Patota de Cosme

LP Zeca Pagodinho Patota de Cosme

“Patota de Cosme” é o segundo álbum de estúdio de Zeca Pagodinho, lançado em 1987, sucedendo ao seu álbum de estreia, “Zeca Pagodinho”, lançado em 1986. “Patota de Cosme” foi a terceira gravação em estúdio de Zeca Pagodinho, que já havia participado do álbum “Suor no Rosto”, de Beth Carvalho, de 1983.


O primeiro disco solo de Zeca teve a sorte de ser lançado em um momento de grande efervescência no mercado fonográfico e na vida econômica brasileira, no auge do curto sucesso do plano Cruzado. As vendas de discos aumentaram consideravelmente no período e o samba — através do — vivia um momento de grande exposição midiática. Mas, esse momento logo passou e o pagode perdeu força, o mercado perdeu consumidores e Zeca lançou seu segundo LP, “Patota de Cosme”, sem o mesmo sucesso comercial do primeiro. A conseqüência imediata deste momento de retração do pagode na carreira de Zeca seria a mudança de gravadora, passando para a RCA, pela qual lançou seis discos entre 1988 e 1993. Segundo a biografia em seu site, esse período marcou uma “fase estranha” na carreira do artista, na qual o seu sucesso em palcos e rodas pelo país não se refletia em vendas e discos. Na verdade, com exceção do biênio 86/87, diversos altistas ligados ao samba tiveram dificuldades de vender discos e até mesmo de lançar novos trabalhos durante a década de 80.

Ainda sobre “Patota de Cosme”, no livro “Deixa o Samba me Levar” de Jane Barboza e Leonardo Bruno (Sonora Edições, 2014) temos o texto abaixo:

Zeca Pagodinho foi uma criança diferente das outras. Enturmado, era querido pelos colegas, mas não vivia o tempo todo nas brincadeiras da infância. Muitas vezes, enquanto os amigos jogavam bola de gude ou soltavam pipa, ele estava acompanhando as serestas da família ou ouvindo um disco de Pixinguinha na vitrola. É por isso que Zeca é da opinião de que ninguém vira artista ao crescer:

— Quando a gente é criança, já é artista. Eu não virei artista quando adulto, só fiz sucesso. Minhas atitudes, meu pensamento, meu coração já eram de artista. Eu já escrevia, fazia versinho quando era pequeno. Eu vivia um universo que as 11 outras crianças não conheciam.

Essa infância diferente talvez explique a adoração de Zeca pela criançada. O sambista sempre gostou de fazer uma festa para elas, perto do Dia das Crianças, desde a época em que morava em Irajá e em Del Castilho. E o segundo disco de sua carreira, “Patota de Cosme”, demonstra essa forte relação. Na capa, Zeca está cercado por dezenas de garotos da Olaria e do Buraco Quente, regiões do Morro da Mangueira . Na contracapa, há uma gravura de São Cosme e São Damião, para “espantar o mau olhado”. E a faixa-título pede a proteção dos santos numa querela amorosa.

A escolha do mote para este segundo disco ainda remete ao momento de vida por que passava o artista neste ano de 1987: estava aguardando seu primeiro filho, Eduardo, que nasceria em julho. Zeca fez questão de preparar a casa na Rua Itamarati, em Cascadura, para receber o primeiro herdeiro, com elementos que o faziam lembrar sua infância. Comprou cavalo e charrete para passear com ele pelas ruas do bairro; uma cabra, chamada Doroteia, para tirar leite para o menino; além de cinco cachorros, um papagaio e um mico. Era a paixão pela vida rural se manifestando, poucos anos mais tarde, isso ia resultar na mudança do cantor e sua família para um sítio em Xerém.

A temática infantil também aparece em outro grande sucesso desse disco, “Menor Abandonado”, que tem uma pegada mais social. É uma das músicas mais pungentes e “sérias” da carreira de Zeca. A canção foi feita em São Paulo, durante a turnê do disco “Raça Brasileira”. Pedrinho da Flor chegou do Rio e, ao passar pelo aeroporto, se deparou com vários pedintes que assediavam os passageiros. Quando encontrou Zeca e Mauro Diniz, na casa de seu Orlando, Pedrinho contou que tinha ficado muito triste com a cena. No táxi, fez a primeira parte da música: “me dê a mão, eu preciso de você/ seu coração, sei que pode entender/ e o calçadão, é meu lar meu precipício/ mesmo sendo sacrifício/ faça alguma coisa pra me socorrer.”

