Lp Onze sambas e uma capoeira
  • "data": "26 abril 2020"
  • "título": "Onze sambas e uma capoeira"
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Onze sambas e uma capoeira: Ôba, mais um disco da Marcus Pereira. Quando a gente vê Marcus Pereira, corre para ouvir, já sabe que é bom.


Paulo Vanzolini é um dos maiores zoólogos do Brasil. Sua especialidade é herpetologia, o estudo dos répteis. Ele chefiou, por 30 anos, o Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo; quando assumiu o Museu, ele tinha 1.200 espécimens; com intenso trabalho de coleta, Vanzolini conseguiu aumentar o acervo para 170 mil espécimens. Mas o que isso tem a ver com o disco? Tudo. Paulo Vanzolini tem a biologia por profissão, mas, na década de 1940, em São Paulo, onde nasceu, cresceu, estudou e sempre viveu, começou a compor sambas. Suas influências eram os sambistas paulistas com quem ele convivia, saía para tomar cerveja. Em 1945, ele compôs seu primeiro grande sucesso, “Ronda”, gravado apenas em 1953, por Inezita Barroso. Em 1962, mostrou o samba “Volta por cima” para Inezita Barroso, que acabou decidindo não gravá-lo. Ele foi gravado pelo cantor Noite Ilustrada, e virou sucesso nacional. Desde então, a expressão “dar a volta por cima” caiu na boca do povo. Hoje em dia, está no Dicionário Aurélio, com direito à citação da música: “Dar a volta por cima. Superar uma situação difícil: ‘Ali onde eu chorei qualquer um chorava. Dar a volta por cima que eu dei, quero ver quem dava'”. Esse disco (“Onze sambas e uma capoeira”) foi produzido em 1967, por Luiz Carlos Paraná e Marcus Pereira. Ele traz as composições de Vanzolini interpretadas por grandes artistas, como Chico Buarque, que canta “Praça Clóvis” e “Samba erudito”. Quem canta “Ronda” é Cláudia Morena, e, ao grande amigo Luiz Carlos Paraná, coube a interpretação de “Capoeira do Arnaldo”. Essa música, segundo ele mesmo disse em entrevista, é a composição que ele mais gosta. Sobre Ronda, ele falou: 
— Fiz a música em 1945, no tempo em que andava na zona. Vocês vêem que é um negócio de uma pieguice tremenda… 
Outra coisa que ele insiste em dizer é que nunca levou a música a sério, e que não tem o menor jeito para a coisa. Imagina se tivesse. Tem outras pérolas polêmicas de Paulo Vanzolini, agora com 73 anos, em uma entrevista que deu para um jornal científico.

Cacai Nunes – Acervo Origens

A seguir, transcrevo a contracapa do LP com textos de Marcus Pereira, Raul Duarte, Chico Buarque e Luiz Carlos Paraná.

O meu testemunho não é de teórico da música popular que não sou. Nem de folclorista da cidade ou do sertão presentes nas composições de Paulo Vanzolini dêste LP e de outros, que virão. Mas quando Paulo Vanzolini cantava até há pouco para seus amigos, lá no “Jogral” eu estava na primeira fila. Hoje, suas composições gravadas neste disco, vão formar outras rodas por aí afora, e será sempre uma reprodução do nosso grupo de amigos reunido para ouvir o Paulinho, no bar do Carlos Paraná. Porque, para apreciá-lo, é preciso um certo espírito de boêmia, ainda que não merecido. É preciso uma razoável dose de ternura e de solidariedade pela melancolia geral — e pessoal. É preciso, alguma vez, ter ficado “desenxabido, rondando pelas beirada, botando os olhos compridos e contando as marteladas”, e depois ter saído por aí, “chutando pedra na rua…” Êste disco é o resultado de uma pergunta que fiz ao Paulo Vanzolini, temeroso de sua resposta e de que êle persistisse, como afirmava, em divulgar sua música por tradição oral…
— Vamos gravar um disco?
Mas êle respondeu:
— Com você eu faço qualquer negócio.
E fizemos.

Marcus Pereira

[…] ele insiste em dizer é que nunca levou a música a sério, e que não tem o menor jeito para a coisa. Imagina se tivesse.

Está sendo caçado, com toda a fúria, esse famigerado espião da alma popular, que se disfarça, às vezes, atacando de cientista e com repetidas passagens pelos centros mais importantes das Américas. Chamado a depôr, ajudo a reprodução de seu “retrato falado” para que mais facilmente, seja o indiciado reconhecido.

Sei que ele vaga, pelas madrugadas, quase como um anônimo, pelas “bôcas do samba”, substituindo o seu vocabulário de museus pela gíria malandra circulante, mordendo um cachimbo. Costuma trocar uma lágrima por uma talagada, molhada de saudade, na toca em que Zelão gemia os seus refrões e vai por aí…

Também estou interessado na sua captura, para que venha a cumprir a sentença decretada, nesta cadeia gradeada de amigos. Mas devo ser preciso neste depoimento. Se, como reza o processo, êle seduziu essa dama das ruas, não creio que ela — a alma das calçadas — tenha capitulado à custa de violência, ou envolvida com promessas de casa nova…

Nem acredito que a tenha perseguido como um gavião atocaiado nas esquinas. Interpelada, há de confessar que foi ela quem o rodeou, atraída, e, chegando-se à sua mesa, sentou-se, ordenando:

— Barba e cabelo, Paulinho.

Foi assim que Paulo Vanzolini tomou-a nos braços e tornou-a sua concubina. Dêsse amor de trapo e farrapo, vieram as crianças… que enchem a sua vida boêmia, onde se desconhece o planejamento de família. Virão outras. E serão benvidas: cabôclas, crioulas, “queimadinhas”, e serão todas reconhecidas no terreiro, legítimas que são de Paulo Vanzolini.

Ele já aprendeu muito com elas e para elas, mas ainda não aprendeu a fazer dinheiro. Tomando umas e outras, repetirá:

— Dá volta por cima!

Aí está um rápido instantâneo deste môço, no instante em que ele troca de olhos para mirar as borboletas….

Raul Duarte

Minha amizade com Paulo Emílio Vanzolini está fazendo 21 anos. Trata-se, pois, de uma afinidade maior, de idade e de samba. Já naquele tempo, êle fumava cachimbo, batia caixinha e varava a noite em assuntos de garôa, amigos e boêmia. E a certa altura, Paulinho passava a conversar em rimas, numa agilidade de fazer inveja a muito repentista do Nordeste. Com meus dois anos, mal aprendendo a falar, talvez tenha herdado daí o gosto, quase vício, das rimas. Quanto á boêmia, confesso que eu ainda não era dado a tais coisas. A todos êsses amôres, Paulinho permanece fiel. E acumula com outro, onde prefiro não dar palpite: a Zoologia.

Mas a imagem que me ficou gravada, e certamente também na lembrança de muito paulistano, é a do sambista convicto, do grande companheiro.

Somos, então, alguns amigos que, atendendo ao toque de reunir do Marcus Pereira, nos juntamos agora para cantar seus sambas.

Chico Buarque de Hollanda

“Eu sou Paulo Vanzolini.
Animal de muita fama.
Eu tanto corro no seco.
Como na vargem de lama.
Mas quando o marido chega
Me escondo embaixo da cama”

Este foi o último improviso que ouvi do Dr. Paulo Emílio Vanzolini, Diretor do Museu Zoológico de São Paulo, antes de partir mais uma vez para Harvard. Pois enquanto preparamos êste LP de sambas, o compositor está dando mais um curso naquela universidade americana, pela qual é graduado em HERPETOLOGIA, ramo da biologia que trata de anfíbios e répteis, ou seja, cobras e lagartos.

Profissionalmente, êle se diz apenas biólogo. Médico, jamais clinicou. Preferiu seguir pesquisando e ensinando.

Pode um tal “homem de ciências” ser um bom sambista? Sem ter feito a pergunta, o Brasil inteiro ficou sabendo a resposta, quando ouviu aquele esplêndido VOLTA POR CIMA. Nós, seus amigos, sabemos muito mais, modéstia à parte. Por isso nos reunimos neste LP, para que mais gente saiba o que já sabemos desse nosso querido irmão. Olha aí, até o definitivo Chico Buarque deixou de lado, por um momento, seus sambas e veio aqui cantar alguns do Paulinho (que Dr. Paulo que nada!)

Quando voltar, Paulinho não vai gostar que tenhamos escrito essas coisas. Ele só queria que disséssemos como se faz um bom samba.

Mas isso nós não sabemos.

Luiz Carlos Paraná


Onze sambas e uma capoeira

Paulo Vanzolini (LP Discos Marcus Pereira MPL-9334, 1967) – DISCO É CULTURA

Lp Onze sambas e uma capoeira

REPERTÓRIO

Lado A:
Samba erudito – voz: Chico Buarque de Holanda — ouça
Amor de trapo e farrapo – voz: Mauricy Moura — ouça
Chorava no meio da rua – voz: Cristina — ouça
Juízo final – voz: Adauto Santos — ouça
Ronda” – voz: Cláudia Morena — ouça
Napoleão” – voz: Luiz Carlos Paraná — ouça ♫.

Lado B:
Capoeira do Arnaldo – voz: Luiz Carlos Paraná — ouça
Praça Clóvis – voz: Chico Buarque de Holanda — ouça
Cravo branco – voz: Adauto Santos — ouça
Morte e paz – voz: Cláudia Morena — ouça
Leilão – voz: Luiz Carlos Paraná — ouça
Volta por cima – voz: Mauricy Moura — ouça


FICHA TÉCNICA — Antonio Pecci Filho (Toquinho) e Antônio Porto Filho (Portinho) (arranjos), Manoel Barenbein (direção de gravação), Rogerio Gauss (som), Luis D’Horta (capa), Luiz Carlos Paraná (produção), todas as faixas com autoria de Paulo Vanzolini.

Considerações finais

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