Disco Nelson Cavaquinho
  • "data": "11 abril 2020"
  • "título": "Thelma canta Nelson Cavaquinho"
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Em 1966, a gravadora CBS lançou o LP “Thelma canta Nelson Cavaquinho” da cantora alagoana Thelma Soares interpretando só músicas do “Poeta das Calçadas”. Neste disco, produzido por Sérgio Porto e com arranjos de Radamés Gnatalli, o compositor participou interpretando três de suas músicas.


A ideia de juntar Thelma a Nelson Cavaquinho aparentemente é minha, mas, na verdade nascera da necessidade de dar à cantora um repertório de sambas dignos de seus excelentes dotes de sambista e, também da necessidade de fazer justiça ao veterano compositor – um dos mais respeitados de tôda a História do Samba – e até aqui sem nunca ter tido um disco seu.

Thelma nasceu na Bahia e veio para o Rio em 62. Não chegou a estrear profissionalmente porque, logo em seguida partia para S. Paulo e ali se tornava uma das mais aplaudidas cantoras na noite paulista, principalmente depois de sua temporada na Baiúca, onde cantava acompanhada pelos melhores músicos locais, hoje todos êles com grande prestígio junto ao público apreciador da Bossa Nova.

Foi na Baiúca que Vinicius de Morais e Baden Powell, ouviram-na uma noite e não hesitaram em convidá-la para voltar ao Rio, recomendando-a a Aluísio de Oliveira para o seu próximo show. Pouco depois – ao lado Lennie Dale e Roberto Menescal – Thelma estreiava em “Bossa, Balanço & Balada”, um dos melhores espetáculos do samba moderno, montado no extinto Au Bon Gourmet.

Não era preciso ser um observador sumariamente astuto, um dos profundos conhecedores dos segredos do samba, para se perceber que a voz de Thelma, seu jeito de cantar, a sutilidade de seu rítmo e a “preguiça” de seu canto iriam se adaptar muito mais ao samba clássico do que aos sambinhas de moda. Thelma – sem ser uma imitadora – é uma descendente artística de Aracy de Almeida e era óbvio que se realizaria como intérprete de um grande sambista. Um Nelson Cavaquinho, por exemplo.

Nelson Cavaquinho quase virara lenda. Carioca legítimo, nascido na Rua Mariz e Barros, com uma vivência de Rio de Janeiro que vem das grandes disputas na Praça 11, os longos papos nos cafés da Avenida Central, os heroicos períodos dos nascimentos das grandes escolas (êle é uma das glórias de Mangueira), com a crescente comercialização do samba e o nascimento da Bossa Nova, ficou apenas na recordação, dado como falecido por muito crítico mal informado. Esse movimento que se iniciou há poucos anos pela revigoração do samba autêntico essa necessidade que se sentia de ir buscar nas raízes – como vulgarmente se diz – a seiva que iria retonificar o nosso populário e livrá-lo de uma influência alienígena que estava matando o samba, tudo isso trouxe de volta os grandes sambistas, e entre êles – Nelson Cavaquinho. Duas ou três gravações de sambas seus, ás suas primeiras aparições em público, provaram logo que Nelson Cavaquinho era tudo aquilo que dele se sabia. E muito mais!

A ideia de juntar Thelma a Nelson Cavaquinho … na verdade nascera da necessidade de dar à cantora um repertório de sambas dignos de seus excelentes dotes de sambista

Juntar a jovem Thelma ao veterano resultou nesse LP admirável, no qual o Maestro Radamés Gnattali é um colaborador efetivo graças ao seu bom estilo de orquestrador e sua técnica de instrumentista. “Luz negra” – que abre esta coletânea – mereceu um andamento bem lento, transformando o samba num pulgente lamento. Radamés esta ao órgão e o solo de violoncelo é de George Bariola. A voz de Thelma, sua interpretação, é de uma tristeza comovente. “Fora do baralho” – nos mostra o Nelson Cavaquinho humorista e Thelma é obrigada a recorrer ao ritmo sensível a tôda boa intérprete do samba, para acompanhar e deixar-se acompanhar (já que o samba exige um perfeito entrosamento entre o cantos e os músicos) pelo arranjo de circunstância, isto é, um arranjo combinado na hora da gravação e que deixa praticamente à vontade o trombone de Raul de Barros, apoiado nos ritmistas, nos violões de Dino e Neco e no cavaquinho de José Menezes. “Cuidado com a outra” – nos mostra o próprio Nelson cantando seu mais recente samba. Êle compõe desde 1928 e quase 40 anos depois é que entra pela primeira vez num estúdio de gravação para cantar com um acompanhamento digno. Reparem no belo solo de trombone de Raul logo após Nelson cantar a segunda parte do samba. “Rio, não és mais criança” – é a homenagem do compositor ao IV Centenário de sua cidade. O samba estava inédito até aqui. A curiosa introdução foi imaginada também por Nelson Cavaquinho, e Thelma valorizou-a dividindo o côro para que as vozes masculinas contrapontassem com as vozes femininas. A cuíca de Ministro valoriza o ritmo. Há aí um detalhe muito curioso, aliás: o acompanhamento é feito apenas por instrumentos de percussão e um violão na baixaria e o efeito é magnífico graças aos exímios ritmistas: Buci Moreira, Hercílio, Nelson de Oliveira e Gilson do Pandeiro. “Luto” – talvez a mais bonita e a mais difícil interpretação de Thelma em todo o disco. Ela canta de “luto” na voz, em respeito ao tema de Nelson acompanhada apenas pelo instrumento de um dos melhores músicos da CBS – o violonista Neco. “História de um valente” – traz de volta Nelson Cavaquinho como cantor. Na letra êle conta um pouco a sua história, a história dos sambistas dos velhos tempos. O Brancura que êle cita em sua letra é o conhecido sambista e valente Silvio Fernandes, que ninguém conhecia pelo nome e sim pelo mencionado apelido e pelos sambas que fêz e se tornaram clássicos do nosso populário tais como “Deixa essa mulher chorar” gravado pela dupla Mário Reis-Francisco Alves; “Me admira você” sucesso de Chico também; ou “Carinho eu tenho até demais”, gravado por outro sambista famoso – Ismael Silva. O verso de Noel Rosa que Nelson relembra é do samba “Século do progresso”. O trombone de Raul, inteiramente sôlto, está soberbo. Destacando-se também os breques do cavaquinho de Menezes e os breques da bateria de Plínio Araújo. Na face “B” a primeira faixa é “A flor e o espinho” – um dos mais famosos sambas de um autor que tem centenas de sambas de sua autoria. Nêle está a imagem considerada como uma das mais belas do nosso cancioneiro popular – “retire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor“. O arranjo de Radamés, o uso das cordas junto com o conjunto regional é uma obra de arte. Ao piano o próprio Maestro. Thelma volta a impressionar como intérprete de samba de andamento lento e que requer uma extrema perfeição. “Palhaço” – um dos temas preferidos do autor: a tristeza do palhaço. Na década de 40 êle ganhou um carnaval usando o mesmo tema. O presente samba é inédito. “Rei sem trono” – outro tema muito do gôsto dos sambistas autênticos: o rei-mendigo. Nelson canta com a displicência na voz que o samba pede. Outra vez os breques de Plínio, na bateria. “Rugas” – é considerado o maior sucesso de Nelson Cavaquinho e a primeira gravação foi de Cyro Monteiro, trazendo-lhe mais prestígio junto a seu público, fiel até hoje. Thelma fêz questão de cantá-lo no mesmo andamento da gravação original, numa homenagem ao criador do samba. “Pecado” – é um dos melhores números de Cavaquinho . Pertence á safra de 64 e esta é, sem dúvida, a sua melhor versão, não só por Thelma, mas pelo notável emprêgo de corda por Radamés. “Pranto de poeta” – outro inédito. Samba lindíssimo, que resistirá ao tempo se for bem cultuado. Nelson presta mais uma homenagem á sua escola, a nunca assás louvada Estação Primeira de Mangueira. A apresentação busca o ambiente próprio ás escolas, quando o Intérprete canta a primeira parte lentamente, ouvido com atenção pelos passistas, pelas pastoras e pela bateria, para depois todos entrarem juntos, dando um calor indescritível ao samba e contaminando tôda a audiência.

Tal é êste Lp que junta uma cantora excelente no presente e promissora no futuro a um veterano sambista, que até agora vinha sofrendo a injustiça de não ser difundido à altura de seu valor artístico. Sinceramente, ao imaginar a produção dêste disco, acreditava que faríamos um bom disco, mas seu resultado foi surpreendente: trata-se de um disco excepcional e eu muito me orgulho de ser o seu aparente idealizador.

SERGIO PORTO
fevereiro de 1966


Thelma canta Nelson Cavaquinho (1966, CBS 37443) – DISCO É CULTURA

Lado A – “Luz negra’ (Nelson Cavaquinho – Amâncio Cardoso) — ouça ♫ ; “Fora do baralho” (Nelson Cavaquinho – José Ribeiro – Antônio Gomes de Farias) — ouça ♫ ; “Cuidado com a outra” (Nelson Cavaquinho – Augusto Thomaz Jr.) — ouça ♫ ; “Rio não és mais criança” (Nelson Cavaquinho – José Ribeiro) — ouça ♫ ; “Luto” (Nelson Cavaquinho – Sebastião Nunes – Guilherme de Brito) — ouça ♫ ; “História de um valente” (Nelson Cavaquinho – José Ribeiro) — ouça ♫ .

Lado B – “A flor e o espinho” (Nelson Cavaquinho – Alcides Caminha – Guilherme de Brito) — ouça ♫ ; “Palhaço” (Roberto Roberti – Arlindo Marques Jr. – Nelson Cavaquinho) — ouça ♫ ; “Rei sem trono” (Nelson Cavaquinho – Alberto Jesus) — ouça ♫ ; “Rugas” (Nelson Cavaquinho – A. Graces – Ary Monteiro) — ouça ♫ ; “Pecado” (Nelson Cavaquinho – Ligia Uchôa) — ouça ♫ ; “Pranto de poeta” (Guilherme de Brito – Nelson Cavaquinho) — ouça ♫ .


Sérgio Porto (produção), Radamés Gnatalli (arranjos), Nelson Cavaquinho (voz nas faixas: “Cuidado com a outra”, “História de um valente’ e “Rei sem trono”), músicos informados no texto acima.