Quando as Escolas se Encontram

Quando as Escolas se Encontram

Em 1973, a gravadora RCA Camden, lançou o álbum “Quando as Escolas se Encontram”. O repertório é composto por sambas-enredo e sambas de terreiro do ano de 1973.

Os sambas de enredo são da Vila Isabel, Império Serrano, Portela, Mangueira, Salgueiro, Unidos de São Carlos, Imperatriz e Em Cima da Hora. Já os sambas de terreiro são: da Mangueira (“Tem Capoeira”), Unidos de São Carlos (“Trá-lá-lá, Lamartine Babo”), Bafo da Onça (“Mexe-Mexe”) e Portela (“Quero Ver Minha Escola Passar”). Interpretaram os sambas Alda Perdigão, Marlene, Ataulfo Junior, Joel de Castro, Carlinhos Pandeiro de Ouro e Dominguinho do Estácio.

Destaco o samba da Mangueira “Lendas do Abaeté”, um dos meus preferido da Escola, samba que inclusive, ajudou a Verde-Rosa levar o título do Carnaval de 1973.

Iaiá mandou

ir a Bahia

no Abaeté para ver sua magia…

Mangueira 73

Enfim, eu gosto muito desse disco e espero que gostem também. Muito bom! A seguir vamos abordar os gêneros do samba? Achei o texto bem interessante e transcrevo a seguir. Além do que, no texto fica bem explicado a diferença entre samba-enredo e samba de quadra (repertório do álbum).

O samba é plural

Por Sandra Machado / fonte: Dossiê das Matrizes do Samba no Rio de Janeiro

As inúmeras possibilidades no modo de se fazer samba permitem afirmar seu status de destaque entre outros ritmos musicais. Especialistas apontam a existência de, pelo menos, três dezenas de variações que se originaram dele. O de gafieira, só instrumental, ficou conhecido nas apresentações de orquestras pelos salões de dança. O raiado, trazido ao Rio pelas tias baianas, se diferencia pelo acompanhamento de pratos raspados com facas e transformados em instrumentos de percussão. Segundo o “Dossiê das Matrizes do Samba no Rio de Janeiro”, do Centro Cultural Cartola, existem, no entanto, três principais eixos de definição: o partido-alto, o samba de terreiro e o samba-enredo.

O padrão mais antigo, ligado a tradições folclóricas de caráter rural e religioso, ficava mais próximo do maxixe. O segundo, mais urbano, foi o que acabou gerando o maior número de subdivisões, como o samba-canção ou o samba de breque. Essa tensão se revela de forma bastante explícita entre o jovem Ismael Silva e o mais experiente Donga, a quem se atribui a autoria do marco “Pelo Telefone”, de 1917. Para Ismael, o primeiro samba gravado seria um maxixe. Para Donga, “Se Você Jurar”, composta por Ismael em 1931, não passava de uma marcha.

Como nem os pesquisadores de música conseguiram chegar a um consenso, a passagem de um estilo para o outro recebeu a denominação de “paradigma do Estácio”, em referência aos pais da primeira escola de samba, que se concentrava no bairro. Certo mesmo é que não dá para resistir e não se deixar levar pela cadência bonita, arriscando uns passos, mesmo sem saber dançar, e engrossando o coro de vozes numa boa roda, se a memória para as letras deixar. Ou, como dizem os versos de “Eu Sambo Mesmo”, do compositor Janet de Almeida, “mexe com a gente, dá vontade de viver”.

Partido-alto

Partido-alto, nascido das rodas de batucada, se caracteriza pelo compasso acompanhado das batidas na palma da mão e pela repetição do refrão . Pode ser definido como uma forma de desafio entre dois ou mais versadores, que recorrem aos versos improvisados. Tem origem nas chulas, no samba rural paulista, no samba de roda baiano e no calango. Dadas suas características, é a variação do samba menos suscetível a gravação, o que pode ser explicado pelo processo histórico de desenvolvimento do gênero.

Tudo indica que a segunda parte fixa na letra do samba foi um fenômeno surgido para atender à demanda do mercado fonográfico. O disco como produto da indústria cultural necessitava de uma autoria determinada, que se sobrepôs à criação coletiva original. Mas, durante essa transformação, a música era praticamente o próprio refrão, enquanto o restante aparecia durante a apresentação, tanto no partido-alto quanto no samba de terreiro. Assim, os bambas eram justamente aqueles que se sobressaíam, tanto nas tiradas rápidas quanto no humor e na criatividade – daí sua respeitabilidade no grupo.

