Sambas de Enredo das Escolas de Samba do Grupo 1 Carnaval 1975

Pandeiro e tamborim compõem a espinha dorsal da bateria no álbum com os sambas de enredo de 1975, fazendo uma bela harmonia com o cavaco. O apito também aparece em várias faixas.


1975 possui uma safra enriquecida pelas obras-primas da Portela, da União da Ilha e da São Carlos , mais os belos sambas da Mocidade, da Mangueira e do Salgueiro. Como sempre, a gravação deixou o samba-enredo como primeiro plano. O som da bateria neste disco é muito diferente daquele que é o som característico hoje, pois, no álbum de 1975, a bateria se resume numa deliciosa e simples batucada.

Sobre os sambas…

Portela 75
Macunaíma (Heróis de Nossa Gente)
David Corrêa – Norival Reis
Geanro (voz)
[ ouça ♫ ]

Nem parece que o clássico do samba “Macunaíma” é assinado por David Corrêa (junto com Norival Reis), o homem que misturou lirismo e animação em um samba-enredo com singular maestria. Sem as expressões monossilábicas sempre presentes em seus refrões, David construiu um samba de melodia simples, mas de qualidade impressionante. O refrão principal, em forma de cantiga, é daqueles que, quando dá vontade de cantar, não paramos mais (“vou-me embora, vou-me embora/ eu aqui volto mais não/ vou morar no infinito/ e virar constelação“). Embora literalmente tenha um formato atual (duas partes e dois refrões de quatro versos cada), o estilo melódico é bem antigo, já que é cantado geralmente em tom baixo. Na Avenida, o samba foi cantado por David Corrêa, Candeia e Clara Nunes, sem dúvida um trio de respeito. No disco, quem canta o hino portelense de 1975 é Genaro Soalheiro, produtor do álbum de sambas-enredo por muitos anos ao lado de nomes como Laíla, Rivaldo Santos e Mário Jorge Bruno. Ele também compôs, junto com o saudosíssimo Bezerra da Silva, a chamada dupla cinco-mais-cinco, cantando com o recém-falecido sambista sucessos como “Piranha“, “Colina Maldita“, “Arruda de Guiné” e “Se não Avisar o Bicho Pega“. Genaro também produzia os discos de Bezerra e sempre participava dos mesmos, soltando cacos e cantando junto com o rei da malandragem. Genaro aparece na capa do CD “Meu Samba é Duro na Queda”, gravado por Bezerra em 1996, disputando uma queda de braço com seu parceiro de dupla 5+5. Genaro Soalheiro morreu em 1997, ano em que produziu pela última vez o disco de sambas-enredo do Especial do Rio.

Portela apresenta
do folclore tradições
milagres do sertão, a mata virgem
assombrada com mil tentações
Cy, a rainha mãe do mato
Macunaíma fascinou
ao luar se fez poema
mas ao filho encarnado
toda maldição legou

Macunaíma, índio branco catimbeiro
negro sonso, feiticeiro
mata a cobra e dá um nó

se em forma de estrela
a Macunaíma dá
o talismã que ele perde e sai a vagar
canta o uirapuru e encanta
liberta a mágoa do seu triste coração
negrinho do pastoreio foi a sua salvação
e derrotando o gigante
era uma vez Piaimã
Macunaíma volta como muiraquitã
marupiara na luta e no amor
quando sua pedra para sempre
o monstro levou
o nosso herói assim cantou

vou-me embora, vou-me embora
eu aqui volto mais não
vou morar no infinito
e virar constelação

Mocidade Independente 75
O Mundo Fantástico do Uirapuru
Tatu – Nezinho – Campo Grande
Ney Vianna (voz)
[ ouça ♫ ]

Seu ponto forte é a doce melodia, quase infantil. Também bastante simples, ela é reforçada por uma letra bastante poética. No começo da segunda passada do samba, é possível ouvir um assobio que se assemelha ao lendário canto do uirapuru. O refrão central é delicioso (“e quem ouvir o seu cantar/ abraça a sorte, afasta o azar“) e o último ganha um tom mais lírico (“eu acordei no seu canto original/ radiante de alegria porque era Carnaval“). Grande momento da Mocidade do saudoso intérprete Ney Vianna.

sonhei, sonhei, sonhei
com a floresta encantada
e o seu pequenino rei
vi o sol, os rios e as matas
vi sonoras cascatas
espelhando o céu azul
e ao longe eu ouvia
em som de magia
o canto do uirapuru
legendário pássaro cantor
quando canta o seu amor
todos param para escutar

e quem ouvir
o seu cantar
abraça a sorte
e afasta o azar

e no auge do meu sonho
o uirapuru surgiu
na imensidão da floresta
enriquecendo o folclore do Brasil

eu acordei!
com seu canto original
radiante de alegria
porque era Carnaval

Vila Isabel 75
Quatro Séculos de Paixão
Tião Graúna – Arroz
Zé Carlos (voz)
[ ouça ♫ ]

Antigamente eram comuns sambas-enredo de letra curta e melodia simples. Este samba da Vila, que se enquadra perfeitamente nestas duas qualidades enumeradas, possui dois refrões adoráveis. É um samba bastante simplório.

quero o perfume das flores
ação, luz e cores
nesta festa popular
eu sou o teatro brasileiro
da vida o espelho verdadeiro

sambando neste Carnaval
com a minha arte que é imortal

barreiras as venço com bravura
transmitindo a toda gente
distração e cultura
sou a magia permanente
que na história do Brasil
sempre se fez presente

tenho beleza
sou a esperança
trago alegria
neste dia de folia

União da Ilha 75
Nos Confins de Vila Monte
Cezão
Conjunto T.B. Samba (vozes)
[ ouça ♫ ]

1975 foi o ano de estréia na elite do carnaval daquela que seria uma das mais simpáticas e carismáticas agremiações do carnaval: a União da Ilha do Governador . Nos seus primeiros anos entre as grandes, a União da Ilha adotaria a característica de desfiles bons, bonitos e baratos, acompanhados por sambas primorosos. Nos Confins de Vila Monte fez a Ilha estrear no Grupo Especial com chave de ouro em termos musicais. O samba é cantado quase que inteiramente em formato de trova e, por sua beleza original, é uma das músicas campeãs nas minhas cantorias de chuveiro. Um primor de samba-enredo, sem dúvida alguma!

sob o sol escaldante
gemia o nordeste de dor
nos confins de Vila Monte
uma triste estória se passou
um beato rezadeiro
arrastava a multidão
e a fúria do cangaço
assolava o sertão
violeiros, repentistas
cantam trovas ao luar
bumba-meu-boi, maracatu
mulé-rendê, mulé-rendá

ô sinhô, ô sinhá
só Isaura na viola
fazia o Nordeste cantar

numa união de sangue
num adeus a despedida
nhá Branca deu a Bento
seu amor pra toda vida
velho corené Tunico
num ataque traiçoeiro
transformou menino Bento
num temível cangaceiro

correu chuva, correu sangue
misturando-se no chão
Branca e Bento, lampejo
foi mais um drama no Sertão

Beija-Flor 75
O Grande Decênio
Bira Quininho
Bira Quininho (voz)
[ ouça ♫ ]

Não é a toa que a Beija-Flor era considerada, na época, a escola do governo. Se, no ano anterior, a agremiação de Nilópolis dizia que os feitos alcançados pelo governo militar fariam do Brasil um país promissor, em 1975 a Beija exaltava com galhardia “O Grande Decênio”, em “comemoração” aos dez anos do comando pelos militares do nosso país. Tais enredos de exaltação à ditadura eram, sem dúvida, um exemplo primordial de enredo patrocinado, pois na letra deste samba consta órgãos criados pelos militares como PIS-PASEP, FUNRURAL e MOBRAL. Afinal, é samba-enredo ou jingle político? Francamente… E a melodia deste samba é meia-boca também! Este desfile foi o último da Beija-Flor como escola pequena, já que Joãozinho Trinta e o bicheiro Anísio a revolucionariam no ano seguinte. Um detalhe que o autor do samba de 1975 e seu intérprete no disco Bira Quininho tem uma voz parecida com a de Neguinho, que assumiria o microfone oficial da escola em 1976 e não o largaria mais.

é de novo Carnaval
para o samba este é o maior prêmio
e o Beija-Flor vem exaltar
com galhardia o grande decênio
do nosso Brasil que segue avante
pelo céu, mar e terra
nas asas do progresso constante
onde tanta riqueza se encerra

lembrando PIS e PASEP
e também o Funrural
que ampara o homem do campo
com segurança total

o comércio e a indústria
fortalecem nosso capital
que no setor da economia
alcançou projeção mundial

lembraremos também
o Mobral, sua função
que para tantos brasileiros
abriu as portas da educação

Império Serrano 75
Zaquia Jorge, a Vedete do Subúrbio, Estrêla de Madureira
Avarese
Côro da Escola (vozes)
[ ouça ♫ ]

O samba da Império de 1975, conhecido pelo refrão do baleiro-bala, é pequenino e simples demais, embora tenha uma boa melodia. Até hoje os imperianos choram a derrota nas eliminatórias do samba que se consagraria na voz do imortal Roberto Ribeiro batizado de Estrela de Madureira.

o Império deu o toque de alvorada
seu samba a estrela despertou
a cidade está toda enfeitada
pra ver a vedete que voltou
com seu viver de alegria
fez tanta gente sonhar

outra vez se abre o pano
pra todo o céu suburbano
ver sua estrela brilhar

viagem, revista, aquarela
o passado é presente
e neste teatro-passarela
ela resplandece novamente

baleiro, bala
grita o menino assim
da Central a Madureira
é pregão até o fim

Mangueira 75
Imagens Poéticas de Jorge de Lima
Tolito – Mosar – Delson
Sobrinho (voz)
[ ouça ♫ ]

No disco, recebe uma brilhante interpretação de Sobrinho. É uma verdadeira obra-prima da verde-e-rosa, de melodia primordial e uma excelente letra. Para mim, se resume em um dos cinco melhores sambas mangueirenses da história essa homenagem ao poeta alagoano Jorge de Lima.

na epopéia triunfal
que a literatura conquistou
em síntese de um sonho
que um poeta tão risonho
assim se consagrou ô ô ô

ô ô ô, essa é negra fulô
uma obra fascinante
que um poeta tão brilhante
o povo admirou

Jorge de Lima em Alagoas nasceu
ouviu tudo dos antigos o que aconteceu

com os escravos na senzala
e no Quilombo dos Palmares
foi um sábio que seguiu as tradições
com seus versos, poemas e canções
boneca de pano, a jóia rara
calabar e o acendedor de lampiões

Zumbi, Floriano e Padre Cícero
Lampião
e o Pampa é amor ô ô ô

São Carlos 75
Festa do Círio de Nazaré
Dário Marciano – Aderbal Moreira – Nilo Mendes
Conjunto Nosso Samba (vozes)
[ ouça ♫ ]

O que dizer de Festa do Círio do Nazaré, esse clássico vencedor do Estandarte de Ouro de melhor samba em 1975 e que encantou no carnaval de 2004 cantado pela Viradouro? O clamor “oh Virgem Santa/ olhai por nós…” nunca mais saiu de nossas memórias, com sua adorável letra que mistura a tradição do Círio com os costumes do Pará (meu estado natal) e sua doce melodia. Um dos melhores sambas de todos os tempos!

no mês de outubro
em Belém do Pará
são dias de alegria e muita fé
começa com extensa romaria matinal
o Círio de Nazaré

que maravilha a procissão
e como é linda a Santa em sua berlinda
e o romeiro a implorar
pedindo à Dona em oração
para lhe ajudar

oh! Virgem Santa
olhai por nós
olhai por nós
oh! Virgem Santa
pois precisamos de paz

em torno da matriz
as barraquinhas com seus pregoeiros
moças e senhoras do lugar
três vestidos para se apresentar
tem o circo dos horrores
berro-boi, roda-gigante
as crianças se divertem
em seu mundo fascinante

e o vendeiro de iguarias a pronunciar
comidas típicas do estado do Pará

tem pato no tucupi, muçuã e tacacá
mariçoca e tucumá, açaí e aluá

Imperatriz 75
A Morte da Porta-Estandarte
Walter da Imperatriz – Nelson Lima – Caxambú – Denir Lobo
Jorge Goulart (voz)
[ ouça ♫ ]

Este samba possui um tom quase que fúnebre, já que seu enredo realmente combina com tal tom: A Morte da Porta-Estandarte. De melodia lírica, é um samba-enredo, na minha opinião, muito chato. Um dos piores da história da Imperatriz! É cantado no disco por Jorge Goulart.

para que chorar
é tempo de samba com empolgação
vamos recordar Rosinha
encantando a multidão
mulata brejeira
seu nome uma flor
empunhava o estandarte
do bloco Lira do Amor
era Carnaval (era Carnaval)
a Praça Onze estava em festa
cantos e toques de clarins
pandeiros, surdos e tamborins

lá vem o bloco
e o povo a gritar
abram alas minha gente
deixem a Rosinha passar

no auge da folia
uma alma em alucinação
“a morte da porta-estandarte”
e o negro sambista pedindo perdão

ôô ôô
ao longe um cantar dolente
levanta Rosinha, vem sambar
ela já não está presente

Lucas 75
Cidades Feitas de Memórias
Baianinho – Ledi Goulart – Laci
Ledi Goulart (voz)
[ ouça ♫ ]

Samba de letra comprida e de esporádicas variações melódicas, o que faz eu considerar também um samba-enredo chato! Deve ter se arrastado na Avenida, o que levou o Galo de Ouro ao penúltimo lugar no desfile de 1975. Sorte que, neste ano, não teve rebaixamento.

cidades feitas de memórias
é o tema da história
que Lucas apresenta neste Carnaval
seus grandes amores, suas glórias
cenário de belezas sem igual
de Sabará as suas crenças
e as atrações imensas
dos seus contos sensacionais
a verdadeira legião de heróis
Vila Rica de Ouro Preto
palco dos mais nobres ideais
terra de Chico Rei
negro que com sua inteligência enriqueceu
e da grande amorosa da literatura
eterna Marília de Dirceu
também nascida da febre do ouro
Mariana o tesouro
de aventureiros, que buscavam emancipação
Barbacena formosa, cidade das rosas
canto teus encantos com sublime emoção
São João del Rei berço natal
de uma geração fenomenal
Tiradentes o heróico inconfidente
Heliodora a poetiza imortal

é grande o esplendor
das obras de raro valor
lá em Congonhas do Campo
ápice da arte do mestre escultor

da legendária Diamantina
uma história que fascina
e ao mundo deslumbrou
Chica da Silva a escrava
a alta nobreza conquistou

Em Cima da Hora 75
Personagens Marcantes dos Carnavais Cariocas
Cigarra
Valdir Marujo (voz)
[ ouça ♫ ]

Seu refrão principal é adorável “é Praça Onze/ é pierrô e colombina/ arlequim e serpentina/ Tia Ciata, a sambar” e o encerramento do samba (de letra curta) com o refrão “olê olê/ olê olá/ sociedades, minha gente/ e o Ameno Resedá” lembra bastante as marchinhas clássicas de carnaval. A Em Cima da Hora levou para a avenida em 1975 um samba bastante animado.

é Praça Onze
é pierrot, é colombina
arlequim e serpentina
Tia Ciata, a sambar

dos Carnavais modernos e de outrora
personagens marcantes
recordamos agora
compositores e cantores
reconhecemos seus valores
Zé Pereira com seu bumbo original
o Rei Momo comandando o pessoal
Vilma porta-bandeira
quanta alegria ver no Carnaval
as escolas de samba
são aquela atração
os blocos de sujo
arrastando a multidão

olê! olê!
olê! olá!
sociedades, minha gente
e o Ameno Resedá

Salgueiro 75
O Segredo das Minas do Rei Salomão
Dauro – Zé Pinto – Nininha Rossi – Mário Pedra
Laíla (voz)
[ ouça ♫ ]

O samba da escola campeã do Carnaval é pouco comentado entre os bambas. Mas, para mim, trata-se de um samba-enredo sensacional, de melodia rica, lírica e emocionante. O trecho “e da Fenícia veio o Rei Iran/ em galeras alcança as terras das amazonas/ que sensação, que esplendor/ a natureza em flor” é de emocionar. É um samba-enredo que, quando toca por aqui, repito umas cinco vezes sem me cansar de ouvir. Grande momento na história salgueirense!

miragem de uma época distante
mil princesas procuravam descobrir
do Rei Salomão o segredo
das minas guardadas em terras de Ofir.
a Rainha de Sabá apareceu
num cortejo que jamais se viu igual,
com negrinhos que ao rei ofereceu,
de olhos verdes, um presente original,
presença feita de mistério,
com fascínio e sortilégio.
não conseguem desvendar
o caminho faiscante da riqueza
paraíso verde de encantação
e da Fenícia veio o Rei Iran,
em galeras alcança as terras das amazonas,

que sensação, que esplendor
a natureza em flor

com elas numa noite enluarada
entre cantos e magia
eis a festa do prazer
o muiraquitã dá sorte,
este amor mais forte
que jamais vão esquecer

e o sol nascendo
vem clarear
o tesouro encantado
que o rei mandou buscar

Marco Maciel/sambariocarnaval


Sambas de Enredo das Escolas de Samba do Grupo 1 Carnaval 1975

1975, AESEG/Top Tape (85.030)
Ouça no spotify, youtube ou itunes
DISCO É CULTURA


FICHA TÉCNICA — REALIZAÇÃO: Associação das Escolas de Samba do Estado da Guanabara – AESEG / GESTÃO: Amaury Jório / A autêntica música popular brasileira distribuida para o mundo pela Top-Tape

Considerações finais

Espero que você tenha gostado desse post com os sambas-enredo do Grupo 1 do Rio de Janeiro, carnaval 1975, lançado pela Top-Tape/AESEG.


Leia também

Festival de Sambas Enrêdo 1971

Como nos anos anteriores (68,69 e 70) em 1971 foi lançado o 4° volume da Série “Festival de Sambas Enrêdo” esse, com os sambas para o Carnaval de 1971. Álbum que trago neste post. Os […]

Sambas enrêdo 1° grupo 1971

Trago neste post os sambas enrêdo do Carnaval de 71 do grupo 1 (atual Grupo especial). Esse álbum em particular teve três edições: A primeira, não contém o samba do Salgueiro (ainda não tinha sido […]

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *