Cinco Companheiros

5 Companheiros

Em 1958 Pixinguinha lança o LP: 5 Companheiros. Neste mesmo ano, no dia 16 de fevereiro, morre aos 55 anos incompletos o flautista Benedito Lacerda, vítima de câncer de pulmão. No álbum, a maioria das músicas são da dupla: Benedito Lacerda e Pixinguinha.


Em 1937, na Rádio Mayrink Veiga, Pixinguinha (Alfredo da Rocha Viana), com um conjunto intitulado “Cinco companheiros”, formado com Pixinguinha (sax), Tute (violão), Luperce Miranda (cavaquinho), Valeriano (violão) e João da Bahiana (pandeiro), representava a atração máxima da rádio. Eram fabulosos e hoje ainda o são.

Rememorando àquela época a Sinter apresenta ao público brasileiro êste long-playing intitulado “Cinco Companheiros”, com Pixinguinha e os “Chorões daquele tempo” . Desta vez os cinco solistas são: Abel Ferreira, Pedro Vieira (Pedrinho), Silva Leite, Irany Pinto e o próprio Pixinguinha. No acompanhamento temos: Gessé e Nelson (violões), Salvador (pandeiro) Waldemar Melo (cavaquinho), Cavalo Marinho (contrabaixo) e J. Cascata (afochê).

As músicas deste LP, de autoria de Pixinguinha, em sua maioria de parceria com o saudoso Benedito Lacerda, representa mais uma homenagem da Sinter a um grande vulto da música brasileira: Benedito Lacerda, recentemente falecido.

Antes de falar como estão gravados estes bonitos números, convém dizer algo sôbre Pixinguinha, expressão máxima de talento musical e verdadeiro patrimônio musical brasileiro. No espaço disponível de uma contracapa de LP, pouco se pode dizer, visto sermos obrigados a abordar vários pontos. Dêste modo, nada melhor do que expressar a opinião de Lúcio Rangel — profundo conhecedor da música brasileira sobre Pixinguinha e, onde, em poucas linhas, tudo diz. “Em Alfredo Viana, o Pixinguinha, devemos considerar o instrumentista, o compositor, o orquestrador e o chefe de orquestra. Poderíamos ainda acrescentar o cantor, se êste não fôsse tão pouco conhecido do público em geral. Em tôdas as manifestações de sua arte, Pixinguinha revela-se admirável e sempre cem por cento brasileiro, o que nos leva a afirmar, com toda serenidade, estarmos frente ao maior músico brasileiro, em tôdas as épocas, mesmo considerando a grandeza de um Nazareth, de um Sinhô ou de um Noel Rosa”.

Pixinguinha, expressão máxima de talento musical e verdadeiro patrimônio musical brasileiro

Mário Duarte

O “Cinco Companheiros”, Pixinguinha e os “Chorões daquele tempo” faz reviver uma época gostosa, a época das serenatas e dos passeios improvisados, onde grupos de artistas divertiam, num “convescote”, todos os participantes. Eram momentos agradáveis, deliciosos e que, hoje são revividos apenas através dos “transistors” e dos rádios de pilha.

Pixinguinha, além de ser o autor exclusivo de quase todas as músicas de “Cinco Companheiros”, ainda atua destacadamente em tôdas elas. Os outros solistas, já mencionados, aparecem da seguinte forma: Abel Ferreira (clarinete), em “Um a zero”, “Proesas do Solon”, “Segura êle”, “Ingênuo”, “Lamento” e “Chorei”. Pedrinho (70 anos), com sua flauta maravilhosa, atua em “Naquele tempo”, “Sofres porque queres” e “Cinco companheiros”. Silva Leite (trombone de pisto), brilha em “Proesas do Solon” e “Lamento”. Irany Pinto, um violino que em “Vou vivendo”, relembra o violino chorão das serestas de Minas Gerais, aparece ainda em “Tapa Buraco” e “Cuchicho”. O acompanhamento rítmico está excelente e, em “Lamento”, notamos uma atuação fabulosa dos dois violões (Gesse e Freitas) do conjunto. Soberbos! …

As músicas dêste long-playing são antigas e constituem uma verdadeira antologia musical brasileira. Todas elas são choros, com exceção de duas — “Segura êle”, e “Tapa Buraco” — que são polcas. Um bonito nome para êste disco seria “Choro brasileiro em Hi-Fi”, pois a perfeição, a técnica, a beleza das músicas e a qualidade dos executantes é tudo o que poderíamos desejar de melhor .

Com esta gravação Pedro Vieira (Pedrinho) se despede da vida artística. Aposentou-se da Rádio Nacional e de tôdas as gravações. A idade, 70 anos, não mais permite uma atividade, onde o instrumento utilizado — a flauta — sacrifica bastante o bom executante. Entretanto aqui fica registrado, para sempre, o prodigioso talento de um músico excepcional.

As músicas dêste LP representam fatos marcantes da vida do compositor, ou então, uma homenagem de algo de interêsse ou digno de louvores: Assim é que temos! “Um a zero”, em homenagem a vitória brasileira, “goal” de Friedenrich contra os Uruguaios. Como o nome bem diz, “Tapa buraco”, foi feita na hora, um improviso inspiradíssimo, onde a beleza das composições de Pixinguinha não sofreu a menor deturpação. Prova, assim, as qualidades magníficas de compositor. “Lamento”, composta na mesma época do “Carinhoso” — clássico da música popular brasileira — é mais uma prova do talento genial de Pixinguinha.

Êste disco de Pixinguinha, como todos os outros já apresentados — (“Carnaval de Nassara”, “Marchinhas carnavalescas de João de Barro e Alberto Ribeiro” e “Assim é que é…”) constitui um valioso e imperdível subsídio para o estudo da música brasileira. Representa, ainda, o carinho e o cuidado de uma gravadora pelas coisas de nossas Pátria.

Mário Duarte
texto fielmente transcrito da contracapa

Esse álbum de Pixinguinha foi eleito pelo Correio da Manhã, como o melhor disco do ano de 1958. Segue a publicação do jornal em 14 de dezembro de 1958:

Melhor LP Retrospectivo

O veterano e sempre jovem PIXINGUINHA é outro bicampeão com seu extraordinário long-playing “CINCO COMPANHEIROS”, sêlo nacional da fábrica “Sinter” em alta fidelidade, SLP-1.971. O mestre da técnica instrumental reuniu notável coletânea de “música retrospectiva brasileira”, de sua autoria e algumas de parceria com o saudoso flautista Benedicto Lacerda. Neste LP, o discófilo de bom gôsto tem ensejo de apreciar o talento de um dos maiores músicos do Brasil em todos os tempos, além de poder analisar a importância dos seus trabalhos de técnica orquestral. Portanto, justificou plenamente a sua inclusão êste ano na lista gloriosa dos “MELHORES DO DISCO NACIONAL”.


Cinco Companheiros

Pixinguinha e os “Chorões Daquele Tempo”, 1958, Sinter (SLP 1731)
DISCO É CULTURA

Pixinguinha
Pixinguinha (foto: IMS)

REPERTÓRIO

Um a Zero — ouça ♫ ; Naquêle Tempo — ouça ♫ ; Proesas do Solon — ouça ♫ ; Vou Vivendo — ouça ♫ ; Segura Ele — ouça ♫ ; Sofres Porque Queres — ouça ♫ ; Tapa Buraco — ouça ♫ ; Ingênuo — ouça ♫ ; Cinco Companheiros — ouça ♫ ; Lamento — ouça ♫ ; Cuchicho — ouça ♫ ; Chorei — ouça ♫.


FICHA TÉCNICA — PRODUÇÃO FONOGRÁFICA: Companhia Brasileira de Discos – Sinter / SOLISTAS: Abel Ferreira (clarinete), Pedro Viera (flauta), Silva Leite (trombone), Irany Pinto (violino) e Pixinguinha (sax) / TAMBÉM PARTICIPAM: Gessé e Nelson (violões), Salvador (pandeiro), Waldemar Melo (cavaquinho), Cavalo Marinho (contrabaixo) e J. Cascata (afoché).

Todas as faixas de Benedito Lacerda e Pixinguinha exceto: “Tapa Buraco”, “Cinco Companheiros”, “Lamento” e “Cuchicho” (somente Pixinguinha).

Considerações finais

Espero que você tenha gostado desse post com o álbum do gênio Pixinguinha e os “Chorões daquele tempo” — CINCO COMPANHEIROS —, lançado em 1958 pela Sinter.

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