Polêmica Noel Rosa X Wilson Batista

O famoso embate (Polêmica) musical entre dois grandes compositores, gerou um LP (10″) em 1956, lançado pela Odeon, com interpretações de Francisco Egydio e Roberto Paiva.


Muito se escreveu sobre esse disco bem como sobre essa “Polêmica” entre Noel Rosa e Wilson Batista. Nesse post que trago hoje, a seguir, transcrevo fielmente a contracapa do álbum, um texto assinado por Nássara abordando o assunto.

O duelo musical travado entre Noel Rosa e Wilson Batista não é bem uma história para ser contada. E sim para ser ouvida. Mas o ouvinte, não iniciado em certos segredos da música popular brasileira, por certo, não encontrará explicação para alguns incidentes que determinaram a famosa polêmica mantida entre os dois compositores e que pela primeira vez foi gravada neste LP, da Odeon.

Eis por que vamos revelar aqui, extra-musicalmente esses segredos históricos.

Como é fácil constatar, as músicas de Noel Rosa, que fazem parte dêsse duelo, alcançaram grande fama, como sejam: “Rapaz folgado”, “Palpite infeliz”, “Feitiço da Vila” e “João ninguém” [todas com Francisco Egydio e Orquestra]. Isto não aconteceu com as músicas de Wilson Batista, tais como “Lenço no pescoço”, “Mocinho da Vila”, “Frankstein”, “Conversa fiada” e “Terra de cego” [todas com Roberto Paiva e Orquestra].

Por que?

Quem responde a isso é o próprio sobrevivente dessa “Batalha” melódica, sustentada a base de letra e música, entre um chope e uma cachaça, nas mesas da velha Lapa boêmia que não volta mais. É o Wilson Batista quem vai falar.

Sendo um dos talentos mais puros de nossa música popular, uma autêntica vocação de boêmia, Wilson Batista era no entanto, em 1935 — ano em que se iniciou a polêmica, ainda um ilustre desconhecido do grande público, embora tivesse os seus admiradores entusiásticos no grupo dos boêmios que frequentava os bares e cafés da Lapa. Quanto a Noel Rosa, já era êle, áquela época, um compositor de fama e prestígio graças ao seu indiscutível gênio musical.

O duelo musical travado entre Noel Rosa e Wilson Batista não é bem uma história para ser contada. E sim para ser ouvida.

Segundo Wilson Batista, a polêmica realmente começou com a resposta de Noel Rosa a um samba seu, intitulado “Lenço no pescoço”, [ ouça ♫ ] cuja letra era assim:

“Lenço no pescoço, tamanco arrastando…”

Lançado êsse samba nos meios da Lapa, Wilson foi atingido no dia seguinte por um verdadeiro impacto — a réplica de Noel com o samba “Rapaz folgado” [ ouça ♫ ], em que, de saída, êle dizia:

“Deixa de arrastar o teu tamanco, pois tamanco nunca foi sandália…”

Era o desafio. Wilson confessa que se sentiu aniquilado. Mas reagiu, a força de injeções de sua “torcida”. E atirou para cima de Noel Rosa, como uma bomba, o samba “Mocinho da Vila” [ ouça ♫ ], no qual êle retrucaria (com “Terra de cego” [ ouça ♫ ]):

“Noel é o abafa da Vila, mas bem sei que em terra de cego quem tem um olho é rei…”

Foi um êrro “tático” do Wilson. Mexeu em casa-de-marimbondo. Pisou nos calos de Noel. Tocou no que êle tinha de mais sagrado em sua vida — Vila Isabel, sua velha e querida Vila. E a tréplica veio esmagadora e definitiva em “Palpite infeliz” [ ouça ♫ ]:

“Quem é você que não sabe o que diz…”

O próprio Wilson confessa que, se fôsse hoje, ele, com a sua experiência teria feito a coisa tomar outro rumo. Mas naquêle tempo era assim como um gato selvagem, reagiu mais por instinto. E respondeu com o samba “Frankstein” [ ouça ♫ ], cuja letra era assim:

“Boa impressão nunca se tem, quando se encontra um certo alguém, que mais parece um Frankstein. Mas como diz o refrão, por uma cara feia perde-se um bom coração…”

Noel sentiu-se ferido na sua vaidade, no seu complexo de homem feio. E como os sambas de Wilson, embôra não gravados, fossem publicados, Noel cheio de revolta, comprou e rasgou todos os jornais de modinhas da época.

E voltou a polêmica, mas dessa vez lírico, sentimental, poético, com essa legítima obra-prima de nossa música que é “Feitiço da Vila” (de parceria com Vadico) [ ouça ♫ ].

Mas a briga não parou aí. Wilson Batista voltou a carga agressivo, com sua “Conversa fiada” [ ouça ♫ ], e que dizia que:

“É conversa fiada dizerem que o samba na Vila tem feitiço…”

A polêmica havia chegado ao fim, Noel lançou o seu último samba da série “João ninguém” [ ouça ♫ ]:

“João Ninguém que não é velho nem moço. Come bastante no almoço pra se esquecer do jantar…”

E aqui chegamos também ao fim de nossa história. Wilson Batista não alimenta mágoas nem ressentimentos. Foi e continua sendo um grande fan de Noel. E guarda uma infinita saudade daquelê tempo em que êle, menos famoso, menos experiente, trazia consigo, no fundo do coração a pureza de suas melodias que são, sem dúvida alguma, das mais bonitas de sua vasta bagagem musical.

Que dizer de Noel? O povo já o consagrou e as gerações se sucedem cantando os seus sambas, definitivamente incorporados ao nosso cancioneiro popular.

E neste LP a Odeon presta a sua homenagem ao saudoso Noel Rosa, gravando como gravou de forma bastante original a polêmica desconhecida de muita gente, até mesmo de muitos autores da época, e que assim terão oportunidade de conhecer um fato, hoje, histórico de nossa música popular.

NASSARA


Polêmica

Francisco Egydio e Roberto Paiva / 1956, Odeon (MODB-3.033)
DISCO É CULTURA

Polêmica Noel Rosa X Wilson Batista

*Ficha técnica do disco sem créditos aos músicos e arranjadores.

Considerações finais

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