Mauro e Zeca se juntaram e fizeram a segunda. A música estourou e até hoje é cantada nos momentos mais calmos dos pagodes. Mas o maior legado deste disco para a carreira de Zeca Pagodinho, sem dúvida alguma, foi “Maneiras”. A música é de Sylvio da Silva, compositor que frequentava as rodas de samba no Irajá e em bairros próximos. Zeca o conhecia há tempos e sempre se disse fã de Sylvio. “Maneiras” fez muito sucesso e sua letra ajudou a compor o “personagem” Zeca Pagodinho para o grande público. “se eu quiser fumar eu fumo/ se eu quiser beber eu bebo/ pago tudo que eu consumo/ com o suor do meu emprego.”

A produção vinha me buscar e eu ficava em cima do telhado só olhando o que acontecia.

Zeca Pagodinho

Ainda hoje, esse é um dos momentos mais festejados dos shows de Zeca. Ao cantar “Maneiras”, ele costuma exibir seu copo de cerveja e fazer um brinde com a plateia. O cigarro e a bebida sempre fizeram parte do mundo que cercou Zeca Pagodinho. E ele nunca tentou esconder isso de seu público. Pelo contrário, através desses elementos, buscava mais uma identificação com o povo que sempre consumiu os mesmos produtos. Mais tarde, Zeca viraria o principal garoto-propaganda de uma marca de cerveja.

Se nos “aditivos” eram só sucesso, nos bastidores eles traziam alguns problemas, aliados ao pouco apreço de Zeca pelas formalidades. Nessa época, chegou a faltar umas quatro vezes ao programa do Chacrinha.

— A produção vinha me buscar e eu ficava em cima do telhado só olhando o que acontecia. A avó da minha mulher dizia: “Mas ele não está. Eu vou fechar a porta, com licença”. E os caras xingavam: “Não vou com os cornos dessa velha…”

Na TV Manchete, o episódio foi mais folclórico. Certa vez, ficou esperando tanto tempo para entrar em um programa que não aguentou: pulou o muro e foi embora, para desespero dos produtores.

— Eles tiravam muita onda com samba em televisão. O samba sempre teve esse negócio, parecia que estavam fazendo um favor. Você perguntava a que horas ia começar e o cara respondia: “Ah, não sei não, aguenta a픑 Como quem diz: “Não tem que estar reclamando de porra nenhuma…” Mudou porque nós botamos pé firme.

Depois de algumas perdas de compromisso, Zeca tomou um puxão de orelhas de Bira Presidente, o líder do Fundo de Quintal e do Cacique de Ramos, figura respeitada por dez entre dez sambistas:

— Não faça mais isso, assim prejudica todos nós.

Outras figuras em volta de Zeca também ajudaram a segurar a onda. Mauro Diniz, por exemplo, sempre foi um dos mais responsáveis do grupo e procurava proteger o amigo das “furadas”. Nas gravações, era Paulão 7 Cordas quem colocava ordem na bagunça. Mas não conseguiu evitar algumas situações insólitas, como no dia em que Zeca sumiu dentro do estúdio. Simplesmente desapareceu! Era hora de colocar voz numa música e não se sabia de seu paradeiro. Procura daqui, procura dali, cadê ele? Ninguém achava. Depois de algum tempo de buscas, foram encontrá-lo num canto de uma sala, dormindo no chão, enrolado dentro de um… tapete!


Patota de Cosme

Zeca Pagodinho 1987, RGE (303.6071)
Ouça no spotify, youtube ou itunes
DISCO É CULTURA

LP Zeca Pagodinho Patota de Cosme

REPERTÓRIO

Patota de Cosme
Nilson Santos – Carlos Sena
[ ouça ♫ ]

“Não adianta pururuca nem tão pouco mau-olhado, pois esta é a patota da criançada.” O pensamento é de Nilson Santos, que no dia 27 de setembro de 76, cantou este samba no programa Show de Mulher, na hoje extinta TV-Rio. Nas fotos com a garotada, Jessé, verdadeiro nome de Zeca Pagodinho, aparece em localidades do Buraco Quente (Olaria, Travessa da Bica), no Morro da Mangueira. A participação especial, na chamada do samba, fica por conta do grito competente de Luis Carlos Ferreira Chaves, o famoso Luis, sogro de ZP.

mulher, mulher, mulher
você não terá o meu amor
pode tentar o que quiser
levou o meu nome na macumba
pra me amarrar
já tentou diversas vezes
me prejudicar
mas minha cabeça é sã
porque Cosme é meu amigo
e pediu a seu irmão, Damião
pra reunir a garotada
e proteger meu amanhã

na verdade você nunca me pertenceu
e quando seguiu meus passos
foi visando o que era meu
você não passou de um caso
que nasceu por um acaso
seu amor não era eu
(seu amor não era eu)
quando teve a conclusão
que o meu pobre coração
não abrigaria você
passou me caluniar
mas a patota de Cosme
não deixou me derrubar

Sem Endereço
Arlindo Cruz – Luis Carlos da Vila
part.esp.: ARLINDO CRUZ
[ ouça ♫ ]

Os dias de carnaval deste ano ficam entre o início e o fim deste samba, feito na casa de Arlindinho, na Piedade. Mesmo com a falta de energia elétrica, não faltou a luz da inspiração para retratar a malvada mulher que “caiu na folia”, esnobando os cuidados de seu apaixonado. Mais tarde, entre tacadas de sinuca, montaram os versos finais. Arlindinho participa cantando com Zeca e, quando dividem os versos, revivem a manha do falecido pagodeiro Baiano, que “era bom nisso”. Para a malvada mulher, Arlindo diz:
— Espírito Sem Luz
Expressão de Beto Sem Braço.

e lá vai ela
dizendo até nunca mais
estou naquela
vivendo a sombra dos ais
pra vê-la feliz até me virei pelo avesso
sabendo que do seu amor me fortaleço

é a paga que ela me dá por tanto apreço
vai embora e não deixa sequer seu endereço

na escola de samba do seu coração foi um tropeço
cortou o meu samba alegando
que não tinha fim nem começo
rasgou a minha fantasia
e atirou no chão meu adereço
motivo pra tanta discórdia eu desconheço

fui ao fundo do poço na base do osso e obedeço
e ainda dizia inocente e contente “é isso que eu mereço”
por ela na mão encarei sugestão
por um triz quase faleço
no fim ainda quer me vender a um baixo preço

eu gastei toda economia
pra enfeitar a casa
a nega vadia ainda me arrasa
formiga com asa que quer se perder

e gastei toda grana que eu tinha
pra vê-la joinha
deixando a vizinha com água na boca
mas só que essa louca não quer me querer

eu gastei toda minha energia
porque todo dia acordava mais cedo
pra lhe dar levedo
e o mais puro leite pra fortificar

eu gastei toda a poesia
que eu fazia á toa
de Carlos Drumonnd e Fernando Pessoa
mas ela resolve me abandonar

Feristes um Coração
Monarco – Ratinho
[ ouça ♫ ]

É de 82 este samba que fala na mulher traidora que abandona o companheiro e volta pedindo perdão, o que não adianta mais. O molho do segundo surdo o tradicional cortador, dá o toque de velha-guarda, assim como no final, que termina terminando, como antigamente.

feristes um coração
e hoje vem chorando
implorando meu perdão
não dou porque sofri demais
tua traição me tirou a paz
sou feliz em meu lar
tenho um novo amor
ao teu lado
eu só vi sofrimento e dor

pouco me importa se agora choras
me fechaste a porta, me mandaste embora
eu aprendi a suportar a minha dor
hoje eu vivo bem sem o teu amor
não queira destruir a minha felicidade
no meu peito a tua chama já não arde
a tua volta foi covarde
agora é tarde, vai chorar a tua saudade

