♫ ]

quando eu estava na flor da idade
sei que me tinhas amizade
sempre sorrias para mim
sinto, saudade daqueles beijos de outrora
zombas por eu ter perdido a mocidade
não tardas em me dizer que vais embora

eu faço tudo para não te ver contrariada
sempre soube te prezar, ó minha doce amada
não te dói a consciência
em eu ser sacrificado
será que tens coragem
de me deixar abandonado?

Coisas do mundo, minha nêga
Paulinho da Viola
[ ouça ♫ ]

hoje eu vim, minha nêga,
como venho quando posso
na boca as mesmas palavras
no peito o mesmo remorso
nas mãos a mesma viola
onde gravei o teu nome

venho do samba há tempo, nêga,
vim parando por aí
primeiro achei Zé Fuleiro
que me falou de doença
que a sorte nunca lhe chega
está sem amor e sem dinheiro
perguntou se eu não dispunha
de algum que pudesse dar
puxei então da viola
cantei um samba pra ele
foi um samba sincopado
que zombou do seu azar

hoje eu vim, minha nêga,
andar contigo no espaço
tentar fazer em teus braços
um samba puro de amor
sem melodia ou palavra
pra não perder o valor

depois encontrei seu Bento, nêga,
que bebeu a noite inteira
estirou-se na calçada
sem ter vontade qualquer
esqueceu do compromisso
que assumiu com a mulher
não chegar de madrugada
e não beber mais cachaça
ela fez até promessa
pagou e se arrependeu
cantei um samba pra ele
que sorriu e adormeceu

hoje eu vim, minha nêga,
querendo aquele sorriso
que tu entregas pro céu
quando eu te aperto em meus braços
guarda bem minha viola,
meu amor e meu cansaço

por fim eu achei um corpo, nêga,
iluminado ao redor
disseram que foi bobagem
um queria ser melhor
não foi amor nem dinheiro
a causa da discussão
foi apenas um pandeiro
que depois ficou no chão
não tirei minha viola
parei olhei vim m’embora
ninguém compreenderia
um samba naquela hora

hoje eu vim, minha nêga,
sem saber nada da vida
querendo aprender contigo
a forma de se viver
as coisas estão no mundo
só que eu preciso aprender

Lado B

Batuqueiro
Candeia
[ ouça ♫ ]

abre a roda moçada que o samba é pesado (sim meu senhor)
batuqueiro que é bamba não é derrubado (sim meu senhor)
se cair, se levanta de bico calado (sim meu senhor)
batuqueiro de roda não fica sentado (sim meu senhor)

quem sai com chuva vai se molhar
quem vai pro samba vai pra sambar
a batucada já começou
o samba é duro mais sambar eu vou

abre a roda, moçada, que eu vim da favela (sim meu senhor)
sai da porta, menino, e não abre a janela (sim meu senhor)
este samba é pra homem não é pra donzela (sim meu senhor)
o Marçal esta pensando, esperando por ela (sim meu senhor)

abre a roda, moçada, que eu vim da favela (sim meu senhor)
levo para a comadre uma rosa amarela (sim meu senhor)
venho lá de Mangueira e ainda vou na Portela (sim meu senhor)
vi o negro comendo farofa amarela (sim meu senhor)
quero ver a comida que tem na panela (sim meu senhor)

Amor proibido
Cartola
[ ouça ♫ ]

sabes que vou partir
com os olhos rasos d’água
e o coração ferido
quando lembrar de ti
me lembrarei também
desse amor proibido

fácil demais,
fui presa
servi de pasto,
em tua mesa
mas fique certa que jamais
terás o meu amor
porque não tens pudor

faço tudo para evitar o mal
sou pelo mal perseguido
só me faltava era essa
fui trair meu grande amigo
mas vou limpar a mente
sei que errei,
errei inocente

A gente esquece
Paulinho da Viola
[ ouça ♫ ]

a gente esquece um samba
e faz um outro samba
a gente perde um grande amor
e acha um outro amor
você morreu no meu peito
e no meu peito nasceu
não um outro amor
mas essa indiferença sem saudade
sem tristeza e sem rancor

a gente tem uma esperança
e vai vivendo
a gente canta até na hora de sofrer
já fiz um samba que perdi
onde eu dizia veja bem
que não havia mais ninguém
senão você

Meu carnaval
Elton Medeiros – Cacaso
[ ouça ♫ ]

muita gente na folia
cantando sem perceber
que eu buscava na avenida
a razão para não sofrer
meu amor, quis brincar o carnaval
e saiu pela avenida escolas a desfilar
foi vestida de alegria
e saiu para não voltar
e eu vestido de tristeza
cantei para não chorar

eu quisera ser feliz
mais a felicidade foi uma quimera no meu coração
preferia não falar
mais eu preciso fazer minha confissão
ai de quem nunca teve amor
mesmo iludido encontro esperança no meu padecer
pois o mais importante é viver

Samba do amor
Paulinho da Viola – Elton Medeiros – Hermínio Bello de Carvalho
[ ouça ♫ ]

quanto me andei
talvez pra encontrar
pedaços de mim pelo mundo
que dura ilusão
só me desencontrei
sem me achar
aí eu voltei
voltar quase sempre é partir
para um outro lugar

o meu olhar se turvou
e a vida foi crescendo
e se tornando maior
todo o seu desencanto
ah, todos os meus gestos de amor
foram tragados no mar
ou talvez se perderam
num tempo qualquer
mas há sempre um amanhecer
e o novo dia chegou
e eu vim me buscar
quem sabe em você

Maria sambamba
Casquinha
[ ouça ♫ ]

as vezes eu quero brigar com ela
só pra sair na Portela
mas não encontro razão
porque, sendo o samba brasileiro
ela sambando na Mangueira ou no Salgueiro
está defendendo o nosso pavilhão

eu conheci Mariazinha
em Caxias no Cartolinha
depois em Jacarepaguá, foi sambar na União
por ser azul e branco
a cor que tanto lhe seduz
quis findar a carreira
no Acadêmicos de Osvaldo Cruz

Maria sambamba todos conhecem
quando entra no samba a gente padece
com o seu jeito de bambolear
quando está à sambar
já me disseram
que um falso folião metido a bamba
até um milhão gastaria
pra conquistar sambamba


Ficha técnica

Milton Miranda (diretor de produção), Lyrio Panicali (diretor musical), Hermínio Bello de Carvalho (assistente de produção), Maestros Nelsinho e Gaya (orquestradores e regentes), Z. J. Merky (diretor técnico), Zilmar e Nivaldo (técnicos de gravação), Reny R. Lippi (técnico de laboratório), Pedro de Moraes (lay out e foto). Ficha técnica do disco sem créditos aos músicos.

Considerações finais

Paulinho da Viola estreou na carreira com um disco solo em 1968, momento de repressão política no país, mas de grande inventividade no terreno da canção popular. O samba carecia de revitalização, apagado que estava pelo crescimento de outros estilos de música popular, como a jovem-guarda e a tropicália. Ao surgir no cenário do samba carioca, Paulinho da Viola deu início à catalisação das potencialidades do gênero, ao qual deu um novo impulso . Ele foi um dos primeiros negros cultos a se interessar pelo ritmo, nessa fase contemporânea. Conhece pintura e música e gosta de filosofia e literatura, muito cônscio da história dos negros no Brasil e do papel do samba nesse contexto. Paulinho da Viola é um cancionista sereno e alegre, melancolicamente alegre. Suas canções, desde o primeiro trabalho, revelam aspectos do Rio de Janeiro através de uma visão particular do seu momento existencial.

Espero que você tenha gostado desse post com o primeiro álbum de Paulinho, lançado em 1968 pela Odeon.

2 comentários em “Paulinho da Viola (1968)”

  1. Pingback: Paulinho da Viola - Foi um rio que passou na minha vida | sambaderaiz

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