Sambas enrêdo 1° grupo 1971

Sambas enrêdo 1° grupo 1971

Trago neste post os sambas enrêdo do Carnaval de 71 do grupo 1 (atual Grupo especial). Esse álbum em particular teve três edições: A primeira, não contém o samba do Salgueiro (ainda não tinha sido escolhido). A segunda inclui o samba do Salgueiro e exclui o da Mangueira. Na terceira, inclui todos os sambas e exclui a faixa-extra “Show de ritmo (bateria)”


O disco que tenho é o da primeira edição. Neste álbum os sambas são apresentados com uma bateria bem tradicional, ao ritmo de batucada. A cuíca está presente em todas as faixas. Na primeira passada do samba, apenas o intérprete (que tem sua voz bastante valorizada na gravação) o entoa ao som do pandeiro. O coral (que já não é tão forçado pelas pastoras em relação aos discos anteriores) entra a partir da segunda passada, juntamente com a bateria (o intérprete volta a cantar sozinho na segunda parte do samba na segunda passada).

Sobre os sambas…

MANGUEIRA 71
Os modernos bandeirantes
(Darcy da Mangueira – Helio Turco – Jurandir)
[ ouça ♫ ]

Belo samba, com as excelentes variações melódicas características da verde-e-rosa. O hino mangueirense de 1971 (que tem a cara da escola) possui dois refrões muito bonitos: o primeiro (“Trago neste enredo fatos bem marcantes os modernos bandeirantes”) e o penúltimo (“E caminhando vai o meu Brasil para frente”), embora sua letra seja um tanto trash.

boa noite meu Brasil
saudações aos visitantes
trago neste enredo
fatos bem marcantes
os modernos bandeirantes
do Oiapoque ao Chuí
até o sertão distante
o progresso foi se alastrando
neste país gigante
no céu azul de anil
orgulho do Brasil
nossos pássaros de aço
deixam o povo feliz
ninguém segura mais este país

busquei na minha imaginação
a mais sublime inspiração
para exaltar
aqueles que deram asas ao Brasil
para no espaço ingressar
ligando os corações
o correio aéreo nacional
atravessando fronteiras
cruzando todo o continente
e caminhando vai o meu Brasil
para frente

Santos Dumont
hoje o mundo reconhece
que você também merece
a glorificação

VILA ISABEL 71
Ouro mascavo 
(Jonas – Arroz – Djalma)
[ ouça ♫ ]

O samba da Vila de 1971 possui uma letra das antigas, onde a poesia se sobressaía. A melodia é bastante lírica, aliada a um refrão central animado “Gira gira moenda gira sem parar. Pra fazer garapa pra negro velho tomar”. O samba é bom, mas a Vila possui obras bem melhores.

ao despertar do dia
o povo com imensa alegria
festejava a moagem da cana
ao som de vibrante melodia
vivendas ornadas de lindas flores
davam um toque sutil e atraente
numa mistura de cores
nos terreiros bandeiras a oscilar
sorriam brancos e negros
ao verem a moenda girar

gira gira moenda
gira sem parar
pra fazer garapa
pra nergo velho tomar

no auge da festa colossal
na casa grande
o luxo e a graça imperavam
senhores e damas desfilavam
no salão senhorial
esquecendo a senzala
num canto forte que fala
batucando com efusão
os negros dançavam
sob grande emoção

ô ôôô ôôô
ao ouro mascavo
o nosso louvor
ô ôôô ôôô
hoje é dia de festa
senhor.

MOCIDADE INDEPENDENTE 71
Rapsódia de saudade
(Tôco)
[ ouça ♫ ]

A obra-prima da agremiação de Padre Miguel! “Rapsódia de saudade” é, sem dúvida, o melhor samba-enredo da história da Mocidade e também um dos maiores de todos os tempos. A melodia deste samba é algo extraordinário, pois ela é de emocionar, de arrancar lágrimas até de quem não é bamba. E a letra poética também é um primor. Os dois refrões (principalmente o central) estão no hall dos melhores da história do carnaval. Volta e meia me encontro cantarolando esta obra-prima de primeira qualidade. Tôco, o autor do samba, até hoje está ativo como compositor da Mocidade. Ele é pai do atual intérprete da escola Roger Linhares.

canto,
faço do samba a minha prece
sinto que a musa me aquece
com o manto da inspiração
ao transportar-me pelas asas da poesia
ao som de lindas melodias
que vai fundo no coração

então componho um poema singular
rememorando obras célicas
do cancioneiro popular

oh, divina música
tua magia nos envolve a alma
tua sutileza nos seduz
pois emanas a luz
que enebria e acalma
tu és a linguagem dos cantores
tuas entonações
nos inspiram amores

música, nos traz saudades coloridas
dos trovadores em serestas
e das canções sentidas

O hino portelense de 1971 marca presença em muitas listas particulares de melhores sambas de todos os tempos. Com justiça!