Por isso mesmo, entre as subdivisões do samba enquanto metagênero, o partido-alto se destaca como o que está mais ligado às suas matrizes socioculturais, pela necessidade de realização no ambiente da comunidade, assim como pela sociabilidade e pelo grau de espontaneidade que engendra.

Samba de Terreiro

Guarda as características do congraçamento do partido-alto, com uma diferença fundamental: desde os anos 1930, quando começaram a se constituir as escolas de samba, é a modalidade feita para consumo interno. Por isso, a roda de samba do terreiro tem relação com a estrutura da agremiação e também com suas formas de organização social e musical, reunindo basicamente a nata dos compositores da comunidade .

Assim sendo, pode-se dizer que o samba de terreiro é mais uma prática do que propriamente um estilo e, principalmente, autodeterminado: os sambistas o definem como tal. Por isso mesmo, apresenta grande variedade estilística. Os sambas são mais autorais e a temática, geralmente, gira em torno da exaltação da escola, reforçando a identidade coletiva. Com o avanço dos anos, os terreiros foram se transformando nas quadras e, hoje, é livre a circulação do público, inclusive de outras escolas.

Samba-enredo

O samba-enredo é uma derivação do samba feito em razão da apresentação no desfile , sua estética se constrói em função da evolução e da harmonia do conjunto. Destaca a participação da bateria e seus versos primam pela narratividade. Durante a primeira década de existência, as escolas não tinham qualquer compromisso com um enredo definido para sair no carnaval, e desfilavam com dois ou três sambas. É consenso entre os historiadores que apenas a partir dos anos 1940 se intensificou a tendência para um maior planejamento em torno do enredo único. Inclusive, em 1946, segundo o jornalista Sérgio Cabral, os versos improvisados foram oficialmente proibidos nos desfiles.

O samba inteiro, e não apenas o refrão, se destina a ser cantado por toda a escola e, no melhor dos mundos, também pelo público. O crescimento da importância do enredo leva a um aumento na extensão das músicas, já que existe a preocupação de se contar uma história com base folclórica, biográfica ou literária. Da mesma forma, dado o crescimento do número de integrantes do carnaval como espetáculo televisivo, em especial a partir da inauguração do Sambódromo carioca, na Avenida Marquês de Sapucaí, em 1984, também o andamento do samba-enredo se tornou mais acelerado, para facilitar o cumprimento do quesito cronometragem.

Outras derivações

O samba de breque tem um ritmo acentuadamente sincopado, entremeado com paradas súbitas, os breaks, que dão nome ao estilo. A estratégia serve para dar tempo ao cantor de inserir algum comentário falado, geralmente alguma piadinha sobre o tema. “Foi uma criação de Antônio Moreira da Silva, mais conhecido como Moreira da Silva ou Kid Morengueira”, lembra o jornalista Pedro Paulo Malta. O estilo teria surgido acidentalmente, quando o cantor, na tentativa de melhorar um samba fraco, inventou de inserir um comentário, em meio a uma apresentação no Méier, em 1936.

Já o samba-canção dá ênfase a uma melodia romântica e teve seu auge na década de 1930. De início circunscrito ao teatro de revista, passou a interessar os compositores do circuito comercial a partir do sucesso da composição “Ai, Yoyô”, de Henrique Vogeler, Marques Porto e Luis Peixoto, lançada em 1928. O gênero era conhecido, também, como “samba de meio de ano”, pois surgia sempre fora do período do Carnaval.


Quando as Escolas se Encontram – Carnaval 1973 – Sambas Enrêdo/Sambas de Quadra

1973, RCA Camden (107.0131)
DISCO É CULTURA

REPERTÓRIO

Zodíaco no Samba
Paulo Brazão – Irany S. Silva
voz: Alda Perdigão
UNIDOS DE VILA ISABEL
[ ouça ♫ ]

abriu-se a cortina do universo
pra Vila cantar em verso
uma história astral
com astrologia criada
na primeira madrugada
a sorte foi lançada
daí pra frente não há futuro nem presente
que o destino esteja ausente
nada se fez, nada se faz
os astros não mentem jamais