Tempo de Don-Don
Nei Lopes
[ ouça ♫ ]

Antonio Paula Filho é o nome deste eficiente beque-esquerdo (lateral-esquerdo) que jogou no Andaraí, América Mineiro e chegou A Seleção Carioca, e que está com espertos 74 anos, morando na Tijuca. Jogador da década de 20/30, foi escolhido por Nei como tema do samba que lembra de seu tempo.

no tempo que Don-Don jogava no Andaraí
nossa vida era mais simples de viver
não tinha tanto misere
nem tinha tanto ti ti ti
no tempo que Don-Don jogava no Andaraí

propaganda era reclame, ambulância era dona assistência,
mancada era um baita vexame, e pornografia era só saliência
sutiens chamava porta-seios, revista pequena gibi, ih!
no tempo que Don-Don jogava no Andaraí

rock se chamava fox, tiete era moça fanática,
o que hoje se diz que é xerox, chamava-se então de cópia fotostática
motorista era sempre chofer, cachaça era parati, ih!
no tempo que Don-Don jogava no Andaraí

22 era demente, minha casa era meu bangalô,
patamo era socorro urgente e todo cana-dura era investigador
mulato esticava o cabelo, mulher fazia mise-en-mplis, ih!
no tempo que Don-Don jogava no Andaraí

Gôta de Esperança
Nelson Rufino – Orlando Rangel
[ ouça ♫ ]

Em fins do ano passado, na Praia de Amaralina, em Salvador, nasceu este samba cadenciado que traz de volta a inocente expressão infantil “dar a mão ao bolo”.

ainda resta um terço desse amor
uma gôta de esperança
uma ponta de luz capaz
de nos iluminar como um clarão
e podermos sentir enfim
qual de nós concorreu pro fim
e humildimente, descentemente
dar a mão ao bolo sim

quando tudo era mel, céu, flor
quando não se pensava em dor
quando o bem maior, caminho melhor
era eu pra você, você pra mim
uma coisa eu lembro e não esqueço
teu olhar no meu primeira vez
o seu jeito meigo
me pegou tão leigo
nas manhãs do amor gamei

Termina aqui
Ratinho – Arlindo Cruz – Zeca Pagodinho
[ ouça ♫ ]

Em meados de 83, Ratinho e Arlindo começaram o samba dolente que traduz a sofrida conclusão de que a união não deu certo. A dupla mostrou pra Zeca, que letrou a segunda parte. Na cortina harmônica, a junção dos instrumentos de sopro, oboé e clarone, com as cordas, registradas pelo mirage

meu amor se fosse assim
bem calmo e mais sereno
seria bem melhor pra mim
um sorriso mais ameno
nosso amor está pequeno
cada vez mais dispersivo
o ciúme é um veneno
não se encontra lenitivo

se entre nós houvesse a paz dos bons casais
sem receios, sem conflitos
eu acredito que haveria mais amor
sem nossos gritos tão aflitos de pavor
mais calor na relação, mais desejo de viver
mais pureza, mais prazer, mais amor, mais união

mas não deu… termina aqui (eu vou partir)
mas não deu… termina aqui (sofreu, sofri)
mas não deu… termina aqui (pra dividir)

Pot-Pourri de Partido-Alto
part.esp.: MAURO DINIZ

Nêga Danada
Chatim

Mulher Ingrata
Chatim

Para o bem do Nosso bem
Alvaiade
[ ouça ♫ ]

Faltava uma música para fechar o repertório, quando, na casa de Zeca, armamos um mini- pagode onde estavam Mauro Diniz, Arlindinho, os irmãos Reinaldo e Renato, e Meco, irmão de ZP, só valendo sambas da antiga. Acabamos por montar um pout-pourri onde Zeca versa com Mauro, que pertence a Velha-Guarda Show da Portela, tocando violão.

todo lugar que ela mora/ mandam ela embora com razão/ todo lugar que ela chega/ a danada da nega arranja confusão/ que mulher, ô que mulher/ só me traz preocupação

mulher ingrata, mulher fingida/ assim não posso ter sossego em minha vida/ com a outra, eu não parava um instante/ vivia como um judeu errante/ de bom tinha uma coisa/ a nêga não bebia/ e você se embriaga todo dia// pensei que fosse outra situação/ quando mandei ela embora/ e limei meu coração/ más vejam que sou um homem sem sorte/ pra viver assim sofrendo/ antes Deus me desse a morte

eu não direi o que se passou entre nós/ eu não direi para o bem do nosso do bem/ eu não direi o que se passou entre nós a ninguém// pretinha, nosso amor virou enredo/ vai ficar só entre nós, essa paixão em segredo/ tem que ficar em segredo, entre nós dois mais ninguém/ é que eu morro de medo, que a nêga saiba também// vai ficar só entre nós, esse caso amoroso/ o que está acontecendo é um fato sigiloso/ é segredo de estado comentário proibido/ se o povo ficar sabendo, o meu elo está perdido

Menor Abandonado
Pedrinho da Flor – Mauro Diniz – Zeca Pagodinho
[ ouça ♫ ]

No final de 85 Pedrinho da Flor ficou impressionado ao reparar num garoto pobre, abandonado e pedindo esmola no calçadão de Copacabana, começando na hora o samba, terminado por seus parceiros, na mesma semana, em São Paulo. Destaque para os efeitos sonoros dos teclados mágicos do DX-100 e do mirage.

me dê a mão
eu preciso de você
seu coração
sei que pode entender
e o calçadão
é meu lar, meu precipício
mesmo sendo sacrifício
faça alguma coisa pra me socorrer

eu não quero ser
manchete em jornal, ibope na tv
se eu ficar por aqui
o que vou conseguir
mais tarde será um mal pra você
não ser um escravo do vício
um ofício do mal
nem ser um profissional
na arte de furtar

quero estudar, me formar
ter um lar pra viver
e apagar esta á impressão
que em mim você vê

Bisnaga
Arlindo Cruz – Beto Sem Braço
[ ouça ♫ ]

No início deste ano, os parceiros resolveram homenagear o amigo que trocara de ofício, imaginando uma promoção para que ele embalasse no novo negócio.

seu Manoel, o dono da padaria
pra agradar a freguesia
fez um cartaz de promoção
“se você quiser comprar: bisnaga
leva três, mas duas só, que paga”

para gozar, dessa mordomia
você tem que acordar
antes de raiar o dia
e andar depressa
pra conseguir uma vaga
tudo isso pra comprar: bisnaga

a Dona Eunice diz que não vacila
mas a sua gulodice fez furar a fila
houve confusão, disse-me-disse
muita gente rogou praga
tudo isso pra comprar: bisnaga

hoje o padeiro, perdeu a hora
causou o maior sururu, do lado de fora
e no auge do rebôo o gago xingou a gaga
tudo isso pra comprar: bisnaga
leva três, mas duas só, que paga

Testemunha Ocular
Jorge Aragão – Zeca Pagodinho
[ ouça ♫ ]

Em novembro do ano passado este ex-corneteiro da Base Aérea de Santa Cruz chegou em casa de Zeca com a melodia, letrada imediatamente por ZP. Gravada em dois canais diferentes, o trombone registra duas vozes distintas unidas.

não faz assim
que que os outros vão pensar de mim?
parece que esse nosso amor
carece de ter que sofrer
brincando com fogo
e fingindo que não vai doer

deixa teu sorriso inocente vadiando por aí
só pra fingir que o meu não te faz feliz
queira Deus que uma noite ao te encontrar
possa haver testemunha ocular
pra ver e provar
que o amor que se compra também se vende
quem ama, uma chama no olhar acende

Maneiras
Silvio da Silva
[ ouça ♫ ]

Uma das primeiras músicas a serem ouvidas por Zeca para este disco. É a resposta musical para aquelas línguas ferinas que se alimentam falando da vida dos outros, sem olhar para os seus próprios atos.

se eu quiser fumar, eu fumo
se eu quiser beber, eu bebo
eu pago tudo que eu consumo com o suor do meu emprego
confusão eu não arrumo mas também não peço arrego
eu um dia me aprumo, eu tenho fé no meu apego

eu só posso ter chamego com quem me faz cafuné
como o vampiro e o morcego é o homem e a mulher
o meu linguajar é nato, eu não estou falando grego
eu tenho amores e amigos de fato, nos lugares onde eu chego

eu estou descontraído, não que eu tivesse bebido
nem que eu tivesse fumado, pra falar de vida alheia
mas digo sinceramente, na vida, a coisa mais feia
é gente que vive chorando de barriga cheia

Colher de Pau
Beto Sem Braço – Zeca Pagodinho
[ ouça ♫ ]

Há três anos Zeca e Beto fizeram o partido que enaltece a vovó negra e suas manhas tradicionais do tempêro e das nuances espirituais, essas valorosas mulheres que realmente iam a luta sem vacilar. Vale registrar que Pagodinho também é um bamba nos trabalhos da cozinha e que foram de improviso os versos finais, impressionando aos que assistiam da técnica, no estúdio. No maneiro arranjo de Mauro Diniz, destaque para os violões.

vovó foi no cerrado apanhar graveto
eu nem me meto, ela entende do feijão
vovó conhece o sabor de um bom tempero
aprendeu no cativeiro e não quer opinião
e só ensina á menina Maria da Penha
que está no fogo de lenha todo sabor natural

mais vovó só quer cozinhar
com sua colher de pau

enquanto a comida apronta ela senta e nos conta
histórias da sua vida do tempo da escravidão
mas seus olhos vertem lágrimas, ela lembra da senzala
o seu corpo arrepia, sua voz até se cala
mas ela se diz contente com essa gente atual
só não apagou da mente o que é tradicional
usa pano de cabeça da mesma cor do avental

as nuances africanas que mantém vovó em pé
é que ela traz como herança orixas do candomblé
o seu santo de cabeça faz o bem sem ver a quem
ajudando a quem mereça, ajuda vovó também
ela só não está contente com o preconceito racial

seja pra fazer rabada ou fazer rabanada em dia de Natal
pra fazer tripa lombeira na segunda-feira que é Carnaval
bota salsa, pimenta e cheiro, que é só tempero e não faz passar mal


FICHA TÉCNICA — PRODUÇÃO E DIREÇÃO: Milton Manhães / COORDENAÇÃO: Marcos Salles / ARRANJOS E REGÊNCIAS: Ivan Paulo (fxs. 2A, 4A, 5A, 6A, 4B e 5B), Mauro Diniz (fxs. 1A, 3A, 1B, 2B, 3B e 6B) / MÚSICOS: Arlindo Cruz (cavaco e banjo), Mauro Diniz (cavaco e banjo em “Menor Abandonado”), José Menezes (bandolim), Paulão (violão de 6), Jorge Simas (violão de 7), Ivan Machado (baixo), Evaldo Santos (guitarra sintetizadora, teclados), Franklin (flauta), Biju (clarone), Brás (oboé), Zeca do Trombone (trombone), Zeca da Cuíca (cuíca), Jorge Gomes (bateria), Gordinho (surdo), Sereno (tan-tan), Ubirany (repique de mão), Bira Hawaí (pandeiros, tamborim, ganzá e 2° surdo em “Feristes um Coração”), Claumir Gomes, Marcos Acides e Milton Manhães (tamborim), Ângela Santana, Tia Doca, Isabel, lrcéia, Jussara e Jurema, Sandra e Cecília, Ari Bispo, Elson, Jorginho Bom-Bom, Jorge, Marcos Salles e Paulo (coro) / ESTÚDIOS E GRAVAÇÃO: Transamérica, no Rio de Janeiro nos meses de abril e maio de 87 / FOTO: Sjostedt / CAPA: Lúcia Gomes Tavares, Oskar Augusto, Alexandra, Alexandre Machado e Felipe Iglesias / TEXTO ENCARTE: Marcos Salles

Considerações finais

Espero que você tenha gostado desse post com o álbum de Zeca Pagodinho, “Patota de Cosme”, lançado em 1987 pela RGE. Se assim for, encorajo você a se inscrever na newsletter do blog, abaixo. Ao informar seu email, você receberá todas as novas publicações do blog automaticamente.

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