IMPERATRIZ 71
Barra de ouro, barra de rio e barra de saia
(Niltinho Tristeza – José Inácio “Catimba”)
[ ouça ♫ ]

O refrão principal “É tempo de barra de ouro…” é difícil de ser cantado, pois seus versos são entoados de forma muito rápida. Já no refrão central (“Ina-ê que vem do tempo, que traz o vento, que faz o ouro rolar no rio que faz o rio rolar pro mar, rolar pro mar”), o trocadilho de palavras confunde um pouco o canto. Mesmo assim, os dois refrões são de grande qualidade, assim como o restante do samba, de melodia primorosa. O refrão “Olha a saia dela, ina-ê…” é uma boa pedida para a ala das baianas.

é tempo de barra de ouro
barra de rio, sim, senhor
e tempo de barra de saia
união de três raças por amor
(vamos cantar…)

a Imperatriz se engalana
por destino soberana
e traz pra este carnaval
fatos de uma era tão marcante
em que o ouro era constante
despertando a cobiça universal
quando aventureiros vindos de além-mar
com o ouro encontrado procuravam conquistar
os amores das nossas negras, mulatas e sinhás
e nas barras de suas saias, entoavam madrigais
sem saber amar

Ina-ê que vem do tempo que traz o vento
que faz o ouro rolar no rio
que faz o rio rolar pro mar, rolar pro mar

olha a saia dela, ina-ê
como o vento leva no ar

lá, laiá, laiá
ô ô ô
lá, laiá, laiá
ouro, rio, amor

IMPÉRIO SERRANO 71
Nordeste, seu povo, seu canto, sua glória
(Wilson “Diabo” – Maneco – Heitor)
[ ouça ♫ ]

Samba sem refrões de melodia doce e agradável, com grande simplicidade. O hino da Serrinha de 1971 é daqueles que, ao escutar, você percebe a calmaria despontando em sua mente de tão leve que é. Receberia uma magistral regravação de Roberto Ribeiro doze anos depois. Belo momento da Império Serrano!

Nordeste, o canto de sua gente
no Império está presente
para se comunicar
no fandango irradias alegria,
lendas, rezas e fantasias
tudo isso faz lembrar
Dona Santa desfilou desde menina
o pierrô e a colombina
são eternos foliões
pastorinhas, cirandeiras na cidade
sai o bloco da saudade
entram em cena os cordões
eia, eia, eia, boiada
eia, eia, o vaqueiro canta assim
plantador colhe e semeia
suplicando p’ra chover
arrastão feliz n’areia
as rendeiras a tecer
olê olá olê olê…
quando a lua se alteia
cantador canta vitória
viola afinada ponteia
o canto de um povo em glória
no Nordeste (breque)

IMPÉRIO DA TIJUCA 71
O misticismo da África ao Brasil
(Mário Pereira – João Galvão – Wilmar Costa)
[ ouça ♫ ]

A queridíssima e tradicional agremiação canta em 1971 o seu melhor samba. “O misticismo da África ao Brasil” é indiscutivelmente um primor de samba-enredo. Ele seria regravado anos mais tarde pelo conjunto MPB-4. Sua melodia muito bem variada é bastante envolvente e, no disco, ganha uma interpretação magistral do lendário Mário Pereira, o popular Marinho da Muda. Não tenho mais palavras para elogiar mais esta obra-prima do carnaval.

lua alta, som constante
ressoam os atabaques
lembrando a África distante
e o rufar dos tambores,
lá no alto da serra
personificando o misticismo
que aqui se encerra
saravá pai Oxalá
que meu samba inspirou
saravá todo povo de Angola Nagô
agô ôôô ôôô…

lá na mata tem mironga
eu quero ver
lá na mata tem um côco
este côco tem dendê

das planícies às cochilhas
o misticismo se alastrou
num torvelhinho de magia
que preto velho ditou
e o fetiche e o quebranto
ele nos legou

eu venho de Angola
sou rei da magia
minha terra é muito longe
meu gongá é na Bahia

tem areia ô… tem areia
tem areia no fundo do mar, tem areia

UNIDOS DE PADRE MIGUEL
Samba do criôlo doido (Uma Homenagem a: SERGIO PORTO)
(Nelson Oliveira – Duduca da Aliança)
[ ouça ♫ ]

Excelente samba! Com uma melodia de grande qualidade, a escola exalta a obra de Sérgio Porto, o popular Stanislaw Ponte Preta. Seus três refrões são bastante envolventes. Aliás, este formato de samba-enredo dividido em três partes e três refrões não costuma mais ser utilizado nos dias de hoje (o normal é duas partes com dois refrões). No disco, destaque para a paradinha da bateria na segunda passada do samba. Era a Unidos de Padre Miguel imitando a sua vizinha Mocidade Independente.

