Oba-Oba o Q.G. do Samba

Oba-Oba o Q.G. do Samba

Trago nesta postagem um disco de 1975, “Oba Oba o Q.G. do Samba”, de Oswaldo Sargentelli. Telecoteco, Ziriguidum, Balacobaco, Borogodó. Era assim, com essas palavras e com o bom humor, que Sargentelli (Oswaldo) abria os show com suas famosíssimas mulatas na também famosa boate de Ipanema (RJ) Oba-Oba.


Sargentelli amava o samba, era portelense, botafoguense, filho de Ogum, Iemanjá, Oxum e Oxôssi. Era o rei do bate papo, da conversa de botequim, do samba da caixinha de fósforo, do bom humor, da irreverência e seus trabalhos traduziam exatamente o que este sambista queria transmitir, a irreverência. Clementina de Jesus, Dona Ivone, Roberto Silva entre muitos outros sambistas e artistas de qualidade e sucesso frequentaram e se apresentaram em seus espetáculos. Sobre o disco “Oba-Oba o Q.G. do Samba”, Sargentelli contou com as interpretações de Abílio Martins, Juracy e Joab (coro) em 3 pot-pourris e alguns sambas individuais.

Aproveito também a postagem para reproduzir um texto publicado no jornal O Globo em 2 de setembro de 1993, assinado por Renata Reis, abordando a autobiografia de Sargentelli, lançada na VI Bienal do Livro bem como uma entrevista dada por Sargentelli também ao jornal O Globo, a Sérgio Bittencourt em 3 de julho de 1971.

‘Ziriguidum’ as histórias do velho Sargento

A expressão “levar um papo” vai por água abaixo quando se conhece Oswaldo Sargentelli. Os quase 70 anos de vida e os 60 de malandragem não fizeram do velho Sargento apenas um senhor do samba ou um expert em “mulatologia”. Ele é, também, um exímio contador de histórias. E que histórias! Aliás, foi de tanto fazer rir ao contar passagens cômicas de sua vida que decidiu tomar uma atitude tão esperada pelos “cabeças brancas”, seu grupo de fiéis amigos: “Ziriguidum” foi o título escolhido para sua autobiografia, lançada na VI Bienal do Livro. Em breve, haverá uma noite de autógrafos de arromba, em local ainda a ser definido. Neste dia, promete muito balacobaco, teleco-teco, borogodó e longos relatos da voz de besouro que o consagrou como grande figura carioca.

A palavra que deu nome ao livro ainda não foi adotada pelo dicionário Aurélio, mas Sargentelli encarregou-se de fazê-la cair na boca do povo desde que Monsueto Menezes assim chamou o batuque frenético de sua caixinha de fósforos. Fernando Sabino — que ainda tem fartos e escuros cabelos, mas faz parte do círculo de amizades de Sargento — deu a sugestão, aprovada sem contra-proposta do autor:

Não poderia ser diferente. “Ziriguidum” é a minha vida, o samba que as mulatas têm no pé , o ritmo que minha filha Waleska desenvolve como nenhuma outra loura e a palavra que aparece em minhas conversas com Caymmi, Mário Lago, Barbosa Lima Sobrinho, Paulo Gracindo, enfim, os cabeças brancas.

Sargentelli não esquece do dia em que passou por uma alta produção para apresentar o show de Edith Piaf e acabou ficando atrás das cortinas. Ou do momento em que descobriu entre sete mulatas o talento de Clementina de Jesus, do namoro com Virgínia Lane — ele, aos 8 anos, e ela, aos 12 — e das pernas de Dercy Gonçalves subindo as escadas do prédio onde morava, na Rua do Lavradio. Seria uma pena deixar passar essas lembranças. Só um problema: as 140 páginas não foram suficientes para relatar sete décadas de tanto pique e Sargentelli já está pensando no próximo livro.

Renata Reis
O Globo

Sérgio Bittencourt entrevista SARGENTELLI

Fim de noite, Rádio Guanabara, há 10 anos. Sargentelli entra no estúdio, manda botar o prefixo do programa e começa a falar. Sua voz está mais grave do que nunca. Grave e emocionada. Ninguém entende direito, mas ele está se despedindo dos ouvintes. As frases, aos poucos, vão ganhando sentido. No que tenta dizer, raiva e mágoa se misturam, O programa “Viva Meu Samba” vai sair do ar. Motivo: o diretor falou que “esse negócio de samba e de crioulo não dá audiência” e, ao que parece, pretendeu mudar os objetivos do programa. Sargentelli discutiu e, sem avisos, “disse um verso, deu adeus e foi-se embora.”

No dia seguinte — eu me lembro — o telefone não parou. Os ouvintes exigiam a volta do programa, denunciando, pelo telefone, uma audiência que, a bem da verdade, nem o próprio Sargentelli desconfiava merecer. O diretor desculpou-se como pôde e Sargentelli concordou em sacudir a poeira e dar uma volta por cima.

Esse amor por tudo que possa representar nossa cultura musical vem sendo, há muito, a tônica de Sargentelli . Em tudo. Mesmo no seu comportamento pessoal observa-se o seu engajamento no samba e seus personagens. Os amigos são, na maioria, pessoas, de uma forma ou de outra, comprometidas com Escolas de Samba, blocos e entidades. Seus programas jamais fugiram a essa espinha dorsal: música brasileira. Suas teses e seus chavões são recolhidos no falatório do povo, esse povo que vive do túnel pra lá e que traduz (ainda hoje) sonhos e angústias em ritmo de samba, Cínico, terno, agressivo, utópico, debochado — eis, na sua mistura de componentes, o que é Sargentelli, todas as noites, à frente de um elenco anônimo e muito profissional, na “Sucata”.

Telecoteco, Ziriguidum, Balacobaco, Borogodó. Era assim, com essas palavras e com o bom humor, que Sargentelli (Oswaldo) abria os show com suas famosíssimas mulatas

Renata Reis

Um amigo que eu tenho e guardo. E, vai ver, nem mereço. Mando-lhe um questionário, ele responde e “Rio-Show” publica.

Sérgio — O que é que você entende por “música brasileira”?

Sargentelli — Música brasileira entendo ser, considerando-se sua extraordinária riqueza, a que conserva as raízes de sua origem afro-baiana, sem distorções nem truques evolutivos. É, em última análise, batuque, lamento, sertanejo, gingado, carioca, canto praieiro, chorinho, samba de telecoteco, canção dolente. Música brasileira é a feita sem influências externas. É Noel, Pixinga, Ataulfo, Paulinho da Viola, Chico Buarque, Lamartine, Caymmi, Ari, Capiba, Lupicinio.

Sérgio — Honestamente, dê a fórmula: qual a razão do seu sucesso na “Sucata”?

Sargentelli — A principal: inteira participação do público. O show é uma conversa, um papo que bato com os fregueses. Em tom coloquial. Ilustro o que digo, valendo-me de 36 companheiros que tocam seus instrumentos e cantam. E, para completar — e ai a conversa esquenta —, valho-me da presença de 12 mulatas que não estão no mapa… Para cada tipo de público, um papo diferente. A sala fica impregnada de ritmo genuinamente brasileiro e, no fim, uma vibração sensacional domina e explode numa alegria muito carioca.

Sérgio — O público sente falta de nomes famosos no seu esquema de show?

Sargentelli — Não, porque meu esquema independe totalmente de nomes famosos. No diálogo público-artista nome famoso passa a ser “o seu fulano de tal, da mesa tal”, tanto quanto o “cantor dos anzóis carapuça”, O que vale mesmo é o que se diz e o que se canta.

Sérgio — A”Sucata” mudou de público?

Sargentelli — Nos primeiros três meses mudou totalmente. Já agora, quando completo o 8° mês, o público está acentuadamente mesclado. A elite bastante requintada mistura-se ao caboclo bem classe média. Igualam-se e se comportam num mesmo plano de alegria e entusiasmo. Um só bloco.

Sérgio — Vai jovem a “Sucata”? Por quê?

Sargentelli — Meio a meio. de início os jovens ficaram arredios. Hoje frequentam a “Sucata”, dão o show e voltam em grupos super animados. É impressionante a participação de meninas e meninos, por mim denominados “novinhos, cheirando a tinta”…

Sérgio — Como é que você explica a ausência do samba nas paradas de sucesso?

Sargentelli — Que paradas? As de laboratório? Eu diria “jogadas de sucessos”… O samba abre mão desse privilégio. Os organizadores dessas “jogadas de sucesso” são refratários ao “samba-povo”, lesionam a opção da gente, impondo, com a máquina, os ídolos de barro. É bom que o samba esteja afastado disso. E não se misture com tanta “forçação de barra”…

Sérgio — Você já foi, na TV, o homem mau. Era, na época, o inquiridor. Hoje você irradia simpatia e simplicidade. Qual dos dois Sargentellis não passava de um tipo?

Sargentelli — O Sargentelli inquiridor foi um acidente de trabalho. Tributo que paguei pela voz grave que possuo. Meu negócio mesmo é bater papo bem na base do ziriguidum.

Sérgio — Cite três cantores, três cantoras, três músicas, três amigos.

Sargentelli — Silvio Caldas, Tito Madi, Nélson Gonçalves: Elizeth Cardoso, Elza Soares, Claudete Soares; qualquer uma do Paulinho da Viola, qualquer uma do Caymmi, qualquer uma do Lamartine Babo: você e mais dois que não posso e não devo destacar, dentre as centenas de amigos que, felizmente possuo.

Sérgio — Quem esta fazendo falta hoje na música popular?

Sargentelli — Lamartine Babo.


Oba-Oba o Q.G. do Samba

Sargentelli 1975, Phonodisc (034.405.053)
DISCO É CULTURA

REPERTÓRIO

Amor de Carnaval
Zé Keti

SELEÇÃO:

Império do Samba (Zé da Zilda – Zilda Gonçalves)
Vai, que Depois Eu Vou (Adolfo Macedo – Zé da Zilda – Zilda – Ayrton Borges)
Perdoar É para Deus (Ari Frazão – Sebastião Figueiredo)
Portela Querida (Noca – Picolino – Colombo)
Zé Marmita (Luiz Antonio – Brasinha)
O que É que Você Quer Mais (Nássara – Roberto Martins)
Fica Doido, Varrido (Benedito Lacerda – Frazão)
Fala Mangueira (Mirabeau – Milton de Oliveira)
Eu não Posso Ver Mulher (Oswaldo Santiago – Roberto Roberti)
Que Samba Bom (Geraldo Pereira – Arnaldo Passos)

voz: Abilio Martins e coro
[ ouça ♫ ]

O Canto do Amor Verdadeiro
Gilmar Pereira – Rafael Santos
voz: Abilio Martins
[ ouça ♫ ]

pra que sofrer
pra que chorar
se a felicidade está escrita, com razão
ao alcance de cada mão

pra que fazer do amor o imperfeito
se o amor é tão perfeito
natural, e vive em nós
se alguém me falta
outro alguém vem me abraçar
sua revolta em nada vai mudar

o canto do amor
é verdadeiro
em uma só voz
canta o mundo inteiro

No Tempo de D. João
Max Nunes – Laércio Alves
voz: Juracy
[ ouça ♫ ]

faz de conta
que estamos no tempo de D. João
faz de conta
vovó namorando vovô no portão
faz de conta
que ainda se pede chá com limão
faz de conta
que é o maxixe que alegra o salão

no Carnaval
vovó até esquecia a vida
do Café Nice
via o corso na avenida
muito confete,
lança perfume
vovô coitado,
se acabando de ciúme

Escola Diferente (Salgueiro)
Luiz de França – Nilson Nobre
voz: Abilio Martins
[ ouça ♫ ]

toda Avenida sacudiu
quando a escola surgiu
a bateria explodiu
e o meu samba o povo aplaudiu

não é melhor e nem pior do que ninguém
apenas uma escola diferente também
vermelho e branco que empolga muita gente
desfila lindo e samba quente

Samba da Raça
Luiz de França – Waldemar Silva
voz: Juracy
[ ouça ♫ ]

se o samba tá bom, tem dendê
nas cadeiras da nêga a gente vê

pergunte ao Aroldo Costa
Sargentelli, Irmãos Marinho
se a Paula do Salgueiro
diz no pé bem direitinho

lã que não é de carneiro
[ ? ]
pelo samba e a mulata
nunca mais foi a Argentina

o pintor de Cavalcanti
brasileiro na batalha
pinta e borda quando pinta
candomblé, samba e mulata

Carrossel do Amor
Nilson Nobre – Luiz Gaspar
voz: Juracy
[ ouça ♫ ]

êta carrossel, carrossel do amor
tinha na pracinha do meu Governador

Praça da Ribeira,
Ilha do Governador
terra aonde eu nasci
conheci o meu amor
Jardim Guanabara
Praia da Bica, que esplendor
Rio Jequié
que saudade do vovô

tinha baile na Colônia
e também no Cocotá
onde a rapaziada
dançava até o sol raiar
Igreja de Nazareth
na colina por cima do mar
onde o povo da Ilha
todo ano saúda Iemanjá

SELEÇÃO:
Pode Voltar (Coelho Neto – Nascimento Gomes)
Enxugue as Lágrimas (Nelson Karan – J. Santos)
Bica Nova (Luiz Antônio – Mario Barbato)
Patinete no Morro (Luiz Antônio)
Saudade da Helena (Waldemar Gomes – Afonso Teixeira)
Promessa ‘Uma Promessa que Eu Fiz'(Colô)
Joga a Chave Meu Amor (João Roberto Kelly – J. Rui)

voz: coro do Joab
[ ouça ♫ ]

Zé Português
Nelson Bastos – Luiz Gaspar
voz: Juracy
[ ouça ♫ ]

por causa do Zé perdi a mulher
como é que é? pois é

Zé era bom de bico
e fez compasso de espera
meteu a mão no tico-tico
e a minha mulher? já era

a moçada é quem diz
Zé Mané nunca tem vez
hoje a multa é feliz
nos braços do Zé Português

Zé com Zé se entenderam
e chegaram a conclusão
ladrão que rouba ladrão
tem cem anos de perdão

Despeito
Waldemar Gomes – Marino Pinto
voz: Abilio Martins
[ ouça ♫ ]

ela,
não tendo mais o que disser, de mim
anda,
falando que deseja ver meu fim
eu sei,
que neste mundo ela de tudo é capaz
e quanto menos eu lhe dou atenção
seu desespero aumenta mais

a muito tempo ela vive a me mal disser
mas eu não sou obrigado a lhe querer
o despeito, admito é natural
mas sei que ela não tem razão
pra me desejar tanto mal

História da Lapa
Carlos de Souza – Renato Araujo
voz: Abilio Martins
[ ouça ♫ ]

a velha Lapa agora está de roupa nova
mostrando em fundo, os velhos arcos como prova
apresentando o bonde Santa Teresa
que traz ao Rio, todo tipo de beleza

meu novo Estado, novo Rio, meu torrão
com a fusão faz o metrô sem confusão
e para o povo, fato novo e muito bom
dou meu aplauso, criador dessa união

SELEÇÃO:

Hino Rubro-Negro ‘Oficial do C.R. Flamengo’ (Paulo de Magalhães)
Cachaça (Mirabeau Pinheiro – Lucio Castro – Heber Lobato – Marinosio Trigueiros Filhos)
Aurora (Mario Lago – Roberto Roberti)
Minueto (Benedito Lacerda – Herivelto Martins)
Marcha do Remador (Antonio Almeida – Oldemar Magualhães)
Can-Can no Carnaval (Carlos Cruz – Haroldo Barbosa)
Credi Bife (Pedro Caetano – Saint Clair Sena)
A Mulher do Padeiro (J. Piedade – Germano Augusto – Nicola Bruni)
O Cordão dos Puxa-Sacos (Roberto Martins – Frazão)
Sassaricando (Luiz Antonio – Oldemar Magalhães – Zé Mário)
Mulata Ye, Ye, Ye (João R. Kelly)
Allah-lá-o (Nássara – Aroldo Lobo)

voz: coro do Joab
[ ouça ♫ ]


FICHA TÉCNICA — PRODUÇÃO FONOGRÁFICA: Discos Continental / PRODUÇÃO EXECUTIVA: Ramalho Neto / PRODUÇÃO ARTÍSTICA: Luiz de França / ASSISTENTE DE PRODUÇÃO: Jorge Corrêa / ARRANJOS E REGÊNCIAS: Pachequinho / TÉCNICO DE GRAVAÇÃO E MIXAGEM: Eugênio Pinto / ESTÚDIO: Studios Haway – Rio / FOTOS: Masaomi / ARTE: Oscar Paolillo e Walmir Teixeira

Considerações finais

Espero que você tenha gostado desse post com o álbum de Oswaldo Sargentelli — OBA-OBA O Q.G. DO SAMBA —, lançado em 1975 pela Phonodisc.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *