Sambossa

Sambossa

Quarto álbum da discografia de Elza Soares,, Sambossa se inseriu nesse sincopado universo musical, como já sugeriu o título. Esse disco é o que trago nesse post.


Projetada em dezembro de 1959 com retumbante gravação do samba “Se Acaso Você Chegasse” (Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins, 1938), a cantora carioca viveu proveitosa fase na carreira fonográfica nesse início de trajetória. De 1959 a 1973, Elza lançou pela gravadora Odeon série de singles e álbuns que evidenciaram a bossa negra da voz rouca, esperta nas divisões, cheia de manemolência . Em essência, Elza Soares atravessou os anos 1960 como hábil cantora de sambalanço. Quarto álbum da discografia da artista, Sambossa se inseriu nesse sincopado universo musical, como já sugeriu o título.

O álbum Sambossa foi lançado em março de 1963, precedido por disco de 78 rotações por minuto editado em janeiro daquele ano de 1963 com as gravações de “Só Danço Samba” (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1962) – em interpretação apimentada – e “Sim e não” (Venâncio, Carlos Magno e Edilton Lopes, 1963), fonogramas registrados anteriormente, em dezembro de 1962, e reaproveitados para o álbum.

Gravado de 8 a 22 de janeiro no estúdio da sede carioca da gravadora Odeon, sob a direção artística do pianista José Ribamar (1919 – 1982), o álbum Sambossa fez jus ao título. Resultou em disco de sambas amplificados com a bossa negra da voz de Elza, então com 33 anos. Como já mostrava a gravação do samba “Rosa Morena” (Dorival Caymmi, 1942) alocada na abertura do disco com arranjo orquestral, a cantora recorreu aos scats para cair em suingue singular.

Evocando com personalidade o canto jazzístico de Louis Armstrong (1901 – 1971), astro norte-americano que Elza conhecera em 1962, a cantora envenenou “Gamação” (José Roberto Kelly, 1962) e elevou “A Banca do Distinto” (1959), sucesso do cancioneiro de Billy Blanco (1924 – 2011), compositor paraense que vivia bom momento na carreira projetada nos anos 1950 na cidade do Rio de Janeiro (RJ). As duas faixas sobressaíram no álbum.

Nome dominante nos créditos do repertório de Sambossa, Blanco assinou quatro das 12 músicas do disco. Além de “A Banca do Distinto”, Elza incluiu no álbum os já esquecidos sambas “Primeira Comunhão” (Billy Blanco e Miguel Xavier, 1963), “Vaca de Presépio” (1958) e “Maria, Mária, Mariá” (1962), composição lançada na voz da própria Elza no ano anterior. O toque do piano de Primeira comunhão deu molho jazzy à faixa.

Com tom sentimental, quase dramático, “Leilão” (Nazareno de Brito e Armando Nunes, 1962) evidenciou a eventual falta de sintonia entre o repertório e o balanço de Elza. Quando Elza deu voz a um repertório à altura do canto da intérprete, o resultado quase sempre foi empolgante.

A reluzente gravação de “A Corda e a Caçamba” (Antônio Almeida, 1962) exemplificou que Elza Soares era a tal na década de 1960 quando combinava samba e bossa negra. Com balanço aliciante, o samba “Mulata de Verdade” (Sérgio Malta, 1963) – ambientado em clima de gafieira – corroborou essa sensação e completou com “Quando o Amor não É Mais Amor” (Cirene Mendonça e Ricardo Galeno, 1963) o repertório de Sambossa, disco que retratou bem Elza Soares na fase inicial da carreira da cantora.

Mauro Ferreira – G1

ELZA SOARES novamente. E, novamente, rítmo, balanço, cadência, malemolência, bossa. Não fôra ELZA SOARES o próprio samba e a própria bossa . Não fôra ELZA SOARES a melhor sambossa do Brasil para a alegria dos brasileiros.

Aqui, um punhado de sambas acontece no melhor estilo. O que vale dizer no estilo ELZA SOARES. Que é a melhor “pedida” sambistica de todos os tempos. Assim de cadência. De “môlho”. De Brasil.

É, sem exagero, o próprio morro em forma de L.P.

texto fielmente transcrito da contracapa do elepê


Sambossa

Elza Soares, 1963 Odeon (MOFB 3.296)
Ouça no spotify, youtube ou itunes
DISCO É CULTURA

Elza Soares
Elza Soares (foto: Reprodução)

REPERTÓRIO

Rosa Morena
Dorival Caymmi
[ ouça ♫ ]

Rosa morena
aonde vais morena Rosa
com essa rosa no cabelo
e esse andar de moça prosa
morena, morena Rosa
Rosa morena o samba está esperando
esperando pra te ver

deixa de lado esta pose de dengosa
anda Rosa
vem me ver
deixa de lado esta prosa
vem pro samba
vem sambar
que o pessoal está cansado de esperar,
o Rosa
que o pessoal está cansado de esperar

Gamação
João Roberto Kelly
[ ouça ♫ ]

olhei, sorri, beijei
depois
gamei, gamei
pior foi que você
não entendeu
que boba
fui eu
foi infelizmente
um sonho a mais no coração
um beijo a mais
que se desfaz
na ilusão

A Banca do Distinto
Billy Blanco
[ ouça ♫ ]

não fala com pobre,
não dá mão a preto
não carrega embrulho
pra que tanta pose dr.
pra que esse orgulho
a bruxa que é cega
esbarra na gente
e a vida estanca
o enfarte lhe pega dr.
e acaba essa banca
a vaidade é assim
põe o bobo no alto
e retira a escada
mas fica por perto
esperando sentada
mais cedo ou mais tarde
ele acaba no chão
mais alto o coqueiro
maior é o tombo do coco afinal
todo mundo é igual
quando o corpo termina
com terra em cima
e na horizontal

Primeira Comunhão
Miguel Xavier – Billy Blanco
[ ouça ♫ ]

hoje eu recordo com saudade
a minha primeira comunhão
meu pecado, então, naquela idade
era só fazer malcriação
agora quando eu entro na igreja
e conto ao padre tudo
quanto faço pera aí
ele diz: “louvado seja”
anjo igual eu nunca vi
pelo sim e pelo não
mil padre-nossos vais rezar
ou acabas arranjando alguma brasa
pra fazer teu inferninho
muito do particular

Sim e não
Venâncio – Carlos Magno – Edilton Lopes
[ ouça ♫ ]

a troca de palavras
no momento crucial
foi nosso mal
foi nosso mal
o sim teria feito
nossa vida tão feliz
você não quis
você não quis
aquele não impensado
por você pronunciado
deixou de unir você a mim
que pena
você errou
porque não pronunciou
sim

quem não vive com quem vive
assim como estou vivendo
e você também morrendo
por mim
agora sim
tudo é não
o sim perdeu a razão
fim

Leilão
Nazareno de Brito – Armando Nunes
[ ouça ♫ ]

quem dá mais
quem dá mais
dou-lhe uma
dou-lhe duas
quem dá mais
por um coração partido
que viveu
e perdeu
desta vida, o sentido
vale apenas
as penas de um desiludido
bastou um sinal
mas só terá valor
pra quem já sofreu por amor
quem dá mais
pode levar de graça
você quem passa
ninguém dá mais
vendido

Só Danço Samba
Antonio Carlos Jobim – Vinicius de Moraes
[ ouça ♫ ]

só danço samba
só danço samba
vai, vai, vai, vai, vai
só danço samba
só danço samba
vai

já dancei o twist até demais
mas não sei, me cansei
do calipso ao chá-chá-chá

A Corda e a Caçamba
Antonio Almeida
[ ouça ♫ ]

samba é música e poesia
samba é sofrimento e alegria
samba, a gente pobre que trabalha pra viver
samba, a gente rica que não tem o que fazer
samba é grito de contentamento
samba é voz do povo no lamento
samba é ritmo quente
que mexe e remexe
que bole com a gente
samba, canção tão sentida
que faz esquecer as agruras da vida

onde houver um samba
eu tô lá
onde houver pandeiro
eu tô lá
onde houver mulata
eu tô lá
mesmo sem dinheiro
eu tô lá
eu não posso viver sem o samba
o samba é a corda, Elzinha a caçamba
eu não posso viver sem o samba
o samba é a corda, eu sou a caçamba

Vaca de Presépio
Billy Blanco
[ ouça ♫ ]

você concorda com tudo
não importa o que aconteça
que nem vaca de presépio
vai balançando a cabeça
eu não sei mais o que faça
para lhe contrariar
você fica achando graça
tendo razão prá chorar

bote banca por um dia
e uma vez me diga não!
não deixe a monotonia
morar na situação
também gosto de carinho
um chamego é coisa boa
mas até doce de coco, que é bom
a gente enjoa

Maria Mária Mariá
Billy Blanco
[ ouça ♫ ]

Maria que nasceu Maria Terezinha
Maria que desceu do morro pra cozinha
Maria virou Mária, virou Mariá
Maria que cuidava muito bem da louça,
um dia descobriu-se, descobriram a moça
um dono de boate logo a fez brilhar
Maria já não faz o que ficou mandada
agora é Janete não é mais mulata
trocou a luz de vela pelo refletor
Maria não tem mais problema financeiro
trabalha muito menos, ganha mais dinheiro
enquanto ela deu duro, não deram valor

mil Marias nessa vida,
louras e de outros matizes
acontecem no cenário mundial
imperatrizes e atrizes
Marias tiveram glória
rebolando pela história universal

Maria toda nossa que cresceu na vida
sob o signo da bossa nasceu aplaudida
numa terça-feira pobre em que Portela venceu
Maria não tem mais complexo nem nada
está realizada e eu sem empregada
é mais uma escurinha que embranqueceu

Quando o Amor não É Mais Amor
Ricardo Galeno – Cirene Mendonça
[ ouça ♫ ]

fica de ponta comigo
e desdenha do que eu digo
não quer mais saber de beijo
e repele tudo o que eu desejo
isto é sinal que o amor
afinal se acabou,
se acabou
e, portanto, é chegada a hora
que embora triste, ir saindo fora

não adianta insistir
quando o amor não é mais amor
tudo cansa, tudo é triste
tudo é vontade de chorar
o que ama e é repelido
não se conforma com o amor fingido
o que não ama vai sofrendo
porque só está querendo
não dar mais o que não tem pra dar

Mulata de Verdade
Sergio Malta
[ ouça ♫ ]

vê se mora no balanço
desse meu jeitinho manso
nessa falta, nesse avanço
que é samba de verdade pra se ver

vê se mora no desenho
dessas curvas que eu tenho
nesse fogo que eu retenho
pois se pega, faz elouquecer

e é por isso
que a mulata de verdade
é melhor que a liberdade
pra se ter, pra se usar

e é por isso
que a mulata é uma beleza
é igual a natureza
que se vê… e ninguém pode explicar

O Globo 3-4-72

ELA AMOU, PASSOU FOME E ATÉ ROUBOU, MAS SEMPRE DEU A VOLTA POR CIMA

Elza Coragem abre o jogo

Nascida e criada em favela, ela passou muita fome. Roubou para sobreviver. Trabalhou em fábrica, amou, sofreu desilusões. Mas sempre deu a volta por cima. A vida de Elza Soares sempre esteve ligada a conseqüências trágicas, mas com um desfecho positivo e otimista.

E é isto que ela vai contar aos cariocas, em “show” dirigido por Manuel Carlos no Salão de Viena, no Leblon. — Elza Soares estréia dia 6 no Salão de Viena; mais detalhes nesse link http://memoria.bn.br/pdf/089842/per089842_1972_24221.pdf — Será uma espécie de psicanálise e autocritica coletivas, feitas perante o sofisticado público da Zona Sul. Mas o espetáculo está longe de parecer um documentário mundo cão; haverá também lances cômicos da vida de Elza, que pela primeira vez parte para uma abertura total perante seu público.

Desde que ligou sua vida à de Mané Garrincha, Elza Soares já apareceu várias vezes em manchetes de jornais, sempre envolvida em episódios trágicos e sensacionalistas. Nessas ocasiões, em que sua vida particular era ainda uma vez devassada, o público ia pouco a pouco compondo a imagem de uma mulher sem escrúpulos, destruidora de lares, chantagista. Uma cantora decadente, procurando a todo custo a publicidade. Para a carreira do jogador-ídolo, a mulher fatal. Recém-chegada da Europa, estra mulher, que havia perdido tudo, se propõe mais uma vez a reconstruir sua carreira, sua vida. Antes de tudo, fará uma espécie de psicanálise em público, a partir do dia 6, no salão de Viena.

Autenticidade

— Sempre tive uma admiração muito grande pela Elza — explica Manuel Carlos. — Eu a conheci nos bons tempos de Mulata Assanhada e Se Acaso Você Chegasse, quando dirigia em São Paulo os programas musicais da Record. Muito extrovertida, Elza conversava muito com a gente, e fiquei fascinado por sua vida trágica e episódica, e pela força com que essa mulher enfrentou um a um os reveses de sua infância, de sua carreira, de seus amores . Tive a exata impressão de que Elza convive com o trágico, antes de tudo, mas ao mesmo tempo procura superá-lo com uma imensa vontade de construir de recomeçar, de viver intensamente. Com a volta de Elza surgiu minha oportunidade de realizar um antigo sonho: montar um show, não essencialmente musical, onde ela pudesse contar ao púbico — despindo-se daquela imagem deturpada — quem é a Elza Soares, afinal.

Em busca da maior auntencidade possível, Manuel — quase sem interferir — deixou que Elza Soares falasse durante cerca de duas horas seguidas, gravador ligado.

— Foi quase uma sessão de psicanálise. Havia até o clássico divã. Como ela estava muito á vontade, por ser minha amiga, e por sua personalidade extrovertida, Elza falou sobre tudo, sobre sua infância, sua vida com Mané, revelando seu medo, suas fraquezas e suas misérias.

Depois disso, Manuel começou a compor o texto, mas eliminou, evidentemente, os detalhes muito pessoais, cuja divulgação além de tudo não teria nenhum sentido.

Ineditismo

— Tive que caminhar com o maior cuidado — explica — para não contribuir com aqueles que insistem em manter a imagem falsa de Elza. Os torcedores, particularmente, nunca a perdoaram, sem saber que na verdade o Garrincha foi quem a procurou como apoio. O sensacional é sempre o negativo, e é o que se guarda. Ela vai contar muita coisa sensacional, nesse sentido, e vai fazer revelações absolutamente inéditas. Vai contar que passou fome e roubou para sobreviver. Vai mostrar o seu barraco, a fábrica onde trabalhou, a sua pobreza. Mas calma lá: não há somente episódios amargos para serem contados, não se trata da fossa total, e, inclusive, sob um ponto de vista dramático, procuramos dosar a coisa para não cairmos no mundo cão. Mas é incrível, mesmo os lances mais cómicos da vida de Elza estão ligados a causas ou conseguências trágicas. Sei lá, é como uma fatalismo.

Sempre sambista

Para dar um tom bastante dinâmico ao show, Manuel Carlos — que dirigiu há pouco o espetáculo de Chico-Karabitchevsky no Canecão — contou mais uma vez com o trabalho fotográfico (slides) de Ciro del Nero, que considera um elemento importantíssimo no espetáculo. As fotos de Ciro são antes de tudo documentárias, o próprio cenário do show. Há até a carteira de identidade de Elza, ampliada centenas de vezes, como se jogada no rosto dos espectadores. Os segundos personagens são fotografias, e seus depoimentos gravados são ouvidos em off.

Mário Vianna, Chico Buarque, João Havelange — além de Garrincha — tiveram suas vidas de alguma forma ligadas à de Elza Soares. E muitos outros. Mas a dinâmica do show é dada pela própria Elza, antes de tudo, e pela interpretação de suas músicas mais características.

— Acredito que a cantora Elza Soares existe para ser vista e ouvida — comenta Manuel — Elza é uma artista eminentemente visual. Tem uma maleabilidade impressionante e diz as coisas bem espontaneamente. É uma sambista, além de tudo. Dirijo o espetáculo, mas praticamente não dirijo Elza. Como se trata de acontecimentos vividos e sofridos por ela, e sendo Elza aquilo que a gente conhece nada mais autenticamente dramático do que ela se expressar pela própria sensibilidade, que é notável.

Manuel Carlos é um homem de televisão. Sua carreira começou quando nascia a TV no Brasil em 1930. Fez durante muitos anos, como ator, junto com Sérgio Brito, Fernanda e outros, o Grande Teatro. Está de volta ao Rio, depois de sete anos ausente e produz e dirige os programas de sua mulher, Cidinha Campos.

Mas ele não gosta de se limitar a televisão, embora esta lhe tome quase todo o tempo disponível. Faz teatro antes de tudo porque gosta, com o uma curtição. O último show que dirigiu no Canecão foi um sucesso. Desta vez o esquema é bastante diferente. Um espetáculo quase para uma elite, num ambiente pequeno e luxuoso.

— Pretendo fazer uma montagem meio barroca — explica — valorizando ao máximo a personalidade desta cantora que pertence a uma geração que ficou exatamente no meio do caminho em termos de música popular brasileira: é velha para os novos e nova para os velhos. E, sobretudo, quero que o público conheça esta Elza Coragem, Elza Verdade ou mesmo Elza, Decadência e Glória, entre os quais pretendo escolher o nome do espetáculo


FICHA TÉCNICA — DIREÇÃO ARTÍSTICA: José Ribamar / COORDENAÇÃO ARTÍSTICA: Miltom Miranda / TÉCNICO DE SOM: Ademar R. da Silva / FOTO: Mafra / PRODUTOR FONOGRÁFICO: Indústrias Elétricas E Musicais Fábrica Odeon S.A.

Considerações finais

Espero que você tenha gostado desse post com o álbum de Elza Soares — SAMBOSSA —, lançado em 1963 pela Odeon, bem como dos textos da contracapa e do jornal O Globo que reproduzi no post.

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