Sabiá Marrom. O Samba Raro de Alcione

Sabiá Marrom. O Samba Raro de Alcione

Este CD “Sabiá Marrom. O Samba Raro de Alcione” traz faixas raras e sobras de estúdio da fase inicial da carreira de Alcione, em que o samba dava cartas no seu repertório. Entre as inéditas, temos “Sabiá Marrom”, composta pelo maestro francês Paul Mauriat encantado com o poder de sua voz, a lírica “Pôr do Sol” e o irreverente samba baiano “Não Suje o Meu Caixão”. Há também quatro belos sambas-enredo do carnaval de 75, versões em espanhol dos hits “O Surdo” e “Sufoco” nunca lançadas no Brasil, duetos com Chico Buarque, João Nogueira e Leci Brandão, além as canções gravadas por ela antes de sua estreia em LP. De matar qualquer fã! (Rodrigo Faour)


Por volta de 1968, Alcione saiu do Maranhão em busca de um lugar ao sol no Sul maravilha. Cantou em programas de calouros na televisão, recebeu convites para cantar com alguns grupos de brasileiros em shows no exterior, tipo “exportação”, e atuou como crooner em diversas boates do eixo Rio — São Paulo. Foi justamente durante uma dessas temporadas, na boate Blow Up, na Rua Augusta, em São Paulo, ao lado da jazzista Tânia Maria, que o cantor Jair Rodrigues a descobriu e lhe apresentou a Roberto Menescal — então diretor artístico da Philips/Phonogram. Igualmente encantado por sua figura e seu timbre, o compositor e produtor lhe contratou e produziu seu primeiro compacto com os sambas “O Sonho Acabou”, de Gilberto Gil, e “Figa de Guiné”, de Reginaldo Bessa com o estreante Nei Lopes.

Apesar de ser uma cantora da noite, fluente em vários gêneros, ela foi contratada para ser sambista. Primeiro porque a gravadora precisava de uma cantora de samba para fazer frente à concorrência e depois porque ainda por cima ela era negra, bonita e simpática — o que ajudava muito. Pois já em 1973, saía seu segundo compacto com “Tem Dendê” (outra da dupla Reginaldo Bessa e Nei Lopes) e “Pinta de Sabido” (dos mangueirenses Rubem e Capoeira). Curiosamente, a primeira foi também regravada ao vivo num LP coletivo intitulado “Catedral do Samba”, do mesmo ano, onde figuravam outros artistas em início de carreira como Filó Machado, Fabião, Macumbinha e até Cyro Aguiar, que vinha dos anos 60 com outro tipo de repertório.

Dali em diante, Menescal começou a encaixá-la em “paus de sebo” anuais da companhia “Máximo de Sucessos”, lado a lado com os maiores ases da MPB da ocasião como Chico, Bethânia e Gal. Nestes ela regravou o samba “Desafio”, grande sucesso popular de Luiz Américo, e “Linda Flor (Ai, Ioiô)”, nosso pioneiro samba-canção, sucesso em 1929 com Aracy Côrtes. No meio disso tudo, em 1974, teve ainda uma pequena participação na trilha da novela “O Rebu”, da TV Globo, cuja trilha era composta apenas de canções inéditas de Raul Seixas e Paulo Coelho. Ela interpretou a suave “Planos de Papel”, só de Raul.

Neste período Alcione continuava a atuar como crooner na noite, cantando em famosas casas de Copacabana, mas ainda desconhecida do grande público e sem emplacar sucessos nas rádios. Em 1975 ainda vendeu um compacto duplo com ótimas interpretações para quatro sambas-enredo marcantes do carnaval daquele ano, levados à passarela da Avenida Presidente Vargas pelas escolas Salgueiro, Mangueira, Mocidade e São Carlos. Mas novamente nada aconteceu. Até que em meados deste ano, Menescal bateu o martelo e, contrariando as expectativas da gravadora em relação a ela, decidiu arriscar e lhe dar a chance de gravar seu primeiro Lp “A Voz do Samba” onde imediatamente estourou com “O Surdo” e “Não Deixe o Samba Morrer”.