dim dim dim, dim dim dim
o destino é assim

se cada signo tem sua missão
seja Virgem, Libra ou Leão
por que a sorte procurar
se ela em suas mãos virá
hoje tudo é sonho e fantasia
esplendor e folia
nesta era em que Aquarius nos traz
felicidade, amor e paz
cheguei a ver na bola de cristal
que os astros vêm brincar o Carnaval

dindinha lua, dindinha lua
desça do céu e vem sambar na rua

Tem Capoeira
Batista da Mangueira
voz: Carlinhos Pandeiro de Ouro
MANGUEIRA
[ ouça ♫ ]

tem capoeira na Bahia, na Mangueira
tem capoeira na Bahia, na Mangueira

quem mandou você pedir, capoeira
cuidado senão você pode cair, capoeira

vamos fazer um carnaval legal
sambar é a nossa tradição
cuidado que a Mangueira vem aí
e é bom se segurar que a poeira vai subir

Viagem Encantada Pindorama a dentro
Wilson Diabo – Malaquias
voz: Marlene
IMPÉRIO SERRANO
[ ouça ♫ ]

venham ver no Império, minha gente
um navegante procurando upabuçu
ansiosamente
no pavão misterioso
via a sereia do mar
em pindorama coisas lindas
até o boitatá
Oxóssi, rei da mata
fez Guaraci aparecer
numa jangada
se via o saci-pererê

lererê, rê, rê
como rema o saci-pererê
lererê, rê, rê
só remava o saci-pererê

quando Jaci surgiu
enfeitiçando o rio-mar
Iara me levou
sob o clarão do luar
na lagoa dourada
de belezas sem par
as flores conversavam
tudo era encantado
naquele lugar

foi assim, que encontrei
o reino encantado que procurei

Pasárgada, o Amigo do Rei
David Correa
voz: Ataulfo Júnior
PORTELA
[ ouça ♫ ]

na passarela, um reino surgia
quanta alegria
desembarquei feliz
tudo era fascinante
nesse mundo pequenino
até relembrei os dias
do meu tempo de menino
e nas brincadeiras de roda
rodei pelo mundo afora

nesse reino azul
tem tudo que desejei
auê, auê, auê, eu sei
eu sei que sou o amigo do rei

nas ondas do mar caminhei
no azul do céu eu voei

lá vem ela na Avenida
cinquentenária tão florida
ô Portela! Portela ô!
na vida és a pasárgada mais bela

ao embarcar na ilusão
senti palpitar o meu coração

Trá-lá-lá, Lamartine Babo
Augusto Nunes
voz: Joel de Castro
UNIDOS DE SÃO CARLOS
[ ouça ♫ ]

vamos cantar
sambar, lembrar
os velhos tempos de Rei Momo colossais
trá lalá, lalalá
foi Lálá, foi Lála
o campeão dos Carnavais

o desenrolar dessa história
exaltaremos a glória
de um gênio sem igual
que com suas lindas poesias
em alegres melodias
empolgavasse o nosso Carnaval

era mistura de serpetinas
de pierrots e colombinas
numa festa colossal
e os palhaços animados
deixavam tudo de lado
pra ir ao Municipal

Lendas do Abaeté
Jajá – Preto Rico – Manoel
voz: Carlinhos Pandeiro de Ouro
MANGUEIRA
[ ouça ♫ ]

Iaiá mandou ir à Bahia
no Abaeté, para ver sua magia
sua lagoa, sua história sobrenatural
que a Mangueira traz pra esse Carnaval

Janaína agô, agoiá
Janaína agô, agoiá
samba curima com a força de Iemanjá

oh! que linda noite de luar
oh! que poesia e sedução
branca areia, água escura
tanta ternura no batuque, na canção
lá no fundo da lagoa
no seu rito, e sua comemoração

foi assim que eu vi
Iara cantar
eu vi alguém mergulhar
para nunca mais voltar

Mexe-mexe
Otacilio de Jesus – Ciro-Bafo da Onça
voz: Marlene
BAFO DA ONÇA
[ ouça ♫ ]

mas…
é um tal de mexe-mexe
é um tal de pula-pula

quando eu entro no samba
no embalo, ninguém me segura

quando eu entro no samba
e boto pra quebrar
abre ala moçada
que o Bafo da Onça
acabou de chegar

Trá-lá-lá, Lamartine Babo, um Hino ao Carnaval Brasileiro
Darcy do Nascimento – Oliviel Alves de Oliveira
voz: Alda Perdigão
UNIDOS DE SÃO CARLOS
[ ouça ♫ ]

os clarins anunciando a festa
em louvor ao gênio imortal
desde os 13 anos já mostrava
que seria um mito nacional
ele prosperou e se consagrou no Carnaval
“Cibele”, “Viva o Amor” e “Lola”
são obras deste mestre criador

tempo bom
que não volta mais
só deixou lembranças
desses Carnavais

quem não se lembra?
da marcha “Linda Morena”
“Ride, Palhaço”, quando os cordões entravam em cena
luzes coloridas, chuvas de confete e serpentina
a nossa velha escola vai passar
com arlequins, pierrôs e colombinas

entrei na ginga, moringa, pinga pra cá
quem não tem ginga, moringa, pinga pra lá
entrei na hora e agora vou me acabar
lamartinando no hino, tra-la-la-lá

Quero Ver Minha Escola Passar
David Correa
voz solo: Ataulfo Júnior
PORTELA
[ ouça ♫ ]

mandei juntar os meus brequetes
vou partir
quero recuperar o tempo
divertir
por amor de carnaval
nunca mais hei de chorar

eu quero é cair na folia
estar na Avenida
ver minha escola passar

minha escola tem
maracatu, capoeira
tem samba da pesada
vem levantado poeira

Eneida, Amor e Fantasia
Nilson Nobre – Sobrinho
voz: Joel de Castro
SALGUEIRO
[ ouça ♫ ]

Eneida de Moraes
Eneida, amor e fantasia
oh! quanta saudade
de tudo que você fazia

pegou um ita no Norte
no Rio veio morar
adeus papai e mamãe
adeus Belém do Pará

se recordar é viver
então vamos recordar
inteligente mulher do Pará
desta linda festa popular

no Rio ela criou
a história dos Carnavais e o Baile do Pierrot
sobre chuva de confete e serpentina
ela se realizou

O ABC do Carnaval
Gibi – Toco
voz: Dominguinho
IMPERATRIZ LEOPOLDINENSE
[ ouça ♫ ]

o abc do Carnaval
a maneira de cordel
a Imperatriz revive agora
em desfile original
desde Serra Velha os entrudos
o famoso baile do Municipal
e as escolas de samba
fazem vibrar o pessoal
no deslumbramento audio-visual

Serra Velha, Serra Velha
Serra Velha serrador
esta velha deu na neta
por ter falado de amor

no Carnaval de agora
é o mesmo de outrora
nada mudou e se continuou
ontem, hoje e amanhã
o Carnaval, será sempre Carnaval

alegria, alegria
alegria pessoal
o Brasil fica em festa
quando chega o Carnaval

O Saber Poético da Literatura de Cordel
Baianinho
voz: Joel de Castro
EM CIMA DA HORA
[ ouça ♫ ]

era uma vez
era assim que começava
eu era menino, hoje recordo
as estórias que vovô contava
o pavão misterioso
que Evangelista mandou construir
com seu talento conquistou, ô, ô
a filha do conde, seu amor
quem é que não se lembra?
o conto do boi mandingueiro
quando falava o seu nome
o vaqueiro tremia de medo
quem amansasse o boi
tinha um prêmio em dinheiro
e também casava com a filha do fazendeiro

o Padre Ciço do Juazeiro
homem de bom coração
sempre lembrado
pelo povo cristão
vamos cantar minha gente
preste atenção no refrão
viva os poetas violeiro
lá do sertão

ê boi, ê, ê
ê boiada
é mandingueiro gente
é vaquejada


FICHA TÉCNICA — COORDENAÇÃO GERAL: Eliseth Duarte / COORDENAÇÃO ARTÍSTICA: Luiz França e Wilson Miranda / ARRANJOS: Nelsinho, Peruzzi e Pachequinho

Considerações finais

Espero que você tenha gostado desse post com os sambas-enredo e os sambas de terreiro de 1973, — QUANDO AS ESCOLAS DE ENCONTRAM — álbum lançado pela RCA Camden, sambas tendo a interpretação de Alda Perdigão, Carlinhos Pandeiro de Ouro, Marlene, Ataulfo Júnior, Joel de Castro, etc.

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