Velha-Guarda do Salgueiro (2003)

Velha Guarda do Salgueiro 2003

O grupo musical da Velha-Guarda do Acadêmicos do Salgueiro foi fundado em 1980 por Jorge Cardoso e as irmãs Mocinha e Caboclinha, filhas do compositor Birolha, reunindo cantores e compositores ligados à tradição e a história da Vermelho e Branca da Tijuca. A formação inicial do grupo contava ainda com as Tias Zezé e Neném, Geraldo e Zedi.


Durante a década de 80, o grupo fez diversas apresentações pelo país, mas encerrou suas atividades em 1990. Em 2000, a Velha-Guarda Show retornou aos palcos, após o lançamento do CD “Velha-Guarda do Salgueiro”, pela Sum Records, através do qual apresentava sambas exaltando a escola. (vou publicar esse álbum muito em breve)

Em 2003, com uma nova formação — João da Valsa, Mocinha, Cláudio Sargento, Flávio Oliveira, Bombeiro, Curumim, Ieda Maranhão e Caboclinha —, a Velha-Guarda do Salgueiro lançou o CD que trago neste post, produzido por Josimar Monteiro e lançado pela gravadora Lua Discos, em comemoração ao 50 anos da fundação do Salgueiro. No CD “Velha-Guarda do Salgueiro”, apadrinhado pelo cantor e compositor Gabriel, O Pensador, o grupo fez a revisão da obra de compositores importantes da escola, entre eles, Geraldo Babão, Nei Lopes, Dauro do Salgueiro, Antenor Gargalhada, Anescarzinho do Salgueiro e Noel Rosa de Oliveira. Gravado ao vivo na Sala Baden Powell, no Rio de Janeiro, o CD trouxe grandes sambas-enredo da Academia e alguns sambas de quadra.

A Velha Guarda de uma escola não é apenas o reservatório do passado. É a projeção do futuro, porque estimula o respeito que mantém vivas a lembrança e a esperança.

Em 2004, o grupo foi indicado ao Grammy Latino, o Oscar da música e considerado o maior prêmio de música da América Latina, na categoria Melhor Álbum de Samba/Pagode. Atualmente, a Velha-Guarda Show do Salgueiro é composta por Zequinha, Caboclinha, Claudio Sargento, Mocinha, Bombeiro, Aurea, Lisbeth Nunes, Graça Rangel e Flávio Oliveira.

Repertório

As faixas deste disco, todas, sem exceção, representam muito bem a Academia do Samba. Temos sambas enredos antológicos como “Quilombo dos Palmares” de Noel Rosa de Oliveira, Anescar do Salgueiro e Valter Moreira (Salgueiro 1960) [ ouça ♫ ]; “Bahia de todos os deuses” de Bala e Manoel Rosa (Salgueiro 1969); “Festa para um rei negro” de Zuzuca (Salgueiro 1971); “Chica da Silva” de Noel Rosa de Oliveira e Anescar do Salgueiro (Salgueiro 1963) [ ouça o pot-pourri ♫ ]; “Mangueira, minha querida madrinha (Tengo Tengo)” de Zuzuca (Salgueiro 1972) esse samba em um pot-pourri com “Vem chegando a madrugada” de Noel Rosa de Oliveira e Zuzuca, samba de muito sucesso “Vem chegando a madrugada, ô. O sereno vem caindo. Cai, cai, sereno devagar, meu amor está dormindo” e “1800 Colinas” de Gracia do Salgueiro, outro samba de muito sucesso, principalmente com a Madrinha Beth Carvalho “Subi mais de 1800 colinas. Não vi. Nem a sombra de quem eu desejo encontrar.” [ ouça o pot-pourri ♫ ]

Nei Lopes, salgueirense de 4 costados, esta presente com “Raio de luar“, dele e Dauro do Salgueiro [ ouça ♫ ]. “Jogo da vida, a vida do jogo” de Preto Velho e Tiãozinho, com interpretação de Dona Ieda Maranhão [ ouça ♫ ]. De Geraldo Babão, o partido “Viola de maçaranduba” juntamente com “Eu quero é sossego” de Antenor Gargalhada [ ouça o pot-pourri ♫ ].

O samba “Torrão amado” [ ouça ♫ ] foi composto por Buguinho e Iraci Mendes dos Reis, da Unidos do Salgueiro. Como a letra fazia alusão ao Morro do Salgueiro, também era cantado nas quadras das duas outras escolas — a Azul e Branco e a Depois Eu Digo. Após a união das escolas do Morro (sem a presença da Unidos), em 1953, os componentes da nova agremiação escolheram “Torrão amado” como Hino dos Acadêmicos do Salgueiro.

O neguinho e a senhorita” [ ouça ♫ ]. Este é um belo samba de Noel Rosa de Oliveira e Abelardo Silva , composto em 1965. O “Noel” e o “Rosa” do Noel Rosa de Oliveira fazem parte de seu nome verdadeiro, não sendo, como poderia parecer, uma homenagem a Noel Rosa. Também compositor, esse outro Noel pertence ao morro do Salgueiro, onde nasceu em 15 de julho de 1920, quando o xará de Vila Isabel tinha apenas nove anos. Aliás, ali nasceu, viveu e aprendeu, pois foi o Salgueiro que lhe deu notoriedade. Embora com um sucesso no carnaval de 49 “Falam de mim”, ele realmente só se projetaria fazendo para os Acadêmicos do Salgueiro sambas-enredo como “Quilombo dos Palmares” (com Nescarzinho e Valter Moreira, em 60) e “Chica da Silva” (com Nescarzinho, em 63). Esses dois sambas abriram-lhe as portas da mídia, dando-lhe oportunidade de aparecer e gravar suas músicas, entre as quais “O neguinho e a senhorita”, a primeira a levá-lo às paradas, cantada por Noite Ilustrada.

Uma composição ingênua, este samba descreve o romance do Neguinho com a filha da madame” (“O Neguinho gostou da filha da madame que nós tratamos de Sinhá”), um caso de preconceito racial leve, com final feliz, pois, à revelia de madame, “senhorita foi morar lá na colina com o Neguinho que é compositor”, e até acabou se tornando “rainha da escola”.

Segundo consta o tema musical foi baseado na história de um tal Nonato, morador do morro do Salgueiro. Consta que Nonato era considerado muito preguiçoso pela comunidade. A partir de um certo dia porém ele passou a acordar muito cedo e a trabalhar como nunca. Algum tempo depois Nonato alugou um barraco no Salgueiro e trouxe pelas mãos a linda filha de portugueses Maria Mariana. Inspirado nisso, os compositores do Salgueiro Noel Rosa de Oliveira e Abelardo Silva, que já estavam de olho nele contaram a história na letra de “O neguinho e a senhorita”.

À Velha-Guarda” [ ouça ♫ ] samba de Cláudio Sargento ratificando o orgulho de ser integrante de uma Velha-Guarda, particularmente do Salgueiro. Por fim, “Água do rio” de Noel Rosa de Oliveira e Anescar do Salgueiro, samba de quadra que traria muito sucesso, sendo composto antes de “Quilombo dos Palmares” e “Na beira da praia” de Eden Silva e Aníbal Silva. Outro samba de quadra também conhecido como “Rosa Maria”: “Um dia encontrei Rosa Maria na beira da praia a soluçar. Eu perguntei o que aconteceu Rosa Maria me respondeu, o nosso amor morreu”. [ ouça o pot-pourri ♫ ]

No encarte do CD Haroldo Costa, também salgueirense, escreveu:

As vozes mais autorizadas do Salgueiro, estão aqui amigos. Que prazer ouvir as poesias e as melodias de Noel Rosa de Oliveira, Zuzuca, Anescarzinho, Abelardo da Silva, Bala, Geraldo Babão, Nei Lopes e outros salgueirenses ilustres e inspirados. E ninguém mais adequado para interpretação deste rico repertório do que a Velha Guarda do Salgueiro que carrega, na cabeça e no coração os grandes momentos dessa agremiação, que é um dos pontos cardeais da história do nosso Carnaval.

Vozes mais recentes e vozes mais antigas estão reunidas para espalhar pelos quatro cantos sambas que são definitivos na sua beleza e na sua importância. Alguns de quadra, outros de enredo, mas todos mergulhados na mais profundas raízes salgueirenses, tingidas de vermelho-e-branco, blançando os nossos corações.

A Velha Guarda de uma escola não é apenas o reservatório do passado. É a projeção do futuro, porque estimula o respeito que mantém vivas a lembrança e a esperança.

Haroldo Costa
(autor de Salgueiro – 50 Anos de Glória)
encarte do CD


Velha-Guarda do Salgueiro

Velha Guarda do Salgueiro (CD Lua Music LUA 056, 2003) — DISCO É CULTURA

Velha Guarda do Salgueiro 2003

FICHA TÉCNICA — Josimar Monteiro (produção, arranjos, regência e direção), João da Valsa, Mocinha, Cláudio Sargento, Flávio Oliveira, Bombeiro, Curumim, Ieda Maranhão e Caboclinha (integrantes da Velha-Guarda), Josimar Monteiro (violão, violão 7), Jurandir Monteiro (cavaquinho), Rodrigo Monteiro (pandeiro), José Luis, Alex Almeida, Carlinhos Tcha Tcha Tcha e Banana (percussão), Roberto Marques (trombone na faixa “Jogo da vida, a vida do jogo”)

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