A partir daí, todos sabem, Alcione virou estrela e entre a enxurrada de sucessos que despejou no mercado na segunda metade da década de 70, ainda teve tempo para cantar nos discos dos colegas Chico Buarque, Leci Brandão e João Nogueira, registrando três excelentes sambas, respectivamente: “O Casamento dos Pequenos Burgueses” (no álbum com a trilha da peça Ópera do Malandro), “Fim de Festa” (no quinto LP de Leci, “Essa Tal Criatura”) e “De Babado”, do gênio Noel Rosa com João Mina (no álbum Wilson, Geraldo e Noel).

Com tanto repertório bom e a limitação de duração que havia nos discos da época, houve algumas sobras de estúdio que permaneciam inéditas até hoje nos porões da gravadora. É o caso da irreverente “Não Suje o Meu Caixão”, de Panela e Garrafão, originalmente lançada pelo primeiro no LP “Sambas da Bahia — Riachão, Batatinha e Panela”, em 1973. Outra pérola desencavada é “Pôr do Sol”, de seu colega, o compositor angolano André Mingas (com Manuel Rui), cuja letra é repleta de imagens da natureza, esbanjando lirismo. Para terminar, a terceira inédita é a belíssima “Sabiá Marrom”, composta pelo maestro francês Paul Mauriat em homenagem à Marrom. Ele chegou a gravá-la de forma instrumental, mas a versão cantada jamais chegou ao público.

Pois em junho de 1977, Alcione e o maestro foram reunidos pela Revista Amiga numa reportagem em que ele explicava a razão de ter escrito uma canção em sua homenagem. “Quando comuniquei à Phonogram minha intenção de gravar um disco só com músicas brasileiras, recebi um monte de discos de diversos artistas para ouvir e selecionar as faixas. Entre todos, o que mais me impressionou foi o de Alcione. Existe alguma coisa em sua voz que me deixou emocionado, uma espécie de véu , e cheguei a pensar que ela fumava muito. Depois é que vim a saber que Alcione não fuma, é uma propriedade natural de sua voz. Além do mais, ela canta o que os franceses esperam ouvir de uma cantora brasileira”, declarou Paul ao repórter Paulo Simões, quando a letra em português ainda sequer havia sido feita. Ele ressaltava ainda que era a primeira vez que se arriscava em compor um samba. A Marrom, por sua vez, mostrava-se envaidecida e surpresa com aquilo tudo: “Sei que sou suspeita para falar, mas gostei muito da linha melódica. É daquelas músicas onde posso me atirar, e garanto que vou deitar e rolar. (…) Estou reagindo como qualquer pessoa em início de carreira reagiria. Isso não é uma música, é um acontecimento. (…) Estou feliz e emocionada, querendo corresponder a tudo que ele espera de mim” Agora ninguém terá a menor dúvida de que “Sabiá Marrom” é de fato uma joia rara e que tanto o maestro compôs um samba à altura da cantora como a sua interpretação ficou no nível do prestígio internacional do músico francês. Por que permanecia inédita até agora? Isso só Deus sabe explicar.

Rodrigo Faour Abril/2010


Sabiá Marrom. O Samba Raro de Alcione

Alcione 2010, Universal Music (60252739559)
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DISCO É CULTURA

REPERTÓRIO

Sabiá Marrom
Paul Mauriat – Pierre Delanoe – Totonho – Paulinho Rezende
1979 (Inédita), sobra do LP “Gostoso Veneno”
[ ouça ♫ ]

céu, vento palmeiral
flor, fundo de quintal
no pé de araçá a sabiá
desceu, cantou
voou, voltou
ei, sabiá marrom
não canta nesse tom
pode alguém gostar
do teu cantar
aí vão te engaiolar

gorjeia, disfarça tua canção
ponteia, arranja um outro refrão, à toa
e voa pra qualquer lugar
até primaverar

gorjeia, mas canta um canto banal
ponteia ou faça como um pardal
te cala até que um dia num pomar
você possa outra vez cantar como eu cantei

menestrel cantor
não canta tanto amor
podem escutar o teu cantar
eu sei que vão te apedrejar

vai, voa e vê se traz
um sol de outros quintais
sábia, sabiá
retorna e diz pra mim onde mora a paz

sabiá marrom
não canta nesse tom
pois se alguém achar
teu canto bom sei lá, sabiá marrom
sabiá marrom, sabiá marrom

Pôr do Sol
André Mingas – Manuel Rui
1980 (Inédita), sobra do LP “E Vamos á Luta”
[ ouça ♫ ]

quantas vezes o mar já viu
nossos olhos para chorar
quantas vezes o mar pediu!
nossas bocas pra cantar

como então ficar a olhar
para o sol nesta nostalgia
se depois da estrela e o luar
nasce sempre um sol para o novo dia

vermelho o sol
vai se deitar
na linha que é o horizonte
e a vaga sempre a arrebentar

da vida tão aqui defronte
espera, meu amor, que é noite
a que anda vai vir navegar
com histórias bonitas para eu contar

porque acabaram os barcos
com escravos no porão da esperança
se até mesmo este pôr de sol
é riso de uma criança

não me fale mais em chorar
se mesmo em cada pôr de sol
vem a noite com a melodia
e o mar da fantasia de me ver sonhar

Festa do Círio de Nazaré
Aderbal Moreira – Dario Marciano – Nilo Mendes “Esmera”
1975 Do compacto “Os Melhores Sambas Enredo de 1975” Philips 6245.037 (Samba-Enredo da Unidos de São Carlos)
[ ouça ♫ ]

no mês de outubro
em Belém do Pará
são dias de alegria e muita fé
começa com extensa romaria matinal
O Círio de Nazaré

que maravilha, a procissão
e como é linda a santa em sua berlinda
e o romeiro a implorar
pedindo a dona em oração
para lhe ajudar

ó, Virgem Santa
olhai por nós
olhai por nós
ó, Virgem Santa
pois precisamos de paz

em torno da matriz
as barraquinhas com seus pregoeiros
moças e senhoras do lugar
três vestidos fazem pra se apresentar
tem circo dos horrores
berro-boi, roda-gigante
as crianças se divertem
em seu mundo fascinante
e o vendeiro
de iguarias a pronunciar
comidas típicas
do estado do Pará

tem pato no tucupi
muçuã e tacacá
maniçoba e tucumã
açaí e aluá

Não Suje o Meu Caixão
Panela – Garrafão
1975 (Inédita), sobra do LP “A Voz do Samba”
[ ouça ♫ ]

eu não quero você
nem pra pegar na alça do meu caixão
se hoje vivo sofrendo
você foi o culpado da separação
fiz tudo pra ver você feliz
e você me traiu
e diz por aí que o destino não quis

arrependido, hoje pede pra voltar
mas por favor, não venha me procurar
chega de ingratidão
eu não quero você
nem pra pegar na alça do meu caixão

Tem Dendê
Reginaldo Bessa – Nei Lope
1973 Do compacto simples “Alcione” Philips 6069.080
[ ouça ♫ ]

tem dendê, tem dendê
no jeitinho dela
na cor de canela tem dendê

no feitiço e na poesia
da Bahia tem dendê
na Maria de São Pedro
tem segredo, tem dendê
entretanto, ela é o resumo
desse sumo, desse molho
oue até num piscar de olho
é capaz de endoidecer

no vapor de cachoeira
e na ribeira tem dendê
nas cantigas do baiano Caetano
tem dendê
entretanto, o que eu queria
da Bahia era só ela
com ela num barco à vela
sem ela, no mar morrer

Pinta de Sabido
Capoeira – Rubem
1973 Do compacto simples “Alcione” Philips 6069.080
[ ouça ♫ ]

se bobeira desse pernada
você, meu camarada
só vivia deitado no chão
tem a pinta de sabido
mas no fundo é um tremendo bobão

em matéria de samba não está com nada
e na roda de bamba não pode ficar
pra não vacilar
você tem que entrar numa outra jogada
e deixar o cabelo crescer
usar calça desbotada
com tachinha e paetê
uma bolsa a tiracolo
anel no dedão do pé
se quiser despertar atenção
pinte os lábios de batom
pra poder ficar bom

Imagens Poéticas de Jorge Lima
Tolito – Mosar – Delson
1975 Do compacto “Os Melhores Sambas Enredo de 1975” Philips 6245.037 (Samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira)
[ ouça ♫ ]

na epopeia triunfal
que a literatura conquistou
em síntese de um sonho
que o poeta tão risonho
assim se consagrou

ô, ô, ô, ó, ó
essa é a nega fuló
uma obra fascinante
que o poeta tão brilhante
o povo admirou

Jorge de Lima em Alagoas nasceu
ouviu tudo dos antigos
o que aconteceu
com os escravos na senzala
e no Quilombo dos Palmares
foi um sábio que seguiu as tradições
com seus versos, poemas e canções
boneca de pano é joia rara
calabar e o acendedor de lampião
Zumbi, Floriano e Padre Cícero
Lampião e o Pampa
é o amor

Figa de Guiné
Reginaldo Bessa – Nei Lopes
1972 Do compacto simples “Alcione” Philips 6069.058
[ ouça ♫ ]

quem me vinga da mandinga é figa de guiné
mas o de fé do meu axé não vou dizer quem é

sou da fé, cabeça feita
axê, axé
no peji do candomblé
axê, axé
tenho meu corpo fechado
axê, axé
da cabeça até o pé

vai com calma, te segura
axê, axé
quem avisa amigo é
axê, axé
quem não pode com a mandinga
axê, axé
não batuca opanijé

onda forte não derruba
axê, axé
nem machuca quem tem fé
axê, axé
vou nas águas do meu santo
axê, axé
na enchente da maré

da Bahia me mandaram
axê, axé
minha figa de guiné
axê, axé
com a bênção de Caymmi
axê, axé
Jorge Amado e Caribé

O Sonho Acabou
Gilberto Gil
1972 Do compacto simples “Alcione” Philips 6069.058
[ ouça ♫ ]

o sonho acabou
quem não dormiu no sleeping-bag
nem sequer sonhou

o sonho acabou de quando o céu
foi demanhando, do sol vindo, vindo, vindo
dissolvendo a noite na boca do dia
o sonho acabou
dissolvendo a pílula de vida do doutor Ross
na barriga de Maria

o sonho acabou desmanchando
a transa do doutor Silvana
a trama do doutor fantástico
e o meu melaço de canal
o sonho acabou transformando
o sangue do cordeiro em água
derretendo a minha mágoa
derrubando a minha cama
o sonho acabou
e foi pesado o sono
pra quem não sonhou

O Mundo Fantástico do Uirapuru
Tatu – Nezinho – Campo
1975 Do compacto “Os Melhores Sambas Enredo de 1975” Philips 6245.037 (Samba-enredo da Mocidade Independente de Padre Miguel)
[ ouça ♫ ]

sonhei, sonhei, sonhei
com a floresta encantada
e seu pequenino rei
vi o sol, os rios e as matas
vi sonoras cascatas
espelhando o céu azul
e ao longe eu ouvia
em som da magia
o canto do uirapuru
lendário pássaro cantor
quando canta o seu amor
todos param pra escutar

e quem ouvir o seu cantar
abraça a sorte e afasta o azar

e no auge do meu sonho
o uirapuru surgiu
na imensidão da floresta
enriquecendo o folclore do Brasil
eu acordei com seu canto original
radiante de alegria
porque era Carnaval

Desafio
Luiz Américo – Bráulio de Castro – Clóvis de Lima
1973 Do LP “Máximo e Sucessos N° 9” Fontana Special 6470.507
[ ouça ♫ ]

quando eu tiver
com a minha cuca cheia de cachaça
te arranco dessa roda, te ganho na raça
te levo pra ser dona do meu barracão

bateu o leiteiro na porta
e gritou: “bom dia”
as luzes já se apagaram
só não vejo Maria
vive ligada no samba
sem dar bola pra vida
ganhou diploma na escola
foi rainha na Avenida

os meus amigos me falam:
esquece a Maria
ela nasceu com o samba
ela é da folia
às vezes chego a pensar
que é pura verdade
mas se ela demora a voltar
esqueço a realidade

Planos de Papel
Raul Seixas
1974 Do LP da trilha da novela “O Rebu” Som Livre 403.6059
[ ouça ♫ ]

Deus, eu passo os sete dias úteis
traçando nove dias fúteis
fazendo planos de papel
em quartos cinzas de aluguel
e vou dormir
entre as paredes do hotel do sossego
meu amor

sim, no contracanto do meu leito
guardo um punhal cravado ao peito
tingindo a cama e o lençol
por uma fresta invade o sol
e vou deitar
entre as palmeiras desenhadas nos jornais
meu amor
ah, mas que você espera de mim?
que o consumado eu vá repetir? não!
sim,
o que me importa nesse instante
é esse não me importar constante
esse sorriso que eu guardei
nessa gaveta a qual fechei
pra eu dormir
com a cabeça no lugar que eu deixei
meu amor

Linda Flor (Ai Ioiô)
Henrique Vogeler – Marques Porto – Luiz Peixoto – Cândido Costa
1974 Do LP “Máximo e Sucessos N° 11” Fontana Special 6470.522
[ ouça ♫ ]

ai, Ioiô!
eu nasci pra sofrer
fui ‘oiá’ pra você
meus ‘oinhos’ fechou
e quando o ‘zóio’ eu abri
quis gritar, quis fugir
mas você,
eu não sei por quê
você me chamou
ai, Ioiô,
tenha pena de mim
meu Senhor do Bonfim
pode ‘inté’ se ‘zangá’
se ele um dia souber
que você é que é
o Ioiô de Iaiá

chorei toda noite, pensei
nos beijos de amor que te dei
Ioiô, meu benzinho do meu coração
me leva pra casa
me deixa mais não

Fim de Festa
Rosinha de Valença – Leci Brandão
part.esp.: LECI BRANDÃO
1980 Do LP Leci Brandão “Essa Tal Criatura” Polydor 2451.146
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já é fim de festa, meu amor
quero cair nos seus braços
quero saudar nosso amor
na vida não se deve comandar o tempo
sem esperança
tai meu coração
que com certeza não deixa mentir
quando existe a paixão

ah, paixão!
a razão até perde o sentido
pois eu duvido
que um amor ao chegar
escolha a pessoa e o lugar
tai meu coração
que não me deixa mentir
quando existe essa grande emoção

O Casamento dos Pequenos Burgueses
Chico Buarque
part.esp.: CHICO BUARQUE
1979 Do LP Chico Buarque “Ópera do Malandro” Philips 6349.400/1
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ele faz o noivo correto
e ela faz que quase desmaia
vão viver sob o mesmo teto
até que a casa caia
até que a casa caia
ele é o empregado discreto
e ela engoma o seu colarinho
vão viver sob o mesmo teto
até explodir o ninho
até explodir o ninho

ele faz o macho irrequieto
e ela faz crianças de monte
vão viver sob o mesmo teto
até secar a fonte
até secar a fonte
ele é o funcionário completo
e ela aprende a fazer suspiros
vão viver sob o mesmo teto
até trocarem tiros
até trocarem tiros

ele tem um caso secreto
e ela diz que não sai dos trilhos
vão viver sob o mesmo teto
até casarem os filhos
até casarem os filhos
ele fala em cianureto
e ela sonha com formicida
vão viver sob o mesmo teto
até que alguém decida
até que alguém decida

ele tem um velho projeto
ela tem um monte de estrias
vão viver sob o mesmo teto
até o fim dos dias
até o fim dos dias
ele às vezes cede um afeto
ela só se despe no escuro
vão viver sob o mesmo teto
até um breve futuro
até um breve futuro

ela esquenta a papa do neto
e ele quase que fez fortuna
vão viver sob o mesmo teto
até que a morte os una
até que a morte os una
até que a morte os una
até que a morte os una

De Babado
Noel Rosa – Joel Mina
part.esp.: JOÃO NOGUEIRA
1981 Do LP João Nogueira “Wilson, Geraldo e Noel” Polydor 2451.170
[ ouça ♫ ]

de babado, sim
meu amor ideal
é sem babado, não

seu vestido de babado
que é de fato alta-costura
me fez sábado passado
ir a pé a Cascadura
e eu voltei com a perna dura!

um vestido de babado
que eu comprei lá em Paris
eu sambei num batizado
não dei palpite infeliz
você não viu porque não quis!

quando eu ando a seu lado
você sobe de valor
seu vestido sem babado
é você sem meu amor
é assistência sem doutor!

quando andei pela Bahia
pesquei muito tubarão
mas pesquei um bicho um dia
que comeu a embarcação
não era peixe, era dragão!

brasileiro diz meu bem
e francês diz mon amour (oui, oui)
você diz vale quem tem
muito dinheiro pra pagar meu point-à-jol
eu ando sem l’argent toujours!

João diz um verso agora
que a Marrom vai se mandar
não vou dizer porque tenho respeito
tô com um verso aqui no peito
mas não vou levar
e você vai me desculpar!

oi, de cavaco, sim
meu amor ideal
oi, sem cavaco, não

O Segredo das Minas do Rei Salomão
Nininha Rossi – Dauro – Zé Pinto – Mário Pedra
1975 Do compacto “Os Melhores Sambas Enredos de 1975” Philips 6245.037 (Samba-Enredo do Acadêmicos do Salgueiro)
[ ouça ♫ ]

miragem de uma época distante
mil princesas procuravam descobrir
do Rei Salomão o segredo
das minas guardadas em terras de Ofir
a Rainha de Sabá apareceu
num cortejo que jamais se viu igual
com negrinhos que ao rei ofereceu
de olhos verdes, um presente original
presença feita de mistério
com fascínio e sortilégio
não consegue desvendar
o caminho faiscante das riquezas
paraíso verde de encantação

e da Fenícia veio o Rei Iran
em galeras alcança a terra das amazonas
que sensação, que esplendor
a natureza em flor
(que que sensação)

com elas numa noite enluarada
entre cantos e magia
eis a festa do prazer
o muiraquitã da sorte
este amor mais forte
que jamais vão esquecer

e o sol nascendo, vem clarear
o tesouro encantado
que o rei mandou buscar

Tem Dendê (ao vivo)
Reginaldo Bessa – Nei Lopes
1973 Do LP “Catedral do Samba” Polyfar 2494 520
[ ouça ♫ ]

O Surdo (em espanhol)
Totonho – Paulinho Rezende (versão em espanhol: Luis A. Ferri)
1980 Esta música foi lançada no compacto 45 rpm Philips 0000145 para o mercado latino com o título “El Bombo”
[ ouça ♫ ]

Sufoco (em espanhol)
Chico da Silva – Antônio José
1980 Esta música foi lançada no compacto 45 rpm Philips 0000145 para o mercado latino com o título “Que Dilema”
[ ouça ♫ ]


Considerações finais

Espero que você tenha gostado desse post com o álbum de Alcione; “Sabiá Marrom” com sambas “raros” e “sobras de estúdio”, lançado em 2010 pela Universal Music e com repertório selecionado por Rodrigo Faour.

2 comentários em “Sabiá Marrom. O Samba Raro de Alcione”

  1. Caro amigo, este documento, estes arquivos são uma precisosidade in-dis-cri-tí-vel !! Grato por tudo. Abraços grandes. Marcelo Mattos. Santos/SP

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