Yvonne Lara Sorriso Negro
  • "data": "4 maio 2020"
  • "título": "Sorriso Negro"
  • "ano/gravadora": "1981, Atlantic"
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Mais do que simplesmente um álbum de samba “Sorriso Negro” de Yvonne Lara, 1981, é um álbum profundamente arraigado nas tensões políticas e sociais de seu tempo. Lançado menos de dois anos após a ditadura militar brasileira aprovar a Lei de Anistia (a “Abertura” que coloca o Brasil no caminho da governança democrática), “Sorriso Negro” reflete as mudanças que ocorriam na sociedade brasileira, à medida que exilados reforçavam noções de direitos civis e pensamentos feministas em uma nação sob as mãos de ferro de uma ditadura militar que estava em vigor desde 1964.


Terceiro disco solo da trajetória de Dona Yvonne, “Sorriso Negro” representou uma série de mudanças na carreira da artista, a começar pela troca de gravadoras. Outro fator importante neste álbum foi a produção e a direção artística assinadas por Sérgio Cabral.

Embora Cabral fosse extremamente competente e renomado — e gozasse de grande intimidade com o samba e com a obra da compositora e cantora —, o resultado final de “Sorriso Negro”, ficava aquém do apresentado nos álbuns anteriores de Yvonne Lara. A bem da verdade, ninguém sabia extrair dos músicos uma sonoridade tão quente, fiel e coerente ao repertório da artista como Adelzon Alves, o mesmo que revelara ao país nomes como João Nogueira, Clara Nunes, Roberto Ribeiro e, claro, Yvonne Lara.

Apesar do som “com cara de MPB”, “Sorriso Negro” se firmou como um excelente álbum na discografia da compositora. Com arranjos e regências interessantes assinados por Rosinha de Valença , o LP trazia as participações especiais de Maria Bethânia, em “A Sereia Guiomar”, e Jorge Ben, na faixa que batizava o disco. Composto por Adilson Barbado e Jorge Portela, o samba se tornou um clássico instantâneo e um hino à negritude na voz de Dona Ivone, o que faz até hoje com que muitas pessoas achem que a canção foi escrita por ela.

“Sorriso Negro” também contava com outras composições muito interessantes de Yvonne, como “Axé de Ianga (Pai Maior)” e “Alguém Me Avisou”, grande sucesso lançado dois anos antes por Bethânia, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Além disso, o que dizer mais de um LP que apresentava a primeira gravação do histórico samba-enredo “Os Cinco Bailes da História do Rio” em um disco de carreira da artista e revelava duas canções feitas com dois novos parceiros da artista, “Unhas”, com Hermínio Bello de Carvalho, e “Tendência”, obra-prima escrita com Jorge Aragão.

Lucas Nobile

Transcrevo a seguir trecho do livro “Dona Ivone Lara – A Primeira-Dama do Samba (Editora Sonora)” também de Lucas Nobile.

Dois anos depois de Maria Bethânia ter recebido um telefonema de Rosinha de Valença pedindo para que escutasse algumas composições da “comadre” (modo carinhoso pelo qual a violonista chamava Ivone) e, como se sabe, saísse daquele encontro deslumbrada com “Sonho Meu”, o telefone da cantora baiana voltou a tocar em outubro de 1980. Desta vez, sem intermediários. “Ginja, tenho uma música para você.” Ivone era a única pessoa a chamar Bethânia daquela maneira, pois a achava muito parecida com uma amiga sua que atendia por aquele mesmo apelido. O destaque de “Sonho Meu” dentro do repertório de “Álibi” e o carinho pela compositora já eram razões suficientes para que Bethânia escutasse o samba inédito que a autora lhe oferecia. Mas havia ainda um motivo mais forte: Ivone compusera aquela nova música justamente para ser cantada por Bethânia e por seus conterrâneos e amigos baianos.

A relação de Ivone com a Bahia era algo muito forte. Em 1977, ela passara mais de um mês em Salvador durante as filmagens de “A Força de Xangô”. Dois anos depois, retornou à capital baiana para se apresentar no teatro Vila Velha ao lado da amiga Clementina de Jesus, com quem acabara de gravar “Sonho Meu”, em lindo dueto no disco Clementina. O encontro entre as duas tardou a acontecer. Em 1974, quando da estreia do show Unidos do Pujol, Ivone já era rotulada pela imprensa como “a nova Clementina de Jesus”. A classificação, muito forçada, era de um reducionismo tão grande que só encontrava explicação no fato de ambas serem artistas negras, ligadas ao samba e terem sido reveladas ao público tardiamente. Fora isso, aquela gravação de “Sonho Meu” escancarava que, por mais talentosas que fossem as duas, Ivone tinha estilos de compor e de cantar muito diferentes dos da Rainha Quelé.

Mas, claro, tanto ela quanto Clementina tinham extrema ligação e respeito pelo samba de roda do Recôncavo Baiano. E aquela nova música oferecida pela compositora à Bethânia era uma homenagem ao gênero. A intérprete baiana, que já tinha feito um “escândalo” ao ouvir “Sonho Meu”, como ela mesmo declarou em 1980, não hesitou em gravar em seu novo LP o samba “Alguém Me Avisou”, de Ivone. A compositora, que havia gostado tanto do registro de Bethânia com Gal Costa no disco “Álibi”, ficara entusiasmada ao saber que a cantora gravaria sua canção inédita novamente com conterrâneos baianos bastante conhecidos do público. Desta vez os convidados eram Caetano Veloso e Gilberto Gil.

No dia 1° de dezembro de 1980, quando foi lançado o álbum “Talismã”, de Bethânia, com tiragem inicial de 500 mil cópias, Caetano já considerava Dona Ivone “uma das coisas mais grandiosas que o Brasil produziu”. Irmão de Bethânia e um dos maiores cantores e compositores do país, a relação dele com a autora daquela canção, ainda que de maneira indireta, vinha de longe. Em 1965, ano em que chegou ao Rio de Janeiro, Caetano teve seu primeiro contato mais próximo com o carnaval carioca justamente na noite do desfile do Império Serrano na avenida Presidente Vargas com “Os Cinco Bailes da História do Rio”, de Ivone, Silas de Oliveira e Antônio Bacalhau. Mesmo já tendo elegido a Mangueira como sua escola favorita, o compositor baiano torceu naquela noite pelo Império, que, segundo ele, fez o desfile mais bonito do ano. Da arquibancada, vendo a polícia descer o sarrafo para conter os foliões que tentavam invadir a corda que limitava a área do préstito, Caetano aprendeu o samba que nunca mais esqueceria. Tempos depois, veio a saber que Ivone era uma das autoras de “Os Cinco Bailes da História do Rio”, encantou-se com seus discos e composições e, mais do que isso, ficou fascinado pelas “paradinhas” que ela imprimia no seu estilo de sambar nos palcos. Para ele, só aquele miudinho de Ivone já era, por si só, digno de ser retratado em um documentário.

Mesmo ladeada de canções feitas por compositores consagrados na música brasileira, como “Vida Real”, “Pele”, “Gema” e “Talismã” (de Caetano, sendo a última delas em parceria com Waly Salomão), “Amo Tanto Viver” (de Gilberto Gil) e “Mergulho” (de Gonzaguinha), “Alguém Me Avisou” logo se destacou no repertório de Talismã. Não apenas pela interpretação de Bethânia, Caetano e Gil, mas também pela qualidade da composição. A gravadora Philips (PolyGram) havia elegido “Vida Real” como a “música de trabalho”, mas ainda assim alguns programadores radiofônicos, como Alberto Carlos de CarvaIho, da Rádio Cidade, escolheram a música de Ivone para tocar nas emissoras de Rio, São Paulo e Porto Alegre. O nível da concorrência era altíssimo, levando-se em conta o sucesso de “Lança-Perfume” (Rita Lee e Roberto de Carvalho), “Baila Comigo” (só de Rita), “Luiza” (Tom Jobim), “Palco” e “Se Eu Quiser Falar com Deus” (Gil) e, claro, “Emoções” (Roberto e Erasmo Carlos).

Em 1981, o mercado fonográfico brasileiro havia enfrentado aquele que fora chamado de “ano negro”, considerando que a venda de LPs havia caído de 33,5 milhões para 27,5 milhões. Apesar da queda nacional, graças a um repertório bem selecionado e à repercussão de “Alguém Me Avisou”, Bethânia não foi atingida e manteve, com “Talismã”, o respeitável patamar de 800 mil cópias vendidas. O sucesso do samba de roda de Ivone era tão grande que, guiada por experiências anteriores, muita gente pensava que aquela composição fosse assinada por ela e Delcio Carvalho, parceiro com quem já havia emplacado “Sonho Meu”, “Acreditar” e “Alvorecer”. Mas não, com música e letra feitas apenas por ela, “Alguém Me Avisou” definitivamente a credenciava como uma compositora completa.

Se, em 1981, ouvir canções de sua autoria estouradas nacionalmente na voz de outros intérpretes tornara-se comum para Ivone, sua carreira discográfica apontava um caminho de novidades. Em 1980, ela havia trocado a Odeon pela WEA, onde gravara um compacto simples. No ano seguinte, entrou em estúdio para gravar seu terceiro álbum, “Sorriso Negro”. Como se veria mais tarde, as mudanças eram muitas e não se limitavam apenas à troca de uma gravadora por outra. Dentre elas, a mais significativa — e que implicava em todas as outras, como modificações de sonoridade, algumas sutilezas no repertório escolhido e até na estética da parte gráfica do álbum — foi que produção e direção artística eram agora assinadas por Sérgio Cabral. Pela primeira vez, Adelzon Alves, o responsável por revelar Ivone para o público ao gravar duas composições dela no pau de sebo “Quem Samba Fica? Fica.”, de 1974, e posteriormente por produzir os dois primeiros álbuns solo da sambista, não comandava um LP da “Primeira-Dama do Samba”, apelido que ela já carregava havia alguns anos. Nem por isso a importância dele foi esquecida. Na contracapa do LP a seguinte lembrança:

Àquela altura, Dona Ivone Lara estava longe de ser uma novidade para Sérgio Cabral. Em 1974, ele havia dirigido a cantora no show Unidos do Pujol, pilotado por ele e Albino Pinheiro, em Copacabana. Seis anos depois, em 1980, o jornalista e produtor comandou a direção do espetáculo que reunia a sambista e Martinho da Vila no projeto “Seis e Meia”. Portanto já experiente e bastante familiarizado com o universo da artista, Cabral optou por manter o consistente eixo central tão bem alinhavado anteriormente por Adelzon: parcerias entre Ivone e Delcio Carvalho, músicas de nomes consagrados nas escolas de samba Império Serrano e Prazer da Serrinha e, claro, canções assinadas apenas pela compositora.

“Sorriso Negro” chamava atenção pela queda acentuada no número de canções da parceria Ivone-Delcio Carvalho. Nos trabalhos anteriores da cantora a tabelinha entre os dois representava pelo menos metade do repertório. Agora eram apenas duas, mas que compensavam, e muito, em qualidade. Bastava ouvir “Me Deixa Ficar”, samba em que fica difícil definir o que é mais bonito, se a melodia (com destaque para o solfejo da introdução, um dos mais primorosos de toda a obra de Ivone) ou se a letra de Delcio, com os seguintes versos: “A tua sombra de ternura não me deixava definhar, para findar a desventura, só desejo teu perdão. Me deixa ficar”.

A outra composição assinada por eles não deixava por menos. Ainda fascinada pelos encantos da Bahia, Ivone compusera com Delcio “A Sereia Guiomar”. A opção de Cabral para que aquele tema fosse escolhido como faixa de abertura do álbum se justificava pela qualidade da canção, mas obviamente também contava com uma pitadinha de marketing, afinal as gravadoras não podiam abrir mão dos números “simplesmente” pela arte. E qual era, enfim, a jogada da WEA? Simples, abrir o disco com “A Sereia Guiomar”, que contava com excelente dueto entre Dona Ivone e, vejam só, Maria Bethânia, uma das maiores vendedoras de discos do país, naquele momento estourada com “Alguém Me Avisou”, dedicada a ela pela própria Ivone. No mesmo ano, em show dirigido por Fauzi Arap, Bethânia incluíra no repertório “A Sereia Guiomar”, “Sonho Meu” e “Alguém Me Avisou”. Sobre esta última, aliás, em sua coluna “Discoteca do Chacrinha”, no jornal O Fluminense, o apresentador Abelardo Barbosa chegou a dizer: “Maria Bethânia vai muito bem com o samba de Dona Ivone Lara. Infelizmente, o samba não tem fôlego.” Se estivesse por aqui ainda hoje, Chacrinha, que morreu em 1988, assumiria o erro e comprovaria que “Alguém Me Avisou” perdurou por muito mais gerações do que ele imaginara.

Já no grupo de canções de compositores de escola de samba, a artista voltava, pela terceira vez, a gravar uma música de Silas de Oliveira, não apenas um ícone do Império Serrano, mas o maior autor de sambas-enredo de todos os tempos. E, desta vez, não se tratava de qualquer composição de Silas, mas sim de “Os Cinco Bailes da História do Rio”, a responsável por escrever o nome de Ivone na história como a primeira mulher a levar um samba-enredo de sua autoria para a avenida pelo chamado “Grupo Especial”. Com um andamento bem mais lento do que o habitual e com o instrumental rítmico mais acanhado (sem contar com uma bateria gigantesca de escola), aquele gravação definitivamente destacava a riqueza melódica e poética da composição de Silas e Ivone. Sim, apenas dos dois, já que o outro parceiro, Antônio Bacalhau, ganhara a parceria de presente, pouco tendo feito pelo samba. E a presença do mago do samba-enredo não se limitava a “Os Cinco Bailes da História do Rio”. A cantora prestou um belíssimo tributo ao compositor ao interpretar o dolente e melodioso “Adeus de um Poeta”, de Tião Pelado, e ao chamar o parceiro de “o poeta maior do Império Serrano”.

“Sorriso Negro”, que chegou às lojas na primeira semana de abril de 1981, coincidindo com a data em que Ivone completava 59 anos , trazia uma novidade em comparação aos dois álbuns anteriores da artista, e que talvez justificasse o porquê da queda do número de composições dela e de Delcio naquele LP. Na virada de 1979 para 1980, o poeta tinha lançado seu disco solo “Canto de um Povo”, em que interpretava, claro, parcerias suas com Ivone (as já famosas “Sonho Meu”, “Acreditar” e “Alvorecer”, além da inédita “Vai na Paz”), mas também músicas suas feitas com nomes como Noca da Portela, Barbosa da Silva, Zé do Maranhão, Everaldo da Viola, Ari Araújo e Flávio Moreira. Aos olhos da compositora, a decisão de Delcio não pegou bem. Se ele, extremamente ciumento em relação à parceira, podia cometer aquelas pequenas (e saudáveis) traições musicais, Ivone também se via no direito de “pular a cerca”.

Assim, ela gravou dois sambas inéditos com novos e talentosos parceiros. O primeiro era o cronista, diretor de espetáculos, poeta e produtor Hermínio Bello de Carvalho — responsável pela revelação de Clementina de Jesus ao público —, com quem fez o bonito “Unhas”, sobre um amor desprezado com requintes de crueldade: “Você, ah você, crava as unhas no meu coração, e rasga, esfola, mata e depois larga”. O segundo era Jorge Aragão, um jovem compositor de 32 anos, que havia despontado no grupo Fundo de Quintal. Letrista de mão cheia e com bons conhecimentos musicais (tocava violão, cavaquinho e banjo), Aragão conhecera Ivone em uma das idas da cantora à quadra do tradicional bloco Cacique de Ramos, berço do Fundo de Quintal. A admiração foi instantânea e logo depois os dois compuseram o antológico samba “Tendência”, gravado pela compositora naquele LP e por Beth Carvalho (no disco “Na Fonte”, do mesmo ano), tornando-se uma pedida inescapável em rodas de samba por todo o país. Logo de cara, Aragão e Ivone iniciavam uma parceria que se tornaria esporádica, mas eternizada com essa obra-prima.

Na mesma linha dos álbuns anteriores, “Sorriso Negro” também apresentava composições feitas só por Ivone. E das 12 faixas do LP, cinco eram assinadas apenas pela autora. O lado A do disco trazia “De Braços Dados com a Felicidade”, outro tema em que ela prestava reverências ao universo musical baiano, “Nunca Mais” e, claro, “Alguém Me Avisou”. Repetindo o que fizera com “Sonho Meu”, a compositora não podia (e nem devia) perder a oportunidade de gravar ela mesma uma canção sua que estava estourada em todo o país na voz de Maria Bethânia. E, a bem da verdade, com regência do pianista Helvius Vilela, o registro de Ivone não devia nada para a gravação dos pesos-pesados da música brasileira Bethânia, Gil e Caetano; e era ainda mais quente. O lado B do disco contava com duas canções da sambista, “Meu Fim de Carnaval não Foi Ruim” e “Axé de langa (Pai Maior)”, lançadas em compacto simples no ano anterior. Esta última, aliás, trazia uma história curiosa sobre sua origem. Em 1980, Ivone havia apresentado, até então, as inéditas “Meu Fim de Carnaval não Foi Ruim” e “Axé de Ianga (Pai Maior)” no show do Seis e Meia com Martinho da Vila. Na edição de 15 de outubro de 1980, em reportagem sobre o espetáculo, o Jornal do Brasil tratava do ponto de partida da sambista para uma das composições. “No final, mais uma inédita de dona Ivone Lara, ‘Yanga meu’, música feita recentemente, mas que não foi inspiração de sua visita a Angola. Yanga é o nome de um antepassado de Ivone, que incorpora em todos os seus familiares espíritas. Protege a família, vela espiritualmente por todos. Nunca morou no Rio, mas na Bahia, onde, depois que chegou de Angola, na época da escravidão, sofreu muito, ajudando outros escravos. A música, de características bem africanas, foi feita em sua homenagem: uma coincidência ter sido composta agora há pouco. Angola já estava em Dona Ivone.”

Na letra Ivone fazia uma série de citações aos “mais velhos”, como Vovó Maria Joana Rezadeira, Tia Teresa e vovô, “que veio de Angola com seu mano Tio José”. De fato, ao dizer que “Angola já estava em Dona Ivone”, a reportagem acertara, mas não mencionara o quão marcante tinha sido a tal viagem da compositora ao país africano naquele ano. Cinco meses antes, no dia 6 de maio, ela embarcara para a África em uma caravana formada por 65 artistas brasileiros. Com direção de Fernando Faro a turnê do projeto durou 12 dias pelas cidades de Luanda, Benguela e Lobito, contou com grandes nomes como Chico Buarque, Martinho da Vila, Dorival Caymmi, Edu Lobo, Wanda Sá, Francis Hime, Clara Nunes, Djavan, Toquinho, Alcione, Elba Ramalho, MPB4, Geraldo Azevedo, Miúcha, Paulinho Nogueira, Rosinha de Valença, entre outros. Em ritmo puxado, a excursão correu bem, com recepção calorosa do povo angolano. Mais de um ano depois da visita à África, Ivone ainda se dizia extremamente marcada pela experiência, definida por ela mesma como “algo espiritual”. A identificação com o público foi tamanha que algumas pessoas a chamavam de “nossa mãezinha”. Caymmi foi outro que se encantou com a viagem e logo no desembarque no Brasil declarou à imprensa: “Fizemos um trabalho diplomático muito bem recebido, o público era massa mesmo e nos recebeu muito bem. Angola é uma delícia, se parece com a Bahia.”

Quem também se destacou na viagem a Angola, mas não apenas por motivos musicais, foi Martinho da Vila, muito comovido com a situação política do país, que vivia uma guerra civil e conquistara sua independência havia apenas cinco anos. No último dia de apresentações, em Luanda, o sambista surtou, entrou no palco antes do estipulado no roteiro, começou a discursar em vez de cantar e chegou até a bater boca com alguns dos músicos presentes na caravana. O descontrole era tal que o compositor e cantor teve de ser contido. Por alguns instantes, Ivone teve de relembrar os muitos anos de enfermagem, medicando e cuidando do colega. A notícia chegou rapidamente ao Brasil e espalharam-se boatos sobre o estado de saúde do artista. Por aqui, falava-se em enfarte, derrame e até mesmo em morte. Na chegada ao país, o discurso foi um só: Martinho havia sofrido de estafa.

De maneira inegável, a passagem por Angola havia marcado profundamente Ivone e as referências africanas estavam evidenciadas não só em “Axé de Ianga (Pai Maior)”, que encerrava o LP, mas também explicitamente na faixa que abria o lado B e batizava o álbum, “Sorriso Negro”. Composto por Adilson Barbado e Jorge Portela, o samba que começava com os versos “Um sorriso negro um abraço negro traz felicidade. Negro sem emprego fica sem sossego negro é a raiz da liberdade” se tornaria um verdadeiro hino à negritude no Brasil. Em termos de repercussão, ganhou ainda mais força graças à participação de um convidado de peso no disco, Jorge Ben, que dividiu a faixa com a cantora em dueto elogiadíssimo. Em entrevista ao jornal O Globo, na edição de 15 de abril de 1981, apenas dois dias depois de seu aniversário, Ivone parecia adivinhar a longevidade que a canção alcançaria. “O mais curioso é que os amigos já preveem que ‘Sorriso Negro’, que canto com Jorge Ben, será o grande êxito do disco, e é uma das únicas faixas que eu não assino. Tudo bem: os outros fazem sucesso com músicas minhas, eu também posso fazer o mesmo com músicas dos outros. Aliás, adoro o Jorge e o Adilson e se a música deles tocar muito, isso só vai me deixar feliz.” Curiosamente, ela deixava de mencionar o nome de Jair de CarvaIho, um dos compositores daquele samba que lhe fora apresentado pelo cantor Reinaldo, conhecido como “Príncipe do Pagode”.

Cumprindo a previsão, a música chegou a ter bom desempenho nas emissoras de rádio, mas não chegava nem perto do sucesso que fazia nos shows. Desde o lançamento do LP, no dia 5 de maio, no Teatro Ipanema, Ivone não deixaria mais os palcos sem atender aos pedidos da plateia para cantar “Sorriso Negro”. Apesar de apresentar uma sonoridade mais asséptica e menos fiel à atmosfera dos sambas de terreiro (marca registrada dos álbuns de Dona Ivone produzidos por Adelzon Alves), o disco, que contava com arranjos e regências da irrepreensível Rosinha de Valença, foi extremamente bem recebido pela crítica. José Ramos Tinhorão, por exemplo, voltou a elogiar a artista no Jornal do Brasil. “D. Ivone possui uma das mais sedutoras e quentes vozes negras da música popular brasileira” , avaliou o crítico e pesquisador em texto publicado na edição de 16 de maio de 1981. Diante dos elogios, Ivone, que dizia se sentir como “se tivesse 20 anos de idade”, estava disposta a encarar a maratona de shows de lançamento do álbum. E o trabalho de divulgação seria intenso. Havia um ano a WEA criara um departamento de shows com o intuito de dar todo o suporte a seus artistas contratados no processo de fazer com que os discos chegassem a todos os cantos do Brasil. Só no espetáculo de “Sorriso Negro”, a gravadora investiu CrS 1,5 milhão na produção. Apesar de todos os esforços e da aclamação da crítica, novamente um álbum da sambista frustrou as expectativas em termos de vendagem. À época do lançamento, Sérgio Cabral estava empolgado com o trabalho: “O resultado da fita tinha ficado tão bom, que sentíamos que era hora de Dona Ivone estourar.” A animação do produtor era tanta que ele previa que a artista, que não chegara a vender 15 mil discos em seus dois primeiros álbuns, passaria enfim da marca de 40 mil cópias. Ainda não seria daquela vez e, com um excelente disco embaixo do braço, Ivone seguiria sua toada incansável de shows e mais shows por todo o país.


Sorriso Negro

Yvonne Lara 1981, Atlantic (BR 20.057)
DISCO É CULTURA

REPERTÓRIO

A Sereia Guiomar
part.especial: MARIA BETHANIA
D. Yvonne Lara – Delcio Carvalho
[ ouça ♫ ]

a sereia Guiomar, mora em alto mar
a sereia Guiomar, mora em alto mar
como é bonito meu Deus, a lenda dessa sereia
como é bonito meu Deus, a lenda dessa sereia

a lenda dessa sereia, fascina
a lenda dessa sereia, fascina
o canto desta sereia meu Deus, domina
o canto desta sereia meu Deus, domina

falam na beira do cais, Manoel pescador
ouvindo um canto tão lindo, logo se apaixonou
seguiu correndo pro mar, dizem que em noite de lua
envolvido no seu manto, o moço flutua

todo o mistério do mar, me causa grande emoção
encantamento e beleza que toca o meu coração
história de canoeiro gela meu sangue nas veias
quando ele conta a lenda da bela sereia

De Braços com a Felicidade
D. Yvonne Lara
[ ouça ♫ ]

me mandei para o Rio
pra ver se esquecia
o amor que eu deixei
lá na Bahia

senhor, tem dó
já não aguento viver só
desistir da vida é covardia
mas viver nesta agonia é muito pior

reajo a todo momento
quando o pensamento de um dia voltar
senhor, por favor, me ajude
me sinto sozinha, posso fracassar
ponha no meu caminho
um amor de verdade
a quem eu possa amar
e de braços com a felicidade
eu convido a saudade
pra comigo ficar, no Rio

Alguém Me Avisou
D. Yvonne Lara
[ ouça ♫ ]

eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho
mas eu vim de lá pequenininho
alguém me avisou pra pisar
nesse chão devagarinho

sempre fui obediente
mas não pude resistir
foi numa roda de samba
que juntei-me aos bambas
pra me distrair
quando eu voltar a Bahia
terei muito que contar
ó padrinho não se zangue
que eu nasci no samba
e não posso parar

foram me chamar
eu estou aqui, o que que há

Unhas
D. Yvonne Lara – Heminio B. de Carvalho
[ ouça ♫ ]

você, ah você
crava as unhas no meu coração
(no meu coração)
e rasga, esfola, mata e depois larga
(porque)

punhal envenenado afiou
mas se desnorteou
na hora de cravá-lo
unhou as veias do meu coração
e com o salto da paixão
danou-se a pisoteá-lo
(porque)

em termos de amor é infiel
prova do sal e do mel
para testar o sabor
procede tal e qual o gavião
que quando pica um coração
é pra esganá-lo de amor
(porque)

Me Deixa Ficar
D. Yvonne Lara – Delcio Carvalho
[ ouça ♫ ]

me dá teus braços
pra meu passo incerto
não me derrubar
dá-me a luz dos teus olhos
faz
um mais lindo clarão
me guiar

tanto tanto me perdi
cansei de me enganar
e nos recantos que sofri
vivia a que sonhar
a tua sombra de ternura
não me deixava definhar
para findar a desventura
só desejo teu perdão
me deixa ficar

Nunca Mais
D. Yvonne Lara
[ ouça ♫ ]

nunca mais, nunca mais
nunca mais o carinho meu terás
não adianta lamentares
não me convences, para mim não serves mais
fracasaste outra vez
me trocaste de novo por um outro amor
é tarde demais para querer voltar
me enganaste, não adianta chorar

pela segunda vez cometeste este erro
és um fracasso quanto a traição
por viveres na orgia não tens condição
pois me contaram em segredo
que andas de mão em mão

e só lamento de pena pois quando te vejo
tens na aparência algo de anormal
criatura te cuida enquanto há tempo
melhore teu procedimento
se quer levantar tua moral

Sorriso Negro
part.esp.: JORGE BEN
Jorge Portela – Adilson Barbado
[ ouça ♫ ]

um sorriso negro
um abraço negro
traz felicidade
negro sem emprego
fica sem sossego
negro é a raiz da liberdade

negro é uma cor de respeito
negro é inspiração
negro é silêncio é luto
negro é a solidão
negro que já foi escravo
negro é a voz da verdade
negro é destino, é amor
negro também é saudade

Adeus de um Poeta
Tião Pelado
[ ouça ♫ ]

Silas
por nós tu não terias ido agora
é doloroso
todo o samba chora
tão cedo por que nos deixou?
tu foste
em passos firmes, linha reta
um dos mais perfeitos poetas
orgulho de um compositor

e agora
tens a tua moradia lá no céu
estais fazendo parceria com Noel
foste atender ao criador
se foi
e ao mundo inteiro disse:
adeus
é triste mas foi mais um bamba
que o mundo do samba perdeu

Os Cinco Bailes da História do Rio
Silas de Oliveira – D. Yvonne – Bacalhau
[ ouça ♫ ]

carnaval
doce ilusão
da-me um pouco de magia
de perfume e fantasia
e também de sedução
quero sentir
nas asas do infinito
minha imaginação
eu e meu amigo Orfeu
sedentos de orgia e desvario
contaremos em sonho
os cinco bailes na história do Rio
quando a cidade completava
vinte anos de existência
nosso povo dançou
em seguida era promovida a capital
a corte festejou

iluminado estava o salão
na noite da coroação
ali, no esplendor da alegria
a burguesia
fez sua aclamação
vibrando de emoção
o luxo e a riqueza
imperou com imponência
e a beleza fez presença
condecorando a independência
ao erguer a minha taça
com euforia
brindei aquela linda valsa
já no amanhecer do dia
a suntuosidade acenava
e alegremente sorria
algo acontecia
era o fim da monarquia

Meu Fim de Carnaval não Foi Ruim
D. Yvonne Lara
[ ouça ♫ ]

não, meu fim de carnaval não foi ruim
a nostalgia desapareceu
e a alegria se apossou de mim
encontrei meu grande amor
que um dia se foi dizendo “não vou mais voltar”
mas não cumpriu e se arrependeu
e voltou exigindo ficar no mesmo lugar

eu confesso que não pude suportar
senti tanta vontade de chorar
até desabafar
foi coincidência do destino
encontrar em meu caminho e poder reviver
tudo que foi bom, do nosso passado
trocamos juras de amor até o amanhecer

Tendência
D. Yvonne Lara – Jorge Aragão
[ ouça ♫ ]

não
para quê lamentar
o que aconteceu
era de esperar
se eu lhe deu a mão
foi por me enganar
você entendeu
que amor não pode haver
sem compreensão
a desunião
tende a aparecer
e aí está
o que aconteceu
você destruiu
o que era seu

você entrou na minha vida
usou e abusou fez o que quis
e agora se desespera
dizendo que é infeliz
não é supresa prá mim
você começou pelo fim
não me comove o pranto de quem é ruim
e assim
quem sabe essa mágoa passando
você venha se redimir
dos erros que tanto insistiu por prazer
prá vingar-se de mim
diz que é carente de amor
então você tem que mudar
se precisar pode me procurar

Axé de Ianga (Pai Maior)
D. Yvonne Lara
[ ouça ♫ ]


FICHA TÉCNICA — PRODUÇÃO E DIREÇÃO: Sergio Cabral / ARRANJOS E REGÊNCIAS: Rosinha de Valençã / REGÉNCIAS de “Me deixa ficar” e “Alguém me avisou”: Hélvius Vilela / ASSISTENTE DE PROCUÇÃO: Teresa Teixeira / TÉCNICO DE GRAVAÇÃO E MIXAGEM: Jorge Gordinho / ASSISTENTES DE ESTÚDIO: Nestor, João, Maria, Beto e Julinho Peixotinho / ARREGIMENTADOR: José Delphino Filho (Zézinho) / GRAVAÇÃO: Estúdios Sigla (RJ) / CAPA: Elifas Andreato / ARTE FINAL: Alexandre Huzak / FOTO: Iolanda Huzak / SUPERVISÃO DE CAPA. Ruth Freihof

REFERÊNCIA — NOBILE, Lucas. Dona Ivone Lara – A primeira-dama do samba. 1° edição : Sonora Edições, 2015.

Considerações finais

Espero que você tenha gostado desse post com o álbum de Yvonne Lara, lançado em 1981 pelo selo “Atlantic”. Se assim for, encorajo você a se inscrever na newsletter do blog, abaixo. Ao informar seu email, você receberá todas as novas publicações do blog automaticamente.

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Parabéns pelo excelente trabalho de resgate e divulgação do samba. Agora com a inclusão das letras das faixas, o trabalho fica mais completo ainda.