Foi um rio que passou em minha vida

Disco Paulinho da Viola

“Foi um rio que passou em minha vida” além de ser o tí­tulo do segundo álbum de estúdio de Paulinho, é também o tí­tulo de um samba lançado em 1969 na Feira Mensal de MPB da TV Tupi e que se tornou o maior sucesso do ano de 1970, projetando Paulinho a ní­vel nacional.


Dois anos depois veio o “Foi um rio que passou em minha vida” e aí os caminhos já estavam se definindo claramente, tanto para o compositor como para o músico. Mesmo enfrentando alguma oposição, Paulinho percebe que seu estilo vocal dispensa as grandes orquestras, as orquestrações chegadas às big-bands e já neste disco seu som minimalista aqui e ali abrem caminho para a definição de uma assinatura sonora que define Paulinho hoje já nos primeiros acordes. Mesmo assim as presenças dos maestros Gaya e Nelsinho são de vital importância, destacando-se que apenas Zé Kéti (companheiro da Portela) e Mauro Duarte (o compadre Bolacha, compositor de Botafogo) incluem composições que não sejam do próprio Paulinho. Como curiosidade, o portelense Jorge, integrante do coro, que responde o famoso refrão “Ai, porém…” ficou para sempre conhecido Jorge Porém. (Arley Pereira – site oficial de Paulinho da Viola)

“Foi um rio que passou em minha vida”, trouxe um dos maiores sucessos do cancionista com o samba de mesmo nome. O álbum é caracterizado pelo uso de orquestrações, bem ao gosto da época. É preciso, situar o disco no contexto da obra e da em que foi produzido, quando as orquestras eram importantes nas gravações. Esse não se deu em todas as faixas. “O meu pecado” de Zé Kéti, tem uma introdução orquestral, mas que retrata com acerto a continuidade melódico-linguística que os versos suscitam. O samba de maior sucesso desse disco, “Foi um rio que passou em minha vida”, abriu uma gama de possibilidades melódicas e rítmicas a serem exploradas pelo compositor. Ao disco anterior, esse disco é muito autoral, com apenas duas que não são do compositor: “Lamentação”, de Mauro Duarte, e “O meu pecado”, de Zé Kéti. Esse álbum foi relançado em 1996 pela EMI com duas faixas bônus: “Sinal fechado” e “Ruas que sonhei”.

Quando Paulinho fêz o “Foi um rio que passou em minha vida”, fêz pensando na Portela. Visualizando as pastoras cantando o samba, a bateria fazendo o ritmo…

Abaixo transcrevo o texto publicado na contracapa do elepê, assinado por Arley Pereira.

São Paulo, maio, setenta.

Candeia,

Sei que você lembra bem o menino que o Oscar Bigode levou aí­ para a Portela. O que tinha a “primeira” de um samba e a quem Casquinha deu ingresso na Ala de Compositores, “levando a segunda”, nascendo com o samba o compositor Paulinho de Viola. De lá pra cá muita coisa aconteceu e você, Candeia, ai no seu canto, subúrbio carioca, sabe das coisas melhor que a gente.

Sabe que Paulinho andou fazendo “shows” em teatro. Que o “Rosa de Ouro” mostrou pro povo o que você já sabia, de sua poesia, de sua harmonia, de sua melodia. Sabe que os sambas de terreiro de Paulinho incendiavam sempre os ensaios da Portela. Sabe que ele viu a turma ai de Osvaldo Cruz ser campeão na Avenida, cantando o “Memórias de um sargento de milícias”, que ele compôs também. Sabe que o garoto chegou mesmo a presidente da Ala apesar de menino ainda.

Tudo isso você sabe, Candeia, como sabia das coisas, quando Paulinho bolou melodia nos lindos versos de Hermí­nio Bello de Carvalho pra “Sei lá Mangueira”. Na Portela, a turma não gostou mesmo e foi você, Candeia, quem ajeitou o negócio. Sabendo ser o Paulinho tão portelense quanto você ou o Paulo da Portela, ou o resto da turma toda. Quando Paulinho fêz o “Foi um rio que passou em minha vida”, fêz pensando na Portela, Candeia. Visualizando as pastoras cantando o samba, a bateria fazendo o ritmo, a Portela vibrando. E — samba pronto — correu pra você. Que quando ouviu os primeiros versos, já sabia das coisas e sorriu. Ali a verdade. Ali a Portela, sua e de Paulinho. Ali, em música, Paulinho confirmando o que você dizia a cada um.

Paulinho ri o mesmo riso manso e simples de sempre, Candeia. Televisões de São Paulo, Rio, Porto Alegre, Recife querem-no em seus programas. Jornais e revistas o entrevistam. Produtores e empresários o procuram. Todos dizem ser este 1970 o “Ano Paulinho da Viola”. E ele ri, manso e simples, como sempre, Candeia. Porque, como você, Paulinho sabe das coisas. E muitas destas coisas estão neste LP, onde tudo que Paulinho faz, o maestro Gaya sabe vestir com aquelas orquestrações que só quem — como êle — há tantos anos compõem sobre temas alheios, sabe fazer.

Mas, mais do que a ninguém, este LP é seu, Candeia. Porque, se você não tivesse ensinado as coisas para o menino — que naquele dia fez seu primeiro samba, o “Recado”, com a segunda do Casquinha — se você não tivesse mostrado a ele as coisas eternas do caminho certo do samba, talvez fosse outra a história de Paulo César Batista de Faria. A Portela e a música brasileira não teriam — talvez — Paulinho da Viola. E eu não estaria aqui escrevendo este bilhete pra você. Obrigado, Candeia.

Arley Pereira
contracapa


Foi um rio que passou em minha vida

Paulinho da Viola (Odeon, MOFB 3629, 1970) DISCO É CULTURA – Ouça no spotify, youtube ou itunes

Disco Paulinho da Viola

No repertório, quase a totalidade das faixas são de autoria de Paulinho da Viola. No lado 1 temos: “Para não contrariar você”, “O meu pecado” de Zé Keti, “Estou marcado”, “Lamentação” de Mauro Duarte, “Mesmo sem alegria” e “Foi um rio que passou em minha vida”. Abrindo o lado 2: “Tudo se transformou”, seguindo com “Nada de nôvo”, “Jurar com lágrimas”, “Papo furado” e por fim “Não quero você assim”.

A ficha-técnica: Milton Miranda (diretor de produção), Lyrio Panicali (diretor musical), Maestro Gaga (orquestrador e regente), Z. J. Merky (diretor técnico), Jorge Teixeira da Rocha (técnico de gravação), Reny R. Lippi (técnico de laboratório), Moacir Rocha (layout), Da Cruz (foto).

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