esta linda história
nasceu da imaginação
do imortal Sérgio Porto
e passará de geração a geração
sua obra emocionante
jamais esqueceremos
sua sátira tão bela
neste carnaval exaltaremos

criôlo doido
é sublime a sua história
compositor de grande escola
que um dia viu fugir sua memória
enquanto inconfidência, abolição, proclamação
foram os temas principais
o criôlo doido
era campeão nos carnavais

mas quando a bonança terminou
e a escola um novo enredo escolheu
sobre a atual conjuntura
foi aí que o criôlo endoideceu
inventou toda a história do Brasil
e o resultado foi aquele que se viu
Dona Leopoldina virou trem
D.Pedro é uma estação também

SÃO CARLOS
Brasil turístico
(Darci do Nascimento – Oliveti Oliveira – Nilo Mendes)
[ ouça ♫ ]

Samba de melodia bem cadenciada e bastante tradicional (a começar pelo “lá lá lá iá” que abre o samba). Foi a única escola do Especial a citar na letra o tricampeonato conquistado pela Seleção Brasileira no México no ano anterior. No disco, a segunda passada do samba ganha um balanço irresistível da bateria.

brilha sob este céu azul,
o que me faz sentir
orgulho e sedução
exaltando os bravos bandeirantes,
seus lindos campos floridos,
suas florestas verdejantes
as cataratas do Iguaçu,
gruta de Maquiné,
terra do batuquejê de Aruanda,
e do famoso Candomblé,
do frevo e do maracatu

salve Iracema
oh! lugar
beleza suprema, poema
boi bumba oi!

turismo tem
em todos os recantos
tem no norte, tem no leste
tem no centro, oeste, sul
quem parte leva saudade de alguém
do clima tropical
quem fica pela cidade
desse país majestade
vai ficar lembrando o carnaval
vaquejada, o mestre Aleijadinho
são riquezas que enobrecem
novos caminhos
pelos lindos cantos e recantos
é que eu canto:
venham ver o meu Brasil tri-campeão:
lá lá lá ia lá
lá iá lá iá lá iá lá iá

PORTELA
Lapa em três tempos
(Ary do Cavaco – Rubens)
[ ouça ♫ ]

Acostumada a compor relevantes obras-primas, vira costume por parte da Portela cantarolar sambaços da estirpe de “Lapa em três tempos”. O hino portelense de 1971 marca presença em muitas listas particulares de melhores sambas de todos os tempos. Com justiça! A parte inicial “Abre a janela formosa mulher…” e, sem dúvida, uma das mais clássicas de todos os sambas de enredo. A parte restante do samba é extraordinária, com uma melodia lírica e envolvente. Quem sabe pela primeira vez não ouvíamos a expressão que hoje se tornou um costumeiro clichê (e um grande “hit” futuro): “O samba vai levantar poeira”. Não confundir com o falecido Noite Ilustrada, que pedia para SACUDIR a poeira e dar a volta por cima (outro clichê danado). Dois dos maiores intérpretes do carnaval gravaram “Lapa”: Silvinho no disco original e Dedé da Portela para a Coletânea Sony da escola em 1993. Até 1971, não havia ainda o Prêmio Estandarte de Ouro para as melhores escolas em cada quesito. Se tivesse, provavelmente a Portela levaria o de melhor samba, disputando pau-a-pau com o popularesco samba salgueirense (embora Mocidade, Império Serrano e Império da Tijuca também merecessem). 

vem dos vice-reis
e dos tempos do Brasil imperial
através de tradições
até a República atual
os grandes mestres do passado
dedicaram obras de grande valor
a Lapa de hoje e a Lapa de outrora
que revivemos agora

a seresta quantas saudades nos traz
os cabarés e as festas
emolduradas pelos lampiões a gás
as sociedades e os cordões
dos antigos carnavais

olha a roda de malandro
quero ver quem vai cair
capoeira vai plantando
pois agora vais subir
poeira, oi poeira
o samba vai levantar poeira

imagem do Rio antigo
berço de grandes vultos da história
a moderna arquitetura lhe renova a tôda hora
mas os famosos Arcos,
os belos mosteiros
são relíquias deste bairro
que foi o berço de boêmios seresteiros

abre a janela formosa mulher
cantava o poeta trovador
abre a janela formosa mulher
Na velha Lapa que passou

SHOW DE RITMO (BATERIA)
Mangueira, Vila Isabel, Mocidade Independente, Imperatriz Leopoldinense, Império Serrano, Império da Tijuca, Unidos de Padre Miguel, São Carlos, Portela
[ ouça ♫ ]

Marco Maciel/sambario


Sambas enrêdo 1° grupo 1971

1971, AESEG (85.004)
DISCO É CULTURA

Sambas enrêdo 1° grupo 1971

FICHA TÉCNICA — Coord./Produção: Aroldo Bonifácio, Estúdio Havaí, Téc.Gravação/Mixagem: Odilon, Auxiliar: Tinoco, Fotos: Gentileza da Manchete, Fotolito: A. G. Pinheiro.


Considerações finais

Espero que você tenha gostado desse post com o álbum dos sambas-enredo do 1° Grupo (Especial) RJ Carnaval 1971.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *