Tantinho canta Padeirinho da Mangueira

Tantinho canta Padeirinho da Mangueira

Com direção musical de Paulão 7 Cordas, “Tantinho canta Padeirinho da Mangueira” é dedicado a Germano Mathias e a Jamelão, principais intérpretes de Padeirinho. O trabalho registra 14 músicas de autoria do compositor Mangueirense.


O projeto gráfico de autoria de Ana Rezende e Silvia Avila tem ensaio fotográfico de Lula Cerri e participação luxuosa de Walter Firmo, que abrilhantou o projeto com uma foto de Padeirinho dos anos 70. O CD conta ainda com a presença da família do homenageado.

O antigo diretor de bateria da verde e rosa, Mestre Birinha, filho mais velho, gravou duas faixas e atuou como percussionista ao lado do irmão Bira Show. Os netos, Biranei e Neném do Chalé, também participaram da produção.

Osvaldo Vitalino de Oliveira, o Padeirinho, foi um dos inovadores do gênero do samba. Versátil compositor, Padeirinho destacou-se na produção dos chamados sambas de gíria. Sua obra foi gravada por grandes intérpretes da nossa música como Nara Leão, Jamelão, Paulinho da Viola, João Nogueira, Beth Carvalho e outros.

Graças ao CD, Tantinho foi contemplado como “Melhor Cantor”, na categoria “Samba” do Prêmio da Música Brasileira, ocorrido no dia 11 de agosto de 2010. Abaixo, vários textos que achei sobre esse álbum “Tantinho canta Padeirinho da Mangueira”. Não deixe de ler e ouvir Mestre Padeirinho.

Os versos e gírias de um compositor com gênio difícil

Sambas de Padeirinho são interpretados por Tantinho, outro ilustre mangueirense

Nascido no Rio, Osvaldo Vitalino de Oliveira (1927-1987), o Padeirinho da Mangueira, era homem de gênio bem difícil, mas dono de grande talento musical. Devani Ferreira, o Tantinho da Mangueira, quando adolescente nos anos 1960, conviveu com Padeirinho no morro da Mangueira. — Ele não tinha parceiros porque era muito chato. Diz Tantinho, hoje com 63 anos. — O Cartola corria dele.

Ao fazer improvisos nas rodas de partido-alto, Tantinho lidava com a implicância do outro, que adorava meter-se em brigas. Mas isso não impediu que ele cantasse uma música de um sambista mais velho num programa do Chacrinha veiculado pela rádio Mayrink Veiga. Tirou o primeiro lugar no concurso — ganhando um dinheiro que fez diferença — com “Mora no assunto”, composição que, infelizmente, não aparece entre os 14 sambas do CD independente “Tantinho canta Padeirinho da Mangueira”. Este é o segundo trabalho de Tantinho, depois de “Tantinho: Memória em verde e rosa”, ganhador do prêmio TIM de Melhor Disco de Samba em 2007.

Com arranjos de Paulão Sete Cordas e participação de Cláudio Jorge (violão), Carlinhos Sete Cordas (violão), Esgubela (percussão) e outros, ele traz inéditas — “Logo a mim” e “Distância” —, que o intérprete conseguiu com a família do sambista mangueirense . Registra as clássicas, como “Favela”, “Modificado”, “Linguagem do morro”, “A situação do escurinho”, “Terreiro em Itacuruçá”, e “O grande presidente”, do compositor que aprendeu a ler e escrever somente aos 15 anos, e sozinho.

Exímio percussionista, Padeirinho, segundo Tantinho, pode ser igualado em talento a outros mangueirenses como Cartola, Nelson Cavaquinho, Carlos Cachaça e Geraldo Pereira. “Mas quase ninguém o conhece”, apesar de gravado por Chico Buarque, Nara Leão, Germano Mathias, João Nogueira, Jamelão, Beth Carvalho e outros. (Padeirinho nunca gravou um disco-solo).

As suas letras são marcadas pelas gírias. Os seus versos são estruturados em sextilhas — evitando as quadrinhas, mais fáceis, segundo Nei Lopes. E a sua melodia tem o ritmo acentuadamente sincopado. — Quando junta os instrumentos nos sambas do Padeirinho, você percebe que eles têm uma grande beleza —, diz Tantinho, que ficou fascinado com “Modificado”, quando o Paulo Sete Cordas colocou a harmonia. Padeirinho foi chamado de “filólogo da Mangueira” por Franco Paulino, o seu biógrafo, que assina a introdução do encarte. A única imagem de Padeirinho no CD é do fotógrafo Walter Firmo: ela mostra um homem sentado sobre uma pedra, com um tamborim na mão, chapéu de fita verde e rosa, ao lado de um cachorro vira-lata.

Francisco Quinteiro Pires
O Estado de São Paulo

Tantinho lançou esse disco todo dedicado a Osvaldo Vitalino de Oliveira (1927-1987), o Padeirinho, um dos maiores nomes da história da Mangueira.

Tantinho canta Padeirinho da Mangueira

Nascido e criado no Morro de Mangueira, Devani Ferreira, o Tantinho, é um fiel representante da tradição de grandes sambistas que ostenta a chamada “Estação Primeira”. Em 1961, ainda com 13 anos, Tantinho ingressou na seleta ala de compositores da escola e conviveu com nomes como Nelson Cavaquinho, Zagaia e Carlos Cachaça, adquirindo reputação por seu canto elegante e pela habilidade nas artes do partido alto. Em 2006 lançou seu primeiro CD, “Tantinho: Memória em verde e rosa”, que conta com 32 canções de compositores da escola criadas entre 1930 e 1960. Desta vez Tantinho homenageia Osvaldo Vitalino de Oliveira (1927-1987), o Padeirinho da Mangueira, outro mangueirense ilustre, assim chamado por ser filho de padeiro. Estivador, exímio percussionista e partideiro, Padeirinho criou uma obra diversificada, transitando entre o samba sincopado e o samba enredo. Embora não tenha o mesmo reconhecimento de Cartola e Nelson Cavaquinho, a obra de Padeirinho foi gravada por intérpretes como Jamelão, João Nogueira, Jards Macalé, Beth Carvalho, Nara Leão, Germano Mathias, entre outros. (BO)

A dicção perfeita e a personalidade da voz de Tantinho se casam perfeitamente com a pluralidade dos sambas de Padeirinho

“A primeira vez que ouvi falar em Padeirinho da Mangueira foi em um programa especial em virtude do primeiro ano sem Cartola para a antiga TVE Carioca, atual TV Brasil, gravado na quadra da escola. Mangueirenses do calibre de Nelson Cavaquinho, Beth Carvalho, Alcione, Dona Zica e Dona Neuma, entre o riso e a emoção, ouviam Padeirinho contar como conseguira passar pelo crivo de um rigoroso Cartola e ingressar na Ala de Compositores da escola. Encabulado, mas ao mesmo tempo irônico, Padeirinho relatou o episódio. Segundo ele, Cartola disse: — Mostre-me 10 sambas. Se eu gostar, você está dentro; se não, pode procurar sua turma. As gargalhadas, ainda que emocionadas, foram sinceras. É que todos ali estavam cientes que Padeirinho era um compositor de gênio difícil, que contraíra a amizade verdadeira porém receosa de Cartola. Mais tarde tomei ciência do apelido dado por seu biógrafo, Franco Paulino, “o filólogo da Mangueira”, o que me fez lembrar imediatamente o episódio. À esta altura eu já conhecia bem a perfeição, o refinamento e a beleza de sambas como “Favela”, “Linguagem do Morro” e “Como será o ano 2000?”, o que possibilitou o acesso a uma verdade dura e implacável: Padeirinho sempre foi bem mais do que sua pouca fama poderia fazer supor, e a pecha de “chato” casava perfeitamente com o apelido “filólogo”. É que os filólogos são minuciosos, perfeccionistas, detalhistas… “Chatos”, em suma. Tratava-se pois de um compositor raro, daqueles que, tomados pela embriaguez das musas (e de “Sua majestade, o Álcool”), repisa fragmentos de versos e temas à procura de uma linha melódica perfeita, lapidando paciente e rigorosamente a gema da canção. Mas o que eu não sabia, e imagino que, à exceção de sambistas como Nei Lopes (que a propósito prefacia o livro de Paulino), poucos devem saber, é que Padeirinho talvez tenha sido o mais versátil compositor de Mangueira. Afirmo sem medo de errar que o compositor transitava com igual desenvoltura pelo lirismo romântico de Cartola, pela malandragem e o suingue de Geraldo Pereira e ainda compunha samba-enredo, partido-alto, entre outros estilos.” Tamanha versatilidade veio à tona pelas mãos de outro ilustre mangueirense, Tantinho da Mangueira, neste que é certamente o lançamento do ano nesta árida seara que é a música brasileira atual.

Os songbooks são uma modalidade fonográfica relativamente tradicional, cuja mais alta expressão seja talvez o álbum de Ella Fitzgerald consagrado à obra de Cole Porter, êxito motivado certamente pela impressionante clareza e a graça com que a cantora entoa as canções deste que é talvez o maior compositor americano de todos os tempos. Exatamente a mesma característica que Tantinho faz sobressair neste álbum: a clara expressão de seu canto e, sobretudo, a propriedade com que ele interpreta os versos de seu amigo Padeirinho. A dicção perfeita e a personalidade da voz de Tantinho se casam perfeitamente com a pluralidade dos sambas de Padeirinho, permitindo uma costura elegante à variedade de temas e estilos que caracterizam a obra do compositor. No samba-bossa “Modificando”, com a fina contemporização a respeito da bossa (“até eu também gostei daquilo / modificando o estilo / do meu samba tradição”), no samba-enredo “O grande presidente”, um de seus sambas mais conhecidos, ou ainda no partido sincopado e genial de “Se manda Mané”, samba que versa sobre as proezas policiais do tempo em que o samba era crime e punido com rigor. Sem contar os clássicos “Favela” e “Linguagem do morro”, onde Padeirinho garante com glórias seu lugar no panteão do samba, versando sobre as favelas e o modo de falar, respectivamente. Duas participações especiais conferem ainda mais pujança ao álbum: Marquinhos China em “Cuidado mulher” e Birinha, filho de Padeirinho, em “O remorso me persegue”, dois cantores igualmente brilhantes, versados nas regras da arte.

Regras, sim. Porque, como o jazz americano, o samba requer também o cumprimento de alguns procedimentos que não são ensinados por produtores espertalhões: em primeiro lugar, a sintonia fina da prosódia e do suingue na composição e, no que diz respeito à percussão, uma hablidade “neuro-muscular” para executar o balanço adequado. “Tantinho canta Padeirinho da Mangueira” é um álbum exemplar nesse sentido: grandes músicos, um arranjador que compreende exatamente as intenções do autor (Paulão Sete Cordas), um compositor genial e um cantor preciso e inspirado, todos cientes de uma dimensão do samba que não se ouve por aí. “Tantinho canta Padeirinho da Mangueira” funciona como antídoto perfeito contra a presente reprodução insensata de sambistas de proveta que marca este estranho ano de 2009. Que venham outros songbooks de Tantinho e sua inesgotável escola de samba.

Bernardo Oliveira

CD resgata gírias e sextilhas de Pandeirinho da Mangueira

Tantinho canta Padeirinho da Mangueira vem suprir uma lacuna grande na música brasileira dos últimos anos: os discos dedicados a compositores pouco conhecidos ou esquecidos. Porque fazer versões de Chico Buarque, olhe lá, é mole. Raro é aparecer um Jards Macalé e retomar Ismael Silva ou Moreira da Silva, ou um Itamar Assumpção para regravar Ataulfo Alves. […] Macalé segue um percurso mais reverente em seus discos e shows temáticos, nos quais a modéstia não é uma desculpa para a diluição, mas um convite para criar a partir de, com o artista homenageado. E foi, coincidentemente, com Moreira da Silva que pela primeira vez descobri a genialidade de Padeirinho, ouvindo o samba “Favela”, sem dúvida um dos grandes momentos da carreira não só deste mangueirense mas de todo o samba. É um verdadeiro hino, em que a execução precisa de solenidade e brio para conseguir evocar todo o sentimento que provém da explicação genética da constituição da favela nos versos lapidares, secos e sem adjetivos de Padeirinho nessa canção. A versão de Macalé conseguia isso, e a de Tantinho consegue também. Tantinho também é reverente: interessa a ele, através de sua voz, chamar a atenção para o talento e a sensibilidade versátil de Padeirinho, autor lírico e malandro, cronista do morro, mas jogando nas 11 e aproveitando todas as modalidades do samba.

A reverência de Tantinho é como a de Macalé. Suas versões não existem para acrescentar valor suplementar às composições de Padeirinho, mas em fazer brilhar o compositor. Os arranjos são certeiros, precisos, econômicos, atenciosos acima de tudo à pulsação e ao gingado do samba. Nessas duas últimas características, o disco sobressai. Raro ver o samba executado hoje com essa pressão que tem “Tantinho canta Padeirinho da Mangueira”, sem essa tentação de melodizar demais, de “mauricinhizar” o samba, de transplantar a academia sambística do morro até o campus. É decididamente um disco de velha guarda, não por anacronismo, mas por pertinência. E o modelo de songbook se presta muito bem à interpretação de Tantinho: seu canto é sentido porém coeso, dinâmico mas sem arroubos interpretativos (o que pode ser muito bom com diversos cantores e projetos, mas geralmente sucumbe às veleidades estrelistas dos cantores). De cabo a rabo, o tributo a Padeirinho é uma verdadeira aula de samba e, de forma mais geral, um exemplo muito bem sucedido de criar um songbook sem folclorizar ou diluir o original. No disco, só destoam a versão de Birinha para “O remorso me persegue” (o que só chama a atenção para como Tantinho, em seu “anonimato”, é exímio cantor) e a falta de pegada de samba-enredo “O grande presidente”, aliás um momento não muito inspirado de Padeirinho. De resto, é colocar “Linguagem do morro”, a marota resposta a Geraldo Pereira que é “A situação do escurinho”, “Terreiro em Itacuruçá” ou “Se manda mané” e sentir a alegria contagiante que brota da execução dessas músicas. Elas falam por si.

Ruy Gardnier

Samba de Padeirinho revive na voz de Tantinho

Osvaldo Vitalino de Oliveira, o Padeirinho da Mangueira (1927 – 1987), foi um compositor da Estação Primeira de Mangueira que saiu de cena no ano, 1987, em que gravaria seu primeiro disco. Sua obra intuitiva foi gravada por cantores como Jamelão (1913 – 2008). Mas muitos sambas de Padeirinho ainda permaneciam inéditos até que Devani Ferreira, o Tantinho da Mangueira, os registrou neste valioso “Tantinho canta Padeirinho da Mangueira”, álbum gravado graças a um patrocínio da Petrobrás. É na voz segura desse cantor da verde-e-rosa que saem do baú jóias como o partido alto “Cuidado mulher”, dividido por Tantinho com Marquinhos China. O CD evidencia a impressionante versatilidade da obra de Padeirinho, hábil tanto na criação de sambas sincopados (como “A situação do escurinho”, registrado em apropriado clima de gafieira) como de sambas mais dolentes, caso do melancólico “Esta saudade”, que ostenta a grife melódica e poética típica dos clássicos dos bambas da Velha Guarda. Sem falar no samba de terreiro, gênero exemplificado em “Terreiro em Itacuruçá”. O CD “Tantinho canta Padeirinho da Mangueira” já tem importância histórica por registrar títulos inspirados (“Rua das casas”, “Logo a mim”, “Modificado”) de obra que corria risco de cair em completo esquecimento. Mesmo sambas razoavelmente conhecidos, como “Favela” e “Linguagem do morro”, merecem ser ouvidos por novas gerações. Até porque a direção musical e os arranjos — a cargo de Paulão 7 Cordas — são reverentes ao universo de Padeirinho, sem invencionices. E, como Tantinho sabe o que canta (e ele ter confiado a interpretação do samba “O remorço me persegue” a Mestre Birinha apenas reforça o valor vocal do anfitrião), o resultado é disco essencial para todos que se interessam pela produção do samba carioca. Padeirinho é bamba!!


Repertório

Sobre o repertório do CD, só obras primas de Padeirinho e do samba. O clássico “Modificado” [ ouça ♫ ] uma crítica à bossa nova — “Já não se fala mais do sincopado desde quando o desafinado aqui teve grande aceitação?, abre o disco. “Rua das casas” [ ouça ♫ ] é um casamento perfeito entre letra e melodia. O encontro com um ex-amor que havia se esquecido dele é um achado: — “Estou em casa aos domingos é bem fácil me encontrar. Moro na Rua das Casas no lado oposto ao número par”. O CD não se centra apenas em releituras das músicas mais famosas. “Esta saudade” (Padeirinho e Jorginho Peçanha) [ ouça ♫ ], “Logo a mim” [ ouça ♫ ], “O remorso me persegue” (interpretada por Mestre Birinha) [ ouça ♫ ] e “Distância” (interpretada por Mestre Birinha) [ ouça ♫ ] são pérolas raramente cantadas, mas que têm qualidade para integrar qualquer antologia. “Terreiro de Itacuruçá” (Padeirinho e Moacyr) [ ouça ♫ ], gravada por Germano Mathias nos anos 1950, é um primor de partido, assim como “Se manda Mané” [ ouça ♫ ] e “Cuidado mulher” (part. especial de Marquinho China – voz) [ ouça ♫ ], esta com a participação do herdeiro de Padeirinho nos versos, Marquinho China. Não poderia faltar “Favela” (Padeirinho e Jorginho Peçanha) [ ouça ♫ ], um dos meus sambas top10 — “Numa vasta extensão onde não há plantação, nem ninguém morando lá. Cada pobre que passa por ali, só pensa em construir seu lar. E quando o primeiro começa os outros depressa procuram marcar, seu pedacinho de terra pra morar”. “A mais querida” [ ouça ♫ ] linda homenagem de Padeirinho a sua escola de coração a Estação Primeira de Mangueira.

Sobre “O grande presidente” [ ouça ♫ ], samba-enredo da Mangueira de 1956, Nei Lopes escreveu um texto — aonde menciona esta obra-prima — que me atrevo a transcrever a seguir:

A manhã daquele dia 24 de agosto corria aborrecida. Aula de matemática já no segundo tempo, aquelas raízes quadradas perturbavam a mente; e as equações, embora de primeiro grau e com apenas uma incógnita, incomodavam a digestão do café com leite e pão com manteiga da entrada. A escola era pública, mas séria. E exclusivamente masculina, num tempo em que o termo “machista” ainda não tinha sido inventado. Daí o terror de dois ou três meninos que se recusavam à educação física (até forjando atestado médico) para não terem que ficar nus na hora do chuveiro. Era uma época em que o politicamente correto não existia. Em que chamar a gente de “crioulo”, “miquimba”, “tiziu”, “pau queimado” não tinha nada de mais. Pois até o Oscarito, atendendo a exigências do “script”, de vez em quando sacaneava o Grande Otelo. Como por exemplo, naquela cena engraçadíssima em que ele encostava o cotovelo preto do parceiro junto à boca e ligava: “Alô!!!”. Ser preto ou branco naquele tempo eram circunstâncias até celebradas. Como naquelas disputas de futebol incentivadas pelos instrutores de ginástica. De um lado, o esquadrão formado por Álvaro, Russinho e Paulo Emílio; Breno, Glauco e Alemão… Esqueço. Do outro, o nosso: Chaminé, Azeitona e Jamelão; Chocolate, Blecaute… A memória me falha. Até mesmo quando invento nomes, para preservar a identidade dos colegas. Pois bem. Café da manhã, aulas de “cultura geral” (latim, francês, inglês, canto orfeônico…) até a hora do almoço. “Cultura técnica” (mecânica, fundição, marcenaria…) à tarde. “Cultura física” até o anoitecer. Jantar. Leitura e cama, para o pessoal do internato; volta para casa, abatida, mas esperançada da vida, para nós, semi-internos. Mas o bom mesmo eram os intervalos e tempos vagos. Quando trocávamos nossas experiências musicais comunitárias. E foi aí que conheci os sambas da longínqua Tijuca, que anos depois me levariam à dupla condição de acadêmico: na Faculdade Nacional de Direito e na Academia do Salgueiro. Mas voltemos a 1954. A escola ocupava um terreno de vários alqueires, pertinho da Vila Militar, no subúrbio carioca de Deodoro. E, naquela manhã de agosto, a aula parecia não terminar nunca. Até que, providencialmente, chega à porta o inspetor geral. Pede licença, entra, visivelmente nervoso, cochicha alguma coisa no ouvido do professor e sai, quase chorando. Expectativa geral. O mestre, perturbado também, mas fleumático, despe o guarda-pó, limpa o giz das mãos, vai vestindo o paletó enquanto avisa: “As aulas estão suspensas. O presidente da República, Getúlio Vargas, acaba de cometer suicídio”. Um a um, então, fomos saindo, caras de pau tentando mostrar tristeza, quando por dentro o que rolava era a adrenalina (já havia, naquela época?) da alegria, por aquele feriado inesperado. Em vez de equação, a pipa no alto e o pião gungunando; no lugar das razões e proporções, o racha, a pelada, o refresco de groselha, a paçoca e o pé de moleque. Ledo engano! Em casa, minha mãe chorava e meu pai ouvia o rádio, lívido. Minhas irmãs arrumavam a casa compungidas. E meus irmãos iam chegando do trabalho, para o funeral de nossas ilusões. Na ingenuidade dos meus 12 anos, eu não poderia imaginar que a partir dali tudo seria diferente: ensino, família, saúde, trabalho… De bom, mesmo, só ficou aquele samba-enredo arquetípico, talvez o melhor de todos os tempos, da fina lavra do saudoso Padeirinho da Mangueira (“O Grande Presidente“). Cantem comigo: “Salve o estadista, idealista e realizador…”. A voz embargou. Desculpem.

Linguagem do morro” [ ouça ♫ ] composição de Padeirinho e Ferreira Santos. Ela fala sobre a linguagem usada nas favelas. Essa linguagem constitui uma forma de identidade para uma comunidade específica. Ela passa a refletir valores, atitudes e a visão de mundo desse grupo. A linguagem reflete o molejo e a astuta do carioca. Por fim, esse é um disco muito bem cuidado, desde a parte gráfica até os arranjos de Paulão. Uma prova de que Padeirinho era um dos grandes? Só ele poderia bater de frente com o malandro Geraldo Pereira, como fez em “A situação do Escurinho” [ ouça ♫ ] (Padeirinho e Aldacyr Louro) uma resposta ao clássico personagem.


Tantinho canta Padeirinho da Mangueira

Tantinho (CD Independente, 2009) – DISCO É CULTURA

Tantinho canta Padeirinho da Mangueira

Ficha Técnica informada nos textos acima.

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